CONTO DE PSIQUE
NOIREAU, Christiane. La lampe de Psyché. Paris: Flammarion, 1991.
Elementos biográficos relativos a Apuleio
Nascido na colônia romana de Madaura em 114, final do reinado de Trajano, o romancista, filósofo e retor latino foi chamado de “príncipe dos oradores africanos”.
- Recebeu instrução nas escolas públicas de Cartago, descrita como “instituta de todas as províncias” nas Floridas.
- Percorreu Itália, Grécia e Oriente, sendo iniciado em cerimônias mágicas e religiosas por “amor da verdade e por dever para com os deuses”, conforme a Apologia.
- Praticou malefícios e encantamentos que eram considerados de alta superstição.
- Esteve em Roma em 136 e visitou Alexandria, onde estavam o museu e a biblioteca repletos de tesouros.
- Aos trinta e três anos, casou-se com a mãe de seu amigo e, acusado de sedução e enfeitiçamento, fez sua própria defesa, ganhando imensa renome como orador.
- Ao retornar a Cartago, foi encarregado de importantes funções sacerdotais.
- Escreveu obras imensas, listadas por ele mesmo, tratando de temas como árvores, música, agricultura, questões de mesa e a esfera de Pitágoras.
- Nenhum desses tratados sobreviveu, e alguns lhe são atribuídos de forma apressada.
Obras sobreviventes e contexto religioso
As obras que chegaram até o presente são As Metamorfoses, As Floridas, O Deus de Sócrates, O Dogma de Platão, O Tratado do Mundo e A Apologia diante de Cláudio Máximo.
- A obra, de inspiração platônica, não funda um sistema de pensamento coerente, mas reproduz ideias de Sócrates, Platão ou Aristóteles.
- As Floridas são peças separadas, de circunstância e aparato, com caráter por vezes autobiográfico.
- As Metamorfoses foram escritas na extrema velhice, quando o autor tinha cerca de setenta e cinco anos.
- Os Padres da Igreja, como Lactâncio, São Jerônimo e Santo Agostinho, são os que mais contribuíram para tornar o autor conhecido.
- Lactâncio, nas Instituições Divinas, afirmou que se costumava citar muitos milagres realizados por Apuleio.
- São Jerônimo, no Salmo LXXXI, comparou Apuleio a Apolônio de Tiana, o maior taumaturgo que existiu.
- Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, pensou que Apuleio devia a seus conhecimentos os poderes sobrenaturais que maravilhavam seus contemporâneos.
- Residiu em Cartago, que era o foco mais ativo da nova religião cristã, ainda fraca diante da mitologia grega e da perseguição.
- Entre os bispos que instruíam os fiéis e pregavam o cristianismo, o filósofo platônico ensinava os dogmas da filosofia pagã nas escolas públicas.
- Um século e meio depois, os pagãos o opuseram ao fundador do cristianismo, e ele figura ativamente nas querelas religiosas.
- Por seu nascimento, estudos e papel, Apuleio lembra o que há de mais característico no segundo século da era cristã: a influência romana, o paganismo grego abalado e a nova religião já poderosa.
A história de Psique: um conto como outro qualquer
Era uma vez um rei e uma rainha que tinham três filhas, sendo a mais nova, Psique (Alma), a mais bela, a ponto de os mortais não se interessarem mais pelos altares de Vênus e dedicarem suas oferendas a Psique.
- Vênus, movida por profundo ciúme, incumbiu seu filho Amor (Cupido) de vingá-la, inspirando à bela mortal um grande amor pelo mais miserável dos homens.
- Psique, isolada do mundo por sua beleza sobrenatural, permanecia virgem enquanto suas irmãs haviam se casado.
- O rei, preocupado com o celibato da filha, consultou um oráculo que aconselhou “expor” a filha para núpcias de morte nas quais um monstro “que voa pelos ares” a desposaria.
- Um cortejo fúnebre levou Psique ao topo da montanha onde foi abandonada e, em seguida, suavemente levantada e raptada por um Zéfiro que a depositou em outro lugar, onde ela adormeceu.
- Ao despertar, uma voz sem corpo a convidou a entrar em um palácio encantador, onde as mesas se serviam sozinhas e músicos invisíveis preenchiam o espaço com música.
