CONTO DA SERPENTE VERDE
CENTENO, Yvette. A Simbologia Alquímica no Conto da Serpente Verde de Goethe. Lisboa: Universidade Nova Lisboa, 1976.
O Conto da Serpente Verde 1) de Goethe, escrito em 1795, ainda hoje é, de todas as suas obras, aquela que nos deixa mais perplexos.
Integra-se numa obra a que o autor deu o título de Conversas de Emigrantes Alemães. Mas nem o título, nem o teor geral das histórias narradas, ajudam a entender melhor o Conto com que a obra finaliza. Várias histórias são contadas pelos emigrantes uns aos outros, que assim vão matando as horas que têm de passar juntos. A ameaça do invasor francês foi a causa que os reuniu. Mas este pormenor histórico serve meramente de pano de fundo, não condiciona em mais nada os episódios que entre os emigrantes depois vão ocorrendo. Nem chega a modificar a natureza das histórias que são contadas. Estas relacionam-se com o mundo do sobrenatural, ou então pretendem que o leitor delas extraia alguma moralidade. A baronesa de C., viúva de meia-idade, em cuja residência os emigrantes se encontram reunidos, fala com insistência da generosidade de alma que é necessário ter, da capacidade de se sacrificar por outrém, pelo bem alheio, pelo bem comum, ’fuer andere zu leben, fuer andere sich aufzuopfern’, ’viver para os outros, sacrificar-se pelos outros’, eis uma qualidade rara que dificilmente se encontra nas pessoas,2) diz ela. Algumas das histórias contadas pelo velho sacerdote são como que comentários a esta afirmação. E no Conto veremos como o sacrifício de um pelo bem de muitos é a forma que melhor conduz à auto-realização, à perfeição.
Já para os seus contemporâneos o Conto permaneceu um enigma. O sacerdote que narra a história limita-se a dizer dela que fará lembrar ’tudo e nada’. E Goethe não prestará, como autor, mais esclarecimentos. Numa carta a Humboldt, de 27 de Maio de 1796, afirma que lhe foi difícil ser ’ao mesmo tempo significativo e não dar uma interpretação’3). Reconhece que se trata de uma obra de carácter simbólico, mas nada diz de concreto sobre o seu simbolismo.
Ronald D. Gray em Goethe the Alchemist4) debruça-se sobre o mistério do Maerchen, que define como um ’conto de fadas, carregado de profecias misteriosas e de fantasias alegóricas, ou simbólicas, de natureza alquímica’. O Maerchen de Goethe, escreve Gray, é o ’rubi sem rival das alegorias alquímicas’.
De fato é para o domínio da alquimia, do seu mundo secreto, arquetípico, que o Conto nos arrasta, logo desde as primeiras páginas.
O sacerdote pede, antes de começar, que lhe deem algum tempo, para que, depois do seu habitual passeio, da raiz da alma lhe possam aflorar à consciência as ’singulares imagens’ que outrora tantas vezes o tinham entretido.5)
E é à noite que inicia a narrativa.
Que Goethe noutros tempos também se tinha entretido com os mistérios da alquimia, sabemos nós muito bem. Fraeulein von Klettenberg foi a sua iniciadora. Agnès Bartscherer, em Paracelsus, Paracelsisten und Goethes Faust 6) chama a atenção para o fato de Goethe em 1769 ter sido curado da sua longa doença pela ’tintura universal’ de um sábio paracelsista.
Das obras que leu e meditou durante o tempo desta doença, em Frankfurt, podemos destacar as de Paracelso, (como é lógico, quanto mais não seja devido ao misterioso processo da sua cura), as de Boehme, a célebre Aurea Catena Homeri, e a não menos célebre Opus Mago-Cabbalisticum de Welling, bem como obras de Christian Rosenkreutz, de Basilius Valentinus, de Agrippa von Nettesheim, de Starkey, van Helmont, etc.7)
Mas quantas outras obras não poderá ele ter lido, sem que o fato ficasse assinalado? Seja como for, em todas elas determinados símbolos constantemente se repetem, símbolos de que Goethe virá depois a servir-se, e muito explicitamente no Maerchen. Só à luz destes símbolos o conto se deixa desvendar.
Ronald Gray aponta como esquema básico da concepção alquímica ’uma polaridade inicial e um conflito de opostos, caracterizados pela divisão geral do macho e da fêmea, da luz e das trevas, e representando o estado de tensão que existe no mundo da natureza. A esta tensão não se pode fugir, mas ela pode ser vencida pela renúncia a diferenciação pessoal, pela morte do eu. Esta morte é simbolizada ao mesmo tempo como uma rotação e como um regresso à origem das coisas, na qual uma centelha de vida pode ser descoberta. Alimentando-se desta centelha o adepto renasce, identifica-se com Deus, e esta identificação é representada como uma união entre o macho e a fêmea’.8) Elaborado em conto, transposto para um clima de maravilhoso, este esquema é o esquema do Maerchen.
Os acontecimentos narrados obedecem a uma imprevisível lógica, tão interior como a dos sonhos, e da qual só Goethe verdadeiramente nos poderia dar uma chave completa. Mas não o quis fazer.
As personagens que participam das grandes mutações verificadas no conto surgem de repente, sem serem anunciadas nem justificadas umas perante as outras e menos ainda perante o leitor. E mal surgem misturam-se e intervêm numa ação que está em curso e de que fazem parte integrante, como se conclui pela leitura, embora nada antes tivesse sido dito que o fizesse prever. E logo influem sobre os acontecimentos, e reagem umas perante as outras com a maior das naturalidades, como se tudo já tivesse sido explicado algures (noutro tempo, noutro espaço, noutra dimensão da narrativa) como se tudo fosse por demais evidente, o que não é o caso, e muito menos para o leitor desprevenido. Só mergulhando no mundo do inconsciente, só regressando a um tipo de imagens mais do que ’singulares’ (como disse Goethe) oníricas ou arquetípicas, se pode entender o Conto.
