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DURAÇÃO DO INFERNO

Jorge Luis Borges — DISCUSSÃO. Tradução em português de Claudio Fornari

  • A especulação sobre o Inferno torna-se exaustiva com o passar dos anos devido ao declínio da eficácia das metáforas sensíveis e do entusiasmo literário, percurso que se estende desde as descrições de Tertuliano sobre o tribunal de Cristo e a menção a Midas, passando pela obra de Dante, até os textos de Quevedo, Torres Villaroel, Baudelaire e as referências de Gibbon.
    • O uso das fogueiras do Santo Ofício como alusão humana e temporal à dor imortal.
    • A visão de Tertuliano sobre o Juízo Final envolvendo o suplício de reis, magistrados, filósofos, poetas e atores trágicos.
    • A transformação do dogma em oportunidade de espírito ou metáfora nas obras de Quevedo e Torres Villaroel.
    • O ceticismo de Baudelaire e a relação etimológica entre o verbo francês gener e a palavra gehenna das Escrituras.
  • O exame do Inferno revela uma estrutura teológica definida pela separação entre réprobos e eleitos e pela continuidade eterna da pena, superando a mitologia popular e as variações descritas por autores como Swedenborg e Bernard Shaw ou a tradição dos Sabianos.
    • A perplexidade do Dicionário enciclopédico hispano-americano ao situar a noção infernal além do catolicismo.
    • A distinção entre a mitologia simplista de espetos e tenazes e a estrita noção dogmática de um lugar preciso e distinto da sede dos eleitos.
    • As características singulares do inferno sabiano, da escuridão de Swedenborg e do luxo inútil em Bernard Shaw.
    • A observação de Gibbon sobre como o fogo, a escuridão e a duração eterna bastam para a sensação de dor.
  • A negação da eternidade das penas fundamenta-se na doutrina da imortalidade condicional e na aniquilação do ser, conforme discutido nos escritos de Bunyan e na obra de Whately sobre Napoleão Bonaparte.
    • A imortalidade como um dom de Deus em Cristo e não como atributo intrínseco da natureza humana decaída.
    • A morte definitiva e sem resto para aqueles que se provam indignos de receber a dádiva divina.
    • O conceito de Inferno como o nome humano blásfemo para o esquecimento de Deus.
  • A proposta teológica de Rothe sugere que a eternização do castigo implicaria a eternização do Mal no universo, defendendo em contrapartida uma existência minguante para os condenados que culmina em uma condição fantasmagórica dentro de um reino diabólico de liderança rotativa.
    • O argumento de que Deus não pode desejar a manutenção eterna do Mal nem permitir que o pecador ou o Diabo burlem as benévolas intenções divinas.
    • A visão da reprovação como uma não escolha que exclui um ato especial da bondade de Deus.
    • A sobrevivência dos réprobos como seres que saqueiam as margens da criação e os vazios do espaço infinito com sobras de vida.
    • A sucessão de indivíduos no trono do governo demoníaco conforme as figuras sucumbem à natureza fantasmagórica do ser.
  • A análise dos argumentos favoráveis à perpetuidade do Inferno inicia-se pela exposição dos raciocínios formulados pela humanidade para conferir verossimilhança e sustentar a necessidade desse castigo sem fim.
    • A organização dos argumentos em ordem crescente de significação para fundamentar a parte considerada mais inverossímil da investigação.
  • As justificativas disciplinares e escolásticas para a pena infinita baseiam-se na eficácia do temor como instrumento de controle ou na suposta infinitude da culpa por ofensa à majestade de Deus, embora tais raciocínios sofram de fragilidade lógica e evitem a influência do Diabo.
    • O uso do temor à eternidade como medida de ordem policial para garantir a eficácia do dogma.
    • A tese da pena infinita como correspondência a uma ofensa contra um ser infinito.
    • A crítica à pluralidade de significados do termo infinito e à analogia das ofensas feitas a um tigre.
  • A fundamentação dramática da eternidade do Inferno repousa na dignidade do livre-arbítrio e na necessidade da responsabilidade individual, conferindo ao homem o direito de rejeitar as operações da graça e de fazer Deus fracassar em seu destino.
    • A faculdade humana de construir o próprio destino ou de insistir no mal como base para a individualidade.
    • O direito atroz de aceitar o consórcio detestável com os demônios e o fogo inextinguível.
    • O sentimento de Bunyam sobre a seriedade da conversão, da tentação e da queda em um abismo sem fundo.
  • A perpetuidade de um Inferno é considerada possível dentro da natureza extravagante do destino humano marcado pela dor física, embora a crença efetiva nessa condição seja caracterizada como uma forma de irreligiosidade.
    • A admissão de que todas as coisas extravagantes são possíveis em um destino impenetrável.
  • O relato de um sonho descreve o despertar em uma peça irreconhecível e a perda da consciência da própria identidade como uma vigília desconsolada que define a percepção do Inferno como uma eternidade sem destino.
    • A experiência onírica de cataclismos que precede o despertar em um ambiente de luminosidade escassa e móveis exatos.
    • O crescimento do medo diante da incapacidade de reconhecer a si mesmo e ao local.
    • A identificação do estado de vigília sem destino como a própria natureza da eternidade infernal.
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