- À noite, o marido desconhecido fez de Psique sua esposa e, ao amanhecer, desaparecia para não ser visto por ela.
- Psique obteve do marido invisível a permissão para convidar suas irmãs, sob a condição expressa de nunca sucumbir à tentação da curiosidade sugerida por elas nem tentar vê-lo, pois “meu rosto, se o vires, nunca mais o verás”.
- As irmãs, levadas por Zéfiro, enlouqueceram de ciúme e persuadiram Psique de que seu marido era provavelmente um monstro ou serpente, sugerindo que usasse um punhal enquanto ele dormia.
- Psique, à noite, cometeu o irreparável: aproximou sua lâmpada do rosto do marido, descobriu sua beleza e, perturbada, deixou cair uma gota de óleo que o despertou, fazendo-o fugir.
- Psique foi abandonada, as irmãs foram punidas e precipitadas do alto de uma rocha.
- Vênus, sabendo da traição do filho, procurou Psique para se vingar, com a ajuda de Mercúrio.
- Psique, após pedir socorro a Ceres e Juno, entregou-se a Vênus, que a fez açoitar e lhe impôs uma série de provas (grãos, lã, água do Estige), das quais se saiu bem com a ajuda de formigas, de um junco e de uma águia.
- Na última e mais perigosa prova, descer ao Inferno para pedir um pouco de bálsamo de beleza a Prosérpina, Psique foi ajudada por uma torre.
- Vítima novamente da curiosidade, abriu a caixa do bálsamo e caiu em desmaio, do qual Cupido a despertou finalmente.
- Diante dos deuses reunidos, com Vênus apaziguada, Júpiter consentiu no casamento e ofereceu a Psique a ambrosia que a purgou da “impura humanidade”, fazendo-a penetrar no domínio dos deuses e imortais.
Estudo do conto
Após aplicar ao texto de Apuleio as funções definidas por Vladimir Propp em sua Morfologia do conto, Michèle Brossard concluiu que o conto de Psique é um conto popular, muito próximo de um mito, inserido nas Metamorfoses.
- O estudo de Brossard mostra que Psique, outra ou nova Vênus na terra, tentou suplantar na religião romana a Vênus Ericina, “turbulenta que patrocinava os lugares obscenos” e para quem “a Roma puritana e conservadora dos primeiros tempos não consagrara templo por muito tempo”.
- O conto de Psique opõe à forma violenta, impetuosa e estéril do amor encarnado por Vênus Ericina uma imagem moderada, mais espiritual e compatível com a piedade e a ordem social, sendo também uma imagem ideal da feminilidade.
- No estudo em questão, serão analisadas as funções do texto que melhor se aliam à iconografia, abordando os aspectos cromáticos e melódicos do conto.
- Passa-se ao estudo do movimento e do espaço, terminando pela introdução dos contos e mentiras que cavam o texto, conferindo-lhe, com os repetidos sonos, uma dimensão onírica que a iconografia também assumiu.
Cromatismo e melodia
As notações cromáticas encontradas no texto de Apuleio pertencem globalmente a duas categorias: o tenebroso e o cristalino, que explode no ouro do palácio, enquanto as qualidades melódicas podem ser classificadas na ordem do doloroso ou da melodia suave.
- A alegria no que tem de exultante nunca é figurada, pois Psique é um ser de melancolia, atitude que lhe vem de suas primeiras representações funerárias.
Cromatismo
O conto alterna as trevas e a luz delicada e rosada, começando com a visão de Cupido como uma “criança alada, mau garoto que, desafiando a moral pública com sua má conduta, armado de tochas e flechas, corre aqui e ali à noite nas casas dos outros”.
- Essa primeira aparição noturna dá o tom ao relato: o Amor é invisível, e é essa obscuridade que Psique penetrará sob o risco de se perder.
- As núpcias de Psique, cujo esposo é apresentado sob os traços do monstro que “inspira terror nas trevas do Estige”, são na verdade pompas fúnebres.
- “Já se prepara para a infeliz virgem o aparato da fúnebre núpcia. A chama das tochas se enegrece de fumaça e morre sob a cinza.”
- A cinza é o sinal da dor do luto antigo, como nos exemplos bíblicos: “Filha do meu povo, veste o saco, revolve-te na cinza, faze um luto como por um filho único, uma lamentação amarga” (Jeremias 6,26).