As personagens e os acontecimentos sucedem-se, apontando para uma grande mutação, para uma grande revelação final. Que personagens? Os fogos-fátuos, o velho barqueiro que os atravessa para o outro lado do rio, o próprio rio, a serpente verde, a bela Flor-de-Lis, o gigante, o rei de ouro, o rei de prata, o rei de bronze, e o rei dos três metais imperfeitamente misturados, o homem da lanterna, a sua mulher, o cão Mops, o Jovem, o canário, o Açor, etc. Ainda outros elementos intervêm, como o ouro, a luz, as pedras preciosas, os frutos da terra com que se deve pagar a travessia ao barqueiro e ao rio, o santuário ou templo, em que a serpente penetra e onde se encontram as estátuas dos quatro reis, esperando ’que chegue o momento’ e onde a conjunção final do rei e da rainha terá lugar (quando se cumprir a profecia e o templo surgir das águas) a ponte — tudo elementos de natureza simbólica que vão indicando, à medida que surgem, novas fases do desenrolar da ação.
COMENTÁRIOS
-
O rio aparece logo no início do conto com artigo definido, como se todos soubessem de qual se trata, o que o institui imediatamente como símbolo e não como elemento geográfico comum.
-
Referência a “o grande rio” em vez de “um grande rio” sinaliza singularidade simbólica
-
O rio é resumo de todos os rios existentes, um rio que é mais do que rio
-
Significado oculto torna-se transparente ao ser lido como símbolo
-
O rio do conto corresponde ao rio dos alquimistas, presente em obras como a Atalanta Fugiens de Michael Maier e o De Lapide Philosophico de Lambsprinck, onde a água transformadora preside à Obra.
-
Gravuras dessas obras ilustram a presença do rio e da água transformadora
-
A ponte sobre o rio simboliza a unidade obtida entre os opostos
-
A perfeição da Pedra Filosofal é representada por essa unidade
-
O rio e seu barqueiro ligam-se ao simbolismo das Águas como fonte, origem e matriz de todas as possibilidades de existência, segundo Mircea Eliade, sendo o rio também a prima matéria da Obra alquímica.
-
O rio contém imperfeição que deve ser alterada e falta de completude
-
Junto com terra, fogo e ar, o rio deve ser conduzido a um acabamento
-
As margens precisam ser unidas de modo perene pela ponte, superando a precariedade do barqueiro
-
O rio é água excessiva e transbordante, movimento e agitação opostos à serena imobilidade descrita por Boehme, além de caos informe e princípio masculino agressivo cujas águas representam um inconsciente ameaçador por não ordenado.
-
Chuvas torrenciais e cheia manifestam o excesso do elemento aquático
-
O rio opõe-se à imobilidade serena sistematizada por Boehme nos símbolos alquímicos
-
A ligação definitiva das duas margens é condição para que o rio se torne mais perfeito
-
O barqueiro e o rio não são símbolos da morte à maneira de Caronte, mas símbolos alquímicos de matéria imperfeita a transmutar, situados sob o signo da vida e da ressurreição, apontando para a integração dos opostos numa realidade superior.
-
No início do conto o nível superior ainda não foi atingido
-
O rio não suporta o ouro porque ainda é um princípio vital não depurado
-
O ouro das moedas lançadas pelos fogos-fátuos ainda era ouro vulgar, diferente do ouro da sabedoria
-
O ouro prematuro pode atuar como veneno sobre um inconsciente descontrolado, pois a maturação alquímica, como a maturação da vida, dá-se a seu tempo e não pode ser forçada.
-
Contrapor à força o equilíbrio total a um inconsciente descontrolado agrava o desequilíbrio
-
O momento adequado é condição para que o ouro vivifique em vez de destruir
-
O rio e o barqueiro aceitam apenas frutos da terra como pagamento, estabelecendo uma ligação profunda entre os elementos água e terra, num mundo seminal de onde germinarão formas mais perfeitas.
-
Os fogos-fátuos, oriundos de outra esfera, desprezam os frutos da terra e não os compreendem como moeda válida
-
Esse mundo é o da matéria primeira e da força obscura que anima a natureza
-
Os fogos-fátuos, como o rio, contribuem para a Revelação final que diz respeito ao Homem, embora não façam parte dela, apenas a precipitando.
-
São elementos ainda não acabados e não perfeitos
-
Sua função é catalisar o processo sem participar de seu resultado
-
Rio e barqueiro funcionam no conto como um único elemento, sendo o barqueiro apenas um aspecto de uma realidade mais universal que é a força do rio, a qual contém em si mesma a unificação.
-
O barqueiro declara não poder aceitar nada sem entregar um terço ao rio
-
A primeira união incipiente das margens é realizada pelo barqueiro
-
A união definitiva só se consegue mais tarde com o sacrifício da serpente
-
A aliança do rio com o negro revela-se quando a mão da mulher do velho da lanterna sai do rio preta como carvão, sinal da imperfeição daqueles que não cumpriram as obrigações da terra antes de aspirar à espiritualidade.
