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HERMES TRISMEGISTO

GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.

Hermes Trismegisto e o hermetismo

  • Nos séculos II, III e IV da era cristã, as doutrinas iniciáticas próprias a Hermes e Thot foram refinadas, sintetizadas e, em muitos aspectos, volatilizadas nas “revelações” de Hermes Trismegisto.
  • Trata-se de uma corrente de especulações alexandrinas, que se afastam muito de Plotino para serem vinculadas à sua escola.
  • A tendência a ver no hermetismo um corpo de doutrinas unicamente grego é contrariada pela própria denominação Trismegisto (“três vezes muito grande”), qualificativo de proveniência lunar, cada elemento da antiga tríade matriarcal masculinizada merecendo a epíteto de megistos.
  • Thot havia conservado muito mais nitidamente que o Hermes helênico o contato com o mana transcendente do astro noturno.
  • Um compêndio egípcio (papiro demótico Insinger, publicado por Boeser em Leiden, 1922) apresenta, em vários pontos, semelhanças indiscutíveis com o Poimandres (tratado tardio que figura nos escritos de Hermes Trismegisto, provavelmente da primeira parte do século IV).
  • Embora os livros herméticos pertençam, no conjunto, à mentalidade grega preponderante na época, não se pode negar aos adoradores de Thot uma participação em sua composição e difusão.

O hermetismo em ação no relato de Luciano

  • Luciano (século II d.C.) mostra em seu Philospeudes um jovem que, ao visitar o Egito e subir o Nilo, encontra a bordo (ao descer) um certo Pancrates (nome grego, mas egípcio de Mênfis), de cabeça raspada e vestimenta de linho (sacerdote).
  • Pancrates figura entre os Escribas sagrados e possui a sabedoria de Thot: viveu vinte e três anos sob a terra, em lugares secretos.
  • A cada dia, para grande espanto do jovem companheiro, Pancrates realiza algum prodígio: quando o barco para, ele monta crocodilos e nada entre os animais, que acorrem a ele abanando o rabo.
  • Ao anoitecer, na hora de comer, ele profere uma fórmula e, no mesmo instante, qualquer objeto que apanha em suas mãos lhe presta docilmente os serviços de um bom servidor.
  • Percebe-se aí o hermetismo em ação, e compreende-se que ele provinha do Egito, embora também pertencesse à Grécia (como provam os “truques” atribuídos a Hermes criança no hino homérico).

O Corpus Hermeticum e a verdadeira origem iniciática do hermetismo

  • Não se analisa aqui o Corpus Hermeticum (17 ou 18 pequenos tratados, o primeiro intitulado Poimandres = pastor), o Esculápio e os diversos fragmentos atribuídos ao Trismegisto, nem a fortuna do hermetismo ao longo dos séculos.
  • Até agora compreendeu-se mal esse sistema porque sempre se gostou de ver nele devaneios elaborados tardiamente; não se compreendeu que ele resumia (amenuizando e fazendo enviesar) doutrinas iniciáticas que remontam a vários milênios.
  • Quando o Esculápio (III 23-24, 37-38) ensina que o homem pode ligar seres transcendentes às imagens que ele modelou e fazer deuses como o próprio Deus, e quando especifica que entre os deuses autênticos figuram Esculápio, Hermes, Ísis, os animais sagrados do Egito, etc., uma interpretação estreita (E. Zeller) leva a crer que o objetivo do hermetismo era simplesmente defender os cultos politeístas e especialmente a religião egípcia.
  • O que dá às afirmações das obras herméticas seu verdadeiro sentido e sua portabilidade documental são os ritos iniciáticos do passado, a sacralização neolítica do homem pelo animal, a divinização da alma pela ascese do mundo subterrâneo e pelas orações ao redor do fogo transcendente.
  • Em tempos recuados, chegava-se por aí a transformar o homem em super-homem (em um deus), e o hermetismo registrou fielmente a tradição dessas idades longínquas, sem se comprazer em vãs elucubrações.
  • Em princípio, o que fora realizável anteriormente permanecia sempre possível, e essa é a glória de Hermes Trismegisto proclamá-lo.
  • Infelizmente, o complexo mental se modificara; o pensamento humano, ignorando agora as disciplinas de morte e ressurreição, despojou-se de sua potência ontológica e só podia agir sobre as coisas pelo caminho dos contatos empíricos.
  • Era, de fato (como é mais do que nunca nos dias de hoje), uma utopia o recurso à teurgia.

