1.8 Fim de um Ciclo
HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
1. A narrativa renascentista da sabedoria antiga, fundada no orientalismo platônico e na apologética patrística, constitui a base conceitual do corpus referencial inicial do esoterismo ocidental, o que significa que este se funda num conceito historiográfico e não numa visão de mundo, numa abordagem do conhecimento ou numa “forma de pensamento”, embora, por derivar do orientalismo platônico, tenha incorporado as visões filosóficas e epistemologias salvíficas da Antiguidade tardia, explicando a presença generalizada das correspondências, da natureza viva, da imaginação e das mediações e talvez da transmutação, destacadas por Antoine Faivre, bem como da gnose e da preocupação com o segredo, esta intensificada pela introdução da Cabala por Pico.
2. Fundado num conceito historiográfico de sabedoria antiga, desenvolvido quando a consciência histórica estava na infância e sobre pressupostos teológicos e metafísicos inquestionáveis, o corpus referencial do esoterismo resultou não numa história das opiniões humanas, mas numa história da verdade, projeto ambíguo e autodestrutivo, já que a verdade absoluta não pode mudar no tempo sem deixar de ser absoluta, constituindo assim uma abordagem intrinsecamente a-histórica de questões históricas, involuntária no Renascimento, mas que a partir do século XVIII tornaria essa narrativa atraente para autores com projetos deliberadamente anti-históricos, inclusive acadêmicos influentes.
3. Entre o final do século XVI e o XVII, com o desenvolvimento da filologia crítica, a verdade da história alcançou progressivamente a história da verdade, processo que Frances Yates atribuiu à demonstração de Isaac Casaubon, em 1614, de que o “Corpus Hermeticum” datava dos primeiros séculos cristãos, mas que na realidade culminava uma crítica iniciada na década de 1560 e que destruiu a legitimidade intelectual de todas as variantes da narrativa da sabedoria antiga, ao datar também os Oráculos Caldeus e os Hinos Órficos dos primeiros séculos e ao distinguir as ideias do próprio Platão das dos médio e neoplatônicos, inclusive a de um Platão esotérico de fontes orientais.
4. Embora a crítica filológica tenha tornado intelectualmente insustentável a narrativa da sabedoria antiga, argumentos eruditos raramente bastam para destruir convicções religiosas, pois, como observou Evans-Pritchard, fora do comportamento empírico ou científico as pessoas procuram adequar noções e condutas a sentimentos e valores, sem se preocupar com a validade científica das premissas ou a lógica das inferências, formando esses sentimentos e valores um sistema de pensamento com lógica própria.
5. Daí resultam duas consequências, a sobrevivência da narrativa da sabedoria antiga após Casaubon até o presente, não tanto pela refutação dos argumentos filológicos, mas pela preferência dada aos sentimentos e valores sobre as considerações racionais, e a necessidade de compreender a própria destruição filológica dessa narrativa num contexto mais amplo de narrativas religiosas cujos sentimentos e valores exigiam uma rejeição radical do paganismo e uma crítica de sua ligação histórica com o cristianismo.
