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JOGO DAS CONTAS DE VIDRO (CENTENO)
Υ. Κ. CENTENO. SÍMBOLOS DE TOTALIDADE NA OBRA DE HERMANN HESSE. Lisboa: A Regra do Jogo, 1978
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Das Glasperlenspiel proclama a supremacia da arte — identificada à música e ao Jogo das Pérolas de Vidro — sobre qualquer outra forma de realização intelectual e humana, sendo o Jogo uma viagem em busca de si mesmo à semelhança das outras obras de Hesse.
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O livro é dedicado “aos peregrinos do Oriente”.
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A natureza do Jogo é idêntica à da música: unificadora e harmonizadora de tensões e conflitos.
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A música possui para Hesse valor idêntico ao da moral, transcendendo todas as morais e nascendo do grande Uno.
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O grande Uno, conforme o Tao Te Ching, gera os dois polos, os quais geram as trevas e a luz; a música relaciona-se com o Uno não dividido.
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O Jogo, inventado num círculo de músicos e musicólogos, é símbolo da atividade intelectual e artística e da capacidade de meditação mais profunda.
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O Jogo é uma linguagem universal cujas regras se ligam às da música e da matemática, tendo por objetivo supremo harmonizar temáticas e ideias antagônicas.
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O Jogo é forma simbólica da busca da perfeição e da completude, “sublime alquimia” e tentativa de aproximação do Espírito uno, ou seja, de Deus.
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A finalidade do Jogo é, como a da experiência mística mais pura, obter comunhão com Deus, onde toda multiplicidade é transcendida e nada se vive senão o “puro ser” e a “plena realidade”.
O Mestre da Música, verdadeiro iniciador de Josef Knecht, revela-lhe que aprender a meditar é mais importante do que o próprio Jogo, pois quem sabe meditar sabe tudo, vindo o resto por acréscimo.-
O Mestre senta-se ao piano e propõe a Knecht que imagine, como meditação, uma forma ou desenho em torno do tema a tocar.
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Knecht consegue desenhar a forma surgida na meditação: uma linha central curvada em circunferência com linhas laterais ordenadas ao redor como flores numa grinalda, configurando um mandala.
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Na noite seguinte Knecht sonha com essa mesma forma de mandala: o retângulo dos edifícios da escola transforma-se em oval, depois em círculo, depois em coroa, que gira com velocidade crescente, rebenta e se dispersa em estrelas.
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O sonho resume o caminho do herói: do retângulo da aprendizagem à totalidade do círculo, à eterna roda da vida que se desfaz em estrelas.
O Mestre da Música transmite a Knecht os fundamentos não apenas do Jogo e da música, mas principalmente da vida, sendo recordado muito mais tarde por Knecht como protetor e amigo que sempre possuiu seu coração e sua confiança.-
O Mestre ensina que a função dos homens é reconhecer os opostos primeiro como opostos e depois como polos de uma unidade, o mesmo se dando com o Jogo.
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Cada ser humano é apenas um projeto e uma etapa de um ser mais perfeito, devendo esforçar-se por atingir o centro onde a perfeição se revela, em vez de se perder pela periferia.
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A verdade existe, mas não há ensinamentos rigorosos e absolutos: ela é vivida, não ensinada.
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A divindade está no interior do homem, não nas ideias e nos livros, conforme diz o Mestre a Knecht.
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A vida será a mestra de Knecht se ele conseguir ser um bom aluno.
Já iniciado no Jogo, Knecht vive com intensidade a separação entre o século e o mundo ascético a que pertence, debatendo-a em diversas discussões com seu amigo Plínio, ainda incapaz de entender harmoniosamente vida contemplativa e vida ativa.-
Essa oposição é, segundo Hesse e as palavras do Mestre da Música, simplista e fictícia, como também demonstra Demian.
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O mundo do espírito não pode nem deve recusar o mundo da natureza; o ideal é conciliá-los e fazer sua síntese.
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A meditação, segundo o Mestre da Música, é via possível em que espírito e natureza se conciliam, sendo a fonte onde se bebe a força da unificação.
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Os dois princípios encarnados por Knecht e Plínio — mundo do espírito e mundo da natureza — precisam ser transcendidos numa unidade superior.
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O Jogo bem compreendido em sua essência conduz ao centro e à ciência fundamental da unificação dos opostos: céu e terra, Yang e Yin, espiritual e natural no homem.
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O Jogo funciona como prática esotérica cujo objetivo, como todo esoterismo, é alcançar o Uno e o Todo, Absoluto em que o jogador é absorvido quando leva a bom termo sua meditação.
Ao saber que foi nomeado Magister Ludi, Knecht tem uma visão em que o velho Mestre da Música e ele como jovem aluno caminham um atrás do outro girando num círculo sem fim, símbolo de Kastalien como totalidade que contém velhos e novos, Yang e Yin.-
O ideal de Knecht para Kastalien é unir harmoniosamente vida ativa e vida contemplativa, fazendo seus membros participar de ambas.
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Quando Knecht e Plínio Designori se reencontram anos depois, esclarece-se melhor a antinomia entre o mundo comum dos homens e o mundo dos eleitos de Kastalien.
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Plínio tentou realizar em si uma síntese dos dois princípios, mas fracassou: o século o venceu e o absorveu.
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Para Knecht poderia ter ocorrido o contrário, com Kastalien e o puro mundo do espírito a vencer; mas isso também, segundo os cânones de Hesse, seria uma derrota.
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