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IMPORTÂNCIA DO DAIMON

JOSÉ BERGAMÍN, L'hermétique pensée des arts

  • Para os filósofos gregos, o universo inteiro está repleto de almas e demônios, e a cosmologia grega distribui três ordens de natureza distinta — deuses, homens e demônios — sendo os demônios criaturas aéreas mediadoras entre homens e deuses, indiferentemente bons ou maus conforme o sucesso de suas mediações.
    • O elemento do mundo dos deuses é o céu etéreo, o dos homens é a terra, e o dos demônios é o ar.
    • Os demônios, segundo santo Agostinho a partir do testemunho de Apuleio, estão sujeitos às mesmas paixões humanas; alguns acreditavam que eram os homens que, com suas paixões e vícios, contaminavam os demônios.
    • No livro apócrifo de Enoch, o pecado dos anjos que os tornou demônios foi apaixonar-se pelas mulheres.
    • A mediação demoníaca originou as artes mágicas como modo de o homem exercer influência sobre os demônios em vez de sofrer suas influências.
    • Hermes, mensageiro celeste e psicopompo, é já dentro da versão plural grega uma representação unificada do Demônio; o mito de Hermes sintetiza todas as qualidades demoníacas intermediárias entre homens e deuses.
    • Os cristãos viram em Hermes e em seu equivalente latino Mercúrio uma perfeita encarnação idólatra do Demônio.
    • O cristianismo nega a necessidade de mediação celeste, afirmando pela boca de são Paulo que o único mediador entre Deus e os homens é Cristo Jesus.
  • O cristianismo oferece uma interpretação diferente da plenitude espiritual do universo: todas as criaturas celestes, de natureza não apenas aérea mas luminosa, foram separadas de Deus por vontade própria, e o Demônio — denominado Satã, Satanás ou Lúcifer —, definido pelo profeta Isaías como aquele que nasce toda manhã, assume o império das sombras, podendo aparecer aos sentidos humanos como uma luz.
    • São Paulo afirma que o Demônio nos aparece velado de luz angélica.
    • Hermes Trismegisto, frequentemente citado por santo Agostinho e que se considerava neto do Hermes grego, atribui ao Demônio uma luz tenebrosa, descrita no Pimandro.
    • O Zohar cabalístico define o Demônio como uma sombra divina identificando-o à luz material solar.
    • O que se chama de sistema solar seria materialmente o próprio sistema do Demônio, e essa luz material em que se vive seria uma centelha, um curto-circuito celeste entre a vontade positiva de Deus e a negativa do Demônio.
    • Milton, no Paraíso Perdido, adotou esse ponto de vista, que foi também o dos cabalistas e da seita materialista cristã dos mortalistas, conhecida ainda hoje na Inglaterra como christadelphes.
  • Entre reconhecer a importância do Demônio e afirmar que ele é a única coisa verdadeiramente importante há um abismo — precisamente o abismo de sua queda —, pois todo materialismo sempre lhe conferiu importância excessiva, adotando sem sabê-lo o próprio ponto de vista do Demônio.
    • O Demônio é importante, mas dar-lhe importância demasiada é o erro de todo ponto de vista exclusivamente materialista, que é também o ponto de vista do Demônio.
    • A explicação cósmica que identifica a luz solar à vontade negativa do Demônio pode ser — em muitos casos, senão sempre — o ponto de vista da ciência.
    • Essa perspectiva leva a afirmar a ausência de Deus, que é a única coisa que o Demônio sabe positivamente e que se pode saber positivamente pela ciência.
    • São João afirma em seu Evangelho que Cristo venceu o Mundo ao vencer o Demônio.
  • O Demônio, definido por santo Agostinho não como um não-ser mas como uma vontade de não ser, é uma criatura irritada e luminosa que, querendo ser como Deus sem ser em Deus nem com Deus, converteu-se em seu contrário — Satã, o adversário —, permanecendo no ar como uma vontade luminosa das trevas.
    • Calderón descreve o Demônio, num verso admirável, como uma criatura angélica capaz em toda ciência que se imortalizou em sua queda.
    • O Demônio é, como a música pelo som ou a palavra pela voz, uma espécie de morte imortal.
    • Deus se define a Moisés na sarça ardente dizendo que é aquele que é; o Demônio, querendo ser como Deus mas sem Ele, deve querer o contrário: o nada, o não-ser, tornando-se o adversário divino.
