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HOMEM E COSMOS

GORDON, P. L’image du monde dans l’Antiquité. Paris: Éd. Arma artis, 2005.

A HARMONIZAÇÃO RITUAL DO HOMEM E DO COSMOS

  • A imagem do mundo sempre foi acompanhada de métodos rituais precisos destinados a colocar o homem em relação com a energia transcendente escondida nas dobras do universo fenomênico.
    • Esses métodos resumem-se a três pontos: determinar o omphalos do cosmos, voltar-se para ele (orientação) e girar em torno dele (circunambulação, danças circulares).
    • A determinação do omphalos visa o foco de onde irradia o mana da sobrenatureza.
    • A orientação e a circumambulação servem para impregnar-se dos eflúvios do centro sagrado.

A determinação do omphalos e a orientação ritual.

  • O omphalos primordial foi a ilha sagrada nórdica, ou ilha dos quatro mestres, situada abaixo da Ursa Maior, de onde as ondas do universo dinâmico se espalharam primeiro sobre a terra.
    • A primeira orientação efetuou-se para o norte, uma orientação setentrional que se conservou em diversos países, especialmente na China e entre diferentes povos da América pré-colombiana.
    • Devido à confusão entre o oeste e o norte, a orientação setentrional foi frequentemente substituída pela ocidentalização, como foi o caso entre os astecas.
    • Quando a luz do sol foi identificada com a essência do fogo divino e o astro diurno se confundiu ontologicamente com o grande Libertador iniciático, passou-se a voltar-se para o leste, tendo-se então a orientação propriamente dita.
    • A posição da Grande Montanha, ou país puro do leste, contribuiu para a preponderância progressiva do Oriente.
  • Em qualquer lugar do espaço podia localizar-se um omphalos ou polo secundário, identificado ontologicamente com o omphalos ou polo primordial.
    • Esse omphalos secundário era marcado por uma pedra sagrada, uma montanha sagrada, uma árvore divina, um fogo sacrossanto ou, às vezes, um homem no qual se hipostasiava a energia transcendente.
    • Na China, o imperador, filho do Céu, era o centro transcendente do mundo e representava o polo norte.
    • Para delimitar as regiões da extensão em relação a esse omphalos secundário, recorria-se ao traçado essencial ou sinal da cruz, copiando o procedimento fundamental adotado pela ilha dos quatro mestres.
    • Um personagem qualificado, após se colocar no ponto desejado, cortava o espaço no céu, no solo e sob a terra por meio de duas linhas perpendiculares: o cardo (norte-sul) e o decumanus (leste-oeste).
    • O omphalos, situado no lugar de intersecção (decussis para os latinos), definia uma divisão quintipartida, com o foco sagrado do cruzamento considerado uma região divina distinta.
    • Na Irlanda, em Ushnag, centro ou decussis do país, erguia-se uma pedra gigantesca chamada umbigo da terra e pedra das porções (ail-na-meeran), que indicava onde convergiam as linhas de separação entre os quatro reinos, e o reino do centro era designado pelo nome de Mide ou Meath.

O rito de circumambulação.

  • Para impregnar-se da radiância que se desprendia do ser ou objeto omphalos, realizava-se o grande rito de circumambulação, geralmente três vezes seguidas, que foi propagado pela teocracia neolítica e deu origem às danças circulares.
    • Os três saltos ao redor do fogo sagrado e depois sobre o fogo sagrado também provêm desse rito.
    • Os ritos se realizavam primeiro no recinto sagrado estabelecido no cume da montanha, girando em torno do ser ou objeto omphalos.
    • A triplicidade da volta ou da roda teve como ponto de partida o fato de que os personagens sagrados que se mantinham perto do omphalos, nos quais se hipostasiava a substância transcendente, eram frequentemente três (tríade teocrática, copiada pela tríade lunar do matriarcado).
    • Para ser dotada de virtude, a circumambulação (anfidromia grega, parekrama da Índia, etc.) devia sempre efetuar-se pela direita, no sentido dos ponteiros do relógio, apresentando o lado direito ao omphalos.
    • A circumambulação pela direita conformava-se ao deslocamento do sol e harmonizava-se com a giração do cosmos, constituindo a dextratio dos latinos, a epidexia dos gregos, a pradakhina da Índia, o dessel ou dessil da Irlanda, o tawaf dos árabes.
    • Esse movimento relaciona-se ao suástica, que simboliza o movimento de conjunto do mundo fenomênio em torno da energia dinâmica, polo fixo das coisas.
  • A circumambulação pela esquerda opõe-se à marcha normal do universo e relaciona-se ao funesto sauwastika, sendo o prasavya da Índia e o witherskins dos celtas da Escócia.
    • A circumambulação pela esquerda, em vez de conduzir para o sul e depois para o oeste, remonta direito para o norte, não fazendo irradiar o mana divino sobre o conjunto do mundo.
    • Em tempos antigos, a direita era o lado do homem e a esquerda o lado da mulher; a energia superior de fonte teocrática vinha pela direita, enquanto pela esquerda se impregnava da energia da Mãe Divina (o yn chinês), energia inferior que podia ser maléfica.
  • As noções mencionadas neste capítulo tiveram importância excepcional durante milênios, comandando a integração da humanidade no cosmos concebido essencialmente como um dinamismo.
    • Atualmente, esses ritos são vistos apenas como símbolos sem alcance, mas eles se conservaram em todas as religiões e seus traços são encontrados em todos os folclores.
    • Na Bretanha armoricana, a circumambulação é regra durante os perdões, fazendo-se o contorno de capelas, fontes, alturas e árvores, sempre pela direita.
    • O exemplo mais notório é a Grande Troménia de Locronan (Tro-Minihy = o giro do mosteiro), que se realiza a cada sétimo ano, consistindo em dar a volta em uma antiga montanha sagrada.
    • O percurso da Grande Troménia é de aproximadamente doze quilômetros e comporta doze estações, partindo do oeste para subir para o norte, depois descendo do norte para o leste, e do leste para o sul, onde a multidão sobe a montanha, descendo então do sul para o oeste.
    • Durante a descida, gira-se três vezes em torno da Jumenta Branca (ar Gazeg Wenn), um enorme bloco de pedra que representa a Lua (como na Irlanda, a Lair Bhan), localizado na encosta da altura, na orla do bosque de Nevet (nemeton, lugar sagrado).
    • A identificação do bloco de pedra com a Lua e com uma Jumenta divina é reveladora de um passado muito distante.
    • A montanha de Locronan, com as doze pedras sagradas que demarcavam seu perímetro, era um célebre omphalos do cosmos.
  • A maneira como se realizou a passagem do paganismo ao cristianismo é vista no exemplo da Troménia, com anacoretas e cõenobitas cristãos instalando-se no antigo mundo subterrâneo ou na antiga montanha sagrada.
    • Santo Ronan ou santo Renan estabeleceu-se no bosque de Nevet, e mais tarde um mosteiro beneditino ocupou os lugares, tornando o antigo domínio sagrado pagão o domínio dos monges cristãos.
    • Milhares de peregrinos ainda fazem o giro em silêncio durante a grande Troménia, parando nas cruzes das estações (que antigamente eram doze menires, três para cada região espacial).
    • Os monges, que partilhavam as crenças iniciáticas ancestrais e viam claramente sua conexão com o iniciacionismo cristão, não as aboliram, mas mostraram como interpretá-las à luz da nova religião, razão pela qual nem a Lua nem a Jumenta foram eliminadas.
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