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FESTAS DE HERMES

GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermes. Paris: Arma Artis, 1984.

As festas de Hermes e seu significado iniciático

  • As Hermaia (festas das pedras e de Hermes) eram também festas da adolescência, explicáveis pelas regras da sociologia.
  • Tais solenidades prolongavam exercícios de néofitos e iniciados, ontologicamente identificados com pedras sagradas.
  • Eram celebradas em ginásios e palestras devido à sua origem nos acampamentos iniciáticos.
  • Consistiam em corridas e lutas que manifestavam a energia sobrenatural de cada noviço, com o resultado físico expressando o mental subjacente.
  • Na Grécia, as mais famosas competições atléticas das Hermaia ocorriam em Pellene (Acáia).
  • Frequentemente, as festas de Hermes incluíam concursos musicais, pois música e dança eram importantes nos ritos iniciáticos.
  • Hermes, como protótipo do iniciado-iniciador, era deus da música, da palestra (Palai strités) e das lutas de ginásio (Agônios, Enagônios).
  • As lampadédromias (corridas com tochas) nas festas de Hermes remetiam à difusão do sagrado pelo território pelos novos iniciados.

Associações divinas e o Hermes ctônio

  • Heracles era frequentemente associado a Hermes nas Hermaia, pois “Glória de Hera” designava o iniciado no mundo mediterrâneo.
  • Há ainda associação de Hermes com Apolo, outro tipo de alto iniciado.
  • Dioniso unia-se a Hermes na festa ateniense das Antestérias (terceiro dia: festa dos Chytroi/marmitas).
  • Na terceira jornada das Antestérias, ofereciam-se a Dioniso e Hermes sementes cozidas em marmitas de barro, proibidas de serem provadas por pertencerem exclusivamente ao sagrado.
  • Todos os templos permaneciam fechados nessa data, prática que prolongava a reclusão no mundo subterrâneo.
  • As sementes, submetidas à água da vida e ao fogo sagrado, constituíam produtos sobrenaturais com mana idêntico ao de humanos que desciam às cavernas.
  • Tem-se aí um exemplo do Hermes ctônio (Hermes-de-sob-a-terra), cujo significado é claramente compreendido.
  • O segundo dia das Antestérias (festa dos Pots/Choes) apresentava um concurso de bebedores presidido pelo Arconte-Rei.
  • O vencedor do concurso, que bebia primeiro o vinho de seu pote, recebia uma outa cheia da bebida da imortalidade.
  • A absorção de uma bebida transcendente estava originalmente em causa, ligando a festa dos Pots à das Marmitas.

Rituais de circumambulação, sacrifício iniciático e Hermes Crióforo

  • Em Tanagra, durante as Hermaia, o mais belo efebo percorria a cidade carregando um carneiro nos ombros, num rito universal de circumambulação que sacraliza a pessoa ou o local.
  • Os habitantes de Tanagra, em guerra com Erétria, instituíram o culto de Hermes Branco após sacrificar um garoto e uma garota conforme ordem de um oráculo.
  • Esse “sacrifício” (sacrum facere = tornar sagrado) provavelmente consistiu em retomar ritos iniciáticos interrompidos, enviando os dois jovens para morrer no mundo subterrâneo.
  • Hermes Branco (que presidia à veste branca dos iniciados) os teria depois ressuscitado, retornando-se às noções do mundo subterrâneo após um período de desuso.
  • O sagrado iniciático tinha como fim a defesa do território, recebendo Hermes o qualificativo de Promachos (combatente da primeira linha, defensor, campeão).
  • O carneiro carregado pelo efebo corredor indica o sentido original do Hermes Crióforo (portador de carneiro).
  • O animal transportado era inicialmente a vítima cuja pele sacrossanta serviria para sacralizar o novo iniciado.
  • Heródoto e Luciano informam que Hermes se transformou em bode para unir-se a Penélope (lacedemônia) na união hierogâmica.
  • Com o fardo animal, Hermes visava primariamente o homem-animal que a besta ajuda a renascer nos ritos.
  • O animal montaria identifica-se ritual e ontologicamente com a personalidade sacrossanta que ele sustenta.
  • Em outras figuras, Hermes segura ou brande uma cabeça de carneiro ou põe a mão sobre o animal atrás dele.
  • Trata-se primariamente de um animal sacrificado que o deus consagra; posteriormente Hermes tornou-se Agrotér (deus campestre) e Nomios (deus do pasto).
  • Em seu princípio, Hermes foi o pastor dos homens, tornando-se pastor dos animais (Epimélios = protetor dos rebanhos) por intermédio dos homens-animais.