  • A tentação do Demônio sobre o homem consiste em submetê-lo à sua vontade — como Deus ou como nada —, conduzindo-o labirinticamente pelas sombras para fazê-lo perder o verdadeiro sentido da vida, que é o sentido divino, conforme supunha Trismegisto.
    • O Demônio divide a totalidade do sentido humano da vida em múltiplos sentidos separados, purificando e separando cada um deles para afastar o homem de Deus — dividir para vencer.
    • Entre todos os sentidos separados, o Demônio tem preferência pelo ouvido, pois ali está em seu elemento: o ar.
    • Santo Inácio, nas Regras para discernir os espíritos, ensina que os espíritos bons e maus são reconhecíveis pelo ouvido, por uma espécie de toque sonoro.
    • O labirinto do ouvido é o labirinto visceral de assimilação espiritual onde a fé se faz, como queria o apóstolo, sangue espiritual.
    • No fundo do labirinto do ouvido reside também o sentido do equilíbrio no espaço; Pascal temia o silêncio eterno dos espaços infinitos precisamente porque lhe fazia perder o equilíbrio.
  • A crença popular de que o Demônio vem puxar os pés do homem durante o sono aponta para a verdade de que é a vida — e não o sonho — que o Demônio vigia, pois a morte, conforme Heráclito, é o que nos é sensível em estado de vigília.
    • Don Juan de Sevilha tomou por divisa “antes de tudo, não adormecer”, vigiando noites inteiras sob pretexto de amar, para não fechar os olhos sobre a certeza urgente da morte.
    • O Demônio vigia a vida do homem sob a luz tenebrosa da morte; é a vida, e não o sonho, seu alvo de vigilância.
  • O homem está inteiramente no sentido da vida pelo contrassenso da morte, pois sente a vida por estar desperto e, sob a vigilância da vida, sente a morte como vontade contrária a Deus — o Demônio —, cujas maquinações intelectuais são identificáveis nos dados imediatos da consciência, conforme Bergson.
    • Todas as espacializações vivas, para dizê-lo à maneira de Bergson, são as cadeias do Demônio que fazem do homem seu escravo espiritual.
    • Todos os sistemas metafísicos intelectuais ou racionais, de Aristóteles a Hegel, são em última análise lógicas do Demônio.
  • O Demônio divide a totalidade do sentido humano em múltiplas sensações confusas que, segundo Leibniz, constituem uma ideia confusa, e só por meio da imaginação — como diz Victor Hugo num verso admirável, “unificado pela sombra” — se pode conceber o Demônio como uno e único.
    • A percepção do mundo que vem pelos sentidos, desde a queda de Adão, é confusa: uma percepção do Demônio.
    • O Demônio não pode ter realidade para nós apenas pelo testemunho dos sentidos, pois a realidade é uma questão de ideia.
    • O ser múltiplo unido pela sombra dá a ideia do Demônio; não uma sensação, mas uma ideia.
    • Uma coisa é ter o sentido do Demônio e outra é ter conhecimento dele.
  • Quem tem um certo sentido do Demônio é frequentemente considerado supersticioso, pois a superstição repousa sempre sobre a certeza, nunca sobre a dúvida, ao passo que a fé repousa sobre a dúvida — e quem não tem fé em Deus acredita no Demônio.
    • Morte, Demônio e Inferno são as três negações que se afirmam com certeza irrefutável quando nada se duvida e, portanto, quando nada se crê.
    • A superstição é o que faz tropeçar a alma em algo duro e impenetrável; os olhos tropeçam na obscuridade, e o ser tropeça na morte.
    • A única saída da superstição do Demônio é a fé em Deus: deixar a certeza pelo dúvida é deixar a morte pela vida.
    • Stendhal é citado: quem se suicida o faz por falta de imaginação; quem se imortaliza o faz por excesso de imaginação e fé enraizada na viva incerteza de tudo.
    • Faute d'imagination se afirma tudo que é Demônio — a morte e o inferno, a morte imortal; com imaginação, afirma-se tudo que é divino, dúbio, incerto, vivo, animado, imortal.
  • A personalidade do Demônio povoa dramaticamente o mundo, e seu reino é deste mundo mais do que do homem, sendo mais provável onde as superstições naturais foram substituídas por superstições científicas ou artificiosas, que são igualmente demoníacas ainda que não se diga.
    • A superstição do Demônio sintetiza provavelmente todas as superstições, pois todas são formas múltiplas e diversas do próprio Demônio.
    • Na Idade Média, na Renascença e na época romântica, a superstição do Demônio gozou de constante e adequada teatralização e grande popularidade.
