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ILHAS DOS BEM-AVENTURADOS

ROHDE, Erwin. Psyche: the cult of souls and belief in immortality among the Greeks. London: K. Paul, Trench, Trubner, 1925.

  • A imagem homérica da vida das sombras da alma desincorporada é fruto de resignação, não de esperança.
    • A esperança não se iludiria com a antecipação de um estado que não oferecesse aos homens chance de atividade futura após a morte nem descanso do labor da vida.
    • Essa condição prometia apenas um adejar inquieto e sem propósito, uma existência sem o conteúdo que a tornaria digna do nome de vida.
  • Indaga-se sobre a existência de aspirações por uma visão mais consoladora da vida após a morte naquele período.
    • Questiona-se se as imensas energias vitais da época se dedicavam tão completamente ao reino de Zeus que nenhuma esperança penetrava na Casa de Hades.
    • Tal suposição seria necessária não fosse por um vislumbre passageiro de uma terra distante de desejos, ainda imaginada sob a ordem homérica.
  • Proteu, a divindade marinha profética, informa a Menelau sobre seu destino final nas margens do Egito.
    • Menelau relata a Telêmaco, no quarto livro da Odisseia, que não está destinado a morrer em Argos, mas a ser enviado pelos imortais à planície Elísia.
    • Na planície Elísia habita o loiro Radamanto, onde a vida é mais fácil para os homens.
    • O local é descrito como livre de neve, tempestades ou chuva, refrescado pelos ventos de Zéfiro enviados por Oceano.
    • O privilégio de Menelau decorre de seu casamento com Helena, tornando-o genro de Zeus aos olhos dos deuses.
  • Esses versos oferecem um vislumbre de um mundo sobre o qual os poemas homéricos costumam silenciar.
  • No limite do mundo, junto ao rio Oceano, situa-se a Planície Elísia, terra de céu sempre límpido como a morada dos deuses.
    • Radamanto habita o local, possivelmente acompanhado por outros homens.
  • Os deuses enviarão Menelau para esse local sem que ele precise morrer.
    • O herói deve alcançar o lugar vivo e não sofrerá a morte naquele recinto.
  • O Elísio não faz parte do reino de Hades, sendo uma terra na superfície da terra destinada não a almas desincorporadas, mas a homens cujas almas não se separaram de seus corpos visíveis.
    • A fruição da vida nesse local exige a manutenção da integridade entre alma e corpo.
  • Essa concepção representa o oposto exato da imortalidade abençoada da alma em uma existência separada.
  • Diante da impensabilidade de uma vida após a morte para as sombras, a esperança buscou uma saída do mundo das sombras que consome a energia vital.
    • Imaginou-se uma terra no fim do mundo, mas ainda pertencente a este mundo, para a qual favoritos dos deuses seriam transladados sem que a psiquê descesse ao Hades.
  • A menção explícita a essa translação milagrosa é um caso isolado nos poemas homéricos, sugerindo uma inserção posterior na Odisseia.
    • As condições para tal milagre, contudo, estão implícitas no horizonte de ideias homéricas.
  • Menelau é levado pelo poder divino para viver uma vida eterna longe do mundo dos mortais.
  • A crença de que um deus poderia retirar subitamente seu favorito da vista dos homens aparece em cenas de batalha da Ilíada.
    • Os deuses possuíam a capacidade de tornar um mortal invisível por períodos prolongados.
  • O desaparecimento prolongado de Odisseu gera a suspeita entre seus amigos de que os deuses o tornaram invisível.
    • Não o consideram morto, mas levado pelas Harpias, retirado do conhecimento humano.
    • Penélope roga por uma morte rápida por Ártemis ou para que um vento de tempestade a leve aos canais de Oceano, na entrada da terra dos mortos.
  • Penélope recorda um conto popular sobre as filhas de Pandareu para justificar seu desejo.
    • Órfãs, as donzelas foram criadas por Afrodite e dotadas de dons por Hera, Ártemis e Atena.
    • Enquanto Afrodite buscava um casamento para elas no Olimpo junto a Zeus, as Harpias as levaram para servir às odiadas Erínias.
