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TRANSPORTES CELESTES
BOUTANG, Pierre. William Blake, manichéen et visionnaire. Paris: La Différence, 1990
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A concepção das instâncias em William Blake apresenta paralelos na obra de Swedenborg e raízes profundas no livro de Haeresibus de Santo Agostinho, onde a descrição da heresia maniqueísta antecipa elementos da ficção científica moderna.
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Swedenborg é identificado como a fonte terminológica para o conceito de States encontrado por William Blake na fundação da Nova Igreja em Londres.
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A influência do teósofo sobre o poeta intensifica-se no período de seu casamento com Catherine Boucher.
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Santo Agostinho descreve no capítulo quarenta e seis de sua obra as virtudes maniqueístas como potências celestes em naves cósmicas.
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As virtudes ou potências celestes do mito maniqueísta operam como instâncias não individualizadas que transitam entre o sol e a lua com o objetivo de promover a regeneração do homem universal.
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Essas potências assemelham-se às instâncias descritas por Swedenborg e William Blake em Vala e Jerusalém.
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O jargão dos Eleitos maniqueístas define essas entidades como forças presentes em veículos espaciais conforme a descrição de Santo Agostinho.
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A sexualidade ambígua ou alternante dessas instâncias comanda o destino espiritual da humanidade através de processos de embarque e desembarque cósmico.
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A doutrina maniqueísta estabelece a existência eterna de dois princípios contrários, o Bem e o Mal, cujo entrelaçamento em uma batalha primordial exige a purificação das almas que compartilham a mesma natureza de Deus.
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A cosmogonia herética afirma que o mundo é o produto do choque e da mistura entre substâncias divinas e malignas conforme os heréticos antigos.
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A purificação consiste em separar a parte luminosa da natureza contrária para evitar a danação eterna.
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Santo Agostinho aponta que as fábulas maniqueístas obrigam ao reconhecimento da origem divina das almas aprisionadas.
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O processo de libertação da substância divina ocorre por meio da dieta e do estilo de vida dos Eleitos maniqueístas, que atuam como agentes de purificação da luz contida nos alimentos consumidos.
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A estrutura da igreja divide-se entre os Eleitos e os Ouvintes, sendo que apenas os primeiros possuem a capacidade de isolar a parte luminosa.
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Os Ouvintes e os demais homens encontram-se impossibilitados de libertar a substância divina devido ao processo de procriação e aos laços carnais.
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A substância purificada é restituída ao reino de Deus através das naves representadas pela lua e pelo sol.
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A cosmologia das Trevas fundamenta-se em cinco elementos que geraram os seus respectivos príncipes e animais, aos quais se opõem cinco elementos luminosos derivados da substância divina.
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Fumaça, Escuridão, Fogo, Água e Vento constituem a base material do reino do mal onde surgem serpentes e quadrúpedes conforme a crença maniqueísta.
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O homem retira sua origem dos animais bípedes nascidos no elemento fumaça.
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O Sol e a Lua são distinguidos como luminários feitos de fogo bom e água boa para o transporte da luz.
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As potências santas abrigadas nos luminários celestes utilizam transformações sexuais masculinas e femininas para atrair os membros da espécie contrária e provocar a fuga da luz misturada em seus corpos.
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O charme exercido por essas virtudes move a concupiscência para liberar a substância divina capturada.
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Anjos da luz recolhem e purificam a matéria luminosa libertada para encaminhá-la aos reinos adequados.
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O grupo maniqueísta denominado Catharistae pratica rituais que envolvem o consumo de sêmen humano para promover a libertação da substância divina presente na carne e nas sementes de todas as coisas.
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Santo Agostinho relata ter convencido os fiéis de Cartago sobre a existência de tais práticas nos livros maniqueístas.
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A concupiscência é utilizada metodicamente para dissolver os princípios das Trevas e libertar a alma cativa.
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O objetivo desses rituais é modelar a conduta humana conforme a ação purificadora dos Eleitos e das potências divinas.
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As leis alimentares dos Eleitos proíbem o consumo de carne, vinho e ovos sob a premissa de que a substância divina já abandonou os corpos mortos ou seria profanada pela natureza dessas substâncias.
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O vinho é estritamente associado ao Príncipe das Trevas, embora o consumo de uvas seja permitido.
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As almas dos Ouvintes podem ser purificadas ao passarem pelos alimentos dos Eleitos, evitando o retorno a novos corpos.
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As almas não purificadas estão sujeitas à reencarnação em animais ou plantas presas à terra.
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A ética maniqueísta condena a agricultura e o dano às plantas por considerar que a vida vegetal sente e sofre, impondo aos Ouvintes o trabalho produtivo enquanto os Eleitos mantêm a pureza através da inação.
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Arrancar ervas ou colher frutos é visto como uma forma de suplício contra a vida inerente à flora.
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Os Eleitos dependem da colheita realizada pelos Ouvintes para obterem os alimentos necessários à sua função purificadora.
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A acusação de homicídios múltiplos é lançada contra o trabalho agrícola dentro da lógica do sistema herético.
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A proibição do casamento e da procriação visa impedir que a substância divina seja aprisionada em novos corpos, em oposição à linhagem de Adão e Eva que descenderiam dos príncipes da fumaça.
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Saclas é identificado como o pai da raça humana que devorou seus pares para concentrar a luz divina antes de gerar descendência.
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A união carnal é condenada por ser o instrumento que vincula as almas provenientes da comida e da bebida à matéria.
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A interpretação maniqueísta das escrituras identifica o Serpente da Gênese como o próprio Cristo e rejeita o Deus de Moisés e dos profetas hebraicos como um príncipe das Trevas.
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Cristo teria vindo ao mundo em um corpo simulado para enganar os sentidos, tornando sua morte e ressurreição meros simulacros.
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A missão do Cristo maniqueísta foca-se na libertação das almas e não na redenção dos corpos físicos.
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O Novo Testamento é aceito de forma seletiva sob a acusação de que seus textos foram falsificados.
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A história maniqueísta funciona como uma contra-gênese metódica que inverte o dogma cristão e fornece o fundamento lógico para a compreensão das obras Vala e Jerusalém de William Blake.
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Faustus e os maniqueístas de Roma eram conhecidos como eversores ou subversores da ordem estabelecida.
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A analogia estende-se à juventude de 1968, embora o sistema antigo possuísse maior clareza fabulosa e detalhamento técnico.
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Santo Agostinho fornece na descrição da história de Saclas a chave para explicar a ética e a cosmogonia do poeta inglês.
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