-
O negro é a imperfeição, e o rio marca com ela quem transgrediu a ordem dos elementos
-
A mulher cedera ao pedido dos fogos-fátuos e assumira uma dívida que era deles
-
Ela era complexa e humana, não um elemento puro como os fogos-fátuos
-
O sinal mais negro de imperfeição é, paradoxalmente, o sinal requerido para confirmar que a Obra progride em direção ao branco e à perfeição, conforme o Abade Dom Pernety no seu Dicionário ao definir o Branco do Negro.
-
Dom Pernety descreve o magistério em branco perfeito como aquele que só alcança a brancura passando pela cor negra
-
A cor negra é o verdadeiro indício da perfeita putrefação
-
Só renasce purificado quem primeiro bem morre
-
O rio é água humana, humanizada ainda pela presença do barqueiro, e pertence a um primeiro mundo material que cederá lugar a outro mais espiritual e perfeito, quando chegar o momento.
-
Da noite se chegará ao dia, das trevas à luz, da não-organização à unidade
-
Gaston Bachelard, em L'eau et les Rêves, ao falar de Poseidon, oferece um dado relevante: Poseidon teria começado como deus da água doce e da água terrestre, e em Trezenas recebiam-se oferendas de frutos da terra, o que ilumina a razão pela qual o rio do conto aceita apenas esse pagamento.
-
Poseidon é divindade marinha mas de origem ligada à água doce e terrestre
-
A correlação entre o culto de Poseidon e os frutos da terra confirma a lógica simbólica do conto
-
Há relação profunda entre a água-terra do conto e o céu, pois as chuvas que provocam o transbordamento do rio vêm do céu, tornando-o água divina, designada pelos alquimistas como Água Divina, Água Bendita ou Água de Vida.
-
O rio será no fim local de purificação
-
A serpente pede ao velho da lanterna que lance as pedras do seu corpo transmutado nas águas do rio
-
Das águas do rio surge o templo sagrado e sobre elas cresce a ponte
-
As pedras do corpo transmutado da serpente, lançadas ao rio, cintilam como estrelas e inauguram a conjunção do espírito e da matéria, precedendo a Conjunção final do rei e da rainha.
-
As pedras vogam com as ondas sem se poder distinguir se se perdem ao longe ou se afundam
-
A integração das pedras e da água é sinal de perfeição
-
O simbolismo do rio é ao mesmo tempo o da possibilidade universal, o do escoamento das formas, o da fertilidade, da morte e da renovação, conforme citação incorporada ao texto.
-
O rio pode ser ameaçador ou regenerador conforme o momento
-
A lição moral do conto é que se deve vencer de modo permanente o obstáculo da travessia
-
A travessia do rio, segundo o Patriarca zen Houei-neng, corresponde à passagem de um obstáculo que separa dois domínios e dois estados, sendo a margem oposta a paramita, o estado além do ser e do não ser.
-
O obstáculo separa o mundo fenomenal do estado incondicionado
-
O mundo dos sentidos é separado do estado de desprendimento
-
O rio simboliza ainda a existência humana e seu decurso com a sucessão de desejos, sentimentos e intenções, e todos os personagens do conto atravessam-no antes de chegarem à Conjunção e às transformações definitivas.
-
A travessia múltipla precede a superação dos estados efêmeros
-
O estado mais elevado é o da Imutabilidade e Perfeição
-
O rio é purificador, como afirma Michael Maier na Atalanta Fugiens ao dizer que a onda lava a sujidade do corpo negro, e no momento propício a mulher sai do banho com a mão curada e o corpo rejuvenescido.
-
Na água todos encontram remédio para os seus males, segundo Michael Maier
-
A água pode ao longo da Obra alquímica funcionar como elemento negativo, chamada por Maier de água fétida, mas essa impureza nunca é permanente
-
Bachelard, em L'eau et les Rêves, afirma que a balança moral inclina-se sem dúvida para o lado da pureza e do bem, pois a água tende para o bem, proclamando também sua íntima natureza celestial ou divina.
-
Bachelard descreve sonhos impuros com correntes negras e lodosas
-
É junto da água e sobre a água que se aprende a vogar sobre as nuvens e a nadar no céu
-
O barqueiro atinge a transcendência, participa das maravilhas que se operam nas profundezas da terra, e sua cabana é simbolicamente recebida no templo como altar de prata, ao qual sobem o Jovem e a princesa Flor-de-Lis.
-
O barqueiro surge vestido de branco e trazendo na mão um leme também branco, de prata
-
A prata e o branco ligam-se ao simbolismo lunar da Pedra, adequado ao rio e à água
-
O barqueiro atinge ao menos o grau da Pedra branca, o mais perfeito antes da Pedra rubra
-
A água preside a todas as formas alquímicas de mutação, como se vê nas gravuras do Rosarium Philosophorum e da Atalanta Fugiens, e a primeira fase da Conjunção dos opostos realiza-se na água, antes de se chegar ao branco ou ao rubro da Pedra.
-
No Rosarium é mostrada a pedra branca e a árvore das luas
-
Grande preponderância é dada à água nas gravuras desses tratados
-
Elie-Charles Flamand afirma que, depois de engendrado na onda viva, o agente filosófico eleva-se ao céu químico e torna-se a Pedra ao rubro, que realiza milagres, confirmando o que foi dito sobre o rio.
-
O agente filosófico é a parte espiritual da matéria
-
A elevação ao céu químico é resultado do processo iniciado na água
-
Os fogos-fátuos chegam de noite, acordam o barqueiro com urgência para passar ao outro lado e perturbam a travessia com seu comportamento irrequieto e brincalhão, obrigando o barqueiro a chamá-los à ordem para não virar o barco.