    • Demônio, Morte e Inferno mudam no tempo sua figuração dramática popular, mas por trás das máscaras passageiras revelam sempre uma fisionomia idêntica e imutável.
    • Claude Bernard é citado: a vida é a morte — a certeza viva da morte nos envolve enquanto vivemos.
    • Pierre Reverdy, grande poeta católico contemporâneo, confessou ter encontrado a fé pelo dedaloso obscuro da superstição.
    • Não ter nenhum sentido do Demônio seria uma monstruosidade, um estado patológico de denaturalização e irracionalidade que arriscaria a clínica ou o asilo.
  • Um ser humano não supersticioso seria um monstro, e nos seres naturalmente inteligentes a superstição do Demônio sintetiza provavelmente todas as outras, pois todas têm origem na mesma sombria certeza tenebrosa que as engendra.
    • Bergson é citado: a inteligência, assim que se forma, foi invadida pela superstição, e um ser essencialmente inteligente é naturalmente supersticioso.
    • Se se traduz essa afirmação bergsoniana em linguagem imaginativa pura, obtém-se a expressão bíblica do primeiro encontro do homem com o Demônio no Éden.
    • O sentido e a ideia do Demônio não se limitam a uma forma exclusivamente pessoal e intransmissível como era para Sócrates: vive-se socialmente, e a sociedade vive em nós.
    • O demônio familiar de cada um é, em última análise, a superstição, a personificação e o próprio sentido e ideia que cada um se apropriou superstitiosamente — mas é também todos os demônios reunidos, simplesmente o Demônio em pessoa.
  • A superstição moral é uma verdadeira superstição científica: o princípio fundamental da moral socrática — a virtude é uma ciência — é precisamente o que o Demônio, pela boca da serpente, prometeu a Adão e Eva no Paraíso, e toda ética ou sistema moral não é em definitivo mais que uma má invenção do Demônio.
    • Adquirindo a ciência certa do bem e do mal, Adão e Eva aprenderam a conhecer-se a si mesmos, como ensinava Sócrates, o demoníaco, fundador da sabedoria demoníaca do bem e do mal.
    • Kant, de maneira pedante e sem saber, batizou o Demônio sob a terminologia de “imperativo categórico”, como se pudesse haver no mundo um império mais categórico que o do Demônio.
    • Sócrates, com seu “conhece-te a ti mesmo”, não fez mais do que assinalar ironicamente a profunda armadilha moral por onde escapava o Demônio.
    • O conhece-te a ti mesmo é o método racional da certeza moral que simplesmente quer dizer: conhece o Demônio, aprende a conhecê-lo.
    • A Luz que se voltou sobre si mesma para se conhecer, de costas para Deus, crendo bastar-se para ser o que era, luz, fez-se sombra: luminosa vontade da sombra. Em uma palavra, o Demônio.
    • A consciência nasce da falta; os limites da consciência humana são desenhados pela sombria presença marginal do Demônio.
  • André Gide, comentando os aforismos de Blake nas Núpcias do Céu e do Inferno, afirmou que não há obra poética verdadeira sem a colaboração do Demônio — sem o sublinhado sombrio da negação crítica que a afirma —, mas o Mefistófeles de Goethe não passa de uma má caricatura literária do Demônio.
    • Goethe, homem de letras e não de espírito, cometeu um grave pecado de humor ao eludir superstitiosamente, sem saber, a superstição natural e sobrenatural do Demônio.
    • O pecado original do humorista é não ver mais além do nariz; La Rochefoucauld disse que o sol e a morte não se podem olhar fixamente, e a impossibilidade de ver o Demônio frustrou grandes criações poéticas.
    • A colaboração do Demônio consiste em opor-se à criação, mas essa própria oposição serve de apoio, por sua resistência, à obra criadora.
    • Ingres é citado: até a fumaça deve ser expressa por um traço; até o humor deve ser assinalado ou significado pelo Demônio.
  • Não há obra poética verdadeira onde não seja claramente perceptível a inevitável oposição espiritual do Demônio como enigma de sua vitalidade, e o poeta que faz abstração dela fica só, sem poesia, devendo substituí-la por uma simulação — que é provavelmente a origem imaginativa do romance.
    • O dramatismo espiritual de Dom Quixote começa às portas do Inferno; Cervantes, por autêntico e fervoroso catolicismo, salvou Alonso Quijano condenando sua sombra quixotesca a vagar eternamente sozinha nos arredores infernais da morte.