A tradição hermética e a Tábua de Esmeralda

  • A tradição hermética, que se confunde com a tradição do ocultismo, continua sendo uma das mais veneráveis.
  • Ela lembra à humanidade que o domínio físico das coisas visíveis e tangíveis é um reino de aparências; que a realidade profunda tem um rosto totalmente outro; que o cosmos da matéria densa é subentendido por um universo invisível de energia radiante.
  • O espírito humano pode, sob certas condições, aceder diretamente a esse mundo superior, que é o país feérico do pensamento puro, da toda-potência, do dom total de si, do amor sem reservas e da liberdade sem entraves.
  • O hermetismo (baseado numa tradição iniciática filosófica) reencontra-se assim com a alquimia (proveniente de uma tradição iniciática artesanal), sendo a fonte idêntica nos dois casos.
  • O ouro puro dos alquimistas se confunde com a substância dinâmica dos deuses do hermetismo, com Maât; a teocracia neolítica está sempre no ponto de partida, e, para além dela, a cadeia se continua pela teocracia pastoral do paleolítico.
  • A quintessência do hermetismo se descobre na famosa lei promulgada por Hermes Trismegisto em sua Tábua de Esmeralda: “em cima como embaixo; embaixo como em cima”.
  • Em geral, interpreta-se que o microcosmo corresponde ao macrocosmo, dele depende ao mesmo tempo que o resume, mas há muito mais.
  • A verdade é que o microcosmo se confunde totalmente com o macrocosmo; o espaço não tendo existência objetiva, cada parte (por ínfima que seja) iguala o todo; o átomo se identifica com a totalidade do mundo; quem reencontra a essência dinâmica de um único próton conhece todo o universo.
  • O espaço que limita e aprisiona o homem é uma criação da decadência humana; ele é o pecado original em ato, nada mais sendo que a consolidação e objetivação abusivas, pelo pensamento humano, da extensão (toda subjetiva) inerente à sensação animal.
  • O que era destinado unicamente a facilitar a ação dos seres inferiores movendo-se no seio das aparências tornou-se absurdamente um instrumento de cognição para um ser ignorante e degradado que, no tempo de sua glória, ultrapassava as impressões de superfície e alcançava o dinamismo profundo do universo.
  • O objetivo da iniciação foi justamente reencontrar esse dinamismo profundo e restituir ao homem a possibilidade de conhecer e agir para além das aparências sensíveis.

Nota sobre o hermetismo, exoterismo e esoterismo

  • Não se acompanha aqui a carreira e os avatares do hermetismo, mas indica-se que frequentemente se passou a considerar a palavra como sinônimo de esoterismo.
  • O hermetismo alexandrino se esforçou por depreender a significação interior e profunda dos velhos ritos – e essa é a definição do esoterismo.
  • Não há, de um lado, o exoterismo (que se confundiria com a religião) e, de outro, o esoterismo (que se reduziria à iniciação); o exoterismo nada mais é, em seu princípio, que o cumprimento dos ritos, cumprimento que se opera no domínio físico e por isso mesmo é exterior.
  • Toda religião é ao mesmo tempo exotérica e esotérica: permanece exotérica para aqueles que a praticam sem compreender seu alcance eterno e se mantêm no estágio virtual da iniciação.
  • Toda religião torna-se pouco a pouco esotérica para aqueles que a aprofundam, penetram seus recônditos, vivem-na e elevam-se graças a ela aos estados espirituais superiores – esses realizam sua iniciação.
  • Que o hermetismo tenha sido durante muito tempo um exoterismo está suficientemente provado pelo roubo das vacas, a invenção da lira, a produção do fogo, a luta contra Argos, as festas das Hermaia, etc. Durante séculos, o sentido desses ritos não foi duvidoso para ninguém: o esoterismo não se separava então do exoterismo.
  • A cisão se produziu quando os mitos (que são sempre a descrição escrupulosa dos antigos ritos) cessaram de ser compreendidos; eles se tornaram então, segundo a regra geral, mistérios – representações sagradas das quais somente os iniciados depreendiam a significação.
  • Percebe-se mais uma vez, por essa via, que o período essencial foi a época mítica – a idade em que se praticavam em toda a sua pureza e extensão os ritos iniciáticos.
  • Aqueles que desdenham esse período como pertencente à fantasia e o separam da religião clássica não percebem que esvaziam esta última de sua substância e se colocam, além disso, na incapacidade de explicar os usos abastardados dos últimos séculos antigos.

