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GOETHE E O GOSTO DO MISTÉRIO
LEPINTE, C. Goethe et l’occultisme. Paris: Belles Lettres, 1957.
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Os três momentos essenciais que marcam a relação de Goethe com o ocultismo são a experiência mágica de Frankfurt e seus prolongamentos, o período cético e crítico em que aparece o Gross-Cophta, e a experiência do ocultismo romântico centrado nas manifestações do magnetismo animal.
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Apesar de uma ruptura na continuidade dessas relações, marcada pela época do Gross-Cophta, a veia mística e ocultista percorre de uma ponta à outra a vida de Goethe, sempre ressurgente.
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Tal persistência só pode ser explicada por uma inclinação profundamente goethiana ao mistério, Neigung zum Geheimnis, sobre cujo valor e sentido o pensador frequentemente se manifestou.
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No jovem, essa inclinação é prova da profundidade do caráter, uma forma de seriedade.
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O jovem que começa a viver e ignora tudo da vida é naturalmente inclinado ao pressentimento, Ahnung.
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No mistério ele deposita a esperança de seu destino e extrai a força e a segurança de sua ação.
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Jarno define esse gosto pelo mistério nos Lehrjahre (VIII, 5): o jovem que muito pressente crê encontrar muito num mistério, nele depositar muito e por ele dever agir.
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O próprio Goethe conheceu esse estado de alma feito de pressentimento e indecisão, de esperança e obscura confusão, resumindo em seu Tagebuch de 7 de agosto de 1779 sua juventude e seus primeiros anos weimarianos.
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Ali constata ter encontrado um prazer especial nos mistérios e nas obscuras situações imaginárias.
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O ancião também é inclinado ao mistério, pois segundo Goethe ele se encontra na idade do misticismo, oposta ao ceticismo da maturidade.
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Para o ancião que considera sua vida como uma intriga vivida, o mistério é a estranha coesão dos acasos e a razão última de sua existência.
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O mistério da vida se duplica pelo mistério da morte próxima.
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Goethe diz a Eckermann em 7 de outubro de 1827: todos caminhamos em meio a mistérios, Wir wandeln alle in Geheimnissen.
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O misticismo goethiano é uma forma de fatalismo, próxima ao islamismo, uma submissão absoluta à vontade impenetrável de Deus.
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A inclinação ao mistério assume em Goethe formas variadas, escalonadas desde o simples jogo do esoterismo até a atitude suprema do respeito, cada uma revelando um aspecto significativo do que se poderia chamar o ocultismo goethiano.
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Goethe criança apreciava reunir jovens amigos e encantar sua imaginação com histórias fantásticas, gosto que o estudante de Estrasburgo ainda possuía em Sesenheim ao encantar as filhas do pastor com maravilhosos relatos.
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Não apenas contava com facilidade estranhas histórias, mas sabia improvisar e envolver de mistério os menores incidentes da existência.
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O Abade dos Unterhaltungen deutscher Ausgewanderten desvia a conversa de temas políticos para o domínio das histórias de fantasmas e simpatias misteriosas, envolverem progressivamente céticos e semicrédulos.
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O mistério, nesse sentido, é criação de atmosfera.
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Uma outra forma do mistério como diversão coletiva é o jogo do esoterismo, praticado por Goethe ao se fazer admitir em 1772 em Wetzlar na Rittergesellschaft, grupo de companheiros joviais que se davam títulos, nomes e graus e se compraziam em cerimônias de iniciação.
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O jogo consiste em transfigurar pessoas, funções e realidades cotidianas que os símbolos e o esoterismo revestem de valor oculto.
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É o prazer de fazer mistério das situações mais naturais e manifestas (Dichtung und Wahrheit, III, 12).
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O mistério é então a especiaria que realça o prazer da vida social.
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O mistério assume forma superior quando responde a exigências pedagógicas, pois a necessidade de esconder e calar, Verhüllen und Schweigen, representa o duplo aprendizado do pudor e da discrição, da profundidade e do silêncio.
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O vigilante da Província pedagógica sublinha as vantagens morais e sociais do mistério.
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Os homens tendem a pensar que, uma vez que as coisas lhes são reveladas inteiramente e de imediato, elas não têm valor.
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É preciso envolver as coisas em véus misteriosos para que o interesse e a moralidade se elevem (Wilhelm Meisters Wanderjahre, II, 1).
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A expressão mistérios manifestos, offenbare Geheimnisse, reaparece com significação mais profunda, pois o homem passa todos os dias ao lado de realidades que não mais percebe, embora sejam verdadeiros mistérios.
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O esoterismo da Província pedagógica visa precisamente fazer nascer nos jovens alunos o interesse em vez da incuriosidade, o respeito em vez da indiferença.
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O mistério é portanto uma forma do sério, o antídoto necessário à banalidade e à frivolidade de espírito.
