esoterismo:blake:peintre-esoterique

WILLIAM BLAKE, PINTOR ESOTÉRICO

TEXTO ORIGINAL

  • A inspiração mística encontrou em William Blake, pintor e gravador antes de ser poeta, um canal privilegiado para prefigurar o Romantismo, o Simbolismo e o Surrealismo através do recurso ao universo dos símbolos ocultos e à representação visionária de imagens alucinatórias.
    • O racionalismo filosófico do século XVIII forçou a Tradição mística a refugiar-se no ocultismo e nas iniciações mundanas.
    • A importância de Blake para a compreensão das fontes do Romantismo, do Simbolismo e do Surrealismo reside no denominador comum entre essas correntes: o recurso do artista aos símbolos ocultos.
    • Blake é primariamente pintor e gravador, e a expressão literária constitui apenas prolongamento e coroamento de uma atividade espiritual de natureza plástica e visual.
  • O risco de falsear a obra e a personalidade de Blake decorre do fato de ser ele mais conhecido como poeta do que como pintor, inversão que obscurece o sentido verdadeiro de sua criação.
    • A técnica do burin, da pena e do pincel foi sempre perfeitamente segura e experiente em Blake, ao contrário de sua poesia, mais improvisada.
    • O esoterismo blakiano manifesta-se de modo mais significativo nas formas plásticas do que nas verbais.
    • A poesia deveria ser iluminada pela pintura, e não o contrário, como se tem feito habitualmente.
  • Blake nasceu em Londres em 1757, no auge da Revolução Industrial, contexto que condenou os grandes místicos e artistas visionários à rebeldia e a uma vida secreta de não conformismo espiritual.
    • A Revolução Industrial era solidária do racionalismo intelectual e do mecanismo social.
    • No medievo e no século XVI, os grandes iniciados podiam proclamar abertamente sua pertença mágica ou mística; no século XVIII tal abertura tornou-se impossível.
    • Blake figura como o primeiro dos grandes revoltados por incompatibilidade espiritual profunda com o mundo moderno.
  • A formação espiritual de Blake foi moldada pelo ambiente familiar humilde e pela biblioteca paterna, que continha a Bíblia e os escritos de Emmanuel Swedenborg, lidos desde a infância.
    • O pai de Blake era discípulo de Swedenborg, e em 1757, ano do nascimento de William, Swedenborg anunciara a seus discípulos a iminência do Juízo Final e o nascimento de uma Nova Jerusalém.
    • Os temas do Juízo Final e da Nova Jerusalém nunca cessaram de habitar Blake até seus últimos dias.
    • A atmosfera de excitação espiritual e de espera mística do ambiente swedenborgiano constitui elemento essencial da infância de Blake.
  • A orientação espiritual de Blake resultou não apenas das influências familiares e do iluminismo swedenborgiano, mas sobretudo de uma estrutura psicológica excepcionalmente adaptada à visão, que se manifestou desde os nove anos de idade em Peckham Rye.
    • A visão não foi em Blake resultado de exercício à maneira hindu nem prolongamento alucinatório da reflexão intelectual, mas dado de sua experiência mais primitiva.
    • A primeira visão, ainda na infância, apresentou formas iluminadas — asas de anjos e estrelas presas a uma árvore — que se manteriam constantes ao longo de toda a obra.
    • Um poema escrito aos quatorze anos, How sweet I roamed from field to field, já contém os principais símbolos das gravuras e aquarelas, incluindo a iluminação solar e o círculo colorido de vermelho ou ouro associado ao mundo dos Espíritos.
  • O aprendizado junto ao gravador Basire e os longos dias de cópia na Abadia de Westminster revelaram a Blake o valor do gótico como fonte de rebeldia fundamental contra a ordem imposta pela razão desde o Renascimento.
    • Basire enviou Blake à Abadia de Westminster por não poder mantê-lo no ateliê, onde ele já era alvo da animosidade dos colegas.
    • Blake elogiava os artistas góticos sem dominar o sentido histórico preciso do termo, usando-o para designar uma vontade de ruptura com o racionalismo.
    • Uma das primeiras gravuras de Blake, José de Arimateia sobre os Rochedos de Albião, executada em 1773, contém o comentário de que José era um dos artistas góticos que construíram as catedrais nos chamados séculos das trevas.
    • A admiração por Michelangelo inscreve-se no mesmo sentido que o gótico: ambos remetem ao universo de realidades místicas próximas e incontestáveis.
