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PUER AETERNUS
FRANZ, Marie-Louise von (ORG.). The problem of the puer aeternus. 3d ed ed. Toronto: Inner City Books, 2000.
- Puer aeternus é o nome de um deus da Antiguidade — as palavras provêm das Metamorfoses de Ovídio, onde são aplicadas ao deus-criança nos mistérios eleusinos, sendo o deus-criança Iaco saudado como puer aeternus e louvado em seu papel naqueles mistérios.
- Na Antiguidade tardia, o deus-criança foi identificado com Dionísio e com o deus Eros.
- Trata-se do jovem divino que nasce na noite nesse típico mistério do culto à mãe em Elêusis — uma espécie de redentor, deus da vegetação e da ressurreição.
- Corresponde a divindades orientais como Tamuz, Átis e Adônis.
- O título puer aeternus significa juventude eterna, mas também designa um certo tipo de homem jovem que apresenta um complexo materno acentuado e se comporta de formas típicas.
Lição I
- Para penetrar no fundo mais profundo de todo o problema, toma-se como ponto de partida a interpretação de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, pois essa obra lança muita luz sobre a situação.
- Saint-Exupéry morreu durante a última guerra num acidente de avião e exibe todos os traços típicos do puer aeternus — o que não altera o fato de ter sido um grande escritor e poeta.
- Sua biografia é difícil de reconstituir — o que é em si mesmo típico, pois o puer aeternus nunca toca completamente o chão, nunca se compromete inteiramente com nenhuma situação mundana, apenas paira sobre a terra, pousando aqui e ali, deixando apenas rastros esparsos.
- Saint-Exupéry provinha de uma antiga família aristocrática francesa e cresceu numa bela casa de campo com sua atmosfera tradicional, tendo escolhido tornar-se aviador profissional e atuado por um tempo como piloto da Compagnie Aeropostale, que operava entre a Europa e a América do Sul.
- Por volta de 1929 voou na linha Toulouse-Dacar-Buenos Aires e colaborou no estabelecimento de novas linhas na América do Sul.
- Posteriormente esteve por tempo considerável no comando de um aeródromo completamente isolado no deserto norte-africano — Cabo Júlio —, com a missão principal de resgatar pilotos que haviam caído no deserto ou nas mãos de tribos árabes rebeldes.
- Em 1939, no início da guerra, combateu pela França como capitão da Força Aérea; após o colapso da França, foi desmobilizado e foi para Nova York, onde concluiu seu livro Piloto de Guerra.
- Quando os Aliados desembarcaram na África, Saint-Exupéry quis retornar à Força Aérea e, embora recusado por causa da idade, usou toda sorte de artifícios para poder voar novamente.
- Em julho de 1944, partindo de Argel em voo de reconhecimento sobre a França, desapareceu sem deixar rastro do avião ou de si mesmo — mais tarde um jovem alemão relatou que provavelmente fora abatido sobre o mar por um Focke-Wulf alemão.
- O casamento de Saint-Exupéry foi muito infeliz — sua esposa parece ter sido uma mulher de temperamento difícil —, e ele geralmente não ficava com ela por mais de uma ou duas semanas.
- Quando não lhe era permitido voar, tornava-se deprimido e irritável, andando de um lado para o outro em seu apartamento do amanhecer ao entardecer, desesperado e irritado; quando podia voar, voltava a ser ele mesmo.
- Seus outros livros revelam o quanto estava preocupado com os problemas do tempo presente e com a Weltanschauung — visão de mundo — de sua época.
- Como muitos franceses, especialmente os da nobreza francesa, Saint-Exupéry apresenta algo de psicologia nazista — os francos, estofo histórico das camadas superiores da sociedade francesa, têm uma certa afinidade com a mentalidade prussiana.
- Isso transparece em figuras de seus romances — como Rivière, em que esboça o tipo do Führer, o homem frio que envia seus jovens pilotos à morte por um propósito superior.
- Uma de suas obras mais populares é O Pequeno Príncipe, que alcançou enorme sucesso e que muitas pessoas tomam como sua Bíblia — mas ao se conversar com elas sobre o livro, adotam em geral uma atitude ligeiramente desafiadora, insistindo em que acham a obra maravilhosa.