- No nível do conto popular, a cinza esconde uma beleza que, mais cedo ou mais tarde, deve se revelar, como em Cinderela ou no conto de W. Grimm, A Bola de Cristal.
- O conto começa com um escurecimento atrás do qual a própria heroína desaparece, e a fumaça permitiu o adormecimento, mas o despertar leva a lugares mais claros.
- “Após um sono suficiente para restaurar suas forças, ela se levanta, com a alma apaziguada. Vê um bosque plantado de árvores frondosas e esguias, vê uma fonte cuja água tem a transparência do cristal.”
- O primeiro símbolo de luz que se oferece aos olhos de Psique é a translucidez, presente desde o início quando ela avançava envolta por um halo de luz matutina: “in matutino progressu virginis…”.
- O castelo do Amor, situado “no meio do próprio bosque” (lugar sagrado, espaço dos mistérios), é um templo feito de materiais preciosíssimos.
- “Os tetos, com lambris de tuia e marfim […] são sustentados por colunas de ouro; as paredes revestidas de prata cinzelada.”
- “Os pavimentos de pedras preciosas talhadas miúdas opõem suas cores formando desenhos variados.”
- “Todas as paredes, feitas de blocos de ouro maciço, resplandecem com seu próprio brilho, a ponto de se fazerem elas mesmas sua luz se o sol lhes recusasse a sua.”
- Psique cruzou uma demarcação de ordem alquímica: antes de contemplar e “penetrar” o ouro, passou pelo limiar da viriditas (verde).
- C.-G. Jung cita um alquimista: “Nosso ouro não é o ouro do vulgo. […] se há algo perfeito no bronze, é esse verde e somente ele, porque esse verde é transformado instantaneamente por nosso magistério em nosso mais verdadeiro ouro.”
- A nigredo (estado inicial) era simbolizada pelas tochas obscuras; a água da fonte serviu de ablução para essa alma que, tendo cruzado a viriditas, abordou a cauda pavonis (o flamejar do templo).
- Vênus, diferentemente da translucidez matinal de Psique, beneficia-se de toques coloridos, com a imagem de seus sentidos sendo lisonjeada por um leve rubor.
- “No começo da noite, Vênus voltou de seu banquete de núpcias, umedecida de vinho, exalando o odor dos perfumes e toda carregada de grinaldas de rosas de cores brilhantes.”
- Seus “pés são de rosas sobre o lençol azulado” do mar, e seu cortejo inclui as filhas de Nereu, Portuno com barba azulada e um tritão.
- Mais tarde, a iconografia, a partir de La Fontaine, dará a Psique os atributos eróticos das vestes sedosas de Vênus.
- Cupido é descrito com cabeça dourada, cabelo inundado de ambrosia, pescoço de neve e bochechas purpurinas, asas com plumas brancas e o resto do corpo brilhante e liso.
- Psique, brincando com as flechas divinas, “pica-se suficientemente fundo para que na superfície da pele perlitem algumas gotas de um sangue rosado”.
A melodia
A música duplica semanticamente a cor, e os termos empregados para uma convêm também à outra, seguindo o mesmo caminho do obscuro ao luminoso, do doloroso ao inefável.
- Para acompanhar as tochas ensombrecidas, “os sons da flauta nupcial dão lugar aos acentos plangentes do modo lídio, o canto alegre do himeneu termina em uivo lúgubre”.
- O modo lídio convinha aos funerais, opondo-se ao frígio (cerimônias religiosas), ao dórico (guerreiros) e ao eólico (pastoral).
- O som obscuro das melodias entenebrecerá as regiões vizinhas, mas o sentido do canto se modifica do luto ao ciúme, do furor à paixão odienta.
- Cupido adverte Psique: “Se por acaso, perceberes vindas delas algumas lamentações, não respondas nada, não olhes mesmo em sua direção, sob pena de causar a mim uma grande dor, a ti a pior das catástrofes.”
- As irmãs, no rochedo, “afogavam os olhos em lágrimas, batiam no peito, faziam tanto que com seus uivos repetidos as pedras e os rochedos enviavam o eco”.
- A Lamentação é um gênero bíblico dos escritos de Jeremias, textos de deploração, humilhação e súplica divina, compostos após a ruína de Jerusalém em 587 a.C.
