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CONVERSÃO DA ALMA

ANTOINE FAIVRE (ORG.). Cahiers de l'Hermétisme. L'Astrologie. Paris: A. Michel, 1985.

Acima do mundo onde impera a simpatia no plano intermediário da alma irrazoável, o sábio, o sábio segundo Plotino, elevar-se-á; ele escapará por cima à magia e aos próprios astros. Plotino mesmo, tendo sido um dia enfeitiçado, conseguiu, forte de sua só sabedoria, pela só força do seu ser, um choque de retorno de que padeceu o mago negro.

Do mesmo modo, quando Plotino foi conduzido a um templo por um sacerdote egípcio que tinha o dom de evocar os gênios familiares daqueles que vinham interrogar o oráculo, este sacerdote suscitou o gênio familiar de Plotino e — maravilhoso símbolo — não era um gênio, era um deus.

O sábio, para Plotino, o sábio que vive da vida da alma razoável voltada, contemplante, contemplativa para o Uno, escapa à influência dos astros, que atua apenas sobre o interlúdio:

« Não se deve ser um composto de alma e de corpo, um corpo animado onde a natureza do corpo domina […] Mas a outra alma, aquela que é alheia a esta vida do corpo, move-se para o alto, para o belo, para o Divino, a quem ninguém comanda. » II, 3, 9.)

Comentário de Pierre Hadot, plotinista e plotinizante, plotiniano, a mim me parece: « Aquele que vive neste cume de si mesmo domina o destino; aquele que vive nos níveis inferiores do eu está submetido aos astros e é apenas um fragmento do universo. »

Que o conhecimento da simpatia ou o conhecimento do mundo, isto é, o conhecimento da simpatia dos astros e dos homens, o conhecimento da astrologia, entre outras disciplinas simpáticas, só tenha significado em relação a este percurso em que o homem se purifica, contempla e se identifica, é o que Plotino nos persuade. Não apenas impede-nos de cair na escravidão a uma ciência que seria tirânica (a ciência moderna o é por construção), mas ainda permite-nos considerar em toda a sua amplitude o destino humano.

O destino individual e melhor dir-se-ia pessoal, pois a alma de cada um, apesar dos estoicos, tem seu valor que a torna indissolúvel, correlativo da sua vocação. E é a Deus que, sendo votada, ela deve votar-se. E ela o pode. A astrologia plotiniana salva, ao mesmo tempo que a onipotência do só Deus, a liberdade do homem, assim capaz de realizar a sua capacidade de Deus.

« Abandonamos, certamente, à influência do universo uma parte de nós mesmos, a saber, esta parte de nós mesmos que pertence ao corpo do universo; e como não cremos pertencer-lhe por inteiro, esta influência se modera; somos como servos sábios que obedecem aos seus mestres em muitas coisas, mas que guardam uma parte de liberdade; é por isso que os seus mestres lhes dão ordens menos rigorosas, porque não são escravos e não são inteiramente de outrem. » IV, 4, 34.)

Que fazer, portanto, de nossa alma única e de nossa parte de liberdade a ela aplicada?

A natureza fascina, não se deve deixar-se fascinar. Eros mesmo pode acorrentar-nos. Não que a natureza, incluindo a matéria, seja má. Contra os gnosticos, o mundo espiritual não é um contra-mundo; não é um lugar supraterrestre ou supracósmico, nem um estado cuja porta só a boa vontade divina abriria para nós. O reino dos céus está em nós e Deus não está ausente do mundo: « Se Deus está ausente do mundo, Ele também não está em vós. » É preciso saber olhar o mundo. Com o só fim verdadeiramente útil.

O que conta e ao que devem ser adaptados mesmo os efeitos desta simpatia, o uso que dela podemos fazer assim como o conhecimento que dela podemos ter, é o retorno ao Uno, do qual procedemos, é uma elevação ao grau de uma união que é uma união mística: « Cada alma é e torna-se o que contempla. » IV, 3, 8.)

É verdade que a alma é de origem celeste, procedente, vê-se, da Alma do mundo, tal como todas as almas individuais, e que ela desceu a esta terra no curso de uma viagem interestelar que a carregou de invólucros cada vez mais grosseiros, cuja última é o corpo terrestre. Do mesmo modo, as almas siderais não criam nem a matéria nem a forma dos seres, mas infundem as impressões e as leis diversas que se corrompem no contato da matéria.

