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IGNORÂNCIA
- Antes de aprofundar as características principais do alaya-vijñana, é imprescindível examinar o mecanismo próprio da ilusão que se exprime na atividade consciente, pois a consciência — embora mereça consideração pelo papel maior que desempenha na realidade existencial — é, paradoxalmente, o fator principal do cegamento do sujeito, a causa própria do desenvolvimento da ignorância e da ilusão, funcionando como máscara e véu opaco que o impede de entrar em contato com a realidade efetiva.
- Guy Newland observa: “A cada instante do processo contínuo de cognição somos como que separados por uma tela do conhecimento das coisas tais como são realmente, porque nosso espírito opera sob o domínio da ignorância. A ignorância não é o fato de não saber, mas sim uma consciência que concebe de maneira errônea o modo como as coisas existem”
- A ignorância é responsável pelo poder que as emoções perturbadoras — desejo, ódio, medo, cólera — exercem sobre os seres
- A ignorância não existiria se a consciência individual não lhe desse constantemente nascimento
- A consciência é produtora de ignorância e condiciona a cegueira que dirige e habita o sujeito, acorrentando o espírito à “não-cognição” e reduzindo-o tragicamente ao “não-saber”, pois o sujeito — desde a mais tenra infância — é objeto das impressões falaciosas que interpreta como fruto de seu julgamento pessoal, superpondo à realidade um feixe de impressões mentais enganosas que identifica como o único real concreto.
- As impressões ou construções mentais perversas são designadas em sânscrito por samskara
- Ligado por seus apegos subjetivos, o ser se submete ao longo de toda a vida às exigências de uma subjetividade enferma e febril
- A ignorância é considerada pelos mestres da transmissão como o primeiro estágio da produção condicionada — em sânscrito pratitya-samutpada —, uma das Três Impurezas — em sânscrito asrava — e o último dos Dez Laços — em sânscrito samyojana
- Vítima de suas projeções fantasmáticas, o ser se revela o ridículo joguete de seus desejos contraditórios, dominado pelos móveis inconscientes que ditam seu agir e comandam seu julgamento, e a horrível dominação da ilusão cósmica — em sânscrito maya —, cujas consequências se exprimem no insuportável espetáculo da miséria e da morte, da avidez estúpida e do exercício tirânico do poder, impõe que se examinem as leis da determinação e se limitem, tanto quanto possível, os efeitos devastadores da ignorância pela prática da via que conduz ao Despertar.
- A ilusão cósmica é designada em sânscrito por maya
- O peso da determinação karmica é descrito como confinando ao ridículo as pretensões das diversas subjetividades antagonistas que povoam o mundo
- Foi esse aspecto das coisas que golpeou brutalmente os doutores Yogacara e os levou a enunciar os grandes princípios visando à necessária purificação da consciência — pois, ao constatarem nos monges o impressionante grau de condicionamento adventício, de pulsões reativas latentes e de produção ininterrupta de materiais psíquicos que os habitavam insidiosamente, Asanga e Vasubandhu consideraram necessário iniciar uma reflexão mais aprofundada sobre a essência fundamental que preside aos mecanismos ocultos da consciência.
- A questão central que os mestres se colocaram é: é possível efetuar uma erradicação significativa dos resíduos kármicos e uma purificação consequente das sementes adventícias — em sânscrito vasana — a fim de que sejam verdadeiramente cumpridos os imperativos e os princípios da “via”?
- Da resposta a essa interrogação depende e se explica toda a elaboração extraordinária das teses originais da escola Yogacara
- Os monges engajados há longos anos na “via” não haviam conseguido modificar os laços que os prendiam a seus apegos infantis, temores gregários e desejos compulsivos — constatação que motivou a reflexão de Asanga e Vasubandhu
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