  • As obras literárias que serviram de pretexto às visões blakianas — o Livro de Jó, Shakespeare, Milton, Dante e os próprios poemas de Blake — exerceram apenas papel de detonador, pois o verdadeiro motor da inspiração era uma corrente espiritual permanente que conduzia essencialmente o artista a visões de formas, cores e movimentos.
    • Nos Livros Proféticos, o texto envolve a ilustração à maneira de uma glosa, frequentemente mais obscura do que as gravuras, confirmando o primado da imagem sobre a palavra.
    • Até na ilustração de textos autônomos como a Bíblia ou Milton, o papel do texto parece invertido: em vez de a ilustração comentar o texto, é o texto que comenta a ilustração.
    • A ambição de toda a vida de Blake foi descobrir uma técnica da cor capaz de reunir, numa obra oferecida ao olho, toda a capacidade expressiva da visão.
  • A comunicação pelo Espírito do irmão Robert, morto prematuramente, do segredo técnico da impressão em cores constitui o evento sobrenatural que imediatamente precedeu o período de intensa criação de Blake e que vincula, desde a origem, a técnica ao plano da inspiração mística.
    • William casou-se em 1782 e tomou Robert como aprendiz; a morte do irmão foi para ele uma dor terrível compensada pela certeza de sua presença espiritual contínua.
    • O Espírito de Robert apareceu em sonho a William e lhe ensinou, nos mínimos detalhes, os processos de impressão em cores.
    • A impressão em cores e a aquarela eram os procedimentos mais bem adaptados às exigências da inspiração blakiana.
  • A obra de Blake aspira a ser uma suma das grandes tentativas místicas, o que constitui ao mesmo tempo a fonte de sua grandeza e de sua confusão, sendo a obra pictórica aquela em que o artista mais se aproxima da unidade por ser mais preciso o acordo entre inspiração e meios de expressão.
    • Blake não renunciava jamais à primazia da invenção pessoal: mesmo ao se inspirar em Milton ou Dante, permanecia o único autor de sua visão, usando os textos apenas como vocabulário.
    • Os Livros Proféticos, escritos para fornecer a si mesmo um vocabulário de símbolos integralmente originais, continuavam sendo apenas vocabulário; o conteúdo real da mitologia blakiana estava muito melhor representado pelos caracteres permanentes das formas e das cores.
    • O espírito de Blake manifestava uma singular aptidão ao sincretismo, método paralelo ao que o racionalismo do século XVIII empregava — aquele mesmo racionalismo contra o qual Blake não cessava de fustigar.
  • A mitologia blakiana resulta de uma contaminação entre elementos da cultura esotérica — a Bíblia e o Livro de Jó, Jacob Boehme, Swedenborg e o Livro de Enoque, Milton e Dante — e os produtos da imaginação pessoal de Blake, gerando uma população de figuras regidas por leis complexas impregnadas das características das tradições.
    • Certas representações do Juízo Final apresentam composição organizada segundo o desenho de uma cruz inscrita num retângulo, disposição que Blake possivelmente quis de forma positiva.
    • Nos Quatro Zoas, Blake definiu por figura análoga a ordem que rege o Mundo dos Espíritos.
    • O simbolismo de certas figuras geométricas e de certos números é emprestado da Tradição, mas sua natureza e seu simbolismo específicos parecem ser propriamente blakianos.
    • O comentário literário da pintura ou da gravura torna-se indispensável para decifrar a significação esotérica dessas figuras.
  • O princípio da mitologia blakiana permaneceu constante apesar da variação contínua de figuras e mitos: afirmar por todos os meios artísticos disponíveis a supremacia metafísica do espiritual sobre o intelectual, tornando a arte o único meio de conhecimento e um vasto conjunto de símbolos cósmicos que figuram a história secreta do mundo.
    • Urizen, o gigante criador do mundo conhecido sob inspiração de um Satã intelectualista, funde o Jeová do Antigo Testamento, os Elohim pré-adamitas e o Ancião dos Dias do profeta Daniel.
    • Duas impressões em cores representam esse ser originário: O Ancião dos Dias, que Blake retomava no momento de sua morte, e A Criação de Adão, onde o Elohim conserva asas de anjo marcadas por tonalidade metálica que simboliza seu caráter suspeito e maléfico.
    • O tema do redemoinho e da rotação circular está sempre associado em Blake à presença de uma divindade terrível, expressão mística das potências do mal, reaparecendo em Jeová diante de Jó e na aquarela de Paolo e Francesca.
    • Blake aproxima-se, por meio desses símbolos, do antigo maniqueísmo iraniano, elemento essencial das gnoses orientais.