Hermes Espeleita, doador de excelências e o rebanho iniciático

  • O caráter essencial de Hermes não era Agrotér, mas Spelêïtes (habitante das cavernas), ser subterrâneo (Cthônios), tornando-se uma individualidade dos campos e pastor coberto do gorro de feltro (kunê).
  • A epíteto dôtor heaôn (doador das coisas excelentes) significava primeiro que ele enriquecia a alma do homem, e depois que fazia proliferar o gado.
  • A Ilíada informa que o troiano Phorbas, de muitos rebanhos, é amado por Hermes, tratando-se de uma personalidade iniciática.
  • Todos os outros Phorbas conhecidos (filho de Argos, neto de Argos vencedor de serpentes, o Lápita, o egípcio de Siene, o chefe dos Flégios) são iniciados ou iniciadores.
  • O termo hermagelê (rebanho de Hermes) sempre designou expressamente os homens: primeiro os mortos iniciaticamente (em reclusão subterrânea), depois os mortos autênticos.
  • A epíteto Charidota (Dispensador das graças) corresponde exatamente a Dôtor heaôn, referindo-se ao sagrado (mana transcendente), princípio e suporte das forças físicas.

O galo, os rebanhos divinos e a natureza iniciática dos animais

  • O galo, vindo provavelmente das regiões do Oceano Índico e domesticado pela civilização matriarcal, foi adotado por Hermes como animal preferido e sacrificado correntemente a ele.
  • Essa predileção deve-se ao galo saudar cada manhã o aparecimento da luz, identificando-se com os néofitos e iniciados que emergem das trevas iniciáticas para a luz transcendente.
  • Sócrates, no momento de sua morte, lembra a obrigação de um galo a Esculápio (deus da medicina iniciática), referindo-se à identificação do doente com o galo e à imortalidade renascente.
  • Um relevo no Museu de Veneza mostra Hermes conduzindo três carneiros (provavelmente os três tempos do ciclo iniciático).
  • Os rebanhos divinos integram-se ao simbolismo iniciático: o rebanho de Hélio em Cilaicéia (Itália) era composto por quinhentas vacas e cinquenta ovelhas.
  • O número cinquenta indica uma coletividade subdividida em clãs, onde os homens se tornavam bovídeos sacrossantos e as mulheres ovelhas transcendentais na renascença iniciática.
  • Hélio, o grande Libertador iniciático, encabeçava esse rebanho; as peles de animais (depois máscaras) serviam para manifestar ritualmente a divinização do ser humano.
  • Teócrito menciona que Hélio possuía outro rebanho de doze bois, cujo pasto preferido era na Ilha de Erítia (Ilha Vermelha) – doze personalidades divinas identificadas com os doze Olímpiônicos.
  • A Ilha Vermelha (cor da vida sem fim) é uma das muitas ilhas sagradas modeladas sobre a Ilha Santa primordial.
  • Uma ilha ou região Erítia era o reino de Gérion, personagem notório por seus rebanhos de bois.
  • Reage-se contra as interpretações naturistas infantis: os mitos pertencem sempre, em princípio, ao domínio sagrado dos ritos, tornando-se naturistas por degradação insensível.
  • Nas tradições zoomorfas antigas, deve-se reconhecer através do animal o iniciado; não era um carneiro ou bode que Hermes carregava, mas um ser humano promovido à imortalidade sob a aparência de uma besta.

Prêmios, vestes e o Hermes efebo nas Hermaia

  • Em Pellene (Acáia), os vencedores das lutas e concursos nas Hermaia recebiam como prêmio uma túnica de honra (chlainan, chitôna).
  • Essa mesma recompensa era concedida nas festas de Apolo chamadas Teoxênias (vocábulo também usado em Pellene para as Hermaia).
  • O dom prolongava a obrigação de vestir roupas novas ao fim da reclusão nas cerimônias iniciáticas de todos os países.
  • As vestes novas dos iniciados sucediam as peles de animais com que os néofitos se cobriam no neolítico para marcar o acesso ao mundo superior.
  • O Hermes efebo (Agônios e Enagônios, apto para as lutas) foi figura favorita da arte grega nos últimos séculos da era clássica, substituindo o Hermes barbudo.
  • Desde seus primórdios, Hermes foi um adolescente em curso de iniciação, mas essa noção não passou para a iconografia por longo tempo.
  • A imagem prevalecente era a da personalidade masculina incorporada à energia transcendente pela hierogamia, marcada pela barba.
  • O abandono do tipo arcaico relacionou-se ao recuo final da liturgia iniciática, mostrando que se deixou de referir às ideias antigas sobre a essência do sagrado.
  • Passou-se a ater exclusivamente às manifestações fenomênicas da energia divina, atolando-a nas aparências espaço-temporais e extenuando o sobrenatural em naturismo.

As Hermaia cretenses de Cidônia e a continuidade dos usos neolíticos

  • As Hermaia cretenses de Cidônia testemunharam até o fim da antiguidade que as festas de Hermes foram, em sua origem, não simples festas da juventude, mas festas transformadoras do ser humano e da sociedade humana.
  • Tais cerimônias comunicavam a todos os membros do grupo social a mesma substância imortal, tornando-os seres iguais que comungavam na energia transcendente.
  • Enquanto as Hermaia clássicas quase em toda parte diminuíram a concepção inicial, as festas de Cidônia conservaram mais vivamente o lembrança dos usos neolíticos.
  • Em Cidônia, os mestres não apenas serviam à mesa seus escravos, mas se deixavam bater por eles, o que recordava as fustigações iniciáticas dos tempos remotos.
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