- Essa atitude desafiadora só pode ser explicada pelo fato de que mesmo os que mais gostam do livro têm um pequeno ponto de interrogação em mente.
- Há uma questão que se pode colocar mesmo aos seus adoradores — a do estilo ligeiramente sentimental, um toque sentimental que, embora cause certo mal-estar, não diminui o valor da obra em outros aspectos.
Lição II
- A introdução de O Pequeno Príncipe — com a jiboia que engoliu o elefante e que Saint-Exupéry desenhara na infância sem nunca encontrar alguém que o compreendesse — prefigura o trágico fim do livro e da vida do autor, pois não há lise.
- No mito do herói, quando engolido pelo dragão, pela grande serpente ou pelo monstro marinho, o herói corta o coração ou o estômago por dentro, ou dança no ventre da baleia até que o monstro morra ou o regurgite.
- Na história de Saint-Exupéry, o animal-herói — o elefante interpretado como antecipação simbólica do herói no nível animal — é engolido e não sai mais.
- Tomada simbolicamente como um sonho de infância sem lise, essa introdução revela que há algo basicamente fraco ou partido em Saint-Exupéry desde o princípio — algo que não consegue escapar ao aspecto fatal do inconsciente.
- Saint-Exupéry fala com certa ironia e escárnio do mundo adulto e das pessoas crescidas que se levam tão a sério e se ocupam de futilidades — embora as biografias deixem claro que ele próprio possuía tais atributos.
- O general David, um de seus superiores militares, diz dele: era um homem íntegro com um gosto por prazeres infantis que por vezes surpreendiam, e tinha acessos inexplicáveis de timidez diante da obstinação administrativa, que sempre foi seu calcanhar de Aquiles.
- Outras biografias registram que ele decepcionava um pouco as pessoas que o conheciam, pois era um tanto poseur — dava a impressão de estar sempre representando, sem ser uma personalidade completamente genuína.
- A tendência a mergulhar em prazeres surpreendentemente infantis não é apenas sintoma do problema do puer aeternus — pertence também à personalidade criativa, pois a criatividade pressupõe enorme capacidade de ser genuíno, de se soltar e de ser espontâneo; a maioria dos artistas tem uma tendência natural e genuína à ludicidade.
- A observação do general David de que Saint-Exupéry nunca superou sua raiva diante da obstinação administrativa — seja do Estado, seja do Exército — e que, por outro lado, era tímido e temeroso diante de quem ocupava posições administrativas, é importante em conexão com o motivo do carneiro.
- Perante o funcionário, as outras pessoas são ovelhas — e ao nos depararmos com alguém em posição oficial, tornamo-nos ovelhas e ele o pastor; somos apenas um número qualquer para ele.
- Esse é o problema moderno do poder avassalador do Estado e da desvalorização do indivíduo — em escala menor, é o problema de todo puer aeternus diante de suas dificuldades de adaptação, mas é também o problema de nossa época.
- A revolta que a maioria das pessoas sente ao ser reduzida ao nível de ovelha num rebanho não se restringe ao puer aeternus — há algo genuíno e justificável nela.
- O problema não é apenas de Saint-Exupéry, mas o grande problema de toda a civilização cristã — na França, porém, ele assume um matiz específico, pois os franceses tendem a exibir um individualismo exagerado, uma espécie de protesto contra toda administração.
- Desde a Primeira Guerra Mundial, há na França uma tendência a se revoltar e ser negativo em relação a tudo o que diz respeito à pressão do Estado — chegando ao ponto de muitos votarem no Comunismo não por convicção, mas como demonstração contra a ordem vigente.
- Esse é o mesmo tipo de atitude que se vê explodir no comportamento dos adolescentes que desafiam a polícia ou viram fileiras de carros como protesto contra a coletividade — compreensível em jovens muito novos, mas profundamente imaturo quando praticado por adultos.
- O puer aeternus naturalmente tem esse problema de forma ainda mais pronunciada.
- Cabe perguntar por que Saint-Exupéry encontra o pequeno príncipe no deserto — a queda do avião é interpretada ao mesmo tempo como um incidente da vida pessoal do autor e como uma situação simbólica ou arquetípica com a qual começa todo encontro com o inconsciente.
- Nessa situação arquetípica, o colapso das antigas atividades, da meta de vida e do fluxo da energia vital se instala subitamente — tudo empaca, ficamos bloqueados numa situação neurótica, e a energia represada irrompe então na revelação de uma imagem arquetípica.
