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ECOS DA CABALA
Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990
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A cabala, apesar do caráter aristocrático e reservado de suas iniciativas e do número restrito de adeptos a quem se dirige diretamente, preocupa-se antes de tudo com dar relevo à devoção, ao sincero anseio religioso e às formas mais amplas e populares da experiência religiosa, mantendo sua perspectiva mística em contato constante com os elementos nativos do hebraísmo e num espírito de fidelidade a um sentimento difuso, fugindo das especulações sutis e dos excessos intelectualistas.
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A cabala sofreu solicitações dos mais diversos movimentos culturais e daqueles surgidos à margem das variadas experiências religiosas, mas sempre os transformou profundamente à luz de suas instâncias mais arraigadas, sobretudo as que lhe permitiam penetrar mais profundamente na alma religiosa hebraica.
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A grandiosa operação histórica realizada pela cabala teve também seus limites: por vezes caiu numa forte acentuação eclética pela variedade dos motivos que tentou unificar, e no âmbito específico do hebraísmo desenvolveu uma junção mais construtiva sem incidência orgânica e aprofundada num contexto cultural e religioso mais amplo — o que explica que, na direção atestada pelas investigações inspiradas na cabala levadas a cabo por grandes intelectuais não-hebreus da época humanística, não tenha alcançado resultados mais universais e operativos do que os que se manifestaram factualmente nas vicissitudes históricas, religiosas e culturais do povo eleito.
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O misticismo da cabala apresenta dois aspectos inseparáveis: por um lado mergulha suas raízes nos estratos mais profundos do hebraísmo, expressando seu caráter mais imediato e popular; por outro, desenvolve motivos largamente universais e característicos da espiritualidade mística em geral, estando em condições de encontrar-se com tendências análogas de outras tradições religiosas e até de influenciá-las — o que se exemplifica na enciclopédia universal de Raimundo Lúlio.
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Lúlio, substancialmente estranho às correntes da filosofia cristã dominantes na Europa do século XIII, colheu prováveis sugestões no misticismo da cabala ao idealizar uma grandiosa unificação cultural coordenada pela Ars magna — uma intuição de raiz capaz de dar lugar a uma ciência geral das ciências — como contributo para uma grande renovação religiosa de todos os povos por sobre suas divisões.
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Na intuição original de Lúlio convergem a iniciativa da revelação divina, a importância da linguagem pela qual essa revelação é codificada e a estreita conexão da linguagem divina com a estrutura do universo, revelando uma proximidade não casual com a inspiração da cabala.
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Para Lúlio, mediante o uso constante de letras e símbolos e pela construção de uma linguagem perfeita, é possível descobrir a cifra secreta de todas as coisas — empreendimento simultaneamente de penetração cognitiva e de missão religiosa, integrando a unidade fundamental do saber humano na unidade da tradição religiosa oriunda da revelação.
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O pensamento de Lúlio encontrou grande favor em ambientes religiosos e culturais dos séculos XIV e XV, apesar da oposição encarniçada da escolástica parisiense, e seu procedimento foi aplicado progressivamente à temática religiosa, à medicina, ao direito e à astrologia, sempre com o intuito de conduzir todos os homens à compreensão da verdade única e à penetração dos segredos divinos.
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No século XV, um grupo de cabalistas cristãos — dos quais os mais conhecidos foram Pico de Mirandola e Johannes Reuchlin — era particularmente sensível à noção de uma revelação originária feita por Deus a Adão, na qual seria possível descobrir o depósito inicial da verdade, antecedente e superior a todas as corrupções posteriores.
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As Conclusiones philosophicae, cabalisticae et theologicae de Pico de Mirandola, publicadas em 1486, reuniam novecentas teses extraídas das mais diversas tradições culturais e religiosas — dos filósofos e teólogos latinos, dos teólogos caldaicos e dos cabalistas hebraicos —, mas seu espírito não era eclético: Pico propunha-se demonstrar que a tradição cultural, religiosa, filosófica e mística dos vários países possuía um fundamento comum constituído por um conteúdo sapiencial inicial e de raiz ao qual inclusive o cristianismo de seu tempo devia regressar.
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A obra De arte cabbalistica de Reuchlin, sob a forma de diálogo entre um pitagórico, um maometano e um cabalista, propõe-se igualmente interpretar a cabala como uma teologia simbólica cujas origens remontam ao início da humanidade e que se desenvolveu sob formas diversas até o cristianismo.
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No âmbito religioso, a instância mais fortemente observada pelos cabalistas cristãos foi a da universalidade e da superação dos aspectos mais exclusivos das diversas tradições religiosas, com a busca de um ponto comum de encontro marcado por maior simplicidade e rico de valor inicial e original.
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Os cabalistas cristãos aparecem como intelectuais novos que, pela variedade e amplitude de sua cultura, deram conta da estreiteza do horizonte do cristianismo de seu tempo e se voltaram para perspectivas de desenvolvimento religioso e civil mais abertas e comuns.
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A diferença principal entre a função do misticismo da cabala no interior da tradição hebraica e sua função entre os humanistas cristãos reside no fato de que, enquanto a cultura cabalística dos humanistas se expande sob o signo de uma tradição universal por suas implicações simbólicas e indeterminadas, as expressões hebraicas da cabala têm maior difusão popular, fundem-se mais homogeneamente na tradição hebraica e exprimem de modo mais exclusivo e peculiar suas vicissitudes e seu destino histórico.
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