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A Cabala Cristã do Renascimento
Excertos da tradução espanhola de Ignacio Gómez de Liaño e Tomá Pollán
OS “ANCESTRAIS” DA CABALA CRISTÃ
- Pico della Mirandola (1463-1494), chamado o Fênix de seu tempo e o príncipe encantador do Renascimento, entrou cedo demais na lenda, sendo-lhe atribuídos desde o nascimento prodígios e uma memória extraordinária, além de uma carreira fulgurante que o levou de Bolonha a Ferrara, Pádua, Paris e Florença.
- No nascimento de Pico, um globo de fogo apareceu no quarto de sua mãe.
- Sua memória permitia-lhe recitar um poema a partir do último verso após uma única leitura.
- Postel, que se via refletido em Pico, falava do divino ou verdadeiramente angélico e mais humano espírito que habitou dentro do senhor Pico della Mirandola.
- Aos catorze anos, Pico abandonou o direito canônico pela filosofia e pelas línguas; aos vinte e três, propôs suas 900 teses de omni scibili.
- O historiador L. Febvre chegou a escrever que Pico desdobrava seus devaneios em tantos e grandes volumes, embora a parte de Juan Pico seja o menor dos infólios que reúnem as obras do tio e do sobrinho Juan Francisco, com quem ainda é frequentemente confundido.
- A tradição atribuiu a Pico della Mirandola a glória de ter introduzido a cabala no patrimônio humanista, primazia que o próprio Pico reivindicou na Apologia e que foi confirmada por Juan Reuchlin, pelo cardeal Egídio de Viterbo e pelo franciscano Pedro Galatino, fixando-se definitivamente pelo longo sucesso das obras de Reuchlin e Galatino.
- Na Apologia, escrita em defesa das teses que haviam alarmado a opinião romana, Pico declarou ser o primeiro a ter mencionado de maneira explícita a cabala.
- Desde 1516, Reuchlin, no tratado De arte cabalae, fez o judeu Simeão afirmar que o termo cabalistas era desconhecido na língua dos romanos antes de Pico della Mirandola.
- Em 1517, o cardeal Egídio de Viterbo, em tratado de cabala dedicado ao cardeal de Médici, futuro Clemente VII, reconheceu a primazia de Pico, o que foi repetido por Pedro Galatino em De los secretos de la verdad católica, publicado em 1518.
- Para compreender a aparição da cabala no meio humanista e sua evolução, é necessário atentar ao contexto da famosa declaração de Pico e ao ambiente em que ele desenvolveu seu pensamento, pois, embora mereça ser o herói da cabala cristã, esse contexto é indispensável.
- Ao falar de cabala implícita na Apologia, o jovem Conde tratou de buscar ancestrais para sua posição, respondendo à nona tese mágica suspeita, examinada pela comissão reunida a instâncias de Inocêncio VIII, que afirmava não haver ciência que dê maior certeza sobre a divindade de Cristo do que a magia e a cabala.
- Reuchlin registrou que, segundo Pico, o simples nome de cabala soava tão horrível aos doutores que, ao ouvi-lo, pensavam tratar-se não de homens, mas de hirocervos, centauros ou monstros semelhantes.
- Pico citou Horácio diante do absurdo da situação, mas não deixou de entrar em longas explicações, antecipando que quem os lesse depressa demais encontraria mistérios e enigmas em vez de um Édipo.
- Pico explicou que, segundo numerosos sábios hebreus como Rabi Eleazar, Rabi Moisés do Egito, Rabi Simeão ben Lagis, Rabi Ismael, Rabi Judá e Rabi Nachiman, bem como segundo doutores cristãos, Deus entregou a Moisés no Sinai, além da Lei escrita no Pentateuco, a explicação verdadeira da Lei com a manifestação de todos os mistérios contidos sob a letra das palavras.
- Moisés recebeu ordem de registrar por escrito apenas a lei literal e de comunicá-la ao povo, guardando-se de escrever a lei espiritual.
- A lei espiritual deveria ser confiada apenas a setenta sábios escolhidos por Moisés por ordem de Deus, com a recomendação de não escrevê-la, mas revelá-la oralmente a seus sucessores.
- Por ter sido transmitida como herança recebida de um mestre, essa ciência recebeu o nome de cabala, que significa recepção.
- Pico apresentou cinco testemunhos cristãos para confirmar que Deus revelou a Moisés mistérios além da lei literal: Esdras, Paulo, Orígenes, Hilário e o Evangelho.
- O texto de IV Esdras XIV, 3-6 mostra o Senhor ordenando a Esdras declarar certas palavras e ocultar outras, o que Pico interpreta como referência à dupla tradição, escrita e oral.
- Orígenes, comentando a Epístola aos Romanos de Paulo, afirmou que aos judeus foram confiados os oráculos de Deus, que Pico identifica com a cabala, ou seja, o verdadeiro sentido da lei recebido de boca em boca, chamado em hebraico Torah scebealpe, lei de boca.
- Hilário, em sua explicação do salmo II, testemunhou que Moisés, após redigir por escrito as palavras do Antigo Testamento, confiou separadamente alguns dos mais secretos mistérios da Lei aos setenta anciãos e a seus sucessores, tradição que o próprio Senhor evoca ao mencionar os escribas e fariseus sentados na cátedra de Moisés.
- Orígenes confirmou que essa doutrina mais santa e mais verdadeira não foi publicada, mas apenas revelada por Deus a Moisés e por Moisés aos setenta sábios, identificados com o Sinédrio.
- Pico comparou o papel desses setenta sábios ao dos cardeais da Igreja em seu tempo.
- Segundo Pico, os mistérios da cabala foram redigidos em setenta livros principais na época de Esdras, após a libertação dos judeus por Ciro do cativeiro da Babilônia, pois Esdras, presidindo a Sinagoga, quis evitar que a tradição oral se perdesse nas vicissitudes da história do povo judeu.
- Até então, nada dessa doutrina havia sido registrado por escrito, sendo transmitida apenas por recepção hereditária.
- Esdras ordenou que os setenta anciãos redigissem os mistérios em setenta livros, que seriam confiados apenas aos sábios, segundo as palavras do Altíssimo em IV Esdras 45-47.
- Pico retomou esses termos da Oratio que deveria pronunciar na abertura da discussão de suas 900 teses e acreditou ter reencontrado esses setenta livros ao comprar manuscritos de cabala.
- Contra as objeções de que os doutores cristãos antigos podiam estar se referindo a outros autores judeus, e não aos cabalistas, Pico respondeu que a escola dos hebreus se divide em três seitas, filósofos, cabalistas e talmudistas, e que os antigos doutores cristãos só podiam ter citado os cabalistas.
- Os doutores antigos não podiam ter citado os talmudistas, pois Clemente e outros que citaram os hebreus viveram antes da composição do Talmud, redigido cento e cinquenta anos após a morte de Cristo e erigido pelos judeus inteiramente contra os cristãos.
- Tampouco podiam ter citado os filósofos, pois a exposição da Bíblia segundo a filosofia foi iniciada apenas recentemente por Rabi Moisés do Egito, contemporâneo de Averróis de Córdoba, morto há trezentos anos.
- No Heptaplus, Pico voltaria a evocar a regra dos antigos hebreus recordada por Jerônimo, segundo a qual ninguém podia tratar da criação do mundo, o Ma'ase Beresith, antes de alcançar a maturidade.
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