- No palácio do Amor, Psique assiste a um concerto do invisível: alguém canta, outro toca cítara, e um coro de muitas vozes se faz ouvir, revelando a presença de um coro sem que nenhum humano apareça.
- “Ela ordena, e a cítara ressoa […] e as flautas soam […] e os cantos se elevam em coro. E todas essas melodias suaves, sem que ninguém se mostrasse, encantavam o espírito de quem as ouvia.”
- A cítara, de sonoridades leves e aéreas, alia-se à flauta, cujo caráter associa a fluidez das linhas melódicas à volúpia do timbre.
- O palácio do Amor se destaca na harmonia melodiosa em meio a sons exteriores de gritos, uivos, latidos e lamentações odientas.
- “É o vivente que se coloca assim no diapasão de uma eternidade letal onde nada mais acontece nem sobrevém nem se torna: a história e com ela o fragor dos eventos desertaram para sempre este novo éon perfeitamente vazio de toda ocorrência.”
- Na sua quête, Psique encontra o deus Pã, que “estava sentado na margem do rio; tinha abraçada Eco, deusa das montanhas, e ensinava-lhe a repetir as mais variadas melodias”.
- Um “verde junco, fonte de sons melodiosos, por uma inspiração divina, fez ouvir em um doce murmúrio” um sábio conselho a Psique, prova da progressão iniciática onde o silêncio é sinal da harmonia universal.
- Vênus aparece na imensidão marinha com as filhas de Nereu cantando em coro e tropas de Tritões, um deles “soprando suavemente em sua concha sonora”.
- A deusa “se deixa levar sobre a clara superfície do mar profundo”, e a sonoridade surda e insistente dos abismos marinhos ecoa os apelos incessantes da carne obscura.
- Vênus se comunica com “a ave tagarela e indiscreta [que] cacarejava ao ouvido de Vênus” sobre a traição do filho.
- “A ave de branca plumagem, que rase, levada por suas asas, a superfície das ondas marinhas, a gaivota mergulha, rápida no seio profundo do Oceano.”
- Segundo Marsílio Ficino, Vênus é dupla: a primeira, na inteligência, nasceu do céu sem mãe; a segunda, na alma do mundo, é filha de Júpiter e Dione, e cada uma tem um Amor companheiro que lhe é semelhante.
- A beleza de Psique seria a beleza que a Vênus nascida de uma mãe de matéria teria infundido em um corpo terrestre, contra o qual ela se insurgiria para guiá-lo ao céu.
- O alegre cortejo da deusa abre as cerimônias finais ao himeneu finalmente aceito de Psique e Cupido.
- “As Musas faziam ouvir suas vozes harmoniosas. […] Apolo cantou acompanhando-se com a cítara, e Vênus ajustando seus passos a uma doce música, dançou graciosamente depois de ter composto uma orquestra onde as Musas executavam um coro enquanto um sátiro tocava flauta e um panisco inflava sua charamela.”
O movimento e o espaço
No estudo de um conto das Mil e Uma Noites, André Miquel propõe um estudo do movimento dos heróis no interior do espaço do texto, no qual os lugares geográficos conhecidos se misturam aos espaços do maravilhoso, do lendário e do divino.
- Os personagens, gênios e seus acompanhantes viajam pelos ares, sendo necessário estudar não o mapa do país, mas o esquema dos movimentos, reduzidos a oscilações em torno de um ponto fixo num perímetro reduzido.
- A reputação de Psique, indutora do tempo de crise, é o invisível que cria a tensão inicial no conto das Metamorfoses.
Movimento da reputação e das multidões
A reputação da beleza de Psique se espalha das cidades vizinhas às regiões circunvizinhas, ganhando terreno de ilha a ilha e de província em província, projetando a imagem no mundo com um movimento centrífugo partindo da “certa cidade” (in quadam civitate).
- Em um movimento centrípeto, as multidões percorrem o caminho da renomeada em um imenso peregrinação à cidade eleita, onde adoram um “extravagante traslado das honras celestes ao culto de uma imortal”.
- O céu desce também, não para contemplar, mas para se vingar dessa confusão entre o divino e o terrestre.