-
A eles está aliado o ouro precioso que o rio não suporta
-
O barqueiro precisa esconder esse ouro entre os rochedos
-
O fogo e o ouro andam sempre ligados nos textos dos alquimistas, pois é o fogo que prepara a matéria, a modifica, a purifica e lhe acelera o caminho para a perfeição imutável que o ouro simboliza.
-
A Obra dos alquimistas é frequentemente chamada Obra do fogo por Michael Maier
-
Maier afirma que a pedra vive do fogo e que o hermafrodita se prepara na regeneração pelo fogo
-
A Obra alquímica compõe-se de seco e úmido, como escreve Michael Maier, e no conto o elemento úmido foi introduzido pelo rio enquanto o elemento seco é introduzido pelos fogos-fátuos, mas como a união dos opostos ainda não se realizou, o ouro não pode ainda ser recebido.
-
O ouro é culminação da Obra e o conto está ainda na fase do nigredo
-
Os fogos-fátuos agem sobre essa fase inicial
-
O ouro dissipado erroneamente será jogado pelo barqueiro na caverna rochosa onde a serpente dorme
-
É necessário semear ouro na progressão da Obra, como diz a Atalanta Fugiens ao ordenar semear o ouro na terra branca trabalhada, e nos tratados até chove ouro como presságio feliz do fim da obra.
-
O ouro é elemento vivificador que anima tudo o que toca
-
O erro foi querer dar o ouro ao elemento líquido ainda não purificado
-
O semelhante rejubila com o semelhante, e o ouro deve ser dado a uma matéria já em vias de transmutação
-
A chuva de ouro dos fogos-fátuos é um prenúncio bom, pois os gregos contavam que uma chuva de ouro caía onde o Sol e Vênus se abraçavam, anunciando a conjunção de macho e fêmea e a resolução dos princípios opostos em unidade.
-
A chuva de ouro é um símbolo alquímico apontado pelos próprios fogos-fátuos ao provocarem essa chuva
-
Os fogos-fátuos são importantes porque a Pedra é o fogo e o ouro é o fogo em alquimia
-
Michael Maier escreve que a pedra é quente e gosta de um calor igual ao seu
-
O Epigrama de Michael Maier com a legenda O hermafrodita necessita de fogo e o emblema que o acompanha explicam melhor do que qualquer outra imagem a Conjunção do Rei e da Rainha e a importância do fogo para essa união.
-
O fogo detém toda a força da Pedra filosofal
-
O fogo desencadeia, precipita e acelera toda a evolução
-
O significado dos fogos-fátuos na história torna-se mais claro como o fogo acelerando a purificação e estabelecendo a unidade entre o branco perfeito e o negro seu oposto, entre o masculino e o feminino, e sua urgência em prestar homenagens à princesa Flor-de-Lis explica-se por essa função.
-
Os fogos-fátuos deixam cair moedas de ouro dentro do barco úmido, mas é cedo demais para essa ligação com o elemento líquido
-
Antes de atuar sobre a água terão de atuar sobre a terra
-
O ouro jogado pelo barqueiro na fenda dos rochedos desperta a serpente que o devora sofregamente, e esse primeiro processo de modificação transforma a serpente em transparente e luminosa, contaminando com brilho fantástico toda a natureza ao redor.
-
O primeiro efeito purificador do ouro é tornar a matéria transparente e luminosa
-
As folhas parecem de esmeralda e as flores ficam transfiguradas
-
A serpente identifica-se com os fogos-fátuos e com o ouro, reconhecendo neles elementos que lhe proporcionam a transformação interior e exterior a que aspira, declarando que faria tudo que lhe pedissem por amor desse ouro querido e na esperança de alcançar aquela magnífica luz.
-
Os fogos-fátuos pertencem ao mundo vertical e classificam a serpente na linha horizontal
-
Chamam-na comadre com certo ar jocoso mas reconhecem um parentesco com ela
-
Os fogos-fátuos pedem à serpente que os leve ao palácio e ao jardim da bela Flor-de-Lis
-
A Grande Obra dos alquimistas é obra de paciência e não de impaciência, e os fogos-fátuos não podem ser logo conduzidos à princesa, tendo de esperar pela sombra do gigante ao pôr do sol ou pela própria serpente ao meio-dia.
-
A precipitação prejudica a obra em vez de facilitá-la
-
É preciso esperar pelo momento adequado
-
Enquanto aguardam, os fogos-fátuos desencadeiam novos acontecimentos: dizem mil amabilidades à mulher, conseguem que ela assuma a dívida dos frutos da terra, lambem o ouro das paredes e provocam involuntariamente a morte do cão Mops com as moedas que derramam.
-
O fogo mata e o fogo vivifica
-
O ouro é simultaneamente elixir e veneno conforme a matéria está ou não preparada para recebê-lo
-
O cão Mops e a mulher funcionam por enquanto em níveis mais baixos de existência, não totalmente iluminados pela consciência
-
São os fogos-fátuos que, após a transmutação definitiva da serpente em pedras preciosas e em ponte, ajudam a abrir a porta do santuário onde a Conjunção do Rei e da Rainha terá lugar, consumindo com a ponta aguçada de suas chamas a fechadura e o ferrolho de ouro.
-
O domínio do sagrado está defendido por um grande portão
-
O fogo é o elemento que propicia e permite essa progressão iniciática
-
O fogo é a chave da Obra
-
O simbolismo da porta sempre esteve ligado à iniciação em templos hindus, chineses, gregos, romanos e nas tradições judaica e cristã, sendo Cristo descrito em São João como a porta do reino dos céus, enquanto para hermetistas e alquimistas a porta é a chave e a entrada que permite ao longo da Obra obter a Pedra.
