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NEGAÇÃO SER E ESSÊNCIA

VIVENZA, Jean-Marc. Nâgârjuna et la doctrine de la vacuité. Paris: A. Michel, 2001.

  • Ao afirmar que os seres são vazios de toda essência por seu caráter contingente, Nagarjuna recusa a existência ao que é contingente, causado e relativo — e essa posição dialoga diretamente com a questão metafísica ocidental da essência, pois São Tomás de Aquino declara: “A essência enuncia que por ela e nela o ser possui a existência”, subordinando a inferência do ser à essência.
    • São Tomás de Aquino é convocado como referência da metafísica ocidental sobre a relação entre essência e existência
    • A essência é definida em metafísica como aquilo pelo qual um ser é o que é, distinguindo-se dos outros seres — corresponde à “substância segunda”, conteúdo inteligível do que é apto a existir em uma coisa e não em outra
    • Sem essência, nenhum ser pode pretender participar da existência — desprovidos de essência, os seres são inexistentes
  • A existência se manifesta imperativamente pela essência — e sem essência constitutiva não há existência possível —, sendo Aristóteles o primeiro na Europa a falar dos laços de determinação entre essência e existência, questão que constitui o objeto formal da pesquisa desenvolvida em sua Metafísica.
    • Aristóteles é apresentado como o inaugurador europeu da questão da relação entre essência e existência
    • Exista uma coisa é sempre ser algo determinado — homem, animal, vegetal ou mineral — pois o ser é sempre o ser de alguma coisa: “A existência não é nada além da modalidade de ser própria à essência tomada em cada um dos estados em que se encontra”
    • Todo ser que existe é uma essência realizada e determinada em seu ser, pela qual subsiste — sem essência constitutiva, nenhuma existência possível: lei metafísica axiomática
  • Negar como faz Nagarjuna que os seres sejam dotados de svabhava — natureza ou essência — significa negar que possuam em si uma natureza própria, não que sua natureza ou essência seja a de não possuir uma, o que não implica que as coisas não existam, mas que são simplesmente, enquanto vazias de natureza própria, como aparências desprovidas de toda consistência real.
    • A compreensão da produção em dependência — pratitya-samutpada — acarreta a destruição do edifício conceitual substancialista
    • Não há produção porque não há desaparecimento, e não há desaparecimento porque não há produção — a dialética nagarjuniana é uma dialética sem predicado, em que os contrários se remetem perpetuamente entre si como um jogo de espelhos projetando-se ao infinito
  • O encadeamento sem fim das negações e afirmações resulta na ruína de toda fórmula positiva ou negativa fixa, e apenas permanece o que não permanece — pois no seio do vazio, a inconsistência sem produção nem desaparecimento não é atributiva de nada.
    • A dialética nagarjuniana não possui valor intrínseco e constitui um simples meio para desbloquear a via da experiência mística
    • O absoluto não é o vazio — é unicamente vazio de dualidade, de pluralidade como de unidade, em uma palavra, de todo conceito
    • Nagarjuna não sustenta jamais a aniquilação, o nada ou a inexistência em si, mas unicamente a inexistência das construções que se superpõem à realidade
    • Apenas quem se libera das dicotomias e dos limites conceituais percebe as coisas tais como são
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