  • O conto popular revela a crença de que homens poderiam ser retirados permanentemente do mundo dos vivos sem passar pela morte.
  • As filhas de Pandareu foram levadas vivas para o Reino dos Mortos, onde se tornaram servas das Erínias.
  • O desejo de Penélope é ser transladada sem morrer para longe de uma vida tornada intolerável.
  • A translação é realizada pelas Harpias ou pelo Vento de Tempestade, sendo ambos divindades eólicas de caráter sinistro.
    • Tais figuras assemelham-se à Noiva do Diabo ou à Noiva do Redemoinho do folclore alemão.
  • As Harpias pertencem a uma mitologia vulgar que raramente encontra expressão no estilo elevado de Homero.
    • Trata-se de um folclore popular que trata de fenômenos ignorados pela narrativa homérica grandiosa.
  • Em Homero, as Harpias não agem por autoridade própria.
    • Atuam apenas como servas dos deuses para transportar mortais para além do alcance humano.
  • A remoção de Menelau para os campos Elísios é mais um exemplo de translação pela vontade divina.
  • A promessa de habitação prolongada em terra feliz não diferencia o destino de Menelau do destino das filhas de Pandareu ou do desejo de Penélope.
  • Para Menelau, a vida imortal é prometida em um país especial dos abençoados, comparável a um novo reino dos deuses.
    • Ele deve tornar-se um deus, pois nos poetas homéricos os termos deus e imortal são intercambiáveis.
    • Um homem que recebe a imortalidade sem que a psiquê se separe do corpo torna-se, para eles, uma divindade.
  • A crença homérica admite que deuses elevem mortais ao seu próprio reino de imortalidade.
    • Calipso deseja tornar Odisseu imortal e jovem para sempre, transformando-o em um deus como ela.
  • A imortalidade divina está condicionada ao consumo de ambrosia e néctar.
    • O ser humano que ingere continuamente o alimento dos deuses torna-se um deus imortal.
  • Odisseu rejeita essa oferta por lealdade ao lar terreno, mas outros mortais alcançaram tal estado.
    • Os poemas homéricos relatam casos de mortais promovidos à vida imortal.
  • Ino Leucoteia, filha de Cadmo, auxilia Odisseu na tempestade.
    • Outrora uma mulher mortal, ela compartilha agora a honra dos deuses nas ondas do mar.
    • Admite-se a possibilidade de um deus descer à terra e levar uma donzela para ser sua esposa eterna.
  • Ganimedes, o mais belo dos mortais, foi levado pelos deuses ao Olimpo para ser o copeiro de Zeus.
    • Ganimedes pertencia à antiga casa real troiana, assim como Titono.
  • Titono é conhecido na Ilíada e na Odisseia como o esposo de Eos.
    • A deusa surge todas as manhãs de seu lado para trazer luz a deuses e homens.
    • Eos teria transladado seu amado para uma morada distante junto ao rio Oceano.
  • Eos também levou o belo Órion, desfrutando de seu amor até que Ártemis o matasse em Ortígia com uma flecha suave.
    • A história pode derivar de antigos mitos estelares que personificam fenômenos celestes.
    • Espíritos estelares foram rebaixados, na poesia homérica, ao nível de heróis e jovens terrenos.
    • Se uma deusa pode elevar Órion ao seu reino, o mesmo poderia ocorrer com qualquer mortal favorecido pelos deuses.
  • O conto de Cleito, jovem da família do vidente Melampo, é uma imitação dessa legenda em contexto humano.
    • Eos o levou por causa de sua beleza para habitar entre os deuses.
  • A translação de Menelau para a felicidade perpétua é um milagre com precedentes na crença homérica.
  • A novidade reside na atribuição de um local específico, os Campos Elísios, em vez da morada direta dos deuses.
    • Menelau não habita com uma divindade específica, como Titono ou como Calipso desejava para Odisseu.
  • O autor dos versos provavelmente não inventou a Terra dos Partidos.
