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ESSÊNCIA DO HOMEM
GORDON, P. L’image du monde dans l’Antiquité. Paris: Éd. Arma artis, 2005.
A doutrina da essência dinâmica do homem e do universo
- A filosofia espontânea dos chamados selvagens não deve ser desdenhada, pois eles possuem uma filosofia que, em sua escala, vale tanto quanto a filosofia ocidental.
- A filosofia dos povos ditos primitivos decorre dos mesmos princípios iniciáticos fundamentais que traduzem a presença do super-homem no coração do homem.
- Esses princípios também atestam a existência de um cosmos radiante nos subterrâneos da matéria opaca.
- A vinculação das concepções filosóficas ao iniciacionismo sacerdotal é provada pela origem das cosmogonias e cosmologias.
- As práticas ascéticas do mundo subterrâneo, como jejum, macerações e continência, visam extenuar o organismo físico para permitir que ele se desprenda em sua realidade dinâmica.
- Mesmo quando a realidade dinâmica é concebida como um mana quase impessoal, as disciplinas ascéticas continuam a ser observadas.
- Essas práticas são julgadas indispensáveis para quem deseja fazer surgir em si uma forma superior de conhecimento e uma potência sobre-humana.
A ideia platônica.
- As noções provenientes do sacerdócio neolítico encontraram sua mais alta expressão na filosofia platônica, que revestiu de forma prestigiosa as crenças iniciáticas perenes.
- Pode-se dizer que todos os povos foram, em algum grau, platônicos, embora os selvagens tenham permanecido mais fiéis às concepções fundamentais do que o próprio filósofo grego.
- Platão viu na Ideia, substância interior do ser humano, uma realidade unicamente espiritual, o que desviou seu sistema e gerou as críticas de Aristóteles.
- Os selvagens nunca esquecem que o dinamismo interno é elemento material, embora escape às leis da matéria espacial.
Noções análogas em diferentes culturas.
- Noções análogas à essência dinâmica do homem são encontradas em diversas culturas, como o ka egípcio, os Fravashis iranianos, a fylgia escandinava, o genius latino, entre outros.
- Essas realidades dinâmicas interiores ao homem frequentemente atuam como anjos guardiões ou, após a morte, como Damas Brancas.
- Entre os povos bantos, o princípio subjacente ao ser físico é expresso por radicais verbais que significam estar direito, estar vivo, dando origem a palavras como coração, vida, consciência, alma humana e espírito dos mortos.
- Muitas línguas bantas relacionam a alma à noção de sopro, enquanto em um terceiro grupo, a palavra para sombra humana designa a alma.
- Sombra, sopro e outros termos não foram usados para conceber a alma, mas forneceram imagens e uma denominação para noções primordiais já existentes no pensamento humano.
- Na África negra, a realidade insaisível subjacente ao homem é considerada o princípio de vida, uma substância etérea que recebe visitas de espíritos durante o sono, que vai vê-los, que sonha e que é uma voz íntima inspiradora.
- A sombra, mais marcante nos países ensolarados, transpõe essa realidade para o exterior.
- Por extensão, o africano atribui uma forma ou uma “maneira” a tudo o que existe: mineral, planta e animal.
- A filosofia espontânea dos negros reúne, por esse caminho, a filosofia de Platão e a filosofia eterna.
Noções aparentadas ao conceito de mana.
- A realidade dinâmica que constitui o fundo do ser humano é frequentemente concebida de maneira vaga e identificada com a essência interna de outros seres, recebendo dos etnólogos o nome genérico de mana.
- Os malgaxes chamam essa força de hasina (virtude intrínseca e sobrenatural que torna uma coisa boa e eficaz).
- Os Sioux a nomeiam wakan, os Omahas wakanda, os Iroquois e Hurons orenda, os Algonquins manitou, entre outras denominações.
- Trata-se geralmente de uma energia considerada como não apropriada por natureza a seres pessoais, como atesta o depoimento de uma mulher ba-ronga que sabia da existência do céu (tifo) antes de aprender sobre um Pai celestial.
- Em alguns casos, essa força ultra-física se divide em uma força boa (como a baraka dos muçulmanos norte-africanos) e uma força má (como o ain, o mau olho).
- Na magia assíria, o termo manit designava a energia dinâmica em seu aspecto maléfico, enquanto na Austrália a força maléfica é chamada arungquillha.
- Na Austrália, a energia benéfica se desprende do churinga, um condensador da força benfazeja emanada dos ancestrais.
- Entre os pigmeus africanos, a força dinâmica subjacente se chama megbe, termo que também designa as almas-sombras que se reúnem nos antigos lugares de iniciação para se nutrir de frutos de imortalidade.
- Na França, a crença na veia e na desveia manifesta a existência desse poder secreto que rege o curso dos acontecimentos.
- Em todas as suas manifestações (mana, alma, espírito, duplo, anjo da guarda), trata-se de um poder invisível, uma realidade energética enfiada nas dobras da matéria espacial, produto direto de antigas crenças e práticas iniciáticas.
- Para os Anamitas, o Tinh-khi é a alma do universo e, ao mesmo tempo, a vida, a força e a saúde das criaturas vivas, sendo uma mistura original de mana e animismo.