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O mistério como princípio educativo encontra sua expressão perfeita nas sociedades esotéricas, e as relações de Goethe com a maçonaria e a Ordem dos Iluminados apenas sublinham a atração exercida pelas sociedades secretas.
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Goethe lhes consagrou em sua obra um papel importante sob três aspectos: pedagógico e social, político e, enfim, místico e religioso.
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O primeiro aspecto é representado pela Sociedade da Torre em Wilhelm Meister; o segundo por reflexões em Kunst und Altertum (1814-15); o terceiro pelo fragmento inacabado das Geheimnisse.
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A Sociedade da Torre é nitidamente de inspiração maçônica, com cerimônias ocultas, graus iniciativos, estranha ubiquidade, manobras e discursos secretos, tudo portando ao mistério e mantendo o mistério.
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Lydie suspeitava dos homens da Torre por observar que escondiam um segredo: pièces fechadas, corredores misteriosos, a grande torre inacessível (Lehrjahre, VII, 6).
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Wilhelm Meister também é impressionado pelo mistério que envolve a estranha sociedade.
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A cena de iniciação aumenta ainda mais sua surpresa pela escolha do lugar, a sala do passado que parece uma antiga capela, a hora escolhida, o deslumbramento do sol nascente e as aparições enigmáticas.
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Tudo é concertado para inspirar o respeito, Ehrfurcht, e elevar o espírito do jovem iniciado à contemplação do destino como forma superior de vida.
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Pode-se perguntar se o mistério não age aqui ao contrário, pois o fim visado é o respeito, mas o resultado não seria também, como em Wilhelm Meister, o temor de ser mistificado?
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Jarno revela que o que foi levado a sério no início tornou-se objeto de sorriso (Lehrjahre, VII, 5).
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O testemunho de Jarno, espírito lúcido e racionalista, é talvez suspeito, pois foi o iniciado mais rebelde às bizarrices do ocultismo.
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Para Jarno, o mistério é meio cômodo de agir eficazmente na sombra e dirigir o aprendiz sem seu conhecimento.
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Na maçonaria Jarno representa a tendência estritamente pedagógica, e para ele o mistério não contém mensagem de alta espiritualidade, respondendo a razões de prudência e eficácia.
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A autoridade se mascara para ter mais força; a potência oculta é duplamente temida e respeitada.
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Isso toca o aspecto mais propriamente político do esoterismo, pois Goethe, ao refletir após 1813 sobre a reconstrução da Alemanha e da Europa, busca a solução nas antigas corporações de maçons agrupados em sociedade fechada (Kunst und Altertum, 1814-15).
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Ele desejaria ver nascer uma espécie de loja universal regida por estatutos rigorosos, fortemente hierarquizada, dividida em lojas regionais e locais, cujos membros ligados por sinais e senhas secretos praticariam amplamente a solidariedade.
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Não se pode negar a admiração de Goethe pelas organizações ocultas e, segundo a expressão de Geneviève Bianquis, um pouco jesuíticas, de vigilância, educação, direção e influência.
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Goethe considera enfim um terceiro aspecto das sociedades secretas, o místico e religioso, dominado pela ideia de que uma sociedade de eleitos ou iniciados perpetua uma mensagem sagrada que seria a essência de todas as doutrinas religiosas.
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O poema das Geheimnisse, concebido em agosto de 1784 sob influência rosacruciense, assombra o espírito do poeta e permanecerá inacabado.
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Julgado impossível já em 28 de março de 1785, quando Goethe o confessa a Knebel, é reconhecido em 1815 como grandioso demais para ser terminado.
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A ordem monástica do fragmento participa ao mesmo tempo da Ordem dos Templários, da Rosa-Cruz, da maçonaria e da confraria mística do Santo Graal.
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A influência da doutrina martinista é também muito sensível.
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No esoterismo místico, o mistério é fator superior de educação que leva à religiosidade e inclina a alma às pensamentos do divino.
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Zacharias Werner granjeou em 1807 a estima de Goethe por ter buscado conciliar o cristianismo e os mistérios maçônicos numa forma superior de religiosidade.
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Os Söhne des Tals marcaram uma época na existência goethiana.
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Goethe, ser de luz e poeta apolíneo na terminologia de Nietzsche, reconhece não menos aos lados noturnos da alma tanto um valor de encantamento quanto uma sensibilidade particular.
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O prazer que o jovem Goethe teve ao ler as páginas obscuras de Hamann se explica por um certo gosto do sibilino e da atmosfera pítica.
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Trata-se menos de uma busca das profundezas que de uma busca do encantamento.
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Por trás da obra, Goethe pressente o mago que admite algo de oculto e insondável (Dichtung und Wahrheit, III, 12).
