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HERMAI

GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermes. Paris: Arma Artis, 1984.

Papel dos hermai — Culto que lhes era prestado

  • Os hermai, cuja significação primeira consistia em instalar o sagrado em um lugar do espaço que se tornava, por esse fato, foco de irradiação sobrenatural, serviram até o fim para assinalar, como os menires e os betilos, a presença do sagrado.
    • Os hermai eram erguidos diante dos santuários, entendidos como prolongamento das grutas e dos recintos celestes neolíticos, e, mais tarde, diante dos túmulos.
    • Os hermai também eram colocados nas palestras, nos ginásios, nas bibliotecas e, de modo absoluto, em todos os lugares que davam continuidade aos antigos campos de iniciação.
    • Em certos casos, os hermai eram erguidos até mesmo no pátio das casas.
    • Os hermai serviam frequentemente como marcos, em razão de sua função primitiva de centros de uma cruz espacial.
    • Hermes era assim designado por excelência como epitémios, porque fora o primeiro chefe do sagrado presente em uma encruzilhada.
    • Hermes tornava-se, por consequência, protetor das ruas e das estradas, sob os nomes de Hermes hodios e Hermes Enodios.
    • Por evolução gradual em direção ao profano, os hermai tornaram-se também os marcos miliários, ao mesmo tempo que suas quatro faces indicavam as direções.
    • Hermes era também o guardião das portas, sob os nomes de Hermes pylaios e Hermes propylaïos, pois a pedra sagrada posta sobre um buraco assimilado ao mundo subterrâneo situava-se antigamente à entrada das habitações.
    • A divindade do limiar prolongava essa função de guarda das portas.
    • Hermes desempenhava o mesmo papel de Janus em Roma, e o ponto de partida de toda iniciação era, ao que parece, a representação sob forma dupla e sob forma quádrupla.
    • Como se alojava perto dos gonzos da porta, Hermes era ainda chamado Strophaios.
  • O culto prestado aos hermai era o culto que honrava, desde tempos imemoriais, os seres e objetos incorporados à energia transcendente.
    • Diante dos hermai depositavam-se oferendas, sobretudo leite e mel.
    • Os hermai eram coroados de flores e ornados com guirlandas.
    • Aos hermai faziam-se libações e, por vezes, sacrifícios.
    • Em Faras, na Acaia, mantinha-se com lâmpadas o fogo sagrado diante do Hermes da ágora, e sua estátua recebia devotamente incenso.
    • O Hermes da ágora era consultado, além disso, como oráculo.
    • Em numerosos lugares, essas pedras santas eram honradas por meio de danças.
  • Essas veneráveis sobrevivências de um passado distante continuavam a constituir o foco de ritos elementares que prolongavam diretamente aqueles da antiga liturgia iniciática.
    • Uma das oferendas mais correntes trazia em si um antigo fruto de imortalidade, o figo.
    • O primeiro figo colhido destinava-se a Hermes e era colocado diante de sua efígie, o que remete ao mesmo uso feito no caso do dîmen.
    • A expressão proverbial Sykon eph Hermê, isto é, um figo junto de um Hermes ou sobre um Hermes, tornou-se posteriormente designação de todo achado proveitoso devido ao acaso.
    • As oferendas depositadas diante dos hermai podiam, em muitas regiões rurais, ser comidas pelo primeiro que chegasse.
    • Quando os alimentos oferecidos se encontravam integrados no sagrado, serviam para santificar a alma ao mesmo tempo que nutriam o corpo.
    • O vocábulo hermaion assumiu, por extensão, o sentido de achado feliz e inesperado.
  • A referência ao Hermes Kyllênios, isto é, ao Hermes arcadiano de Cilene, articula os ritos da montanha, mencionados por Píndaro, com as antigas cerimônias tradicionais derivadas da liturgia neolítica e coroadoras das práticas de iniciação.
    • Píndaro menciona, a propósito de Hermes Kyllênios, os ritos da montanha.
    • Os sacerdotes subiam uma vez por ano ao cume para cumprir as cerimônias tradicionais.
    • Essas cerimônias provinham da liturgia neolítica, que, em tempos recuados, coroava as práticas de iniciação.
    • O deslocamento anual dos sacerdotes em direção ao topo torna-se incompreensível quando não se remete aos usos iniciáticos de um passado distante.

Os hermhermai e os outros hermai

O mana contido nos hermai não se diferenciava sempre, ademais, dessa divindade especial que os gregos chamavam Hermes. Muito frequentemente ele se hipostasiava em outras entidades. Deu-se o nome de Hermermès aos hermai que permaneciam Hermes. Os outros tornavam-se, conforme o caso, Hermeros, Hermopan, Hermares, Hermhéraklès, Hermathena, Hermozeus, Hermapollon, Hermoposeidon, etc. Mais tarde, por fusão com uma das grandes personalidades iniciáticas do Egito, formou-se Hermanubis. Nada poderia estabelecer melhor que as distinções politeístas da época clássica eram extremamente superficiais. O que contava verdadeiramente era o sagrado subjacente, infundido nos seres e nos objetos da natureza, alguns milênios antes, pelo rito de morte e de ressurreição. Todos os deuses procediam dos ritos iniciáticos do neolítico e eram, em seu fundamento, intercambiáveis, sendo sua essência sempre, em todos os casos, a energia dinâmica una e imortal, suporte dos mecanismos físicos.

Convém, além disso, observar que um muito grande número de hermai, qualquer que fosse o nome pelo qual fossem designados, permaneciam invariavelmente duplos: ao final, consistiam em dois seres unidos pela nuca. Assim persistiu até o fim, mesmo quando já não se compreendia mais o sentido disso, e quando os personagens acoplados já não eram mais personalidades transcendentes, mas simples mortais que se pretendia honrar, essa imponente concepção da unidade-dualidade, propagada pela segunda teocracia em ligação com as disciplinas primordiais.

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