    • A brevidade com que descreve os deleites do local sugere que a visão já era conhecida.
    • Menelau é apenas um novo companheiro adicionado ao grupo dos abençoados.
  • A presença de Radamanto, o Justo, parece provir de uma tradição antiga conhecida pelo poeta.
    • Radamanto é irmão de Minos e sua escolha para o local não é justificada na obra.
    • É possível que o quadro do local maravilhoso tenha sido criado originalmente em benefício de Radamanto.
  • O elemento novo é a inclusão de um herói do ciclo épico troiano entre os transladados para a felicidade eterna.
  • As linhas foram inseridas tardiamente na profecia de Proteu e parecem alheias ao pensamento de cantores homéricos anteriores.
  • Se a imaginação já contemplasse uma vida isenta de morte, heróis como Aquiles não estariam condenados ao mundo das sombras.
    • Aquiles e a elite da cavalaria heroica aparecem vagando no Hades durante a Nequia da Odisseia.
  • Como o destino de Menelau não havia sido decidido nos poemas da Guerra de Troia, um poeta posterior pôde narrar sua translação.
  • É provável que a concepção de um local de repouso para heróis vivos não estivesse formulada durante a composição da descida de Odisseu ao Hades.
  • A ideia encaixa-se na estrutura de crenças homéricas, mas não é exigida por ela.
    • Supõe-se que a noção tenha entrado na epopeia vinda de fontes externas.
  • Há inclinação para relacionar essas lendas gregas a tradições semíticas, como as de Hasisatra e Enoch.
    • Hasisatra e Enoch foram transladados para a vida imortal sem sofrer a morte.
    • A derivação mecânica pouco explica sobre as razões da mente grega para adotar essa ideia.
    • Nada impede a origem independente da crença em diferentes países a partir de necessidades similares.
  • A nova ideia não contradizia as crenças homéricas normais sobre a alma, mas as suplementava sem incongruência.
  • O conceito baseava-se em percepções familiares e naturais ao pensamento grego.
    • Não houve necessidade de estímulos externos para produzir a ideia do Elísio apresentada na profecia de Proteu.
  • A importância dessa criação para o desenvolvimento da crença grega exige clareza sobre sua natureza inovadora.
  • Questiona-se se o local seria um paraíso para os piedosos, um Valhala grego ou uma conciliação entre virtude e felicidade.
  • Os versos não sustentam tais interpretações morais.
    • Menelau não se destacou pelas virtudes mais valorizadas da era homérica.
    • Sua ida ao Elísio deve-se exclusivamente ao fato de ser marido de Helena e, portanto, genro de Zeus.
  • Não se informa a razão de Radamanto ter alcançado a felicidade.
  • Radamanto, como irmão de Minos, também era filho de Zeus.
    • O título de Justo, usado por poetas posteriores, não aparece como justificativa no texto original.
  • Não há traços de que a virtude ou o mérito dessem direito à bem-aventurança após a vida.
  • A preservação da psiquê no corpo e a evitação da morte ocorrem apenas por milagre ou magia como casos excepcionais.
    • A translação permanece um privilégio de poucos favoritos dos deuses.
    • Não se pode deduzir desses casos um artigo de fé de aplicação universal.
  • O paralelo mais próximo é a preservação milagrosa da consciência de três inimigos dos deuses no Hades, citados na Nequia.
    • Os penitentes no Érebo e os abençoados no Elísio representam exceções que não alteram a regra da crença homérica.
    • Em ambos os casos, a onipotência divina rompe a norma estabelecida.
  • Aqueles que escapam da morte por favor divino são parentes próximos dos deuses.
    • O parentesco parece ser a única razão para o favorecimento.
  • A nobreza de linhagem poderia preservar o homem da descida ao reino da nulidade após a separação da psiquê.
  • Crenças de povos primitivos frequentemente destinam o homem comum a um país sem alegria, reservando a felicidade para descendentes de reis e deuses.
  • Essa noção é apenas fracamente aparente na promessa feita a Menelau.
    • Não se menciona uma regra geral da qual o caso individual possa ser deduzido.
