0 Introdução
YATES, Frances A. The Occult Philosophy in the Elizabethan Age. London: Routledge & Kegan Paul, 1979.
1. O estudo aqui empreendido possui caráter estritamente histórico e não constitui uma investigação sobre o oculto em geral, voltando-se para aquilo que, no Renascimento, se denominava “filosofia oculta”, isto é, uma perspectiva formada pelo hermetismo revivido por Marsilio Ficino, ao qual Pico della Mirandola acrescentou uma versão cristianizada da Cabala judaica, combinação que recebe esse nome a partir do título do influente manual de Henrique Cornélio Agrippa.
2. Apesar da tendência dos estudos modernos de privilegiar o lado hermético da filosofia oculta, o movimento deve ser chamado de “hermético-cabalista”, pois a vertente cabalista é fundamental por ter permanecido em contato com a tradição viva da Cabala judaica e por ter exercido, mediante sua cristianização, influência poderosíssima sobre a história da religião, razão pela qual o foco recai sobre a filosofia oculta em seu aspecto de Cabala cristã, ainda que o tema seja abordado sem a plena qualificação de um hebraísta.
3. O estudo sério da história da Cabala foi inaugurado por Gershom Scholem, cuja grande obra “Major Trends in Jewish Mysticism”, publicada em inglês em 1941, revelou a riqueza extraordinária desse campo negligenciado do pensamento e da religião, servindo de base a todas as exposições modernas sobre o assunto, embora ainda não tenha sido integrada à história geral e permaneça vista como estudo especializado, quando deveria constituir uma revelação para todos os historiadores.
4. A Cabala, palavra que significa “tradição”, baseia-se na crença de que Deus, ao entregar a Lei a Moisés, concedeu também uma segunda revelação sobre seu sentido secreto, transmitida oralmente por iniciados ao longo das eras, configurando uma mística enraizada no texto das Escrituras e na língua hebraica, da qual nasceu uma mística teosófica alimentada pela busca de sentidos ocultos e pela manipulação do alfabeto hebraico, essencialmente um método de contemplação religiosa que podia facilmente converter-se em magia religiosa, ainda que tal uso representasse uma degradação de seus propósitos mais elevados.
5. Na Espanha medieval, a Cabala desenvolveu-se como sistema teosófico fundado nas Sefirot, intermediárias ou emanações do divino, e em técnicas de manipulação das letras hebraicas voltadas à contemplação mística, cujos principais sistemas, literatura, da qual o célebre Zohar constitui apenas um item, e estudiosos decisivos foram esclarecidos pelas análises lúcidas e vigorosas de Scholem.
6. Em 1492, esse desenvolvimento foi interrompido pela vasta tragédia histórica da expulsão dos judeus da Espanha, que deslocou os centros da vida e da cultura judaicas para a Itália, a França, a Alemanha e a Turquia, e até para a Inglaterra no reinado de Henrique VII, levando consigo uma Cabala intensificada pelo sofrimento e pelo exílio.
7. A Cabala cristã foi fundada por Pico della Mirandola em Florença, pouco antes da Expulsão, a partir de técnicas aprendidas com judeus espanhóis, mas interpretadas em sentido cristão por crer que a Cabala confirmava a verdade do cristianismo, distinguindo-se da Cabala judaica tanto por esse uso cristão quanto pela incorporação do hermetismo e da magia hermética, ainda que existissem afinidades básicas entre a gnose hebraica, supostamente oriunda de Moisés, e a gnose hermética, atribuída ao egípcio Hermes Trismegisto.
8. Os estudos pioneiros sobre a Cabala cristã incluem o livro de J. L. Blau, “The Christian Interpretation of the Cabala in the Renaissance” (1944), e a vasta pesquisa documental do francês François Secret, reunida em “Les Kabbalistes Chrétiens de la Renaissance” (1964), que evidencia as enormes ramificações do tema, o quanto ele permanece inexplorado e o quanto é fundamental para qualquer compreensão profunda do Renascimento.
9. A Cabala cristã é fundamental sobretudo para o chamado neoplatonismo renascentista, inaugurado no círculo dos Médici em Florença por Ficino e Pico no fim do século XV, de modo que, pela infiltração da Cabala espanhola nesse ambiente, Pico surge como figura pioneira na integração gradual das influências judaicas modernas à cultura europeia, processo intensificado pela Expulsão.
10. Enquanto o lado mágico do núcleo hermético-cabalista do neoplatonismo renascentista e sua influência sobre a concepção do homem como mago já foram explorados pela erudição moderna, o lado cabalista conferiu poderoso apoio a todo o movimento, alcançando as esferas religiosas por meio do intenso culto dos anjos e contribuindo, pelo entusiasmo com as novas profundidades espirituais reveladas nas Escrituras, para o caminho rumo à Reforma, pertencendo assim tanto aos estudos do Renascimento, por sua integração ao neoplatonismo, quanto aos estudos da Reforma, por sua influência sobre movimentos protestantes e católicos.
