André Tanner – Gnósticos da Revolução
TANNER, André. Gnostiques de la Révolution. Paris: Engloff, 1946
A obra de Fabre d'Olivet e a de Saint-Martin propõem o problema do esoterismo em geral e de suas relações com a cultura e a literatura em particular.
Convém, primeiramente, dissipar a duvidosa obscuridade — fonte de prestígio ou de desdém, conforme o caso — com a qual se envolvem as palavras e as noções de ocultismo e esoterismo. Frequentemente, são as formas bastardas ou degeneradas — mediunismo, espiritismo, etc. — que gozam de maior publicidade e falseiam, assim, a verdadeira natureza das coisas.
Em que consiste, de fato, o que se convencionou chamar ocultismo? Pode-se reduzir o essencial a estas duas proposições.
O mundo oferecido aos sentidos e à razão repousa sobre uma realidade suprassensível da qual é a manifestação. É possível ao homem elevar-se ao conhecimento, despertar para a percepção dessa realidade.
Esses dois princípios permanecem constantes, mas o modo e a disciplina da pesquisa, bem como a forma da expressão, variaram ao infinito, sendo determinados, como todas as atividades do espírito humano, pelo tempo e pelo lugar. O ocultismo autêntico, muito atento à evolução histórica da consciência, distingue exatamente essas diversas formas e repudia o erro demasiado frequente oriundo da confusão de tempos e lugares. É falso pretender aplicar no Ocidente métodos orientais ou transportar para o século XX iniciações antigas. Somente merece ser considerado um ocultismo oriundo do gênio do Ocidente e adaptado à forma atual da consciência humana.
Além disso, se a pesquisa oculta supõe o despertar de faculdades superiores, a simples razão humana permanece como o único juiz de seus resultados. Em sua forma mais alta, o ocultismo deveria ser uma espécie de racionalismo, de realismo integral.
Assim definido, o ocultismo é uma das componentes e uma das constantes do esforço humano em direção ao conhecimento e à cultura. Trata-se de um fato psicológico: corresponde ao exercício de faculdades determinadas do espírito — e de um fato histórico. É vão pretender ignorar sua existência e função, sendo impossível negar sua contribuição às culturas que se sucederam na superfície da terra.
As antigas culturas do Oriente, da Índia dos Vedas ao Egito do Livro dos Mortos, possuem uma base oculta. O famoso baixo-relevo de Eleusis significa claramente a contribuição dos cultos de mistérios para a civilização grega, até em suas formas exteriores. No interior da era cristã, múltiplas vertentes insinuam-se, mais ou menos subterrâneas, para surgir aqui ou ali: da Gnose às lendas célticas, dos trovadores e albigenses aos alquimistas, humanistas e sábios do Renascimento. O final do século XVIII conheceu um entusiasmo extraordinário por essa forma de pensamento; o romantismo nela buscou abundantes recursos, e o problema se apresenta hoje com mais acuidade do que talvez em qualquer outro momento.
Tanto no século XVIII quanto no século XX, aliás, o florescimento do esoterismo coincide com transformações maiores na história. Vale a pena explicar o fato, a fim de melhor situar os dois escritores em questão.
No século XVIII, o que sempre impressionou os espíritos foi a oposição existente entre o racionalismo reinante e a inclinação ao oculto. Deve-se ver nisso, provavelmente, um desses fenômenos de compensação, tais como definidos por C. G. Jung, precisamente a propósito de um colega e contemporâneo de Fabre d'Olivet e de Saint-Martin. Permita-se recordar esta página já citada alhures. Após falar do gesto simbólico da entronização da Deusa Razão em Notre-Dame, Jung escreve: É, sem dúvida, mais do que uma simples piada da história universal que, precisamente naquela época, um francês, Anquetil du Perron, permanecesse na Índia e de lá trouxesse, no início do século XIX, uma tradução do Oupnek'hat, uma coleção de cinquenta Upanishads que permitiu pela primeira vez ao Ocidente lançar um olhar sobre o Oriente. Para o historiador, é provavelmente um acaso destacado do tecido causal da história. Meu preconceito de médico não pode ver nisso simplesmente um acaso, pois tudo aqui obedece a uma lei psicológica infalível para a existência individual: para todo elemento significativo despojado de seu valor consciente e que, por conseguinte, se aniquila, eleva-se no oposto, no inconsciente, uma compensação. Este fato é conforme ao princípio fundamental de conservação da energia, pois nossos fenômenos psíquicos são também processos energéticos. Nenhuma valor psíquico pode desaparecer sem ser substituído por um equivalente. É uma regra da prática cotidiana, jamais falha, sempre confirmada. O médico em mim se recusa a considerar a vida psíquica de um povo como independente das leis fundamentais da psicologia. Para ele, a alma de um povo é apenas uma formação um pouco mais complexa que a alma individual. E, inversamente, não fala um poeta dos povos de sua alma? Com razão, a meu ver. Pois algo em nossa alma não está isolado, mas pertence ao povo, à comunidade, à humanidade. Em algum ponto de nós mesmos, fazemos parte de um único grande homem, para falar com Swedenborg. Ora, a obscuridade em mim, indivíduo isolado, evoca a luz auxiliadora; o mesmo ocorre na vida psíquica do povo. A massa de energia obscura e sem nome que confluía para Notre-Dame, em um ímpeto destruidor, abateu-se sobre o indivíduo isolado; atingiu Anquetil du Perron (e sem dúvida também Saint-Martin, Fabre d'Olivet e alguns outros) em quem provocou uma resposta que se tornou significativa para a história universal. É dele que surgiram Schopenhauer e Nietzsche, dele que emana a influência espiritual do Oriente, cuja importância ainda não se pode determinar. Evitemos subestimar essa influência. Após tentar caracterizar alguns aspectos contemporâneos, Jung acrescenta:
Grandes renovações nunca vêm de cima, mas sempre de baixo. As árvores, da mesma forma, nunca descem do céu, mas crescem na terra, mesmo que a semente tenha caído de cima. O abalo de nosso mundo e o abalo de nossa consciência são uma única e mesma coisa. Tudo se torna relativo e, portanto, problemático; e enquanto a consciência, assaltada por dúvidas e hesitações, considera este mundo problemático, onde ressoam palavras de tratados de paz, pactos de amizade, democracia e ditadura, capitalismo e bolchevismo, a alma aspira a uma resposta para este caos de dúvidas e insegurança. E são precisamente as camadas obscuras da população, os provincianos pacíficos de quem se sorri, que, menos afligidos que as elites pelos preconceitos acadêmicos, abandonam-se a essa necessidade inconsciente da alma.
