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MENSAGEIRO
GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.
Hermes, portador da “boa nova” e mensageiro dos deuses
- Entre as mais belas epítetos com que Hermes foi honrado contam-se Evangelos (mensageiro da boa nova) e Mesités (Mediador). Para compreender seu sentido primitivo, basta lembrar que, perto de Éfeso, uma montanha chamava-se to Kérykion (a montanha do arauto) porque ali Hermes anunciava aos homens o nascimento de Ártemis.
- Trata-se não de uma ficção, mas de um rito preciso: proclamar ao fim da reclusão iniciática que a nova iniciada (identificada com a Mãe) viera ao mundo e ia, tal como Hermes deixando a caverna de Cilene, aparecer à luz do dia (pensar em Amaterasu recusando-se a deixar sua gruta).
- O advento do sagrado sobre a terra – eis a “boa nova”, a única notícia capaz de apaixonar verdadeiramente a humanidade, que o deus anunciava. Esse papel de anunciador ligava-se estreitamente ao de libertador: é a libertação que condiciona, em definitivo, o segundo nascimento.
- Era igualmente normal que o libertador iniciático se tornasse o Mediador entre o homem físico e o universo dinâmico. Não surpreende que, nas Coéforas de Ésquilo (123), Electra atribua a Hermes o qualificativo de Mesités – epíteto favorito também de Mitra, esse outro poderoso Libertador.
Hermes como mensageiro de Zeus e sua base histórica
- Compreende-se assim como Hermes se tornou, na mitologia helênica, o mensageiro de Zeus – o anjo (angelos) por excelência do Olimpo. Essa função de corredor e aparitor não lhe foi atribuída por fantasia, mas derivou diretamente de seu velho papel arcádio como hipóstase da energia sobrenatural incluída nas pedras iniciáticas e como condutor dos iniciados.
- Na Ilíada, é ele quem liberta Ares (capturado por dois geoleiros), quem é encarregado de velar por Príamo, quem entrega a Pélops o magnífico cetro forjado por Hefesto (XVI, 103). Este episódio mostra Hermes exercendo um papel atribuído noutro lugar ao deus-lua Sin (na Caldeia, era Sin quem chamava à realeza e dava o cetro segundo as altas diretivas do deus supremo Anu).
- Na Odisseia, Hermes é enviado para convidar Calipso a deixar partir Ulisses, para pô-lo em guarda contra Circe, e para pedir a Egisto que renuncie a seus projetos criminosos (julgando por vezes repugnantes as missões que lhe confiam – Od. V 99-104).
- Na poesia hesiódica, é ele quem acaba Pandora (esboçada por Hefesto e Atena), reconhecendo-se aí seu emprego milenar de Grande Iniciador.
- Junto aos Olímpiânicos, ele desempenha o mesmo papel que ao lado dos heróis iniciados: ajuda a combater os Titãs e amarra a cabeça de Cérbero; está presente quando Apolo e Ártemis “matam” o imenso serpente Títio; protege Hera contra os assaltos dos Silenos; assiste ao nascimento de Atena (quando Zeus sofre a prestigiosa mutilação de seu crânio). Nenhum detalhe é imaginário, e em toda parte Hermes conserva seu rosto de Mediador, fazendo irradiar o sagrado. É ele até que por vezes traz aos deuses a ambrosia divinizante e se transforma em fornecedor de néctar (Hermes Oinochoos).
A Grande Montanha, os mensageiros divinos e o episódio bíblico de Listras
- O papel de mensageiro divino e porta-voz de Zeus parece ter correspondido, ademais, a uma realidade histórica de ordem muito positiva. A Grande Montanha (“Montanha dos deuses”), sede da segunda teocracia, situava-se na direção da Armênia e do Cáucaso. De lá partiam, para os diferentes povos, mensageiros, anjos, maleak, enviados pelo Senhor da Montanha.