- Na Índia, o Brahman é a força subjacente que anima tudo o que possui poder eficaz, a fórmula sagrada, o encantamento e a oração, além da energia ultra-física que liga os deuses aos homens.
- O Brahman (energia) está à disposição do brâmane (homem), que só ele sabe empregá-la e, por essa ciência, identifica-se com ela.
- Todas essas noções visam traduzir em conceito o sentimento de um universo real subjacente ao universo das percepções.
- As ideias mais elementares revelam o mesmo esforço que as grandiosas teorias científicas sobre a energia radiante, chegando fundamentalmente ao mesmo resultado.
A filosofia dos selvagens. — Sua fonte.
- A filosofia dos selvagens não deve ser desdenhada, pois eles possuem uma filosofia que, em sua escala, vale tanto quanto a filosofia ocidental, decorrendo dos mesmos princípios iniciáticos fundamentais.
- A vinculação das concepções filosóficas ao iniciacionismo sacerdotal é provada pela origem das cosmogonias e cosmologias.
- As práticas ascéticas do mundo subterrâneo visam extenuar o organismo físico para permitir que ele se desprenda em sua realidade dinâmica.
- Mesmo quando essa realidade é concebida como um mana quase impessoal, as disciplinas ascéticas continuam sendo julgadas indispensáveis para quem deseja tornar-se o ser que ele pode ser.
O yoga da Índia.
- O yoga da Índia é o exemplo mais perfeito da conexão primordial entre a filosofia e as práticas da iniciação.
- Todas as escolas filosóficas hindus recorrem ao yoga, demonstrando que a filosofia não é um simples esforço especulativo, mas deve se acompanhar de um esforço transformador de todo o ser.
- A filosofia primitiva, envolta no ritual de morte e ressurreição, era por excelência uma força transformadora que se tornava uma vida.
O Taoísmo chinês.
- O antigo Taoísmo chinês concebe que todo homem deve fazer nascer em si o “menino transcendente”, sua realidade dinâmica, para recuperar seu estado de origem.
- Quem consegue fazer nascer o menino transcendente com plenitude torna-se um Tchen, escapando às limitações do espaço e do tempo e integrando-se no Princípio das coisas.
- Os livros taoístas mencionam santos que flutuaram em pleno meio-dia nos ares, e os Cheng são a elite desses Tchen, tornando-se conselheiros do Supremo Uno para o governo da terra.
- Os Sien, ou eremitas, habitam montanhas sagradas, pois não puderam absorver inteiramente seu corpo fenomênico no menino transcendente, deixando uma co壳体.
- As práticas taoístas (abstinência, supressão das paixões, continência) procedem das antigas disciplinas iniciáticas, visando a liberação do elemento dinâmico velado pela visão espaço-temporal.
- O que é peculiar ao taoísmo são as diferenciações que levaram a usos profanos das regras ascéticas, como a fototerapia pela exposição ao sol e à lua, a aeroterapia pela respiração metódica, e a mecanoterapia e a quiroterapia por meio de massagens.
- Costumes como a acupuntura são inexplicáveis na antiguidade sem a referência à visão dinâmica do ser humano resultante do iniciacionismo teocrático.
O Çaktismo.
- O çaktismo, engendrado pela civilização feminina ou matriarcal, considera a união sexual como o ato essencial do culto, remetendo ao acasalamento inicial do ritual neolítico de criação.
- A Çakti (a energia) é a antiga Mãe Divina, rebaixada a manifestação agente de um deus masculino, mas os çaktas continuam adoradores da antiga Mãe neolítica.
- A postura yab-yum (pai-mãe) mostra o deus unido carnalmente a uma forma feminina, recordando a união inicial do ritual neolítico.
- Tardiamente, surgiram especulações em que o princípio masculino é o elemento estático e o feminino a força de manifestação que produz o universo fenomênico.
- Originalmente, a união sexual permitia alcançar a unidade dinâmica e quebrar a maya.
- O çaktismo de esquerda, que pretenderia restaurar a pureza ritual do mundo subterrâneo, frequentemente degenera em orgias inqualificáveis.
- O çaktismo gerou uma forma importante de yoga na qual a Mãe Divina é identificada a uma serpente, a Kundalini, que dorme enrolada na base da coluna vertebral, no nível do sexo.
- Ao longo da coluna, situam-se seis grandes centros (cakras), sendo o mais baixo (muladhara) o local onde a deusa (Devi) repousa enrolada.
- A atividade do sexo, juntamente com exercícios intelectuais, físicos e respiratórios, desperta a serpente transcendente, que remonta através dos diferentes cakras até o lótus superior (sahasrara).
- Quando a serpente atinge o lótus superior, o homem possui o terceiro olho e reúne-se ao universo dinâmico, acedendo à fonte da juventude.
- O corpo é atravessado por 3.500.000 artérias ou linhas de força (nadis), e o prana (sopro vital) às vezes se torna perceptível aos videntes como um fluido rosa e vermelho.
- O çaktismo demonstra que o homem contém no fundo de si mesmo uma realidade energética idêntica à da Mãe Divina, substância transcendente das coisas.
- Essa força interior está em conexão com a ascese, que permite seu desprendimento, situando-se na mesma esfera mental do sacerdócio neolítico.
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