- Os homens vão buscar o céu e o trazem de volta ao lugar de onde pensavam que ele havia partido, adorando no objeto instituído como culto o que trouxeram de suas visões do além.
- Conforme a primeira Prefácio da Crítica da Razão Pura, a razão humana é sobrecarregada de questões que não pode evitar, mas que também não pode responder, pois ultrapassam completamente seu alcance.
Movimentos das irmãs de Psique
As duas irmãs, após seguirem o cortejo fúnebre que conduziu Psique ao rochedo, participaram do movimento da multidão, mas uma nova rumores as leva a iniciar novas buscas enquanto a população retorna ao repouso.
- O oráculo havia anunciado que Psique seria desposada por um monstro, e as irmãs, tomadas de ciúme, dirigem-se ao rochedo para depois serem levadas por Zéfiro ao palácio do Amor.
- O trajeto simétrico inclui as idas à casa dos pais, ao rochedo, ao palácio do Amor e às próprias moradas, repetido várias vezes.
- Após persuadirem Psique a conhecer seu esposo, as irmãs sobem ao rochedo e “se subtraem por uma fuga rápida, sobem em seus navios e desaparecem”.
- Atraídas por um “conto” ou mentira de Psique, voltam ao rochedo separadamente, mas Zéfiro lhes falta.
- A primeira “se lança e se joga no vazio. […] deixando de queda em queda, nas saliências dos rochedos, seus membros dispersos (membris jactatis atque dissipatis) teve o fim que merecia”.
- A segunda, “impaciente de suplantar sua irmã por um casamento criminoso, correu ao rochedo e foi precipitada em semelhante transe”.
- O rochedo onde Psique foi exposta aparece como uma passagem obrigatória, um obstáculo que não se pode franquear sem um consentimento sobrenatural.
- O rochedo de Lêucade, onde se celebrava o deus da luz Apolo com um rito que consistia em precipitar uma vítima humana, vem à mente.
- A “santa mergulhada de Lêucade” possuía o poder de curar o mal de amor, e psicólogos pitagóricos teriam transfigurado o Apolo de Lêucade em Éros.
- Do alto da Pedra Branca, precipitava-se no além, função que o rochedo no texto de Apuleio parece revestir de purificação e justiça, sendo Psique a única eleita a sobreviver aos múltiplos “mergulhos”.
As peregrinações de Psique
O esquema das peregrinações de Psique não entra nos limites nem nas rigidezes da simetria, pois ela nunca retorna ao rochedo onde foi exposta, embora a imagem deste reapareça em duas provas.
- Na prova em que deve obter alguns fios do velo de ouro dos carneiros, ela pensa em encontrar o repouso de seus males se precipitando de um rochedo na margem, como os amantes infelizes em Lêucade.
- Nas fontes do Estige, diante da imensidão da empresa, ela se dirige ao cume da montanha para encontrar o termo de uma vida lamentável, vendo um rochedo desmesuradamente alto, rugoso, escorregadio e inacessível.
- Antes da prova mais perigosa, ela se dirige a uma alta torre para dali se precipitar, pensando ser o caminho mais direto e fácil para descer aos infernos.
- A torre fala: “Por que, infeliz criança, procuras te destruir te jogando no vazio? […] Quando teu espírito for separado de teu corpo, irás sem dúvida ao fundo do Tênaro, mas não poderás voltar de maneira alguma.”
- Seguem-se os numerosos e precisos conselhos que salvarão Psique da pérfida empresa.
- O ponto mais baixo no esquema é o reino dos mortos (palácio de Orco), de onde, após uma nova falta por sua curiosidade, Psique “mergulhará” no mundo dos imortais, da claridade eterna, atingindo o ponto mais alto em seu percurso.
- O caminho da iniciação é longo e doloroso, não se realiza em uma trajetória única nem retilínea, e não pode ser brutal, realizando-se na solidão do pensamento e no engajamento em uma escolha superior.
- As irmãs de Psique fizeram apenas idas e vindas à mesma pedra de tropeço, desejando as riquezas visíveis do mundo.
- Psique escolheu o invisível, o interior, o obscuro e o silêncio por uma luz superior, e suas provas são seus desapegos.
- Conforme uma perspectiva que vê a sedução banal e o apego exclusivo à terra-mãe como uma revolta do intelecto contra o espírito e uma queda original, esquece-se a profundidade misteriosa de toda vida.
