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ODISSEU

CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. Tr. Nilson Moulin Louzada. São Paulo: Companhia das Letras, 1990

A longa cadeia das histórias antes da história, em que a Ilíada e a Odisseia formavam algumas malhas, abria-se com a cópula de Urano e Geia, fechava-se com a morte de Odisseu. O círculo abria-se com a mistura do céu e da terra, encerrava-se com uma briga mesquinha, um incidente mortal, com o jovem Telégono que, em terra estrangeira, sem saber matava o pai, e velho Odisseu, com o aguilhão de uma raça. Após Odisseu, começa a vida sem heróis, quando as histórias não acontecem exemplarmente, mas se repetem e se narram. O que acontece é a mera história.

Também por essa proximidade ao limite, pelo fato de colocar-se no ponto de fechamento do círculo, Odisseu é o herói que mais frequentemente conta histórias. Iniciava com a augusta e sufocante obscuridade das origens, que exigia silêncio; concluía com a figura deste guerreiro camuflado em comerciante fenício, que alguns suspeitavam ser um mercador fenício camuflado de guerreiro. Odisseu convidava à irreverência, à insinuação. Menos do que qualquer outro herói, Odisseu suscitou respeito. Murmurava-se até que houvesse sido o amante de Homero. Por isso o poeta o teria tratado tão bem, ocultando muitos de seus traços vergonhosos, chegando até a expurgar da Ilíada a figura de Palamedes, com o fito de não deixar nenhum traço que conduzisse ao seu traiçoeiro assassinato, engenhado por Odisseu. Por isso contara que ele teria derrotado as sereias, quando na verdade — alguns esclareciam zombeteiramente — teriam sido as sereias a desdenhar aquele marinheiro “murcho para as coisas eróticas”, com o ''nariz amassado“. Quando, no final da Odisseia, Zeus faz descer sobre Ítaca uma concórdia provisória, para fechar o poema, parece que as cortinas caem com excessiva pressa, antes que surjam muitas perguntas. Porém, nos séculos posteriores a Homero, certas perguntas sobre Odisseu e determinadas respostas continuariam a frequentar tantas bocas, num prolongado fogo de palha.


Faz parte da essência de Odisseu ser o último dos heróis, o que encerra o ciclo. Enquanto conclusão, ele é adjacente à vida que se seguirá, sem nunca mais fechar-se, num ciclo. Seu pé toca a linha limítrofe. Não a Ilíada, massa imensa abandonada na planura, mas a sinuosa Odisseia nos transmite como herança o multiforme romance: “trabalho de um indivíduo, não de um povo”, como Telêmaco define a procura do pai. Porém, último herói a retornar, Odisseu é também aquele que prolonga ao extremo o contato — e que intimidade de contato — com as potências primordiais, que se mostraram nas primeiras fases do ciclo. Seu vagar foi também uma recapitulação e apelo nominal daqueles seres e lugares que muitos já confundiam na recordação, expulsando-as para o domínio da fábula. Com Odisseu estão presentes pela última vez, poderosos e intactos, saudando nele o derradeiro viajante que pôde vê-los com os próprios olhos e testemunhar.

Enquanto Odisseu velejava fatigosamente rumo à sua ilha, o aedo Fêmio já cantava, nos salões do palácio de Ítaca, as gestas dos guerreiros com os quais Odisseu combatera em Troia. Quase tudo era já palavra. Só uma lacuna permanecia: as gestas do próprio Odisseu, eixo do ciclo. Odisseu, mestre da palavra, foi o último a fazer pensar que nem tudo é palavra, enquanto faltava o seu tesouro faiscante de histórias. Após o retorno a Ítaca, a partir da Odisseia, a frequência aos seres e lugares primordiais poderá ocorrer somente por meio da literatura.


Só entre os chefes aqueus Odisseu mantém os olhos baixos. Não por medo. Ao abaixar os olhos, Odisseu concentra a mente, isolando-a do resto, como seus companheiros não estão habituados a fazer, urde uma trama, dá forma a uma mechane. E o oposto do homem continuamente oprimido entre forças, entre máquinas, entre as mechanai da natureza e dos deuses. Àquele invisível novelo Odisseu agrega novas mechanai, mas desta vez elaboradas por ele. Agora conhece o segredo, não deve apenas suportar consequências. Assim, aumenta a confusão dos elementos e depois disso se aproveita para fugir das armadilhas. A frontalidade do herói não o atrai. Odisseu recua um passo rumo à mente tortuosa de Cronos para tomar impulso e lançar-se para além do herói. Quando os heróis estiverem mortos ou ultrapassados, Odisseu continuará olhando para o mar do qual espera a morte, fantasiando retomar a viagem, quem sabe em direção à terra onde os homens não conhecem o sal.

Odisseu e Édipo, os mais inteligentes na galeria dos heróis, foram mortos e mataram por engano. O primeiro foi morto pelo filho Telêgono, que não o reconheceu; Édipo mata o pai Laio, sem o reconhecer. Em ambos os casos por uma briga fútil: pela precedência numa encruzilhada, porque os guardiães do palácio de Ítaca discutem com um desconhecido. A lucidez de Odisseu e de Édipo exala em torno deles uma opaca névoa assassina.


