OSWALD WIRTH – INTERPRETAÇÃO DO CONTO
Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
Na obra de um pensador tão prodigioso como Goethe, nada poderia ser insignificante. Nem tudo, contudo, possui igual atrativo literário. O poeta parece ter se preocupado em não permitir que nada se perdesse e em conservar para a posteridade suas visões sobre os temas mais variados; assim nasceram coletâneas desprovidas daquela unidade tão cara à nossa estética greco-latina. Os Anos de Viagem de Wilhelm Meister enquadram-se nessa categoria, bem como os Entretenimentos de Emigrados Alemães que, redigidos em 1795, tomam como ponto de partida os eventos da época para, em seguida, fornecer a Goethe a oportunidade de atribuir aos interlocutores que encena relatos de fatos estranhos pertencentes ao domínio do psiquismo.
Mas, a título de coroamento e como que para agradecer ao leitor por não ter se deixado abater, o grande artista quis oferecer-lhe uma joia rara, que não possui equivalente em qualquer literatura.
Trata-se de um conto maravilhoso sob todos os pontos de vista, que só pôde ser concebido sob a influência daquele sonambulismo especial ao qual Goethe atribuía a produção de suas mais puras obras-primas. Enquanto formava suas frases de acordo com as imagens que se apresentavam diante de seu espírito, o escritor certamente não se detinha a questionar o sentido dos símbolos que tinha a missão de fixar. Como pintor, cogitava apenas exteriorizar sua visão interior, reproduzindo-a fielmente, sem perturbá-la pela busca intempestiva de um esoterismo profundo.
A adivinhação do sentido oculto das obras de arte não integra, de fato, as atribuições normais do artista. É necessário que este seja acompanhado por um filósofo, um abstrator de quintessência, para que, a posteriori, possa discernir todo o alcance dos símbolos de que se serviu. Ninguém melhor que Goethe pôde beneficiar-se dessa dupla personalidade; mas o gênio criador prevalecia nele francamente sobre a intuição especulativa, que só obteve sua revanche na extrema velhice. Ele nos deixou enigmas esplêndidos, que se impõem à nossa admiração, mas cujo segredo não nos foi entregue. Teria Goethe o pudor de seu pensamento íntimo? Julgaria dever manter enigmático aquilo que lhe repugnava explicar? O fato é que ele permaneceu constantemente mudo quanto ao esoterismo de suas obras de sentido velado. O símbolo abre uma janela para o infinito. O pensamento jamais consegue apreender todo o seu alcance. Goethe, mui certamente, dava-se conta disso, daí sua ironia em relação às tentativas de interpretação de seu simbolismo.
Não tenho a pretensão de revelar tudo o que Goethe quis calar; mas, como a tantos outros, o genial poeta deu-me imenso material para refletir. Faust e Wilhelm Meister haviam fornecido, sobretudo, matéria para meus esforços de exegese; contudo, até os últimos anos, eu ignorava o conto simbólico da Serpente Verde.
O texto me foi comunicado, no final de 1908, pelo Dr. Carl Lauer, que havia lido na revista Acacia meu estudo intitulado: Um Simbolismo Inquietante. Atribuindo-me um dom particular para a decifração de enigmas, esse sábio ocultista houve por bem enviar-me a Illustrirte Zeitung de 4 de dezembro de 1902, onde pude ler o conto mais fascinante que conheço.
O simbolismo nele é complexo e não pude interpretá-lo, de imediato, senão em suas linhas gerais. Depois, meditei longamente, questionando o sentido dos detalhes, auxiliando-me por uma mui notável dissertação do professor Dr. August Wolfstieg, de Berlim, publicada no número de janeiro de 1912 dos Monatshefte der Comenius Gesellschaft für Kultur und Geistesleben.
Esse autor mostra-nos Goethe passeando, certa noite, ao longo do Saale, nos arredores de Iéna, enquanto, na margem oposta, uma dama vestida de branco fazia ouvir as modulações de sua voz harmoniosa em meio a um grupo de amigos. O crepúsculo poetizava a cena; mas eis que surgem dois estudantes que, rindo às gargalhadas, solicitam a travessia a um velho barqueiro, cuja cabana se erguia à beira do rio. Os jovens divertem-se fazendo oscilar a barca e zombam do náuta que os exorta à calma.
Tal seria o grão de realidade que, caído na imaginação do poeta, ali teria feito florescer o maravilhoso relato que me apliquei em traduzir literalmente. Não se deveria cogitar em fornecer um resumo, pois nenhum detalhe ali é ocioso: tudo se conecta, tudo tem sua razão de ser e sua significação.
O príncipe Konstantin de Weimar empenhou-se, dizem-nos, em desvendar o sentido místico deste conto, ao qual Goethe não deu nenhum título particular, como se tivesse pretendido torná-lo o seu conto por excelência. O fato é que a chave de todo um aspecto da simbólica de Goethe nos é mui provavelmente fornecida por este fantástico relato, que reserva o papel principal a certa Serpente Verde.
Sob este título, o ensaio de interpretação que ousei empreender encontrará acolhida, espero, aos olhos dos amadores de verdades ocultas, não menos que minha tradução, literariamente tão indigna do original saído da pena do mais admirável escritor dos tempos modernos.
Março de 1922.