  • Os indivíduos admitidos no Elísio estão demasiado distantes para influenciar o mundo dos vivos.
    • Assemelham-se aos deuses apenas no gozo de uma vida consciente interminável.
  • Os transladados não possuem parcela da onipotência divina.
    • Sua condição assemelha-se, nesse aspecto, aos habitantes do Érebo.
  • A origem das histórias de translação não deve ser buscada em cultos oferecidos aos heróis em suas moradas terrenas.
  • O culto religioso exige algo real e poderoso.
    • Nem a religião popular nem a fantasia poética colocariam heróis poderosos em locais tão inacessíveis.
  • A fantasia poética, em sua atividade livre, criou e adornou esse refúgio da aspiração humana na planície Elísia.
    • As necessidades satisfeitas por essa criação eram poéticas, não religiosas.
  • A atmosfera da Odisseia difere da Ilíada, que se foca na manifestação da energia vital.
  • Os sentimentos dos conquistadores na costa asiática mudaram com a posse tranquila de suas conquistas.
  • A Odisseia parece refletir o temperamento e a aspiração dos cidadãos jônicos de um período posterior.
    • Um espírito de contentamento e lazer flui como subcorrente no poema.
  • O poeta expressa sentimentos através de cenas idílicas de prazer cotidiano.
    • Tais cenas ocorrem no país dos feácios, na fazenda de Eumeu e no palácio de Menelau.
    • As lutas do passado tornam-se meras memórias agradáveis nas casas de Nestor e Menelau.
  • A natureza é descrita com suavidade na ilha de Siriê, terra natal de Eumeu.
    • O povo vive livre de necessidade e dor até a velhice, quando Apolo e Ártemis trazem a morte suave.
  • O poeta localiza essa ilha além de Ortígia, onde o sol se volta.
    • A localização exata de Ortígia e do ponto de retorno do sol no Oeste é incerta.
  • O país da felicidade idílica situa-se quase além dos limites deste mundo.
    • Mercadores fenícios e marinheiros jônicos poderiam esperar encontrar tais habitações no mar.
  • A vida dos feácios assemelha-se a um ideal de estado jônico fundado em terra distante, longe da competição e limitações.
  • Esse quadro onírico é inacessível, sendo alcançado apenas por acaso em navios mágicos.
  • Não há razão para ver nos feácios um povo de balseiros dos mortos.
  • A fantasia que criou o país dos feácios é aparentada àquela que concebeu a planície Elísia.
  • A bem-aventurança plena é projetada para os confins remotos da terra, protegida contra intrusões.
    • O Elísio deve situar-se além dos limites da vida real, mais remoto que os etíopes ou os Abioi do Norte.
  • A felicidade dos que desfrutam a vida eterna exige um local fora do alcance de qualquer descoberta futura.
  • A existência no Elísio é imaginada como uma condição de deleite perfeito sob um céu benigno.
    • A vida é fácil e sem tribulações, assemelhando-se à dos deuses, mas sem aspiração ou atividade.
  • É duvidoso que o poeta da Ilíada considerasse tal futuro digno de seus heróis ou o chamasse de felicidade.
  • O poeta que inseriu esses versos na Odisseia não foi o primeiro inventor do paraíso elísio.
    • Ao introduzir a nova crença no poema homérico, deu a essa ideia um lugar duradouro na imaginação grega.
    • O que aparecia na Ilíada ou na Odisseia garantia a lembrança perpétua.
  • A imaginação grega manteve a fantasia de uma terra distante para onde mortais seriam transladados por favor divino.
    • A poesia pós-homérica interessava-se pelo relato de novos exemplos de translação no ciclo de lendas tebanas e troianas.
  • O Kypria descreveu como o exército aqueu em Áulis foi retido por ventos enviados por Ártemis.
    • Agamemnon, sob conselho de Calcas, sacrificaria sua filha Ifigênia.
    • Ártemis retirou a donzela e a transportou para a terra dos taurianos, tornando-a imortal.
  • O Aithiopis relata a ajuda de Pentessileia e suas Amazonas aos troianos e, após sua morte, a de Mênon, príncipe etíope.