-
Atravessar a porta da catedral ou do templo equivale a ser iniciado, passar da morte à vida, da escuridão à luz
-
Ripley tem um tratado chamado As Doze Portas e Basile Valentin tem As Doze Chaves, as doze operações necessárias para chegar à Pedra Filosofal
-
Já no santuário os fogos-fátuos prestam homenagem aos reis, mas o rei de ouro diz que seu ouro não é para a boca deles e os manda saciar em outra parte e trazer-lhe sua luz.
-
O fogo como elemento purificador não pode atuar sobre o que já está purificado
-
Sua ação deve exercer-se sobre o rei de liga, que por estar imperfeitamente misturado não resiste ao efeito do fogo
-
O fogo aniquilou o rei de liga em vez de sublimá-lo, causando sua ruína
-
Os elementos precisam estar perfeitamente integrados como se fossem um único elemento para que a obra alquímica se realize, e o fracasso do rei de liga demonstra que a imperfeição na integração leva à destruição em vez da sublimação.
-
A luz que o rei de ouro pede aos fogos é a da Revelação suprema
-
O rei de ouro, perfeito, não podia ser atacado pelo fogo e os fogos-fátuos não podiam dele se alimentar
-
Em Selige Sehnsucht, poema do West-Oestlicher Divan, Goethe louva o vivo que aspira à morte na chama, celebrando o efeito espiritualizador do fogo que consome mas purifica, transmutando apenas os eleitos como acontece à serpente.
-
O rei imperfeito e o povo que se atropela para apanhar moedas não beneficiam do fogo
-
O rei permanece imperfeito por estar em fase de excessiva imperfeição
-
O povo só dá atenção ao ouro material e não ao espiritual
-
O rei de ouro pede aos fogos que se alimentem e lhe tragam depois sua luz, e a serpente, em resposta ao rei de ouro, afirma que mais magnífico do que o ouro é só a luz, estabelecendo a ligação entre fogo, ouro e luz como símbolos de purificação espiritual.
-
No Rosarium lê-se que o ouro é o fermento da obra e que ele ilumina e preserva da combustão, sinal de perfeição
-
O rei de ouro não podia ser destruído pelo fogo
-
O fogo filosófico, conforme Etienne Perrot, une a humidade da lua à secura do sol e é um sol húmido, mas os fogos-fátuos no início do conto carecem desse equilíbrio duplo, o que os faz ameaçar o rio e matar o cão.
-
A harmonia entre os opostos seco-úmido ainda não estava realizada nos fogos-fátuos
-
Eles também se sublimam à medida que o conto e a Obra progridem, pois o ouro da cabana do velho da lanterna lhes sabe melhor do que o ouro vulgar
-
A serpente verde é o símbolo mais expressivo do conto do ponto de vista alquímico, aparecendo adormecida nas rochas, despertada pelo ouro, que a transforma em transparente e luminosa, mais próxima da pedra preciosa em que virá a se transformar no fim.
-
A serpente contempla maravilhada em si o novo brilho e a agradável luz que transfigura a própria natureza
-
As folhas à sua volta pareciam de esmeralda
-
A serpente é o símbolo da Pedra preciosa dos filósofos herméticos, o Ouroboros dos antigos alquimistas gregos, o Uno e o Todo, a chave e o centro de toda a Revelação, movida pelo amor desse ouro querido e pela esperança de alcançar aquela magnífica luz.
-
A serpente é aparentada ao fogo e aos fogos-fátuos mas é mais complexa e completa do que eles
-
Pertence à terra como pertence ao céu
-
É ela que liga as margens do rio ao meio-dia
-
É a serpente que descobre primeiro o santuário oculto, e depois, no interior, as estátuas dos quatro reis, e com eles troca palavras de iniciação, e só depois dessa penetração no mistério o homem da lanterna surge e ilumina maravilhosamente toda a catedral sem projetar nenhuma sombra.
-
O iluminar sem sombra significa que nada mais fica por diferenciar no mundo do inconsciente
-
Pela primeira vez o homem da lanterna pronuncia as palavras proféticas: chegou o momento
-
Após um grande estrondo no templo, o homem da lanterna e a serpente desaparecem projetados cada um para seu lado, a serpente para o Oriente e o velho para o Ocidente, e projetada para o local da Aurora a serpente acelerará todos os processos de mutação.
-
Dentro da caverna rochosa a serpente fora a prima matéria, caótica, informe, adormecida
-
Iluminada pelo ouro e transmutada em sua essência mais íntima, iniciada graças à visita ao santuário, ela progredirá rapidamente em direção à matéria mais perfeitamente organizada
-
É a serpente que revela ao velho da lanterna o quarto segredo, que ele não sabia, e só quando ela lho sussurra ao ouvido ele proclama que é chegado o momento, mostrando que o arco da ponte que cintila à luz do sol é a própria serpente tornando-se cada vez mais belo e mais brilhante.
-
O Jovem, antes de atravessar, pergunta se não será de recear pisá-la agora que parece construída de esmeralda, crisópraso e crisólito
-
Com a mutação da serpente começa a cumprir-se a Profecia da ponte
-
A transparência da pedra é símbolo de pureza e perfeição, e a transformação da serpente de jaspe sem transparência e simples ágata em pedra preciosa de berilo límpido e esmeralda de bela cor confirma o progresso em direção à perfeição.