Sonos, contos e mentiras
O conto de Psique não é dado de imediato no texto das Metamorfoses; antes, é-se conduzido à caverna dos ladrões, onde se ouvem as lamentações de uma jovem mulher raptada em seu dia de núpcias.
- Ela adormece e tem um sonho terrível no qual reedita sua infelicidade, atravessando solidões inacessíveis e vendo seu pobre marido ser morto a pedrada por um dos ladrões.
- O conto provém do imemorial, dos sonhos e delírios de uma velha embriagada que adverte que os sonhos diurnos são mentirosos e que as visões noturnas podem ter efeitos contrários ao que apresentam.
- A história de Psique, que começa após esse relato em abismo, ocorre sem contratempos no irreal do “era uma vez”, mudando depois da deposição de Psique no rochedo, onde ela adormece após ser levada por Zéfiro.
- O conto de Psique aparece sob as espécies do onirismo, pois os sentidos são satisfeitos no roçar, na carícia e no sussurro, nunca no contato que dá a resistência da matéria, diferentemente do mundo espesso que Psique só reencontra ao despertar.
- No interior do palácio, Psique inverte os dias e as noites: com o desaparecimento de Cupido ao amanhecer, ela passa o dia em lágrimas e se recolhe para dormir.
- É fora do sono que Psique executa suas provas, até que, ao retornar de Prosérpina e abrir a caixa de beleza, “um sono infernal, um verdadeiro sono do Estige, que a invade tão logo libertado de sua tampa, espalha sobre todos os membros um espesso vapor letárgico, e a estende cativa no caminho”.
Contos ou mentiras
Para fugir de uma situação incômoda, Psique improvisa dois “contos” para suas irmãs a fim de identificar o marido que não conhecia, tendo sido prometida pelo oráculo ao monstro.
- Ela inventa que é um belo jovem com buço sombreando as faces, ocupado em caçar nos campos e montanhas.
- Esquecendo o que disse antes, forja um novo conto: seu marido é de uma província vizinha, tem grandes negócios financeiros, está na maturidade da idade e tem alguns cabelos brancos.
- As irmãs se perguntam o que um curto espaço de tempo metamorfoseou em velho, concluindo que a miserável inventa mentiras ou que se engana sobre a idade do marido.
- As irmãs, por sua vez, inventam contos para seus maridos, a fim de obter permissão para retornar ao rochedo.
- Psique, ao ser pressionada para executar o assassinato do marido, descreve a visão do monstro que as irmãs fantasiaram.
- Após o feito e a fuga de Cupido, Psique, prostrada, conta às irmãs que ele fugiu dizendo que se casaria com a irmã (nome da irmã presente), cabendo a uma das irmãs, sob o aguilhão de uma paixão frenética, inventar um conto para enganar seu marido.
- Os contos de Psique, seus sentimentos e sua ação a dirigem para a visão de Cupido ou para sua própria libertação com a morte de suas irmãs.
- Os contos das duas irmãs levam, inversamente, à visão terrível e atualizada do monstro e finalmente à sua autodestruição.
- Há uma conivência entre as mentiras e a natureza dos personagens que as autores: as irmãs conduzem à visão de espanto, Psique, à beleza absoluta.
- O esquema mostra a abertura de Psique ao mundo, sua curiosidade fundamental, e a tensão natural das irmãs que as guia inevitavelmente para o material e o prosaico.
- Para as irmãs, o falo é uma serpente; para Psique, é Cupido.
- Após a morte das irmãs, Psique está definitivamente livre dos apelos da terra, mas suas provas em um nível superior apenas começam.
- A águia de Júpiter, para ajudar Psique a pegar água nas fontes do Estige, passa entre os dragões e inventa que vem por ordem de Vênus e que está a seu serviço, facilitando seu acesso.
- Os sonos fornecem uma dimensão noturna e indefinível ao relato, enquanto os contos e mentiras inscritos em abismo o levam a outras franjas, areias movediças que ao mesmo tempo o perdem e o enriquecem.
- “Espaços no espaço, momentos no tempo, encaixando-se, repetindo-se no idêntico”, assim vai a consciência psiqueica do mundo, radiante e difratada, fonte no entanto de um mesmo olhar.