Sem pretender reduzir o estudo da evolução cultural aos métodos da análise psicológica, crê-se que Jung propõe aqui um princípio de explicação fecundo para o tema em pauta. Abalo do mundo, abalo da consciência: isso é verdadeiro para o final do século XVIII como para o início do nosso, podendo explicar muitos pontos em comum. Mas as diferenças importam ainda mais.
Admita-se que o movimento oculto do século XVIII se eleve por compensação à estreiteza de seu racionalismo. Sabe-se que as faculdades assim rejeitadas da consciência manifestam-se geralmente sob uma forma primitiva, mal diferenciada. Não é isso que explica, ao mesmo tempo, a incrível multidão de fazedores de milagres, profetas, charlatães, aventureiros de toda ordem, de Cagliostro a Saint-Germain, e o não menos incrível favor que encontram em todas as classes da sociedade, mas particularmente entre os grandes e na corte? Charlatanismo e credulidade, manifestações primitivas de faculdades compensatórias ao racionalismo reinante. Essas faculdades são, naturalmente, suscetíveis de uma cultura refinada. Mas importava marcar esse efeito de compensação, pois como explicar, sem isso, mesmo nos melhores espíritos, certos traços que surpreendem? Não é porque o pensamento corrente estava absolutamente fechado a qualquer noção de Providência que um homem, no entanto moderado e geralmente medido em seu propósito como Saint-Martin, chega, por compensação, a conceber essa noção exorbitante de uma Providência particular que não apenas o protege em meio aos distúrbios da Revolução, mas faz reinar a paz onde ele se encontra? E é notório que, por se sentirem excluídos da comunhão dos espíritos do século, certos escritores desse tipo tornam-se exclusivos e fulminam, por sua vez, a excomunhão.
Nunca se escapa totalmente de seu século, e sempre se carrega, indiretamente e por oposição, ou diretamente e por um acordo mais ou menos consciente, a marca indelével. Não é pequena a surpresa ao encontrar, por vezes, em Fabre d'Olivet, e nas páginas pitagóricas mais estranhas à filosofia da moda, que a palavra virtude se envolve em uma ressonância muito particular ao século XVIII, e que certos versos, primários e filantrópicos, que ele cometeu em sua juventude, como o estilo por vezes um pouco insípido de Saint-Martin, impedem de esquecer que este século foi também o de Greuze e do abade Delille. Mas tratam-se, nesses dois escritores, de elementos de superfície que se deve saber afastar.
Ora, a ideia de compensação acarreta necessariamente esta outra: uma faculdade assim excluída da consciência, e que tende por isso mesmo a manifestar-se de maneira primitiva, deseja ser, para si mesma e para a harmonia da cultura em seu conjunto, reintegrada em seu valor consciente. Essa reintegração dos valores ocultos torna-se hoje algo possível e necessário. Possível, porque a oposição está longe de ser atualmente tão absoluta quanto no século XVIII. O sensualismo de Condillac findou, e Saint-Martin, descendo à arena, não encontraria mais um único Garai. Por todos os lados nas ciências, e na física particularmente, nas letras, na filosofia e na psicologia, fendas se abriram por onde se infiltra lentamente uma substância que é o objeto mesmo da pesquisa oculta. E encontra-se diante de uma espécie de dilema: ou se esforça para integrar verdades como as que o pensamento oculto propõe — verdades que devem ser consideradas não como contraditórias, mas como complementares, no plano do espírito, à investigação científica no plano físico; ou se lança, de cabeça baixa, em uma filosofia do absurdo, até a náusea, até colidir contra o Muro.
É aqui que aparece o interesse que podem suscitar escritores como Fabre d'Olivet e Saint-Martin. Eles deram forma — forma literária e filosófica — aos valores humanos excluídos por uma concepção demasiado estreita do homem. Espíritos abertos, que possuíam a cultura de sua época, já tentaram uma síntese que era cedo demais para poder realizar. Mas eles trazem elementos que podem e devem entrar na síntese atual. Representam, em seu século e segundo a medida de seu talento, uma das formas que assume a eterna investigação do homem sobre si mesmo e seu destino, e um dos aspectos do gênio da França que não se tem o direito de ignorar.