Odisseu e Palamedes

Entre os gregos, Sócrates não foi o primeiro a ser morto porque era um justo. Durante a guerra de Troia fora precedido por Palamedes, que não era ainda um justo mas um sábio. Os dez anos diante de Troia foram ocupados só parcialmente pelas lutas na poeira e pelo choque das armas. Para os guerreiros, mais do que o medo foi o tédio a companhia constante. Numa estúpida planície asiática ergueram as barracas e observavam o horizonte. Não havia mulheres e até os amores entre homens podiam cansar. Por muitos anos, tiveram uma única ajuda preciosa: um homem como eles, um guerreiro, Palamedes, lhes ensinara a jogar dados, damas, astrágalos. Com o olhar fixo naqueles pequenos objetos rolantes, naquelas mesas com quadrados, o tempo passava. Atribuíam-se a Palamedes outras invenções: algumas letras do alfabeto, a duração dos meses, os faróis. Para os soldados anônimos era o inventor do jogo, de um encanto imóvel e interminável. Quanto ao resto, Palamedes era um príncipe como tantos outros. Chamava a atenção apenas por não usar barba. Mas havia alguém poderoso que o odiava: Odisseu.

Em Ítaca, um dia, quando fingia ser louco para não ter de enfrentar Troia, Odisseu viu Agamenon, Menelau e Palamedes, que vinham ao seu encontro, nos campos. Continuou a lavrar. Lançava mancheias de sal nos sulcos, havia atrelado um asno e um boi. Jogava o mar que ignora a ceifa no côncavo da terra fecunda, ele que um dia, depois de ter visto todos os lugares, acabaria, com sua pele salgada, no lugar em que as pessoas não conhecem o mar. Mas então era cedo ainda para que Odisseu soubesse que estava representando a si mesmo. Na cabeça, para acrescentar a insolência à ficção, pusera um chapéu com ponta: de Cabiro, de iniciado. Somente um outro iniciado poderia entender o seu jogo. Palamedes o observou. Depois, imprevistamente, arrancou o menino Telêmaco dos braços de Penélope e o atirou no sulco, diante do arado. Aí Odisseu parou. Fora vencido. Palamedes obrigara Odisseu a tocar o limite da simulação. Não havia nada que Odisseu detestasse tanto. Embora sabendo que assim não podia ser, a simulação não devia ter limites. Esse era o seu segredo, que o destacava da grande idiotice de todos os Áiacos. Simular era como planar do alto, acima de tudo, dominando com o olho, sem ser jamais dominado por outro olho, colocado em posição superior. Palamedes foi esse outro olho.

Odisseu silenciou e o seguiu. Encerrava no peito um ódio que nenhum inimigo conseguiria provocar. Durante anos combateram lado a lado. Em relação a Odisseu, Palamedes era “mais ágil no pensamento e menos capaz de servir a si próprio”. Suas invenções, que encantavam os soldados, não serviam para nada. Obedeciam à força da abstração e, ao mesmo tempo, repetiam o andamento da natureza. Palamedes o sabia. No santuário de Tique, em Argos, dedicou os dados que inventara. Tique era então uma divindade pouco frequentada. Mas um dia todos acabariam reconhecendo nela a imagem mais aproximada da natureza. O que acontece é um contínuo encontro de dados lançados. Esta imagem fixou-se um dia nos pensamentos e nunca foi superada. Diante de Troia, Palamedes era o único que a reconhecera em sua completude. Por isso Odisseu sentia ódio por ele, estava demasiado próximo para poder suportá-lo. Sua inteligência tinha necessidade de solidão e distância dos outros. Não podia admitir uma cumplicidade não desejada.

Quando se tratou de encontrar Aquiles para atraí-lo a Troia, Odisseu pensou logo no artifício com que Palamedes o desmascarara. Apresentou-se em Sciro disfarçado de comerciante e introduziu-se nos apartamentos das mulheres. Levava um fardo de mercadorias preciosas. Estendeu-as no chão. Mãos de donzelas logo começaram a examinar os tecidos, sopesando os colares. Mas no monte havia também um escudo e uma lança. E uma jovem de cabelos vermelhos agarrou-os rapidamente, como se tivesse estado sempre em contato com eles. Era Aquiles. Odisseu sabia que naquele momento, aplicando a acuidade de Palamedes, vencera a guerra. Conquistado Aquiles, Tróia já caíra. Faltava vingar-se de Palamedes.

Refletiu durante anos. E no final escolheu o engano que era simultaneamente o mais vil, o mais seguro e o mais filosófico. Ao desmascarar Odisseu em sua falsa loucura, Palamedes demonstrara a existência de uma verdade sob a simulação. Uma verdade do gesto. Odisseu contestou demonstrando o oposto: que o gesto mais verdadeiro podia ser considerado uma perfeita simulação. Pegou um prisioneiro troiano e lhe deu uma falsa carta de Príamo, para ser entregue a Palamedes. Na carta falava-se de ouro para um acordo entre eles. Depois matou o prisioneiro troiano e deixou que a carta fosse encontrada, como por acaso. Entretanto escondera ouro sob a cama de Palamedes. Quando a carta foi descoberta, e Palamedes se declarou inocente, Odisseu sugeriu que olhassem debaixo do leito dele. Então Palamedes foi unanimemente condenado pelos companheiros. Lapidaram-no. Cada um dos jogadores de dados lançou uma pedra sobre ele, junto com os chefe, Odisseu e Agamenon. Antes de morrer, Palamedes disse apenas que vestia luto pela verdade que morrera antes dele. Aquelas palavras eram a sua resposta a Odisseu. O inimigo de Palamedes demonstrara que uma total concórdia entre o mundo e a mente podia ser a própria falsidade. Todos tinham condenado Palamedes com sincera indignação. Todos tinham visto ouro sob a cama dele. O falso era mais coerente do que o verdadeiro. Odisseu voltou a sentir-se sozinho, no embriagante planar da inteligência.

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