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O enigmático é um traço da poesia goethiana, sobretudo na velhice, pois para Goethe, segundo relato do chanceler von Müller, uma obra de arte que não deixava nada a adivinhar carecia de verdade e dignidade.
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O misterioso, pelo que deixa na sombra, pelo que sugere e pelo que deixa a adivinhar, é condição de plenitude estética.
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Goethe responde misteriosamente a Eckermann sobre o sentido profundo das mães no segundo Faust.
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O Märchen se envolve nas mais obscuras mistérios, mas seu esoterismo desconcertante esconde verdades que a época não teria apreciado ver formuladas em termos muito claros.
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Estética e prudência se encontram: Goethe queria sugerir sem trair.
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A poesia, em sua mais alta missão, é sugestiva, pois se caminha envolvido de mistérios que não podem ser revelados, e o poeta está lá para indicar os obstáculos do caminho da vida.
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Em Zueignung, a Poesia, identificada à verdade, se congratula por ter conservado alguns véus.
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A poesia é feita de palavra e silêncio, de luz e mistério, porque se abre sobre realidades supremas que não se pode abordar sem respeito.
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Sob a dupla forma da discrição e do silêncio, o mistério aparece como atitude de respeito, explicando em Goethe uma certa desconfiança da palavra que não exprime suficientemente e uma certa aversão pela impudência do verbo que exprime demais.
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Faust não pode se resignar a tudo colocar no verbo.
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Mignon esconde o segredo de seu destino.
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A discreta Otília é vantajosamente oposta à faceira Luciane.
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Um poema maçônico intitula-se Discrição ou Verschwiegenheit.
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O Divan aconselha dizer a sabedoria apenas aos sábios, pois a multidão logo zombaria.
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O chanceler von Müller constata na Trauerrede que o mistério tinha para Goethe um encanto todo particular não apenas do ponto de vista poético, mas sobretudo como garantia contra a profanação de resoluções e aspirações nobres.
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O sentido do mistério em Goethe provém de seus estudos da natureza.
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Ali aprendeu que tudo que é grande e importante se prepara, cresce e se desenvolve apenas no silêncio, im stillen.
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Os empreendimentos mais nobres, prematuramente revelados, ficam expostos às reações mais hostis.
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Goethe observa ele mesmo, em um pequeno tratado de botânica de 1807, que tudo que é chamado a viver e a agir na vida precisa de um envoltório.
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Onde quer que apareça, a vida é envolvida e protegida pelo mistério.
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Uma lei misteriosa rege toda a escala do vivente, explicando para além das metamorfoses a unidade do ser e o desenvolvimento de uma forma primeira, Urform, expressão magnifica encontrada no poema Metamorphose der Pflanzen (1798).
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Todas as formas são semelhantes e nenhuma igual à outra, e assim o coro aponta para uma lei secreta, para um enigma sagrado.
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Por meio da metamorfose das plantas reencontra-se a noção goethiana do mistério manifesto, offenbare Geheimnis, pois o desenvolvimento da planta não escapa aos olhos de ninguém mas tem seu próprio mistério, e o processo secreto de sua metamorfose obedece a uma lei oculta, interna, biológica.
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Goethe condena como sacrilégio a ciência do racionalista que pretende desvendar o mistério das coisas.
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Wagner manifesta uma impudência de jacobino diante da natureza ao declarar que se ousará testar racionalmente o que se elogiou como misterioso na natureza (Faust II, v. 6857-8).
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O mistério está ao mesmo tempo na natureza e na atitude do observador, do lado da verdade e no esoterismo do poeta, pois o verdadeiro, como Deus, não se deixa apreender diretamente, mas em suas manifestações, suas assinaturas no sentido dos ocultistas.
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Das Wahre ist gottähnlich; es erscheint nicht unmittelbar, wir müssen es aus seinen Manifestationen erkennen (Maximen und Reflexionen).
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A verdade só deve aparecer velada e não pode ser comunicada inteira a todos.
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É um primeiro princípio pedagógico: só se deve dizer aos outros o que eles podem receber (Wilhelm Meisters Wanderjahre, I, 3).
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A verdade é o privilégio de alguns espíritos de elite, mas permanece verdade velada, verdade cujo nome é preciso temer pronunciar, como expressa o poema Zueignung (v. 57-64).
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Dich nenn' ich nicht… Dein holdes Licht verdecken und verschliessen.
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Goethe se encontra aqui com Saint-Martin, para quem a luz é feita para todos os olhos, mas nem todos os olhos estão feitos para vê-la em seu esplendor.
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Claude de Saint-Martin, em Erreurs (IV, V), afirma ter prometido a si mesmo usar muita reserva e se envolver frequentemente de um véu que os olhos menos comuns não poderão sempre perfurar.
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Para o Filósofo Desconhecido, como para Goethe, o mistério é portanto uma atitude de prudência e uma exigência de respeito diante da verdade.
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