11. Foi justamente essa vertente do neoplatonismo renascentista a que mais se desenvolveu depois de Ficino e Pico, pois o interesse pela Cabala cresceu enormemente no final do século XV e ao longo do século XVI, provavelmente sob influência dos judeus exilados, orientando o movimento para uma direção mais intensamente religiosa e, em particular, para a ideia de reforma religiosa.
12. O neoplatonismo renascentista em sua forma mais intensa encontra-se no “De arte cabalistica” de Johannes Reuchlin, publicado em 1517, discípulo de Pico que adquirira na Itália o interesse pela Cabala e já publicara o “De verbo mirifico” (1494), obra que constitui o primeiro tratado sistemático sobre o tema escrito por um não judeu, e um alemão, marcando a migração da Cabala para o norte e o início de sua ligação com a Reforma alemã, ao mesmo tempo em que, dentro de um quadro predominantemente cabalista, se mostra repleta de Platão, dos neoplatônicos, de Ficino, de Hermes Trismegisto e da prisca theologia.
13. Na Itália, a Cabala foi adotada com fervor por entusiastas da reforma católica, como o cardeal e hebraísta Egídio de Viterbo, e sobretudo pelo frade franciscano Francesco Giorgi, o frade cabalista de Veneza, impregnado de neoplatonismo renascentista, de seus acessórios herméticos e principalmente da Cabala cristã reforçada pela mística franciscana, figura que, embora impensável sem Ficino e Pico, deles se distingue profundamente e pertence claramente a uma época posterior.
14. O suave frade franciscano parece muito distante de seu contemporâneo Henrique Cornélio Agrippa, que enfatizou fortemente o lado mágico, mas a estrutura angélica de pensamento em que Agrippa opera é a mesma que sustenta a mística de Giorgi, fazendo dele igualmente um neoplatônico renascentista e um cabalista cristão profundamente interessado na reforma religiosa, que, na reação do fim do século XVI contra o ocultismo renascentista e suas simpatias reformistas, se tornaria o bode expiatório de todo o movimento, perseguido como mago negro.
15. O estudo da influência do neoplatonismo renascentista no fim do século XVI, mais de cem anos após o movimento original de Ficino e Pico, exige considerar esses desenvolvimentos posteriores, bem como se o país em questão era setentrional ou meridional e em que medida fora afetado pela Reforma, de modo que seria imprudente supor que a Inglaterra elisabetana, país do norte onde se estabelecera um certo tipo de Reforma, tenha absorvido seu neoplatonismo diretamente da fonte florentina de um século antes, suposição que, no entanto, tem prevalecido, sem que se tenha feito qualquer tentativa consistente de deslindar o “neoplatonismo elisabetano” como fenômeno histórico.
16. Na história do pensamento, a era elisabetana permanece basicamente inexplicada e misteriosa tanto em suas origens quanto em seu destino, não podendo ser reduzida à sobrevivência medieval nem ao Renascimento italiano, de modo que o neoplatonismo do poeta Edmund Spenser se revela como neoplatonismo cabalista cristão adaptado à expressão de uma reforma poética setentrional, e a aparente contradição de John Dee, filósofo da era elisabetana que se apoiava na angelologia oculta de Agrippa ao mesmo tempo em que se julgava ardente defensor de uma ampla reforma cristã, explica-se pelo fato de se considerar, à maneira de Giorgi e Agrippa, um cabalista cristão.
17. A investigação desses problemas constitui uma tentativa ousada que não resultará numa estrutura perfeita, mas num edifício provisório e improvisado, a ser revisto e alterado por arquitetos futuros mais bem equipados, sendo, contudo, uma estrutura temporária preferível à ausência de qualquer estrutura.
18. A organização da obra obedece, em linhas gerais, a um plano dividido em partes sucessivas, cujo traçado se expõe na sequência.
19. A primeira parte oferece uma história abreviada e sumária da filosofia oculta por meio de algumas figuras-chave, começando por Ramon Llull como exemplo de Cabala cristã na Espanha anterior à Expulsão e seguindo de Pico a Reuchlin, Giorgi, Agrippa e Dürer, até as reações contra a filosofia oculta renascentista, enquanto a segunda parte trata da era elisabetana, interpretando o neoplatonismo de Spenser como neoplatonismo hermético-cabalista, o “Fausto” de Marlowe como reflexo das caças às bruxas contemporâneas dirigidas contra Agrippa e “The Shadow of Night” de Chapman como visão dureriana da melancolia inspirada, baseada em Agrippa e em certo sentido resposta aos terrores de Marlowe, revelando uma era profundamente influenciada pelos desdobramentos tardios da filosofia oculta, já ameaçada pela terrível caça às bruxas da repressão, época em que o Renascimento pereceu em meio aos colapsos nervosos de um Fausto, de um Hamlet ou de um Lear.
20. Os capítulos finais buscam relacionar a filosofia oculta elisabetana com o rosacrucianismo, com o puritanismo e com a preparação para o retorno dos judeus à Inglaterra.
