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FEITOS, SENTIDO INICIÁTICO
GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.
A “Infância” de Hermes e o sentido iniciático dos seus feitos
- Os feitos atribuídos a Hermes tornam-se simples quando recolocados no ambiente ritual próprio.
- O deus, ao nascer, sai da caverna em busca de aventura como um “recém-nascido iniciático”, figura que realiza grandes feitos desde o instante do nascimento.
- Tais tradições referem-se rigorosa e literalmente a adolescentes iniciados ou em iniciação, não a crianças de colo, relatando costumes de acesso dos neófitos ao sagrado.
- No primeiro hino homérico a Hermes (o único que conta, pois o segundo é um prelúdio de doze versos), fala-se do deus como uma criança recém-nascida, com humor baseado na incompatibilidade entre os feitos e o estado de bebê.
- O autor do hino talvez conhecesse o sentido iniciático dos fatos, mas a tradição impunha a identificação do recém-nascido iniciático com o recém-nascido orgânico, além de encontrar aí uma fonte de diversão.
- Contos folclóricos como os de “Tom Polegar” e “Pequeno Polegar” (presentes em todos os continentes) apresentam a mesma situação: são antigos recém-nascidos iniciáticos, cuja pequena estatura sinaliza a tenra idade e o poder de dominação sobre o espaço.
- A fantasia sobre as contradições desses personagens prolonga os relatos maravilhosos ouvidos por gerações antigas sobre as proezas dos ascetas ao sair da longa reclusão no mundo subterrâneo.
Invenção da lira, roubos de gado e raptos iniciáticos
- A invenção da lira é o primeiro feito de Hermes porque, desde alta época, a música e a dança faziam parte integrante das iniciações (e continuam fazendo).
- Todos os instrumentos musicais da antiguidade e da etnografia foram descobertos por ocasião dos ritos.
- A hagiografia de Hermes relata as cerimônias que transformavam seres humanos em seres divinos (em Hermes, contendo a substância transcendente das pedras sagradas), sendo normal que viesse primeiro a criação do instrumento necessário à liturgia.
- Sem a lira, Hermes provavelmente nunca poderia levar as “vacas” de Apolo, pois elas não o teriam seguido.
- Tudo na lira é sobrenatural: ela é constituída por intestinos de carneiro sagrado, pele de bovídeo sacrossanto, varas de junco (vegetal divino) e carapaça de quelônio (tartaruga), animal com caráter transcendente dos répteis.
- O papel da tartaruga na China primitiva é célebre; na Grécia, ainda na época de Plínio (Hist. Nat. XXXII, 4), usava-se sua carne em fumigações, manobras mágicas e como remédio contra venenos.
O significado iniciático do roubo de vacas
- A pergunta sobre por que o novo iniciado (assim que “nasce”) quer roubar vacas é respondida observando que, desde época recuada até o presente, os neófitos em retiro ou os novos iniciados aplicam-se a roubar gado ou outros bens das povoações vizinhas – um uso solidamente estabelecido em todos os países.
- No Veda, roubam-se as vacas de Indra, e há um certo Sarameya (mesmo nome que Hermeias) não estranho a esse roubo; Sarameya designa os dois cães de Yama, e as vacas são reencontradas por sua mãe Sarama.
- Trata-se de um roubo de vacas por um homem-cão, agindo como batidor para Yama (Rei do Mundo, grão-mestre das iniciações).
- No início, não havia ideia de roubo: a apropriação ocorria porque indivíduos fortemente sacralizados entravam em contato com seres ou objetos, tornando-os transcendentes e ipso facto subtraídos ao uso profano.
- Esse poder de sacralizar tudo o que toca o corpo é atribuído, na etnografia, aos sacerdotes-chefes; na antiguidade, era característica de Midas (homem-asno), que mudava em ouro (impregnava de radiância imortal) tudo o que caía em suas mãos.
- A energia divina em que Midas mergulhava era a mesma que saturava as pedras sagradas.
- Os gregos chamaram Hermes de “Fêletes” e “Leistes” (ladrão), e seu roubo das vacas de Apolo era qualificado como “furto” (kleptês); Hermes é o “príncipe dos ladrões” no hino homérico.
- O cenário ritual do hino resumia e esquematizava costumes antigos de jovens sacralizados pelo rito de morte e ressurreição.
- Supor que Hermes se tornou deus dos ladrões por ser deus dos mercadores que trapaceavam é desconhecer a natureza dos mitos: o sagrado constitui um domínio autônomo que não procede senão de si mesmo.