    • Antíloco, favorito de Aquiles, cai na guerra, e Aquiles mata Mênon.
    • Eos, mãe de Mênon, obtém de Zeus a permissão para dar imortalidade ao filho.
    • Vasos gregos representam a mãe carregando o corpo morto do filho pelo ar.
  • Na Ilíada, Apolo, com Sono e Morte, leva o corpo de Sarpedon para ser enterrado em sua terra natal.
    • O poeta do Aithiopis superou o modelo da Ilíada ao fazer Eos despertar o filho para a vida imortal no Oriente.
  • O destino alcança Aquiles logo após a morte de Mênon.
    • Tétis, as Musas e divindades marinhas cantam o lamento fúnebre sobre seu corpo.
    • No último livro da Odisseia, narra-se que o corpo foi queimado e a psiquê partiu para a Casa de Hades.
    • A psiquê de Agamemnon relata essa história a Aquiles no submundo.
  • O autor do Aithiopis introduz uma inovação importante no material tradicional.
    • Tétis retira o corpo do filho da pira funerária e o leva para Leuke.
    • Relatos posteriores confirmam que o poeta narrou a restauração da vida e a imortalidade de Aquiles naquele local.
  • Os oponentes Aquiles e Mênon são libertados do destino mortal por suas mães deusas.
    • Continuam a viver em corpos restaurados em terras maravilhosas — Mênon no Oriente e Aquiles na Ilha Branca.
    • Marinheiros gregos localizaram posteriormente esse local mítico no Mar Euxino.
  • A Telegoneia relata o destino da família de Odisseu de forma paralela à translação de Menelau.
    • Telégono, filho de Odisseu e Circe, mata o pai sem saber.
    • Ao descobrir o erro, leva o corpo de Odisseu, Penélope e Telêmaco para Circe, que os torna imortais.
    • Habitam agora na ilha Aiaia — Penélope com Telégono e Circe com Telêmaco.
  • Observa-se que nessas histórias não há menção a um local comum de reunião para os eleitos, como a planície Elísia.
  • A influência dos versos da Odisseia sobre a translação de Menelau no desenvolvimento das épicas pós-homéricas foi considerável.
  • Histórias de translação individual para abrigos solitários seguem a mesma direção da fantasia que criou o Elísio.
    • Mênon entra em um estado peculiar que o diferencia tanto dos homens quanto dos deuses.
    • O mesmo se aplica a Aquiles e outros heróis transladados.
  • A poesia aumentou o número daqueles que pertenciam a esse reino intermediário fora do Olimpo.
  • Apenas indivíduos favorecidos entram nesse reino através do instinto criativo da fantasia poética.
  • O culto religioso não influenciou o desenvolvimento dessas histórias mais do que influenciou a narrativa de Menelau.
    • O culto pago a Aquiles em uma ilha no Danúbio foi resultado, e não causa, da história.
  • Ifigênia era o epíteto de uma deusa lunar, mas o poeta a tratava apenas como filha de Agamemnon.
    • O poeta não inventou a imortalidade dela a partir de um encontro acidental com o culto da deusa.
    • A essência da narrativa reside na elevação de uma donzela mortal à vida imortal, não na veneração religiosa.
  • A expansão do material lendário prosseguiu em poemas genealógicos.
    • Não se pode julgar com precisão até que ponto o motivo da translação foi utilizado por falta de materiais.
  • A concessão de imortalidade a figuras como Telégono sugere que todos os heróis da tradição épica passaram a ter um direito virtual a essa existência.
    • Heróis importantes cujos fins não foram selados por Homero poderiam ser incluídos.
  • Poemas sobre o Retorno dos Heróis de Troia podem ter dado margem a muitas histórias de translação.
    • Diomedes é frequentemente citado como imortal em mitologias posteriores.
    • Uma canção popular ática do século V menciona Diomedes vivendo nas Ilhas dos Bem-aventurados.
  • Conclui-se que uma companhia muito maior de heróis era imaginada nessas ilhas do que sugerem os sumários preservados.