-
Não há berilo tão límpido nem esmeralda de tão bela cor, segundo o conto
-
A serpente anuncia à princesa Flor-de-Lis que o templo está construído, embora oculto ainda nas entranhas da terra, e age como iniciadora, revelando à princesa o que primeiramente lhe fora revelado a si.
-
A serpente já viu os reis e lhes falou
-
Ouviu o homem da lanterna dizer que era chegado o momento
-
Para que não restassem dúvidas quanto ao seu misterioso e antigo simbolismo, a serpente verde forma com seu corpo um círculo ao redor do cadáver do Jovem, segurando a extremidade da cauda com os dentes, reconstituindo o símbolo do Ouroboros que os alquimistas escolheram para representar o Uno e o Todo, a Perfeição e a Imutabilidade.
-
Esse símbolo aparece nos textos dos antigos alquimistas gregos estudados por Berthelot
-
Aparece na Atalanta Fugiens no emblema XIV com o dragão que devora a sua cauda
-
Aparece também no De Lapide Philosophico de Lambsprinck de 1677
-
Sobre o simbolismo do Ouroboros muito haveria a dizer, mas basicamente ele significa a unidade e a regeneração, salientando-se no Dictionnaire des Symboles a unificação do mundo inferior representado pela serpente com o mundo celeste superior representado pelo círculo.
-
A serpente-ponte reúne as margens opostas e simultaneamente todos os pares de opostos concebíveis: céu e terra, bem e mal, dia e noite, macho e fêmea, luz e trevas
-
Representa segundo Bachelard a dialética material da vida e da morte, a morte que sai da vida e a vida que sai da morte
-
A serpente capta o primeiro bom indício de que a Obra se aproxima de sua fase final ao ver pairar no ar com penas purpurinas o Açor, estremecendo de alegria ao reconhecer o bom sinal do vermelho púrpura que confirma a boa progressão na Obra.
-
A serpente começa a rastejar pela última vez em direção ao rio
-
É sobre a água que se estende o sinal da purificação: a ponte, o corpo transmutado, o arco luminoso
-
O cortejo vê sobre o rio um magnífico arco luminoso formado pelo corpo transmutado da serpente, admirado de noite por sua deslumbrante magnificência, com o círculo luminoso recortando-se distintamente no escuro do céu e vivos raios partindo para o centro.
-
De dia admiravam as pedras preciosas transparentes de que parecia formada a ponte
-
De noite contemplavam com espanto sua deslumbrante magnificência
-
Na parte superior o círculo luminoso recortava-se no escuro do céu e na parte inferior vivos raios mostravam a flexível solidez da construção
-
O arco da ponte é símbolo da aliança entre o céu e a terra, a ponte que liga o temporal ao espiritual, e na alquimia o arco-íris corresponde à cauda de pavão, fase da obra de colorações múltiplas e irisadas que precede e anuncia a Pedra Filosofal.
-
No conto a mulher do velho da lanterna observa à princesa Flor-de-Lis que o mundo está a ficar cheio de cores, anunciando a Revelação que se aproxima
-
Muitos elementos se veem reunidos e contrapostos: dia e noite, luz brilhando contra o escuro do céu, raios que se projetam em direção ao centro
-
Chegou a hora do sacrifício de amor, em que o eu se entrega por amor desse ouro querido e na esperança de alcançar aquela magnífica luz, abdicando de uma existência particular mas efêmera para nascer para outra vida mais perfeita e duradoura.
-
As pedras preciosas e a solidez da ponte são consequência e manifestação dessa vida mais perfeita
-
Para Goethe a ponte do arco-íris é um presságio celeste de amor e felicidade
-
Em 1814 Goethe tem a visão de um arco-íris branco no meio do nevoeiro da manhã, exclamando ser um arco celeste, e a serpente já realizara esse arco no conto, primeiro com múltiplas cores preciosas, depois verde puríssimo e branco no fim quando a Obra podia considerar-se realizada.
-
A serpente modifica-se em sinal e por amor do Uno e do Todo
-
Após seu sacrifício o bem geral é possível
-
A serpente unifica terra, água e céu em sua totalidade, refazendo um cosmos
-
Citando o poema do West-Oestlicher Divan, Goethe afirma que enquanto o homem não entender o morre e devém, será apenas turvo conviva nas trevas da terra-mãe, e no conto o sacrifício da serpente concretiza esse princípio.
-
O velho da lanterna pergunta à serpente o que resolveu e ela responde: sacrificar-me
-
Seu belo corpo esguio desfaz-se em milhares de pedras cintilantes
-
Sua forma material desaparece e fica apenas um círculo de pedras brilhando sobre a relva
-
O Rosarium explica que a medicina está completada ao passar de uma forma a outra forma cristalina, e que a matéria deve tornar-se tão sutil que todas as partes iguais em natureza sejam misturadas com água, produzindo um único corpo transparente de continuidade por conjunção de numerosas partes.
-
O brilho, a transparência e a luminosidade perfeita das pedras em que o corpo da serpente se mudou indicam que a Obra alquímica chegou ao fim
-
Esse corpo sutil da serpente é lançado à água, unindo dois elementos e prenunciando as outras uniões
-
O velho e a mulher levam o cesto com as pedras preciosas para lançá-las todas ao rio, obedecendo ao pedido da serpente, e o rio aceita a dádiva, transportando as pedras cintilantes como estrelas luminosas.
-
Conjunção perfeita da água e do céu, da terra e do céu
-
O último conselho do velho ao Jovem já rei é honrar a memória da serpente
-
O Jovem deve-lhe a vida e os povos devem-lhe a ponte sem a qual as margens nunca teriam sido unidas
-
As pedras preciosas cintilando na água, resto do corpo sacrificado da serpente, formam os pilares da ponte gloriosa, sobre os quais ela se edificou a si própria e a si própria se manterá.