- Sem os roubos sagrados dos usos iniciáticos (que originalmente não tinham caráter de roubo), Hermes jamais seria Fêletes e Leistes; ele evoluiu, por desnaturação, em deus dos ladrões unicamente porque fora o grande iniciado-iniciador.
- Todos os objetos que Hermes é acusado de ter roubado (flechas de Apolo, cinto de Afrodite, espada de Ares, tridente de Poseidon, etc.) são atributos essencialmente iniciáticos, que cabiam de direito aos meninos ou meninas metamorfoseados pelos ritos.
- Os mais notórios ladrões da mitologia helênica são personagens eminentemente sacrossantos: Pandarée (roubou o cão de ouro de Zeus, provado pelo mana divino, transformado em pedra sagrada, réplica de Hermes) e Tântalo (hipóstase de uma emergência sacrossanta).
- Tântalo (raiz tal/tla = aquele que serve de suporte, sentido análogo ao de herma) aparece sob uma rocha que ameaça sua cabeça; Atlas tem a mesma fonte linguística; nos dois casos, trata-se primariamente de uma montanha sagrada.
- Os iniciadores em que se encarnava a energia sagrada sacrificavam seus “filhos” fazendo-os passar pelas entranhas de uma divindade e submetendo-os a mutilações iniciáticas (Pélops, filho iniciático de Tântalo, tem um ombro comido pela hipóstase humana de Deméter e recebe um pedaço de marfim).
- O relato de Tântalo roubando o néctar e a ambrosia (bebida e alimento da imortalidade) revela uma liturgia: um alto oficiante penetra no recinto celeste no topo da montanha rochosa e traz a bebida e o alimento consagrados para os novos iniciados.
- O cão de Zeus, roubado por Tântalo e Pandarée, foi objeto de um roubo iniciático (o cão era depois devolvido por Hermes a Zeus), como confirmam os desenhos de uma taça ática do século VI.
Mulheres-vacas, o número cinquenta e a interpretação do roubo de gado
- A pergunta sobre o sentido profundo do mito das vacas (se são vacas animais ou jovens mulheres-vacas) exige uma análise mais detida.
- Atualmente, os roubos de gado na etnografia envolvem animais autênticos, e assim ocorria na antiguidade, mas os animais serviam para divinizar os homens, estabelecendo-se uma identidade ritual e ontológica.
- Era possível raptar uma mulher sob a forma de uma vaca, com a qual ela formava um único ser transcendente, cuja pele serviria para divinizá-la.
- No hino a Hermes, trata-se incontestavelmente de mulheres (das quais se fala, segundo a regra, como vacas verdadeiras), como prova a “marcha de costas”.
- A marcha de costas (usada por Hermes para conduzir as cinquenta novilhas) aparece em Roma quando Caco (iniciador do Aventino) rouba as vacas de Hércules e as faz subir uma ladeira íngreme (ele não rouba os touros); também aparece com Sem e Jafé (filhos de Noé) ao se dirigirem ao pai em êxtase para lançar um manto sobre sua nudez ritual (Gênesis IX, 23).
- Essa atitude litúrgica impede que os olhos carnais vejam face a face um local, ser ou objeto incorporado plenamente ao domínio transcendente.
- As “vacas” não podiam, sob nenhum pretexto, discernir o recinto divino para onde eram conduzidas – tratava-se de um tabu, não primariamente de despistar possíveis buscadores.
- A “marcha das vacas” é essencialmente uma procissão, realizada ao som da lira.
- Hermès atua como libertador, personagem altamente sacralizado (envolvendo os pés com ramos sagrados de murta e tamargueira para não tocar o solo).
- Ao som do instrumento sagrado, ele faz sair do refúgio as mulheres (que na versão primitiva ainda não estavam travestidas de vacas) e, colocando-se diante delas, fá-las andar de costas no ritmo lento da música divina, enquanto ele próprio saltita em zigue-zague para marcar a cadência.
- O roubo recupera assim sua nobre significação antiga, tornando-se explicável em todos os detalhes.
- As vacas são em número de cinquenta, número sempre usado pelos antigos para designar o conjunto dos jovens do mesmo sexo iniciados nas mesmas cerimônias (classe de idade).
- Nas regiões onde as meninas eram submetidas aos ritos junto com os meninos, chegava-se ao número cem como característico das iniciações.
