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NAGARJUNA E A DOUTRINA DA VACUIDADE
VIVENZA, Jean-Marc. Nâgârjuna et la doctrine de la vacuité. Paris: A. Michel, 2001.
- A doutrina da vacuidade não é uma noção que se possa facilmente situar entre as concepções teóricas diversas que cruzam os territórios da reflexão metafísica, pois o pensamento de Nagarjuna, em sua soberana e fascinante dialética negativa, é de natureza a transtornar os esquemas clássicos e frequentemente simplistas com os quais se tenta dobrar o mundo à própria visão.
- Nagarjuna é apresentado como figura maior entre as figuras do pensamento universal e discípulo fiel do ensinamento do Buda
- Nagarjuna contribuiu mais do que qualquer outro para tornar sensível a portada autêntica da mensagem do Desperto e para resgatar a justa compreensão da Via que conduz ao Despertar
- A técnica argumentativa de Nagarjuna é por vezes árida e de difícil acesso, podendo criar como uma tela ante a plena compreensão de sua mensagem — obstáculo que, uma vez superado, revela reflexão de imensa e inesgotável profundidade
- A doutrina da vacuidade, graças à rara plasticidade formal de sua dialética, desata com habilidade o conjunto dos problemas que a razão se coloca legitimamente, introduzindo diretamente em uma perspectiva libertadora incomparável — pois por trás dos teoremas de Nagarjuna está o próprio ensinamento do príncipe Gautama, do qual Nagarjuna não quis ser inovador, mas apenas canal de restituição da essência exata da Doutrina do Desperto.
- A radical originalidade de Nagarjuna não é inovação, mas restituição da dimensão real da mensagem budista
- Para Nagarjuna, tornar perceptível o caráter exato das palavras pronunciadas sob a árvore da Iluminação era missão que não podia ser objeto de dúvida — e seu ensinamento, embora inseparável de um contexto religioso específico, possui uma portada que não se limita às fronteiras do budismo, extravasando amplamente para os domínios do pensamento filosófico universal.
- A doutrina da vacuidade não possui esfera de validade limitada nem território reservado — aplica-se amplamente a todos os domínios do pensamento, sem se confinar às fronteiras culturais e espirituais do Oriente
- O ancoragem histórico da doutrina no budismo Mahayana não nega sua pertinência universal
- A vacuidade — vazia de conteúdo, vazia de todo conceito e vazia de si mesma — não pode ser objeto de apropriação objetificante por ser estranha a toda posição fixa, não se deixando possuir nem conquistar, escapando a toda vontade limitativa, e a doutrina nagarjuniana da vacuidade é, antes de tudo, uma formidável empresa de libertação e de compreensão da natureza verdadeira do concreto.
- Nagarjuna examinou atentamente os múltiplos aspectos contraditórios do real, desenvolvendo análises das condições e da causalidade, do movimento, das faculdades do entendimento, dos elementos, do agir e do agente, do tempo, entre outros domínios
- O elemento-chave de sua reflexão é a noção de produção condicionada — em sânscrito pratitya-samutpada —, cuja enorme amplitude obriga a abranger numerosos problemas em dependência direta dessa noção primeira
- A compreensão da impermanência que dirige o ser e a identidade absoluta entre nirvana e samsara — donde se segue que o perfeito Despertar jamais deixou de estar já realizado — são os pontos culminantes da reflexão nagarjuniana
- As perspectivas abertas por Nagarjuna são extraordinariamente ricas e profundas, e a atualidade de seu pensamento permanece eminentemente pertinente em um momento em que se impõem os problemas agudos de um mundo fechado em seus raciocínios quantitativos e positivos, sendo a mais marcante de suas qualidades o caráter libertador de seu método — pois a aproximação amigável do vazio, à qual o mestre indiano convida, abre um novo horizonte de dimensões insuspeitadas, até que a teoria se torne transparente, se apague e finalmente se faça como não sendo.
- A integração da metafísica nagarjuniana cria uma verdadeira e calorosa intimidade entre quem se aventura nela e a própria vacuidade
- Mistério incompreensível do invisível desapego do sunyata — doutrina do vazio vazia de si mesma, ausente de sua presença, existente em sua inexistência
- Nagarjuna propõe nada menos do que a possibilidade de uma nova relação com o ser — não por uma ontologia particular, mas pela auto-abolição da ontologia comum, não por uma ontologia negativa, mas pela negação de toda ontologia possível — proclamando que tudo o que existe é vazio de identidade e tornando assim evidente a caducidade das antinomias clássicas: sim/não, luz/trevas, nirvana/samsara.
- A doutrina da vacuidade é designada como sunyatavada — “pensamento vazio do vazio”, pensamento do além do ser e do não-ser, ciência libertadora da “não-pensée”
- A vacuidade não é retórica reificada do nada nem glosa estéril sobre o vazio — vazia de todo conceito, não se apega a nenhum ponto de vista e não possui nenhuma concepção particular
- Dogen Zenji denomina o sunyatavada “pensamento do fundo da não-pensée” — expressão que designa uma prática concreta do não-apego, uma disciplina efetiva do distanciamento e uma ascese da auto-abolição
- Tornar perceptível a imperceptível verdade e compreender que tudo escapa à compreensão é o sentido real da Via do Meio — Via cujo conteúdo é invisível por não estar situado em lugar algum, cujo sinal age como dialética perpétua da negação, cujo movimento não conhece fim por nunca ter começado, nunca tendo começado nunca apareceu, nunca tendo aparecido sempre esteve presente, sendo sempre presente permanece não visível, e sendo invisível em sua visibilidade tem sua morada no Perfeito Silêncio.
- A Via do Meio pode ser qualificada de Via extrema por ser na realidade uma Via da extrema verdade
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