  • Satã concentra em sua figura o sincretismo blakiano ao reunir o Satã da Bíblia, o de Milton e a potência divina e criadora do maniqueísmo tradicional, assumindo representações variáveis conforme o papel que desempenha na mitologia do artista.
    • Ora Satã é o anjo caído resplandecente de juventude e sedução contemplando com inveja os abraços de Adão e Eva; ora é o Satã da imaginação gótica com asas de morcego reunindo seus demônios no Inferno.
    • Em Nabucodonosor, o tirano bíblico torna-se um monstro divino com figura de Elohim quadrúpede, fundindo Satã, o Elohim e Urizen numa única potência maléfica.
    • Elohim e Satã são apenas dois avatares da mesma potência maléfica, e sua diversificação em figuras múltiplas manifesta o sincretismo original da mística blakiana.
  • A análise das figuras e mitos blakianos do lado do homem conduz à imagem original do Andrógino, pois a obsessão central do humanismo místico de Blake é a Desintegração da Personalidade em seus planos histórico, espiritual e metafísico.
    • O Anjo andrógino simboliza a reunião dos sexos pelo triunfo do Amor absoluto e a unidade espiritual sob o reinado da Intuição, combinando drapeado aéreo feminino com anatomia muscular de inspiração michelangelesca.
    • Jesus Cristo é sempre representado sob o aspecto plástico do Anjo: ambos são os dois termos idênticos da aventura humana — o Anjo representa a unidade pré-adamíca perfeita, e Cristo representa a restauração da Unidade perdida.
    • Beatriz, nas ilustrações dantescas de Blake, representa a parte superior do homem que aguarda a reintegração final, e as aventuras da Divina Comédia tornam-se figuração simbólica da história humana.
    • O corpo feminino, com os Anjos e o Cristo, é o único elemento de beleza plástica genuína numa obra em que habitualmente todos os corpos e figuras são atormentados ou monstruosos.
  • A autenticidade das visões de Blake, atestada por testemunhos de George Richmond e John Varley, explica o realismo técnico com que o artista pintou e gravou seu universo de figuras sobrenaturais, pois ele se comportava diante dessas figuras como um pintor diante de uma realidade intensa e materialmente presente.
    • Richmond relatou que Blake declarava ser capaz de olhar um nó numa tábua até sentir medo.
    • Varley narrou que, ao desenhar o célebre Espectro de uma Pulga, Blake se conduzia realmente como um pintor diante de uma realidade presente.
    • Blake quis fixar a lembrança de uma experiência mística em que figuras, formas e cores tinham a materialidade das coisas habitualmente vistas com os olhos da carne.
  • A técnica de Blake não é tão simplista nem tão confusa quanto por vezes se afirma, pois a autenticidade mística da visão constitui a condição sine qua non da eficácia técnica, sendo os momentos de verdadeira inspiração aqueles em que toda maladresse desaparece.
    • A aparente gaucherie de Blake influenciou negativamente o pré-rafaelitismo.
    • O problema colocado ao técnico do burin ou do pincel pelo esoterismo místico consiste em realizar, nos caracteres do desenho e da cor, a aliança entre a presença real e o mistério sobrenatural.
    • A única solução para esse problema foi a invenção de uma técnica propriamente surrealista, o que Blake realizou numa época em que não dispunha de nenhum apoio na arte contemporânea.
  • A partir de 1790, Blake orienta suas pesquisas para uma associação de gravura e cor que corresponde à dupla postulação de sua inspiração: o realismo exprimirá uma presença e o simbolismo sua significação oculta.
    • Em A Criação de Adão e em Nabucodonosor, uma certa cor fulva exprime animalidade realista, mas sua tonalidade metálica acrescenta simbolicamente a sugestão de um outro mundo que não é regido pela luz terrestre.
    • O substrato da gravura combinado com a cor a água é certamente uma das fontes dessa metalização simbólica.
    • Em O Ancião dos Dias, a linha tem toda a precisão realista que conviria a um desenho documental, mas dessa própria rigorosidade nasce a impressão do surreal: o rigor no contorno de uma nuvem empurra o realismo além de si mesmo até o ponto em que, sem perder poder de convicção, ele perde sua relatividade.
  • Blake, formado como artesão com rigorosa experiência técnica, estava convicto de que no Mundo dos Espíritos também reina uma exigência técnica que o artista deve satisfazer para permanecer fiel à ciência de suas visões, e que a realidade espiritual — porque a matéria nela é glorificada e não aniquilada — só pode se exprimir por meio de uma transmutação das técnicas materiais.