- A Mãe neolítica (que presidia os ritos) é às vezes chamada de “a Cem” (a Grande Divindade que gera para a vida imortal os Cem), como Hécate (Hekatê, hekatón = cem), a famosa Cadela Negra (Kuôn melaina), cuja única denominação é “seus cinquenta cães e suas cinquenta cadelas”.
- Em alemão, “bundert” (cem) é a mesma palavra que “bund” (cão), provando que em época recuada os jovens iniciados se divinizavam por peles de canídeos e o número cem nomeava o conjunto de meninos e meninas da mesma classe de idade.
- As hecatombes (sacrifícios de cem animais) ligam-se às antigas cerimônias iniciáticas: imolavam-se os animais que permitiriam a divinização dos neófitos; depois, com a desuetude, continuou-se a sacrificar cem animais, e o termo passou a designar a imolação de um pequeno número de vítimas.
- O deus caldeu Ningirsu (de Lagash, célebre pelas inscrições de Goudéa) identifica-se com Nin-urta (Grande Caçador ou batidor iniciático) e seu nome ritual é Ninnû (acadiano Hanshâ = cinquenta); seu templo chama-se E-Ninnû (Casa dos Cinquenta).
- Há um deslizamento da caverna ou local iniciático para a reclusão dos Cinquenta (retiro dos jovens garotos da mesma classe de idade) para o santuário posterior: o local sacrossanto onde os neófitos se metamorfoseavam tornou-se o templo.
- A Régia romana, os pritaneus gregos e os clubes de homens da etnografia (locais santos) têm a mesma origem.
- O grande deus Enlil, chamado ritualmente Shadû rabû (Grande Monte) por ser hipóstase da energia sobrenatural na altura santa primordial, também era chamado de “deus Cinquenta” – a caverna da Montanha foi a grande manufatura do sagrado sobre a terra.
- Na Grécia, as tradições das cinquenta Danaides e de seus maridos (os cinquenta filhos de Egepto) estabelecem as mesmas noções sobre o significado iniciático do número cinquenta.
- Os sete rebanhos de cinquenta bois e os sete rebanhos de cinquenta ovelhas (gado do Sol) e as cinquenta Tespíades (quarenta e nove sofreram a desfloração hierogâmica na mesma noite sagrada, a quinquagésima permanecendo virgem para exercer funções de sacerdotisa) confirmam o uso do número.
- Os cinquenta “filhos” de Hécuba referem-se aos mesmos dados históricos relativos aos antigos usos religiosos provenientes das iniciações neolíticas.
- As cinquenta vacas raptadas por Hermes foram, em sua realidade primeira (antes da incompreensão de uma época mais recente), mulheres-vacas, das quais se falava liturgicamente como animais autênticos.
Rapto de mulheres-vaca e hierogamia iniciática
- A questão torna-se: por que os jovens efebos iniciados (os Hermes de época distante) se empenhavam em raptar mulheres que os ritos transformavam em vacas?
- A resposta aparece quando se considera o lugar central do sacramento da sexualidade no final do neolítico e a hierogamia como coroamento da iniciação.
- Os novos iniciados procediam a raptos de mulheres-novilhas para praticar o grande rito divinizante, provando pela realização do rapto que detinham o mana transcendente requerido.
- Hermes (como Caco) rapta unicamente vacas, deixando cuidadosamente de lado os touros – incompreensível se fossem simples roubos de gado.
- As jovens virgens ritualmente travestidas de vacas não eram seres profanos que os adolescentes sacrossantos se apropriavam pela virtude do sagrado; elas mesmas eram personalidades sacrossantas, e a união com elas constituía de pleno direito uma hierogamia.
- No hino homérico, as vacas raptadas por Hermes dispunham de uma “tenra pradaria” ou “pacigo suculento” (malakou leimonos, glykeroio nomatio), indicando que se moviam em um domínio divino; elas são expressamente chamadas de “vacas imortais dos deuses bem-aventurados” (verso 71).
- O direito superior da energia transcendente jogava a favor do efebo que realizava o rapto, mas não era o único fator como na aquisição de um objeto profano pela mão do sagrado.
- Apolo declara que, além do touro que pastava a alguma distância das vacas, “cães de pelo amarelo seguiam atrás, quatro cães que se entendem como homens; os cães e o touro me foram deixados, o que é bem surpreendente” (versos 194 e seguintes).
- Os cães em questão foram provavelmente, na origem, homens-cães, e a surpresa de Apolo traduz o esquecimento dos costumes mais antigos relativos às mulheres-vacas.
