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budismo:vivenza:vndv:ausencia-natureza-propria

AUSÊNCIA DE NATUREZA PRÓPRIA

VIVENZA, Jean-Marc. Nâgârjuna et la doctrine de la vacuité. Paris: A. Michel, 2001.

Aquilo que não possui natureza própria, que é sem substância, relativo, desprovido de consistência ontológica, nem mesmo possui, em sua essência, essa ausência de consistência. No pensamento de Nâgârjuna, o vazio não é uma situação, não é um constitutivo formal concreto; ao que não existe, por toda a lógica, não se pode, de forma alguma, atribuir uma identidade própria. O vazio de natureza é a única natureza do vazio; ele não possui e não pode possuir nenhuma outra. Qualquer tentativa de fixar uma determinação especificadora ao vazio está irremediável e radicalmente fadada ao fracasso e ao erro. Ao que é apenas relativo, dependente, causado, não se pode conferir uma essência. O que nasce de uma causa não é, portanto, realmente existente para Nâgârjuna; nascer em dependência, para ele, não é nascer verdadeiramente, não é possuir existência própria. Nesse sentido, nada existe, uma vez que tudo se insere na relação de criação e dependência; e se, portanto, nada existe, não pode haver atribuição de essência a nada. Esse é, em definitiva, o sentido da expressão tão frequentemente encontrada em Nâgârjuna: “ausência de natureza própria” (svabhâva-sûnyatâ). Nessa perspectiva, um ser contingente, um ser causado, desprovido de natureza própria, não possui, estritamente falando, nenhuma essência; em última análise, ele não existe; ou, mais precisamente, ele “ex-iste” em sua inexistência.

Cita-se com muita frequência, a fim de estabelecer paralelos por vezes arriscados, pois esquecem a especificidade das tradições, a definição do Mestre Eckhart sobre a natureza dos seres; não se pode, contudo, deixar de recordá-la, tanto é idêntica a sua formulação à doutrina nâgâjurniana da vacuidade: «Todas as criaturas são puro nada, afirma Mestre Eckhart, não digo que sejam pouca coisa, ou seja, algo, não, digo que são puro nada. O que não tem ser é nada. Mas nenhuma criatura tem ser (…).»

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