Ritos religiosos, iniciativos e a função do hermetismo alexandrino

  • O que frequentemente gera confusão é que os ritos religiosos estão sobrecarregados de práticas adventícias que os tornam pesados e esmagadores; imagina-se, por consequência, ritos especificamente iniciáticos (possuindo o caráter esotérico) totalmente diferentes do exoterismo religioso.
  • Essa situação foi efetivamente a da Grécia na última parte da idade dos metais, mas não se deve esquecer, por um lado, que na fonte os ritos iniciáticos existiam sozinhos (com o duplo caráter de esoterismo e exoterismo) e, por outro lado, que sob os ritos religiosos últimos (os mais degradados) os iniciados conseguiam reencontrar a grandeza do esoterismo antigo.
  • Foi precisamente isso que o hermetismo alexandrino (ponto de partida do hermetismo atual) se propôs a mostrar.
  • As diversas religiões julgam-se e classificam-se de acordo com a maneira como tornam acessível a mensagem iniciática primordial e permitem atingir o nível espiritual – isto é, conforme facilitam ou dificultam a penetração da alma na claridade do esoterismo.
  • Essa é, acredita-se, a conclusão a que conduz o hermetismo.

Hermetismo, ocultismo, alquimia e a Tábua de Esmeralda

  • O hermetismo passou muitas vezes a confundir-se com disciplinas particulares integradas no Ocultismo (magia, astrologia, alquimia etc.); a alquimia, em particular, tem sido frequentemente chamada de “ciência hermética”, e as obras de hermetismo compostas na Idade Média (tanto em árabe quanto em latim) tiveram na maioria das vezes esse gênero de pesquisas como objeto.
  • Essa confusão era normal, pois a alquimia tem primariamente por objetivo o retorno à visão da matéria como energia radiante.
  • Um dos axiomas favoritos dos adeptos sempre foi: “o ouro engendra o ouro, como o trigo produz o trigo, como o homem produz o homem”.
  • A pedra filosofal (que transmuta os metais inferiores em ouro) é, em sua essência, a utilização do poder gerador transcendente que o ouro possui – o dinamismo luminoso que constitui a realidade das coisas.
  • O Grande Obra, não se pode repetir demasiadamente, sempre foi de ordem espiritual, e as transformações da matéria foram envisadas como a consequência de uma metamorfose mental, como o resultado do acesso ao plano superior do saber; essa é a diferença fundamental entre alquimia e química.
  • Um dos conselhos primordiais dispensados por Hermes é: “se não tirardes dos corpos seu estado corporal, e se não transformardes em corpos as substâncias não corporais, não obtereis o que esperais”.
  • Percebe-se claramente nessas palavras que o ponto capital para os alquimistas era reduzir a matéria densa ou espaço-temporal ao seu estado de ouro (isto é, à radiância) e, como contrapartida, entrever o modo pelo qual essa radiância se congelou em matéria mecanizada.
  • Compreende-se então o parentesco da alquimia com o iniciacionismo tradicional encarnado no nome de Hermes.
  • Uma frase célebre da Tábua de Esmeralda precisa: “pelo macho e pela fêmea, a obra é realizada” – reencontrando-se a grande concepção neolítica de uma cisão sexual como fundamento do cosmos fenomênico e de uma fusão sexual como princípio do retorno à unidade dinâmica (isto é, ao ouro).
  • Essa fórmula, por si só, provaria o caráter extremamente antigo do hermetismo e da alquimia.

Da alquimia à química e os metais no hermetismo

  • A aplicação dessas regras às operações materiais da alquimia acabou por gerar a química: por exemplo, “tirar dos corpos seu estado corporal” resultou em oxidar ou dissolver os metais, e as visões transcendentes relativas à sexualidade serviram para explicar as combinações de substâncias (princípios masculinos abraçando de maneira estreita e íntima os princípios femininos).
  • Menciona-se o “Instrumento de Hermes” – um conjunto de números que permite prever o curso de uma doença a partir da data do nascimento de Sothis (= Sirius), no mês de Epifi; esse ponto contribui para mostrar a parte muito séria do Egito no conjunto das doutrinas e práticas incorporadas ao hermetismo.
  • O mercúrio (identificado a Hermes devido a seu papel como agente das transmutações, ocupando lugar de primeira ordem na alquimia medieval) era ignorado pelo antigo Egito; os gregos só começaram a conhecê-lo perto do fim do século V a.C.
  • O metal atribuído a Hermes anteriormente era o estanho.
  • O ouro pertencia ao Sol; a prata, à Lua; o electrum (liga de ouro e prata), a Zeus; o ferro, a Ares (Marte); o cobre ou bronze, a Afrodite; e o chumbo, a Cronos (Saturno).
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