A vaca Io, Argus e o sentido da decapitação iniciática
- A história da vaca Io (que Hermès arranca a Argus) confirma a exegese: Io é expressamente apresentada como uma virgem real de Argos, metamorfoseada em novilha por Hera (os ritos presididos pela Mãe argiana).
- Io foi posta sob a guarda de um dragão (reclusão numa caverna identificada ontologicamente com o réptil divinizante, que encarnava a essência transcendente da Mãe iniciadora nas povoações de procedência matriarcal).
- Hermès libertou a reclusa adormecendo Argus (o dragão) com os acordes de um instrumento musical (uma flauta) e cortando-lhe a cabeça.
- O rito da cabeça cortada (um dos ritos capitais nas épocas neolítica e pós-neolítica nos facies culturais de predominância matriarcal) consistia originalmente em fazer saltar uma falsa cabeça ajustada sobre tripas ou bexigas contendo sangue animal sacrificial (como na decapitação de Medusa por Perseu).
- Em muitos países, heróis que decapitam um dragão casam-se com a bela princesa que ele guardava – tradições que se referem a antigos ritos iniciáticos sobre a reclusão das jovens e a liturgia hierogâmica que a encerrava.
- Mais tarde, na decadência religiosa, as jovens eram às vezes mortas fisiologicamente pelos dragões (transformados em individualidades sanguinárias), mas no princípio do costume descobre-se sempre o mesmo rito.
- Hermes usa o mesmo rito contra Argus, que valia aos jovens iniciados que realizavam o mesmo feito o título prestigioso de Argeiphontes.
- Embora nenhuma decapitação seja assinalada a propósito das vacas de Apolo, o processo iniciático foi análogo ao que libertou a mulher-vaca Io: Hermes usou sua lira, e as cinquenta novilhas saíram.
- Argus tinha, segundo a tradição, cem olhos: cinquenta permaneciam abertos enquanto o sono fechava os outros cinquenta – um personagem “cem” como Hécate, designando os garotos e as garotas de uma mesma classe de idade.
- Argus continha a essência da Mãe iniciadora (Hera), que provavelmente foi, como Hécate, uma divindade “Cem”.
- Mais tarde, quando o pavão foi importado da Índia para a Grécia, essa ave confundiu-se com a essência de Hera e, por consequência, com a de Argus; os cem olhos reapareceram na plumagem do pássaro divino.
- Argus dos cem olhos foi, bem antes da introdução do pavão, uma realidade ritual, assim como os Hecatônquiros (de cinquenta cabeças e cem braços) – em todos os lugares reaparecem as classes de idade com seu antigo número sagrado.
- Ao deixar a mulher-vaca Io, indicam-se suas peregrinações instrutivas: liberada por Hermes, foi picada por um tavão enviado por Hera e empreendeu uma corrida desenfreada que a conduziu à Trácia, Frígia, Mísia, Lídia, Cilícia, Cáucaso, aos Cimérios, a países maravilhosos da Ásia, à Fenícia e finalmente ao Egito.
- Esse relato, longe de ser uma fantasia, corresponde a uma realidade histórica e religiosa: a sacralização da mulher pela vaca e a adoração da Mãe sob a forma de bovídeo partiram de Argos.
- O culto de Hera (idêntica à antiga Mãe que a Índia chama Ira, Ila, Ila, feita esposa e filha de Manu; o nome reaparece no Ida cretense e, por metátese, em Reia) está no ponto de partida.
- O tavão é a personalidade que, na iniciação das mulheres-vacas, desempenhava o papel de Grande Caçador.
- É verossímil que os cenários sagrados representados em Argos comemoravam os fatos de maneira verdadeira, e que o local divino onde foi inaugurada a sacralização iniciática da mulher pela vaca manteve-se por muito tempo em relações com suas sucursais (como a casa-mãe de uma ordem religiosa mantém contato com suas filiais).
- O ponto capital é que o rapto das vacas por Hermes possuía primitivamente uma significação insigna, ligando-se estreitamente ao sacramento neolítico por excelência: a hierogamia.
- Esse episódio não é secundário ou imaginado para enfeitar o mito; foi, desde o início, o centro mesmo do relato, pois estava em causa o coroamento dos ritos.
- Os roubos autênticos de gado que sucederam gradualmente (por materialização do conceito primitivo) ao rapto das mulheres-animais sempre fizeram parte dos costumes iniciáticos, mesmo quando degeneraram em guerras e morticínios, beneficiando-se de sua integração tradicional no sagrado.
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