2 Era elisabetana
YATES, Frances A. The Occult Philosophy in the Elizabethan Age. London: Routledge & Kegan Paul, 1979.
1. O mundo elisabetano era povoado não apenas por marinheiros rudes, políticos pragmáticos e teólogos sérios, mas também por espíritos bons e maus, fadas, demônios, bruxas, fantasmas e conjuradores, fato bem conhecido e refletido em sua poesia, como no poema épico que exprimiu as aspirações da época, construído em torno de uma rainha “das fadas” e tendo entre suas figuras mais significativas um encantador, e nas maiores peças do maior poeta do período, impregnadas da atmosfera do oculto, em que Macbeth encontra bruxas e Hamlet é assombrado por um fantasma, cabendo perguntar se essa preocupação com o oculto derivava apenas de tradições ou influências populares ou se tinha alguma conexão profunda com a filosofia da época.
2. A questão consiste em saber se havia uma filosofia do oculto característica do Renascimento que pudesse ainda estar operando com renovado vigor no Renascimento elisabetano, filosofia cuja história foi percorrida anteriormente e que se revela, em estreita continuidade, como a filosofia dominante da era elisabetana, precisamente a filosofia oculta, com sua magia, sua melancolia, seu propósito de penetrar em esferas profundas do conhecimento e da experiência, científicas e espirituais, seu temor dos perigos de tal busca e a feroz oposição que encontrou.
3. O filósofo característico da era elisabetana foi John Dee, cujo prefácio matemático à tradução inglesa de Euclides (1570) começa com uma invocação ao “divino Platão” e cita Henrique Cornélio Agrippa sobre os três mundos, obra de um neoplatônico renascentista organicamente ligado ao núcleo hermético-cabalista do movimento, sobretudo na formulação de seu expoente mais extremo, Agrippa, que cita Pico della Mirandola sobre o número e segue Pico, Reuchlin e Agrippa no desenvolvimento intenso do lado pitagórico ou matemático do movimento, tendo esse prefácio e seu ensinamento em geral exercido imensa influência no estímulo ao Renascimento científico elisabetano.
4. Dee era famoso não só como matemático, mas também, ou antes infame, como “conjurador”, e a conciliação de seus interesses científicos e ocultos com sua sincera pretensão de ser um cristão devoto e com seu apoio à Reforma Tudor explica-se pelo fato de ter sido um cabalista cristão, partidário da filosofia “mais poderosa” implícita no neoplatonismo tal como entendido por Pico, Reuchlin, Giorgi e Agrippa e desenvolvido na tradição oculta renascentista.
5. Considerar Dee um cabalista cristão esclarece as aparentes anomalias de sua visão, explicando como o mesmo homem podia ser matemático brilhante, ardente propagador dos estudos científicos e “conjurador” de anjos, ao mesmo tempo em que se julgava fervorosamente um cristão reformado, e explicando também seus misteriosos projetos de alcance mundial e natureza religiosa e sua jornada missionária ao continente, pois, como representante da melancolia inspirada com seus três estágios de visão expostos por Agrippa, ele veria na Cabala cristã, a filosofia “mais poderosa” destinada a suplantar a escolástica, um movimento potencialmente mundial de reforma, aplicável não apenas à Inglaterra elisabetana.
6. Acompanhando os temas da história da filosofia oculta no Renascimento na vida e na obra de Dee, torna-se possível vê-lo em seu verdadeiro contexto histórico, como autêntico homem do Renascimento tardio que desenvolveu a filosofia oculta renascentista em direções científicas, envolvido no lado religioso e reformista do movimento, mas alcançado pela reação do final do século XVI.
7. Importa ter presente a data tardia do Renascimento elisabetano, que começa a florescer quando, no continente, a reação contra o neoplatonismo renascentista e os ocultismos a ele associados crescia enormemente em intensidade como parte do esforço contrarreformista de impor uma atitude restritiva a esse neoplatonismo, de modo que a construção, por Spenser, da rainha Elizabeth I como heroína neoplatônica constituía em si mesma um desafio às potências católicas da Contrarreforma e à sua atitude diante da filosofia renascentista.
8. Na década de 1590, quando Spenser publicou seu poema mágico sobre uma rainha das fadas e seus hinos neoplatônicos em honra dela, a reação continental estava em plena força, e o “neoplatonismo” marcava o filósofo elisabetano Dee e o poeta épico elisabetano Spenser como adeptos da filosofia oculta que a reação católica, poderosamente auxiliada pelos jesuítas, procurava extirpar, sendo o neoplatonismo de Spenser de tipo hermético-cabalista, expressão poética da visão de Dee e de seu ocultismo patriótico, e tendo provavelmente exercido grande influência sobre ambos a obra do frade cabalista de Veneza, Francesco Giorgi.
9. O exame da era elisabetana inicia-se com uma exposição sobre John Dee e seu pensamento, dividida em três partes correspondentes aos três principais períodos de sua vida, passando em seguida a um reexame do neoplatonismo de Spenser tal como apresentado em sua poesia, a fim de trazer à luz as influências ocultas em “The Faerie Queene”.
10. O “Doutor Fausto” de Marlowe pertence à reação, à atmosfera das febres de caça às bruxas e dos ataques contra Agrippa, associando-se ao assalto à filosofia oculta no “Fausto” o antissemitismo de “O Judeu de Malta”, ao passo que “The Shadow of Night” de Chapman, ao contrário, defende a filosofia oculta e, implicitamente, o ponto de vista de Dee e Spenser, por meio de sua sutil exposição da melancolia inspirada “saturnina”.
11. Nesse quadro da filosofia oculta na era elisabetana e das controvérsias que suscitou, abrem-se novas abordagens de Shakespeare, aludindo “O Mercador de Veneza” à questão contemporânea da conversão dos judeus pela Cabala cristã e ecoando a obra sobre a harmonia universal do frade cabalista de Veneza, Francesco Giorgi, sendo a melancolia de Hamlet a melancolia inspirada com suas visões proféticas e derivando a preocupação de Shakespeare com o oculto, com fantasmas, bruxas e fadas, menos da tradição popular do que de uma afinidade profundamente enraizada com a filosofia oculta erudita e suas implicações religiosas.
12. “Rei Lear”, escrito durante o terceiro período de Dee, época de sua desgraça e pobreza, reflete o próprio Dee como velho alquebrado, mal recompensado por ter dedicado a vida aos interesses da “Monarquia Britânica”, aludindo-se a seu ocultismo por meio da suposta possessão demoníaca de Tom o' Bedlam.
13. Em “A Tempestade”, escrita após a morte de Dee e durante o período do “renascimento elisabetano na era jacobina”, Dee é figurado em Próspero, nessa peça ousadíssima que apresenta um bom conjurador numa época em que a conjuração era acusação temida da propaganda reacionária.
14. O tema dessa investigação é, assim, em muitos aspectos, novo e desafiador, visando penetrar na era elisabetana e em sua filosofia como um período do pensamento passível de ser identificado e de ter suas origens avaliadas.
