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esoterismo:hanegraaff:2012:1.2

1.2 Orientalismo Platônico

HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

1. O que entusiasmou os humanistas platônicos do Renascimento não foi o Platão dos classicistas modernos, mas o Platão vivo dos pensadores religiosos do médio e do neoplatonismo da Antiguidade tardia, que transformaram o platonismo numa visão religiosa do mundo, com mitologias e práticas rituais próprias, voltada para uma gnose salvífica capaz de libertar a alma da matéria e reuni-la à Mente divina, traço comum às correntes gnósticas, herméticas e teúrgicas da época e sentido que o platonismo assumiu para seus admiradores renascentistas.

2. Essas transformações da filosofia em religião, mito e rito constituíram fonte de mal disfarçado constrangimento para os classicistas, como mostram John Dillon, que as tratou como “submundo do platonismo” povoado de fenômenos subfilosóficos, Festugière, que via nelas pseudofilosofias supersticiosas do declínio do racionalismo, e os estudiosos que consideraram a teurgia de Jâmblico uma corrupção da tradição, ignorando que ela era muito mais típica do neoplatonismo como fenômeno cultural do que a filosofia não ritual de Plotino.

3. Compreender as origens históricas da narrativa da sabedoria antiga exige superar esses preconceitos normativos, que julgam práticas religiosas pelo padrão inadequado da filosofia racional e projetam anacronicamente estereótipos modernos do oculto sobre o passado, sem cair no erro oposto de negar conteúdo filosófico sério a tradições hoje classificadas como religiosas ou ocultas.

4. Uma designação mais adequada que o “submundo do platonismo” é sugerida pelo capítulo de Festugière sobre os profetas do Oriente, aberto por uma passagem do pitagórico Numênio de Apameia que propõe remontar dos testemunhos de Platão aos ensinamentos de Pitágoras e às iniciações e doutrinas dos povos ilustres, brâmanes, judeus, magos e egípcios, todos em pleno acordo com Platão.

5. Essa afirmação era típica do período, dominado pela ideia de que os povos “bárbaros” mais antigos possuíam uma sabedoria pura e superior, derivada não da razão mas do acesso místico direto ao divino, da qual todos os grandes filósofos gregos até Platão teriam recebido sua filosofia em viagens ao Egito, à Babilônia, à Pérsia e à Índia, de modo que a filosofia grega era considerada de origem oriental, sendo os egípcios seus verdadeiros fundadores, e entendida não como mera busca racional do saber, mas como sabedoria divina e salvação da alma.

6. A concepção do platonismo como sabedoria divina antiga oriunda do Oriente, conhecida há muito pelos especialistas, só recebeu em 2001 de John Walbridge o nome de “orientalismo platônico”, fundado em pressupostos amplamente partilhados no período helenístico tardio, segundo os quais os antigos persas tinham seus filósofos, os magos, e Zoroastro, sábio de seis milênios antes, autoridade em astrologia ligada aos caldeus e encontrada por Pitágoras, dominava com eles as ciências ocultas.

7. Pressupostos semelhantes envolviam Hermes Trismegisto como o maior sábio egípcio e os sábios lendários de outros povos, encontrando a tese da continuidade entre Platão e os povos bárbaros apoio no próprio Platão, numa obra perdida de Aristóteles, em historiadores como Diodoro Sículo e Plutarco e em neoplatônicos como Jâmblico e Proclo, enquanto os humanistas renascentistas tomaram os Oráculos Caldeus e os escritos herméticos por testemunhos diretos de Zoroastro e Hermes, o que justifica plenamente o rótulo de orientalismo platônico para as tradições a que se referia o discurso renascentista da sabedoria antiga.

8. Nesse contexto, o surgimento desse discurso deixa de surpreender, pois, concordando suas fontes quanto às origens orientais do platonismo, teria sido antiplatônico e anti-histórico para os humanistas italianos não crer na prisca theologia e na philosophia perennis nem reconhecer validade às práticas rituais e artes ocultas centrais à religião dos antigos, sendo perfeitamente lógico, sob o pressuposto de uma única tradição de sabedoria universal e intemporal cujo autor era Deus, ler os diálogos de Platão pelas lentes médio e neoplatônicas e ver em Plotino e Platão não pensadores originais, mas porta-vozes de uma mesma fonte antiga, como fez Ficino ao afirmar que nas Enéadas é Platão quem fala pela boca de Plotino.

9. Resta explicar como um compromisso tão forte com a religião dos antigos povos pagãos pôde ser visto pelos platônicos renascentistas não só como compatível com o cristianismo, mas como condição necessária para compreendê-lo verdadeiramente, questão que remete a um segundo pano de fundo decisivo do discurso da sabedoria antiga.

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