    • A comunicação da técnica de impressão em cores pelo Espírito do irmão Robert é o sinal de que a realidade espiritual exige transmutação e não desencarnação.
    • Essa transmutação é o oposto do esforço de desencarnação que caracterizará a obra espiritualista dos pré-rafaelitas ou de Gustave Moreau, aos quais convém muito melhor do que a Blake a denominação de simbolistas.
    • Pode-se estabelecer um paralelismo entre as operações de Blake e as da alquimia: o vermelho e o ouro, cores fundamentais da fantasmagoria blakiana, têm a função de provocar pela sua presença pura a transmutação das outras cores, e o princípio de glorificação da matéria que está na origem de todas as tentativas técnicas de Blake é, no fundo, o princípio mesmo da alquimia tradicional.
  • O tratamento blakiano da aquarela constitui a prova mais contundente de seu surrealismo autêntico, pois Blake subverteu uma técnica orientada no século XVIII para a poesia da luz terrestre e a transformou no instrumento mais capaz de operar a glorificação da cor numa matéria translúcida e incorruptível comparável ao vitral ou ao esmalte.
    • As ilustrações do Livro de Jó e da Divina Comédia são os chefs-d'oeuvre executados em aquarela.
    • Em visões dantescas como o Papa Simoníaco ou os nuvens diante da porta do Purgatório, a materialidade da cor é acentuada enquanto a fluidez da cor a água lhe comunica uma gloriosa translucidez.
    • Para Blake, a distinção entre Matéria e Espírito é consequência da desintegração cósmica que acompanhou a Criação do Mundo, e a reunião de Matéria e Espírito será o sinal da Redenção; o artista é o agente da Redenção do Mundo e a ele cabe encontrar a técnica apropriada dessa Redenção.
  • O simbolismo das cores nas ilustrações da Divina Comédia obedece a um sistema rigoroso em que cada cor tem função precisa e constante, funcionando como chave iniciática para o conhecimento intuitivo da Verdade.
    • Na cena de Paolo e Francesca, o azul escuro e o vermelho dominam como cores do Inferno, analisado em dois elementos fundamentais — o fogo e a noite — enquanto o verde da pradaria onde se encontram Dante e Virgílio simboliza a intrusão do homem no coração do surreal; o círculo branco e radiante representa a pureza anterior a qualquer falta e desintegração.
    • Na Entrada do Purgatório, os degraus do portal são coloridos em branco, negro e vermelho nessa ordem, e o negro separa o branco do vermelho — as duas cores opostas que simbolizam a desintegração do homem em duas partes — enquanto sua reunião nas visões do Paraíso gerará o ouro solar, símbolo da reunião final na unidade reencontrada.
    • O ritualismo das cores, que comporta como característica essencial a constância dos símbolos, é o caráter fundamental que corresponde exatamente ao esoterismo da inspiração, e as fórmulas técnicas estão impregnadas dele até nos mínimos detalhes.
  • O esoterismo de Blake, com seus prolongamentos técnicos, está amplamente adiantado em relação à história da arte: por sobre o Romantismo, o Realismo e o Impressionismo, anuncia o grande movimento irrealista e surrealista do início do século XX.
    • Quando os artistas do início do século XX se afastarão da natureza, buscarão do lado da analogia alquímica ou mágica a inspiração de suas novidades técnicas.
    • A arte do pintor e do poeta tornar-se-á então a invenção de uma linguagem hermética que exige, para ser apreendida em sua profundidade, a prova de uma iniciação.
  • O hermetismo surrealista de Blake constitui um sistema completo e fechado, coerente apesar da grande diversidade das fontes, cuja unidade repousa na autenticidade das visões e na simplicidade relativa dos ritos plásticos em contraste com a multiplicidade dos símbolos poéticos.
    • Blake não pertencia a uma Tradição dada: pretendeu fundar uma inteiramente nova e original, fazendo dessa empresa a razão mesma da arte e a justificação do artista.
    • Todo o hermetismo blakiano desemboca na conclusão de que, no processo histórico que deve conduzir da desintegração do Homem à redenção pela restauração da unidade pré-adamica, o motor único da ressurreição mística é a Arte, porque ela é a técnica da faculdade suprema, a Intuição.
    • Blake serve de elo entre as duas grandes épocas do hermetismo artístico — a Idade Média e o século XX — e representa, no coração do desenvolvimento naturalista oriundo do Renascimento, o primeiro sintoma de uma revolta eficaz da arte e de suas técnicas contra as tiranias e as limitações do realismo.
esoterismo/blake/peintre-esoterique.txt · Last modified: by 127.0.0.1