  • Essa conclusão deriva de versos hesíodicos que informam sobre as formas mais antigas do Culto das Almas e da crença na imortalidade.
  • O poema hesiódico Trabalhos e Dias consiste em peças didáticas ou narrativas independentes, incluindo a história das Cinco Idades dos Homens.
  • No início, os deuses criaram uma raça de Ouro que vivia como deuses, sem cuidados, doenças ou velhice.
    • Após a morte, que vinha como o sono, tornaram-se Daimones e Guardiões da humanidade por vontade de Zeus.
  • Seguiu-se uma raça de Prata, inferior em corpo e mente.
    • Possuíam infância longa e juventude curta, marcada por orgulho e falta de devoção aos deuses.
    • Zeus os destruiu por recusarem honras divinas, tornando-os Daimones do Submundo, de categoria inferior.
  • A terceira raça foi a de Bronze, forte e de coração duro, deleitando-se na guerra.
    • Destruídos por suas próprias mãos, desceram sem honra para a Casa de Hades.
  • Zeus criou uma quarta raça, mais justa e melhor, a raça dos Heróis chamados Semideuses.
    • Lutaram em Tebas e Troia; alguns morreram, outros foram enviados por Zeus para as Ilhas dos Bem-aventurados no rio Oceano.
    • Nessas ilhas, a terra produz frutos três vezes por ano.
  • O poeta lamenta pertencer à quinta idade, a Idade do Ferro, marcada por labor e dor incessantes.
    • A força vence o direito, a inveja impera e a vergonha e a retribuição (Nêmese) abandonam a humanidade em direção aos deuses.
    • Resta apenas o infortúnio sem defesa contra o mal.
  • O autor reflete sobre a origem e o crescimento do mal no mundo humano.
    • Observa a degeneração do homem da felicidade divina até a miséria extrema.
  • Segue-se uma concepção popular que projeta a perfeição no passado.
    • Histórias pitorescas e sonhos de poetas incentivam a tendência de reter apenas traços atraentes do passado na memória.
  • O folclore de muitas terras narra uma Idade de Ouro e a queda gradual da humanidade.
    • Especulações semelhantes surgiram de forma independente em vários povos.
  • Ideias de degeneração gradual através de várias idades apresentam semelhanças com o quadro hesiódico.
  • Homero ocasionalmente compartilha esse humor ao idealizar o passado em comparação com os homens do presente.
    • Poucos filhos são iguais aos pais em virtude; a maioria é pior.
  • O poeta épico mantém sua fantasia nas alturas do passado heroico.
    • Apenas ocasionalmente vislumbra o nível comum da vida real.
  • O poeta de Trabalhos e Dias fixa seus pensamentos na vida contemporânea real.
    • Seu olhar sobre o passado histórico torna-se mais amargo por esse motivo.
  • A deterioração gradual é apresentada como uma narrativa tradicional de fatos históricos.
    • O autor deve ter considerado seu relato como história, apesar da escassez de tradição histórica real em seus dados.
  • A narrativa permanece um quadro imaginário com desenvolvimento logicamente definido e regulado.
    • A felicidade sem eventos da primeira raça é seguida pelo orgulho da segunda e a maldade ativa da terceira.
    • A última idade marca o colapso de toda contenção moral.
  • A quarta raça, dos heróis de Tebas e Troia, é a única que não recebe o nome de um metal.
    • Representa um elemento estranho no processo evolutivo, interrompendo o declínio.
    • Não é aparente a razão dessa interrupção na sucessão de idades.
  • Comentaristas veem na quarta idade um fragmento de material estrangeiro adicionado deliberadamente por Hesíodo.
    • O poeta pode ter tomado a estrutura essencial de poetas mais antigos.
  • Hesíodo teria achado impossível ignorar as figuras da poesia heroica em sua descrição das idades.
  • É improvável que tenha introduzido a raça heroica apenas para contrastar com a descrição sombria da raça de bronze.
  • O poeta percebeu que quebrava a continuidade da deterioração moral.
