ESOTERISMO
Este termo só parece fazer sentido no caso da tradição espiritual ocidental, onde um abismo se abriu entre o exotérico e o esotérico. Nas tradições orientais há de certo modo um contínuo, pelo qual percorre a iniciação de um adepto de uma qualquer das diferentes tradições espirituais do Oriente. Nesta seção sobre o esoterismo ocidental estaremos percorrendo desde os Mistérios na Antiguidade da Grécia e de Roma, passando pelas chamadas ciências sagradas alexandrinas, como o Hermetismo e a Alquimia, até as inúmeras ramificações destas raízes esotéricas originárias na Antiguidade Ocidental, chegando aos dias de hoje de modo submerso, mas aflorando aqui e ali. Vale ressaltar o representativo crescimento de estudos acadêmicos sobre o Esoterismo Ocidental, dando um destaque a nomes como Antoine Faivre e seus companheiros do Cahiers de l'Hérmétisme, André-Jean Festugière, Pierre Riffard, Joscelyn Godwin, Elemire Zolla, Wouter J. Hanegraaff e outros.
RIFFARD, Pierre. L’ésotérisme: qu’est-ce que l’ésotérisme? Anthologie de l’ésotérisme occidental. Paris: Robert Laffont, 1990.
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A pergunta sobre a natureza do esoterismo é tipicamente respondida pelo esoterista não com uma explicação direta, mas com um ato que remete o questionador de volta à sua própria interrogação, indicando que a resposta reside na própria curiosidade.
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A resposta do esoterista pode ser um gesto não verbal, como apresentar um espelho ou apontar para o longínquo, em vez de um discurso.
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Ao devolver a pergunta, o esoterista faz com que o questionador se encontre diante de sua própria busca, o que representa um progresso.
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A abordagem proposta para compreender o esoterismo não é o confronto direto com o esoterista, mas uma aproximação indireta e gradual, que permite regular a distância e evita os perigos de um ataque frontal ou de uma fuga.
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A técnica consiste em dar uma grande volta, aproximando-se por círculos concêntricos, o que é uma característica distintamente humana, conforme observado por Platão ao valorizar “a estrada mais longa”.
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O rodeio evita a tentação da fuga e a insensatez do ataque, sendo o caminho mais curto em um labirinto algo que geralmente leva a um perigo.
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A investigação deve partir do reconhecimento de que o esoterismo se encontra em uma posição de distância e afastamento, o que impõe uma questão fundamental e inevitável sobre a própria possibilidade de se falar sobre ele.
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A situação de distância sugere que o esoterismo está à parte, suscitando uma terrível suposição.
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O problema central a ser enfrentado antes de tudo é se é possível discorrer sobre o esoterismo.
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A questão fundamental sobre a exposição do esoterismo aplica-se tanto à perspectiva de quem o pratica quanto à de quem o estuda, exigindo que se considere a proibição intrínseca ao seu objeto de estudo: as doutrinas secretas e as práticas iniciáticas.
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Para quem pratica (o esoterista), trata-se do primeiro problema; para quem estuda (o esoterólogo), trata-se do último problema.
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Falar de esoterismo implica necessariamente confrontar a proibição de divulgar o que é secreto, contado ou mencionado.
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A questão do esoterismo se desdobra em três perguntas distintas, que abordam, respectivamente, a validade da noção, a permissão para tratá-la em relação ao seu complementar exotérico e a possibilidade real de se construir um discurso sobre o que é, por definição, secreto.
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A primeira pergunta indaga se é válido falar *de* esoterismo, questionando se a própria noção tem razão de ser ou se é uma ideia a ser rejeitada.
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A segunda pergunta investiga se é permitido falar *do* esoterismo, considerando a possível repressão e a relação contraditória com o exoterismo.
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A terceira pergunta explora a possibilidade de falar *o* esoterismo, ou seja, em que condições um discurso sobre o secreto não se torna radicalmente impossível.
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O problema central é uma questão prévia sobre a própria existência e sentido do esoterismo, anterior a qualquer discussão sobre seus temas ou história, indagando se a noção possui um sentido, e não qual seria esse sentido ou valor.
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A controvérsia em torno do esoterismo atinge o seu próprio ser, sua realidade e seu significado.
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A questão prévia não é sobre o valor ou sentido do esoterismo, mas sim se ele tem algum sentido, se a noção é válida ou uma farsa, se é metafísica ou uma fábrica de mistificações.
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A desconfiança em relação ao esoterismo é radical e se manifesta não como um esforço de discernimento, mas como uma escolha binária entre ser ou não ser, uma atitude de acusação em vez de debate, que visa exterminar a ideia em vez de discuti-la.
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A desconfiança não pergunta o que o esoterismo é, mas se ele é ou não é, classificando-o como alucinação ou devaneio.
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A deliberação sobre o esoterismo se transforma em acusação, com uma atitude feroz que visa exterminadores e culpados, não adversários em um debate clássico.
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O esoterismo é alvo de uma agressividade imediata e essencial que não se verifica em outras disciplinas, onde as críticas se dirigem a aspectos específicos e não à existência ou sanidade da própria área de conhecimento.
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Em matemática, política ou teologia, as críticas recaem sobre demonstrações, opiniões ou crenças, sem jamais se suspeitar da invalidade fundamental da disciplina ou da loucura do interlocutor.
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A simples menção da palavra “esoterismo” provoca escárnios e recusas ao debate, acusações de charlatanismo e pseudofilosofia, um tratamento que não é dispensado a outras áreas do saber.
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O adversário do esoterismo julga a ideia não por sua validade intrínseca, mas por sua conveniência e compatibilidade com seu próprio sistema de representações, o que leva a uma distorção do problema, pois o esoterismo é naturalmente incompatível com os valores da lógica formal.
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O adversário, ao aplicar um pensamento lógico a um sistema que opera fora dessa lógica, comete um sofisma, transformando a questão da validade em uma questão de adequação a um universo pré-estabelecido.
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Essa astúcia, ainda que ingênua, leva ao desmoronamento da ideia de esoterismo, pois ela é julgada por uma regra que lhe é estranha, onde a incompatibilidade é automaticamente interpretada como ausência de valor.
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O esoterismo é caracterizado não como um pensamento falso, mas como um falso pensamento, destituído de estatuto de conhecimento e equiparado a delírios, erros e mentiras, sendo assim desqualificado sumariamente ou por meio de argumentações que visam provar seu suposto ilogismo.
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A acusação de divagação implica que as obras de arte esotéricas são fantasmagoria, as práticas iniciáticas são auto-sugestão e os conhecimentos secretos são ilusões ou mistificações.
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Exemplos históricos de desqualificação incluem a definição da cabala como aberração (Reinach), o “confusionismo mental” de Guénon (Étiemble), a classificação da alquimia como ocupação de loucos (Fourcroy) e a redução da magia a uma falsa ciência e arte estéril (Frazer).
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