-
Surge a pergunta de por que o rio se enfurecia antes com o ouro e o rejeitava, se agora recebe as pedras preciosas
-
O rio não aceitava o ouro como pagamento de serviço prestado porque isso encerrava componente material
-
O rio aceita as pedras preciosas porque são ouro espiritual puro e perfeito entregue como dádiva, e repare-se que a serpente o recebeu sob forma de dádiva súbita e inesperada, sem saber de onde vinha, como se tivesse caído do céu, e é também como dádiva total que ela se entrega.
-
A dádiva é generosa e fica a servir de exemplo às gerações
-
A serpente chama atenção para a importância do amor e da oferta generosa de si mesmo em proveito dos outros
-
Sem o auto-sacrifício da serpente nunca se daria a Conjunção entre o rei e a rainha
-
A serpente é a serpente verde, e no Dictionnaire Initiatique o verde resulta da revelação e da manifestação, sendo ação e por extensão caridade, e cor terrestre que simboliza a realização e a ação, simbolismo que a serpente assume integralmente no conto.
-
Quando o rei de ouro pergunta o que é mais revigorante do que a luz, a serpente responde: a conversa
-
Mais importante do que o conhecimento revelado é a possibilidade de comunicá-lo, sendo útil a muitos
-
Ronald D. Gray, em seu estudo do Maerchen, chama atenção para o aspecto da comunicação, que coincide com a própria maneira de ser de Goethe, e a linguagem desconhecida dos fogos-fátuos seria uma alusão ao hermetismo excessivo dos filósofos alquimistas que a Goethe não agradava por ser incompatível com a função social de esclarecer o próximo.
-
A linguagem dos fogos-fátuos pode ser considerada também alusão direta ao fogo secreto ou fogo filosófico
-
O Revelado é o segredo mais importante, segundo o velho da lanterna ao rei
-
O velho da lanterna afirma que uma pessoa sozinha não pode fazer nada e que é preciso unir-se com muitos no momento propício, confirmando pela sua atitude a atitude exemplar da serpente e a importância da terra, da vida e do mundo no simbolismo do conto.
-
A ponte é símbolo de realização e unidade individual e também instrumento de progresso e perfeição social
-
O verde da serpente é assim respeitado em sua dimensão social
-
O homem da lanterna e sua mulher são talvez o par de opostos mais perfeito e mais significativo do conto, e paralelamente à conjunção dos jovens celebra-se a conjunção renovada desse par de velhos, com o casamento renovado e a mulher rejuvenescida.
-
O homem da lanterna diz que recebe de novo a mão dela e que com prazer viverá com ela o próximo milênio
-
Essa perenidade contida na imagem do milênio é a da Philosophia Perennis, sabedoria eterna a que aspira o alquimista verdadeiro
-
O contraste e a complementaridade entre o homem da lanterna e sua mulher são mais nítidos do que entre a princesa Flor-de-Lis e o Jovem príncipe, que são apenas princípios feminino e masculino esperando sua união.
-
A princesa é o branco, a luz
-
O príncipe é o indeterminado, o indiferenciado que a ela aspira e que sem ela não consegue viver
-
O manto de púrpura do príncipe é sinal de progressão na Obra, mas ele ainda terá de morrer para renascer vivo
-
O simbolismo do velho da lanterna é mais rico, pois é apresentado como homem de estatura média que traja como lavrador e traz na mão uma pequena lanterna, cuja luz clara é a da Consciência, serena, iluminando maravilhosamente toda a catedral sem projetar a menor sombra.
-
Já não fazia sombras porque toda a sombra estava nela integrada
-
O homem da lanterna simboliza o princípio da Sapiência Eterna e da Realização Suprema que os filósofos tanto querem obter
-
O Emblema XLII da Atalanta Fugiens de Michael Maier apresenta um homem caminhando com uma lanterna na mão como fator de esclarecimento, e uma figura de mulher com flores e frutos da terra, simbolizando a natureza que deve presidir a toda a Obra.
-
No conto o homem da lanterna diz que o gênio de sua lanterna o impele e que a lanterna chameja quando precisam dele
-
A natureza e o conhecimento, a mulher e a lanterna, são os polos sobre os quais se forma o equilíbrio sábio do homem
-
Quando o rei de ouro pergunta por que vem se têm luz, o homem da lanterna responde que não pode iluminar a escuridão, pois a sabedoria só funciona quando os obscuros valores do inconsciente são entendidos e integrados pelo homem.
-
A revelação só é dada àquele que já se pôs a caminho e a merece
-
A serpente já estivera no templo mas nada pudera ver
-
Agora que via graças à luminosidade de seu corpo, o homem da lanterna também apareceu e a revelação dos mistérios tornou-se mais total
-
A lanterna do homem tem o condão maravilhoso de mudar todas as pedras em ouro, todas as madeiras em prata, os animais mortos em pedras preciosas e de aniquilar todos os metais imperfeitos, e os fogos-fátuos afirmam que o ouro das paredes lhes sabe melhor do que o ouro vulgar.
-
Esse ouro não é o ouro material mas o ouro espiritual, o ouro dos filósofos, a Pedra, símbolo da perfeição suprema
-
Pela ação da luz da lanterna as paredes voltam a cobrir-se de ouro e o cão morto transforma-se no mais belo ônix que se pode imaginar
-
O homem da lanterna não simboliza a luz que brilha nas trevas, mas a luz mais perfeita que é resultado de uma conjunção de luz e trevas, e antes de operar a modificação das paredes e do cão cobre os carvões com uma camada de cinza, sendo sua presença eliminadora do negro na Obra.