    • Deve ter tido um objetivo diferente da simples descrição do declínio moral.
  • O interesse do poeta na raça heroica reside no que aconteceu com eles após a morte.
    • Não é a moralidade superior nem as batalhas de Tebas e Troia que ocupam o centro de seu interesse.
    • O que distingue os heróis das outras raças é o fato de alguns partirem desta vida sem morrer.
    • Esse tema secundário de descrever o destino post-mortem justifica a intrusão do episódio.
  • Homens da Idade de Ouro tornam-se Daimones sobre a terra por vontade de Zeus após a morte.
    • Atuam como guardiões, observando a justiça e distribuindo riquezas como reis.
  • Esses seres são realidades efetivas que agem entre os homens, não espíritos confinados em regiões inacessíveis.
  • O nome Daimones é aplicado por Hesíodo e Homero apenas aos deuses imortais.
    • Não deve ser entendido como uma classe intermediária separada de imortais, conforme especulação posterior.
  • Os Daimones de Hesíodo foram homens que se tornaram imortais apenas após a morte.
    • Compartilham o poder invisível e a vida eterna dos deuses.
    • Diferenciam-se dos deuses olímpicos por serem Daimones que governam sobre a terra.
  • Essa classe de seres é desconhecida para Homero.
    • Homero conhece indivíduos transladados em corpo e alma, mas ignora a alma exercendo influência fora do Érebo.
  • Em Hesíodo, os homens da Idade de Ouro vivem separados de seus corpos como seres divinos.
    • Tal como os deuses de Homero, as almas dos mortos em Hesíodo visitam cidades e observam as ações humanas.
  • As almas entraram em uma existência superior após a separação do corpo.
    • Trata-se de uma ideia ausente nos poemas homéricos.
  • É impensável que essa concepção seja uma invenção passageira do poeta boécio.
    • Ele menciona trinta mil guardiões imortais vagando pela terra a serviço de Zeus.
  • A concepção é utilizada para fins éticos no argumento do poeta.
  • Hesíodo não inventou nada na esfera da crença religiosa ou superstição.
    • A escola poética boécia era hostil à livre inventividade da escola homérica.
    • Os poetas boécios ordenavam ou registravam o que encontravam na tradição para ensinar.
  • A informação sobre almas que se tornam Daimones veio da tradição.
  • O relato contém um fragmento de crença primitiva que sobreviveu no interior da Boécia, sendo anterior a Homero.
  • Vestígios de um culto aos mortos em Homero sugerem a crença antiga na existência consciente da psiquê após a morte.
    • Honras religiosas eram pagas às almas desincorporadas no passado distante.
  • A narrativa de Hesíodo confirma documentalmente o que o estudo de Homero apenas permite extrair com dificuldade.
  • Encontra-se aqui a crença viva na elevação da alma a uma vida superior após a morte.
    • Refere-se a almas de uma raça desaparecida há muito tempo.
  • O culto a essas almas poderosas permanece ativo.
    • Se as almas da segunda raça recebem culto, as da primeira geração também o recebiam.
  • A raça de Prata foi ocultada sob a terra por Zeus e seus membros são chamados Abençoados Mortais.
    • Habitam as profundezas da terra e recebem honra religiosa como seres poderosos.
  • Não se segue que o poeta as visse como demônios perversos, mas mantêm uma relação distante com os olímpicos.
  • Não são chamados de Guardiões dos Homens nomeados por Zeus.
  • A denominação Abençoados Mortais revela o embaraço do poeta em usar o vocabulário homérico para descrever seres ignorados por Homero.
  • O nome Daimones não expressava a diferença essencial entre deuses eternos e mortais que alcançaram a imortalidade.
  • Eras posteriores passaram a chamar tais seres de Heróis.
  • Hesíodo os descreveu como deuses humanos, assemelhando-se aos deuses no novo estado, mas mantendo a natureza mortal de seus corpos.
  • Os espíritos da raça de Prata vivem nas profundezas da terra, distinguindo-se das sombras inconscientes do Hades.
    • Não são fantasmas do Érebo, pois recebem culto após a morte.