- É citada a história islâmica da décima oitava sura do Alcorão, onde Moisés, após ter perdido seu único alimento — o peixe —, encontra Khidr, o primeiro anjo de Alá, e o leva consigo ao deserto.
- Não é inevitável que após tal colapso surja uma imagem de criança — qualquer outro tipo de figura arquetípica poderia emergir.
- Jung descreve o arquétipo do deus-criança como extremamente difundido e intimamente ligado a todos os outros aspectos mitológicos do motivo da criança.
- O Cristo Menino ainda vivo — que na lenda de são Cristóvão apresenta o traço típico de ser menor que o menor e maior que o maior — é exemplo paradigmático.
- No folclore, o motivo da criança aparece na figura do anão ou do elfo como personificações das forças ocultas da natureza; a esse domínio pertence também o homenzinho de metal da Antiguidade tardia que habitava as minas e representava os metais alquímicos — sobretudo Mercúrio renascido em forma perfeita como hermafrodita, filius sapientiae ou infans noster.
- Graças à interpretação religiosa da criança, chegaram até nós da Idade Média evidências de que a criança não era apenas uma figura tradicional, mas uma visão espontaneamente experimentada — entre elas a visão do menino nu de Mestre Eckhart e o sonho do irmão Eustáquio.
- Histórias inglesas de fantasmas relatam a visão de um Menino Radiante avistado em local com ruínas romanas — aparição considerada de mau agouro, como se o puer aeternus tivesse se tornado funesto por metamorfose, partilhando o destino dos deuses clássicos e germânicos, todos transformados em espectros aterrorizantes.
- A figura do cucullatus — aquele que usa capuz, o invisível, o gênio do defunto — reaparece nas travessuras infantis de uma nova vida rodeada de golfinhos e tritões; o cucullatus significa aquele que usa um manto com capuz, e é altamente simbólico que Jean Cocteau, ao usar esse tipo de casaco, tenha instituído a moda dos jovens com capuz — eles são pueri aeterni e até vestem essa fantasia.
- O mar é o símbolo predileto do inconsciente, a mãe de tudo que vive; assim como a criança está, em certas circunstâncias, intimamente relacionada ao falo — símbolo do gerador —, ela reaparece no falo sepulcral como símbolo de um novo engendramento.
- O grande problema apresentado por Jung nessa visão geral é o duplo aspecto do arquétipo da criança — de um lado significa renovação da vida, espontaneidade e nova possibilidade que irrompe e transforma positivamente toda a situação; de outro, o deus-criança tem um aspecto negativo e destrutivo.
- O motivo da criança, quando surge, representa sempre um fragmento de espontaneidade, e o grande problema — individual e ético em cada caso — é decidir se se trata de uma sombra infantil que deve ser cortada e reprimida, ou de algo criativo em direção a uma possibilidade futura de vida.
- A criança está sempre atrás e à nossa frente: atrás de nós, é a sombra infantil que nos puxa para trás — para a dependência, a preguiça, a fuga dos problemas e da responsabilidade; à nossa frente, significa renovação, possibilidade de eterna juventude, espontaneidade e novo fluxo criativo.
- O grande problema é sempre decidir em cada caso se o impulso é infantil e apenas puxa para trás, ou se parece infantil à consciência mas deve ser aceito porque conduz adiante.
- O contexto dos sonhos por vezes indica claramente qual das duas possibilidades está em jogo — se a aparição da criança tem efeito fatal no sonho de um homem do tipo puer aeternus, trata-se da sombra infantil que ainda puxa para trás; se a figura aparece de forma positiva, há uma possibilidade de nova vida que deve ser aceita.
- Como todos os produtos do inconsciente, o lado destrutivo e o construtivo, o movimento para trás e o movimento para a frente, estão muito intimamente entrelaçados — tornando tais figuras às vezes praticamente impossíveis de compreender.
- Essa parece ser parte da situação fatal com que nos confrontamos no livro e no problema de Saint-Exupéry: não é possível decidir com clareza se a figura do pequeno príncipe deve ser tratada como uma sombra infantil destrutiva cuja aparição anuncia a morte do autor, ou como a centelha divina de seu gênio criativo.
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