    • O segredo vivo da espiritualidade católica da obra de Cervantes é esse fracasso de poesia que o romance padece.
    • Victor Hugo, romancista fracassado — ao contrário de Goethe ou de Cervantes — e portanto poeta triunfante, ao erguer a fantástica figuração de sua Lenda dos Séculos, transfigurava o romance em poesia, em criação imaginativa.
    • Hugo nomeou essa criação imaginativa “uma imobilidade feita de inquietude”, forma de poesia em que se conjugam divinamente luz e sombra, como em Grécia por Apolo e Dionísio.
    • O combate invisível entre mundos angélico e demoníaco — que era para os gregos a única razão de ser da poesia — revela-se como o íntimo e profundo segredo da imagem poética do mundo.
    • Numa das melhores telas poéticas de Brueghel o Velho, o motivo representa o combate angélico, a queda dos anjos rebeldes, imitação espiritual invisível de toda verdadeira poesia sob todas as suas formas artísticas.
  • A perda do Paraíso assinala onde termina a poesia e começa o romance do homem, pois todas as línguas paradisíacas e poéticas podem também fazer função de arte romanesca — pela palavra, pela música ou pela pintura —, e houve grandes romancistas em pintura e em música: grandes poetas frustrados como Wagner, Verdi, Puccini, Velázquez, Rembrandt e Goya.
    • Blake afirmava que a palavra, a música e a pintura são línguas ou linguagem do Paraíso perdido.
    • Na pintura que Bergamín chama de romanesca ou poeticamente frustrada — a de Rembrandt, Velázquez, Goya —, o Demônio se mascara ou se desmasca luminosamente.
    • Na pintura de Rembrandt, o Demônio se cobre de luz pela sombra para esconder sua vontade obscura; na de Velázquez, ao contrário, se desmasca descobrindo sua sombra pela luz, transparecendo no ar de modo prodigioso.
  • O Cristo crucificado de Velázquez é, para Bergamín, um retrato vivo do Demônio — o mais vivo que existe —, pois o Demônio, que se encontrava atrás da cruz, aparece ao pintor incrédulo diante da cruz e é pintado com tão demoníaca exatidão que amedronta.
    • O chanoine Gaspar Navarro, no Tribunal de superstición ladina do século XVII, relata que Satanás se transfigura em anjo de luz para enganar e apareceu a santo Antônio sob a forma do Cristo crucificado e, segundo santo Antonino, sob a forma da Mãe de Deus.
    • A mecha de cabelos sobre o rosto — o famoso truque de Velázquez — cumpria com enganosa insolência a pérfida vontade do Demônio, escamoteando a figura de Cristo e pintando um demônio dourado, a mais terrível profanação do Cristo e o mais satânico sacrilégio espiritual, religioso e poético que Bergamín conhece.
  • Goya, mais torpe que Velázquez, deixou-se apanhar pelo Demônio ao tentar pintar o Homem-Deus, não conseguindo extorquir o corpo ao Demônio e produzindo apenas um nu elegante e crucificado, ao passo que não é necessário ser crente nem supersticioso para compreender que a pintura de Velázquez, Rembrandt e Goya são pinturas do Demônio — uma zombaria de todos os demônios reunidos que simula uma criação espiritual onde não há nenhuma.
    • No Adam e Eva de Ticiano, ao contrário, são os anjos que extorquiram os corpos humanos ao Demônio, picando-o e zombando dele num combate espiritual equivalente à situação geométrica dos toureiros com o touro na arena.
    • As Sagradas Escrituras, no Livro de Jó, dizem que o Demônio foi a primeira e principal criatura criada pelo Senhor para que seus anjos zombassem dele.
    • Santo Atanásio soube que o Demônio apareceu uma vez para queixar-se de que Deus consentia que até as crianças zombassem dele.
    • A verdadeira invenção poética é uma angélica zombaria feita ao Demônio; todo arte verdadeiramente poético é um jogo angélico que visa picar ou zombar do Demônio, como nos jogos de crianças.
    • Quando o poeta, o pintor ou o músico não zombam do Demônio, é o Demônio quem zomba deles, ficando com sua pintura, música ou poesia.
    • O povo católico espanhol respondia espiritualmente pela fé às palavras proféticas do salmista: “eis o Dragão que formaste para zombares dele”; e o texto hebraico fala do Leviatã que Deus formou para que jogasse com o mar.
    • Com a areia do mar, os dias e as horas — as horas perdidas — nos são contados pelo Demônio.
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