  • A Idade de Prata pertence a um passado remoto.
  • Os homens da Idade de Bronze desceram para a morada de Hades sem nome.
    • A Morte Negra os tomou e eles abandonaram a luz do sol.
  • O adjetivo sem nome sugere a ausência de título honroso como o das outras raças.
  • Segue-se a raça divina dos Heróis ou Semideuses, destruídos pelas guerras em Tebas e Troia.
    • Parte morreu, enquanto outros receberam de Zeus uma morada no fim do mundo.
    • Vivem livres de cuidados nas Ilhas dos Bem-aventurados, onde a terra traz frutos doces três vezes ao ano.
  • Alcança-se um período definível da história lendária associado à Ilíada e poemas afins.
  • O poeta inicia sua própria idade imediatamente após o desaparecimento dos heróis por falta de tradição histórica adicional.
  • A Idade Heroica é colocada por último para conectar-se à Idade do Ferro contemporânea.
  • Alguns heróis morrem e entram no Hades, enquanto outros alcançam as Ilhas dos Bem-aventurados.
    • Os últimos foram levados vivos em carne e osso, sem a separação da psiquê.
  • Hesíodo deve ter conhecido muitos exemplos desse tipo de separação sem morte na poesia heroica posterior.
  • O conceito de um local comum para os transladados deriva de fontes poéticas.
  • As Ilhas dos Bem-aventurados situam-se no Oceano, tal como a planície Elísia na Odisseia.
    • Os nomes designam o mesmo local de encontro dos transladados vivos.
  • O isolamento completo é a característica essencial da translação.
  • Um verso posterior acrescenta que esses seres vivem longe de homens e imortais, governados por Cronos.
    • Segundo a lenda, Zeus libertou Cronos do Tártaro para governar os abençoados em um novo período de paz.
  • Hesíodo provocou a transferência de Cronos da Idade de Ouro para a terra dos transladados.
    • A descrição da vida dos abençoados guarda reminiscências da existência na Idade de Ouro.
  • Hesíodo não atribui influência sobre este mundo ou culto religioso às almas dos transladados.
    • Todas as relações com o mundo humano foram rompidas.
  • O poeta segue a fantasia poética sem interferência do culto religioso nesses casos.
  • As ideias sobre Daimones das Idades de Ouro e Prata foram derivadas do culto.
  • Sobreviveu na Grécia central um culto religioso pago às almas de certas classes de homens partudos.
    • Esse culto preservou uma crença que Homero havia obscurecido.
  • Para o poeta na Idade do Ferro, resta apenas a dissolução na nulidade do Érebo após a morte.
    • O silêncio sobre o destino de sua própria geração indica a ausência de esperança em compensações futuras.
  • A esperança mencionada em outra parte do poema não ilumina o próximo mundo.
  • O conforto vem apenas do que o mito religioso conta sobre o passado distante.
    • O milagre da translação não se repete no presente prosaico.
  • Homens de hoje podem adorar espíritos antigos, mas não serão adicionados ao número das almas exaltadas.
  • A descrição das idades oferece informações cruciais sobre o desenvolvimento da crença grega na alma.
  • O culto aos ancestrais baseava-se na crença da elevação de almas imateriais ao posto de espíritos ativos.
  • A companhia desses espíritos não recebe novas adições na contemporaneidade do poeta.
    • Por séculos, as almas têm sido reivindicadas pelo mundo das sombras de Hades.
  • O culto à alma tornou-se estacionário, afetando apenas os partudos de longa data.
  • Os poemas homéricos triunfaram, estabelecendo que a psiquê perde consciência e poder após a morte.
  • As Ilhas dos Bem-aventurados permanecem no horizonte, mas o círculo dos afortunados está fechado.
  • A memória sobrevive de que outrora as almas alcançavam uma vida undivina e superior.
  • No interior da Grécia, entre camponeses boécios, restaram vestígios de costumes antigos esquecidos nas cidades marítimas.
  • O culto das almas não está morto e poderá renovar sua força quando a influência homérica for rompida.
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