-
O Jovem está interessado nos efeitos da luz sagrada da lanterna, pressentindo que dela dependeria sua salvação
-
O velho provoca com suas palavras que as estátuas dos reis se ergam nos lugares que lhes compete
-
O velho da lanterna comanda a coroação do príncipe, a cura da mão negra da mulher e todo o processo alquímico do acabamento da Obra, concluindo sobre o poder do amor: o amor não governa, mas constrói, o que é mais.
-
Chama atenção de todos para o mérito da serpente, de cuja capacidade de auto-sacrifício e de amor generoso todos beneficiaram
-
A mulher liga-se ao simbolismo da terra, da terra-mãe e do negro fértil regido por Isis no Egito antigo, encarrega-se da dívida dos frutos da terra que é preciso pagar ao barqueiro e ao rio e, porque não consegue cumprir, é castigada com a mão negra que corre o risco de desaparecer.
-
Os mortos não lhe pesam, pesam-lhe os vivos
-
É uma figura ligada ao domínio da sombra, ao ritual da fertilidade e ao inconsciente representado pelo gigante
-
O gigante, símbolo das forças descontroladas do inconsciente, é a causa direta da perda da mulher ao roubar-lhe três dos frutos que ela devia entregar ao barqueiro, e quando ela mete a mão no rio como sinal da dívida reconhecida, a mão sai preta como carvão.
-
A mulher não pode evitar o encontro com o gigante ao ir com o cesto de oferendas em direção ao rio
-
Sob a orientação do homem o negro torna-se fecundo, pois será ultrapassado por uma fase de perfeição total, sendo a mulher o negro que o homem, cobrindo o carvão, transmuta.
-
A mulher é a primeira do grupo a encontrar-se com Flor-de-Lis
-
É ela que lhe transmite o recado do homem de que chegou o momento e de que a maior infelicidade deve ser tomada como sinal da maior felicidade
-
A mulher é o complexo, imperfeito mas indispensável complemento do homem da lanterna, e sem ela a luz da lanterna poderia ser confundida com a fria luz da razão, pois a verdadeira luz da Sabedoria Suprema está intimamente ligada à afirmação da Vida de que a natureza é a manifestação.
-
O rio era elemento importante, mas essa figura de mulher comparável a Isis que governa o negro perfeito é elemento ainda mais positivo para a total compreensão da história
-
A mão escura da amiga na canção da princesa Flor-de-Lis é tida por bom sinal
-
Na alquimia a nigredo é a fase que anuncia a perfeição das seguintes, que culminam na albedo e na rubedo, e a passagem ao negro é necessária para que haja depois passagem ao branco e ao vermelho.
-
A mulher não parece ter consciência do processo em que está participando
-
Só pensa no perigo de ficar sem a mão e no negro dessa mão como castigo
-
É a serpente que diz à mulher para esquecer sua aflição e lhe pede que ajude a salvar o Jovem indo procurar os fogos-fátuos e mandando-os ao homem da lanterna, e por esse esquecimento de si própria a mulher será recompensada.
-
A mulher logo faz o que a serpente pede
-
A velha participa da transmutação da serpente ao tocar-lhe inadvertidamente o corpo, que se desfaz em milhares de pedras, e é em seu cesto que os frutos são transportados, bem como o cão, o Jovem morto, o canário e finalmente as pedras da serpente.
-
O cesto é um ventre de mãe, local de uma maturação que conduz à vida, símbolo do corpo maternal
-
Contendo frutos, significa o gineceu, os trabalhos domésticos e a fertilidade
-
O cesto torna-se luminoso, sinal de que participa da purificação geral, e é alargado como um útero para nele caber um corpo humano que em breve renascerá
-
O cesto é ainda o athanor, o vaso precioso dos alquimistas em que se perfaz a Obra, e junto do athanor trabalham o homem e a mulher ao apanhar juntos as pedras preciosas do corpo da serpente para lançá-las ao rio.
-
A mulher é obscura e inconsciente portadora de vida
-
Desse modo ela completa o homem, seu par real e par e oposto alquímico
-
A mulher é símbolo da Terra-mãe, da fértil terra regeneradora e criadora de vida descrita por Mircea Eliade, que analisa o conceito de Terra Genetrix presente em certas tribos de índios americanos do século passado, revelando a imagem primordial da Terra-mãe em que pedras são assimiladas a ossos, solo a carne e plantas a cabelo.
-
A Terra-mãe dá origem a todos os seres: humanos, animais, vegetais e minerais
-
Sendo uma mãe viva e fecunda, tudo o que ela produz é simultaneamente orgânico e animado
-
Muitos mitos falam das pedras como ossos da Terra-mãe, e nas tradições mais antigas dos povos caçadores que remontam ao paleolítico o osso representava a origem mesma da vida e era a partir dele que renascia o animal, bem como o homem.
-
Os tratados hindus de mineralogia descrevem a esmeralda na sua matriz, a rocha, como um embrião
-
A Terra sendo assimilada a uma mãe, tudo que ela esconde em seu seio pode ser considerado ser vivo, gérmen ou embrião em vias de se desenvolver
-
Na alquimia esses conceitos primordiais manifestam-se no forno dos filósofos e no vaso hermético considerados como matrizes da Obra, e Nicolas Flamel no seu Livro das Figuras Hieroglíficas diz que o forno é como o ventre e a matriz que contém o verdadeiro calor natural para animar o jovem Rei.
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