Ora, « não é verdade que nenhuma alma, nem mesmo a nossa, esteja inteiramente mergulhada no sensível; há nela algo que permanece sempre no mundo inteligível ». IV, 8, 8.)

O estudo da filosofia, por exemplo da cosmologia, e mais particularmente da astrologia, ensina-nos a compreender o mundo e sua natureza e nosso lugar lá, e nossa natureza. Assim, a venerar os astros como nossos irmãos que desfrutam da contemplação. A este título, eles ser-nos-ão modelos. A simpatia só tem seu lugar na integração a este movimento ascendente que, em seguida, excede o seu domínio, superando seus efeitos.

Um movimento de ascensão, esta é a primeira imagem que Plotino dá da vida do homem na sua mais alta dimensão, a sua vertical infinita.

Uma outra imagem, é a do exterior e do interior. A profundidade análoga à altura.

Uma terceira e última metáfora, implícita nas duas precedentes, seria a da viagem, a da Odisseia: deve-se regressar ao ponto de partida, deve-se regressar ao centro por uma verdadeira conversão: é ainda uma palavra-chave de Plotino.

Mas o progresso na viagem ao centro efetua-se por uma espécie de vaivém. A alma humana redescende à terra, ou exterioriza-se, a fim de retomar consciência de si. A ascensão, ou o novo mergulho no interno, só a conduzirá mais alto, ou mais fundo, só a melhorará ainda mais. E a diferença abolir-se-á do exterior e do interior.

Três vias oferecem-se ao viajante: a via do conhecimento, a da ética, onde a prática das virtudes é o motor, a via estética. Ora, estas vias são convergentes, até mesmo fundem-se. Chega o momento, é o seu termo, em que abandonando todo conhecimento discursivo, dirigido até ao Belo, como estabelecido na sua morada, desdobra-se a sua pensamento até Ele, em quem se está. Ele que é o Bem, superior ao Belo.

Assim, acabará por conformar-se ao modelo que os astros nos oferecem, estáveis na sua contemplação. Sim, « cada alma é e torna-se o que contempla » IV, 3, 8). E então, « mais distância, mais dualidade, ambos não são mais que um, mais distinção possível enquanto Ele está lá. Tem-se a imagem disso aqui na terra, no amante e na amada que procuram fundir-se num só ser ». VI, 7, 34.)

« O encontro do Bem está reservado àqueles que sobem para a região superior, voltam-se para ela e despojam-se das vestes que vestiram na sua descida. Assim, aqueles que acedem aos santuários dos templos purificam-se, depõem as vestes que traziam e sobem nus até que, tendo abandonado nesta ascensão tudo o que é estranho ao deus, se o veja só por ele só, absoluto, simples e puro, Ele de quem tudo está suspenso, para quem tudo olha e em referência a quem tudo existe, vive e pensa. » I, 6, 7.)

« Convidado a retirar-me em mim mesmo, penetrei o mais fundo do meu ser e vi brilhar acima do meu espírito » — não os astros — « uma luz sem mudança ».

Terminar-se-á com o fim terrestre de Plotino, a sua última palavra. É uma palavra que muitas vezes se interpretou como a expressão do movimento pessoal de Plotino, no limiar da morte. De fato, aqueles que sabem recolhem nela o legado de Plotino aos seus discípulos; é a palavra na qual ele quis, no derradeiro momento, resumir toda a sua doutrina.

Esta palavra, é ela que vos é entregue. Ela encerra também o princípio da doutrina de Plotino, em matéria de astrologia, notadamente, que é o próprio princípio do conjunto do seu pensamento global.

« Que aquele que conheceu a união vá anunciá-la aos outros, se o puder. » VI, 9, 7.) Plotino conheceu a união, ele pôde anunciá-la aos outros. Possa-se ter ouvido, nas páginas que precedem, o eco do seu anúncio. Possa-se ter entrevisto o vínculo entre a astrologia, em teoria e em prática, e a filosofia, a teosofia desta união. Possa-se, por fim, ir anunciar aos outros esta astrologia prenhe da união. Plotino lança, portanto, a vós todos, astrólogos, astrófilos, astrósofos, esta mensagem de filosofia e de teosofia: « Esforço-me » — esforçai-vos, apela-se a que vos esforceis — « por fazer remontar o que há de divino em mim ao que há de divino no universo. »

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