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PROSTITUIÇÃO RITUAL ANTES DO CASAMENTO

GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.

  • Ao longo dos séculos, as consequências dos usos ligados à defloração ritual foram múltiplas e ramificadas, produzindo fenômenos distintos que vão da prostituição ocasional à hierodoilia.
    • Em primeiro lugar, a defloração ritual conduziu durante longo tempo, em muitos povos, a uma prostituição ocasional das mulheres
    • Em segundo lugar, a defloração por um personagem sagrado transformou-se em oferenda humana a esse personagem, que se convertia progressivamente em herói ou deus, e a união com esse deflorador — frequentemente revestido de uma pele animal — engendrou a união sexual mística com animais
    • Em terceiro lugar, a reação contra uma defloração ritual distinta do casamento levou ao estabelecimento de novos ritos, notadamente o casamento por rapto e os combates pós-iniciativos
    • Por fim, a defloração sagrada e os costumes terminais da iniciação deram nascimento à hierodoilia — termo pelo qual se designa habitualmente a prostituição sagrada
  • Os defloradores sagrados, que pertenciam originalmente a confrarias iniciáticas — centauros, lobisomens, sátiros ou homens-bodes, etc. — continuaram a intervir mesmo quando as iniciações tribais caíram em desuso por causa do alargamento da cidade e dos desenvolvimentos urbanos, realizando o rito antes do casamento por razões religiosas.
    • Quando as confrarias iniciáticas desapareceram ou caíram em descrédito, o papel de deflorador foi assumido pelos personagens que lhes haviam sucedido como detentores da energia sobrenatural — sacerdotes, bonzos, feiticeiros, xamãs ou reis, estes agindo como possuidores eminentes do poder sagrado
    • O direito de cozimento tem aí sua origem
    • Na lenda do herói irlandês Cuchulain, o rei do Ulster tinha por obrigação estrita — por geis — passar com cada mulher que se casasse em seus estados a noite de núpcias, sendo essa função de deflorador a mais direta de suas atribuições e estando a prosperidade de seus súditos vinculada ao cumprimento desse papel
  • No Oriente, a defloração ritual continuou a operar como parte da liturgia no interior do recinto sagrado ou mesmo no santuário, e em Hierópolis-Bambyce, na Síria, as moças ofereciam sua virgindade durante as cerimônias do culto.
    • Em Pafos, em Chipre, toda mulher, qualquer que fosse sua origem, devia se prostituir no santuário de Afrodite antes do casamento — referência: Ateneu XII, II; Heródoto I, 199
    • No Egito, segundo Estrabão, em Tebas uma jovem era consagrada a Amon e, nessa qualidade, se prostituía até seu próximo fluxo mensal, após o que se casava — referência: Estrabão XVIII, 1, 4d
    • Na Lídia, era admitido que cada jovem conquistava seu dote dessa maneira — referência: Heródoto I, 93
    • Na Babilônia, toda mulher piedosa devia ir ao menos uma vez na vida sentar-se no templo da fecundidade até que um estrangeiro se aproximasse, jogasse uma moeda de prata sobre seus joelhos e lhe dissesse: invoco Mylitta em teu favor — Mylitta era o nome da deusa babilônica do parto
    • A mulher seguia então o estrangeiro nas dependências do templo, e o dinheiro que recebia era sagrado; certas babilônicas desprovidas de atrativos esperavam anos antes de se conformar com a deusa — referência: G. Contenau, A Epopeia de Gilgamesh, p. 261
    • Em Éfrem Opera, 459 C., há referências a essas práticas sírias
  • Nos casos citados, o vínculo entre a defloração ritual operada no recinto sagrado e o casamento ainda aparece, embora se afrouxe progressivamente, até que em outros casos se perde totalmente de vista, restando apenas o ato de se prostituir no santuário.
    • O rito podia se cumprir após o casamento — como em certas prostituições sírias — sem tratar-se mais de defloração ritual, pois se havia passado por uma transição insensível a um uso que não retinha mais nada do desígnio inicial
    • O que importava no Oriente era que o rito se cumprisse no templo ou no recinto sagrado, sob a égide da deusa que antigamente presidia às iniciações — essa santificação pelo lugar substituía aquela que, em outros contextos, se efetuava pela intervenção de um personagem tido por sagrado
    • A obrigação de se dar apenas a um estrangeiro — como em Babilônia e em Biblos — recordava ainda a necessidade de recorrer a uma personalidade dotada de caráter especial, pois não é raro na etnografia que os estrangeiros sejam considerados seres à parte, em posse de um mana próprio
    • Na epopeia caldeia de Gilgamesh, a curiosa figura de Enkidu — ou Eabani — é a de um desses homens sagrados que vivem com os animais fora da aldeia agrícola; a mulher com quem o texto atual o coloca em relação é apresentada como uma cortesã que o inicia a uma nova civilização, fazendo-o perder os poderes que possuía em sua situação anterior — anteriormente era sem dúvida o iniciador e deflorador, e quando esse papel cessou de ser compreendido, a prostituição se desenvolveu, mas ele foi mantido em relação com uma mulher à qual se unia, ponto essencial na tradição antiga de ordem iniciática, embora essa mulher tivesse se tornado uma cortesã e ele não tivesse mais a quem deflorar
    • As tabuletas sumérias que contêm o relato datam do fim do terceiro milênio antes da era cristã, mas o texto remonta certamente a vários séculos além disso — para a tradição primeira, anterior às deformações, é necessário atingir o quarto milênio
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