- Foi a esses enviados que Hermes foi identificado, tornando-se o corredor do Olimpo e o arauto de Zeus – não apenas por ser desde o início o intermediário entre os homens e o sagrado, mas também porque existiam efetivamente agentes sacrossantos exercendo funções de emissários entre, de um lado, o Mestre da Grande Montanha (representante humano do El-Shaddai bíblico, dirigente supremo da segunda teocracia, chefe do que o Gênesis chama de “Filhos de Deus”) e, de outro, os “homens” e as “filhas dos homens” (as comunidades matriarcais).
- Eram esses emissários que às vezes entregavam o cetro aos iniciados qualificados para deter o poder, quando os jovens não iam eles mesmos conquistar o precioso cajado de carneiro de ouro na Cólquida (país dos deuses, onde enfrentavam o Grande Dragão).
O episódio dos Atos dos Apóstolos (XIV, 7 e seg.)
- A curiosa cena relatada pelos Atos dos Apóstolos (XIV, 7 e seg.) sobre as viagens missionárias do apóstolo Paulo estabelece que a aparição de Hermes sob forma humana não devia ser desconhecida em tempos recuados.
- Em Listras, havia um homem perneta (aleijado de nascença, nunca andara) que ouvia Paulo falar; Paulo, vendo que ele tinha fé para ser curado, disse em voz alta: “Levanta-te direito sobre teus pés”. Imediatamente o homem saltou e andou.
- Ao ver isso, a multidão ergueu a voz e disse em licaônio: “Os deuses, sob forma humana, desceram até nós!” Chamavam Barnabé de Zeus, e Paulo de Hermes, porque era ele quem trazia a palavra.
- O sacerdote do templo de Zeus (à entrada da cidade) trouxe touros com bandeletas diante das portas, e queria, com a multidão, oferecer um sacrifício.
- Os apóstolos Paulo e Barnabé, sabendo disso, rasgaram suas vestes, precipitaram-se no meio da multidão e disseram com voz retumbante: “Homens, por que fazeis isso? Nós também somos homens, sujeitos às mesmas fraquezas que vós; anunciamos que deveis deixar essas vaidades para vos voltar ao Deus vivo, que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm. Esse Deus, nos séculos passados, deixou todas as nações seguirem seus caminhos, sem que, todavia, tenha cessado de dar testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dispensando do céu as chuvas e as estações favoráveis, dando-nos a comida com abundância e enchendo nossos corações de alegria.” Malgrado essas palavras, só com dificuldade impediram o povo de lhes oferecer sacrifício.
Significado do episódio para a compreensão de Hermes
- Os licaônios (cujos ancestrais haviam sido homens-lobos) não consideravam certamente a aparição de Zeus e Hermes sob forma humana como uma anomalia impossível – era simplesmente um fato raro. Seus relatos tradicionais comportavam sem dúvida eventos dessa espécie.
- Por isso identificaram imediatamente as duas divindades, sem hesitação, e também por isso não compreendem que se lhes proíba oferecer um sacrifício – ignoram que a boa nova anunciada por um novo Hermes modificou os usos religiosos anteriores.
- Vislumbra-se aí o que foi Hermes nos tempos antigos como embaixador ou porta-voz dos deuses. Seria um erro acreditar numa simples figura de sonho. Assim como existem hoje Legados, houve na antiguidade, às centenas, aos milhares, Hermes de carne e osso – anjos autênticos encarregados de transmitir as mensagens partidas da Grande Montanha.
- A Grande Montanha foi, em certa época, o foco por excelência do sagrado em nosso planeta, identificando-se ontologicamente com a radiância do universo dinâmico. Ao tornar-se o mensageiro do Olimpo, Hermes conservava estritamente esse papel de intermediário entre a humanidade e o cosmos de transcendência, que foi, desde o princípio (desde sua instalação como pedra-Deus e pedra-homem na obscuridade de uma caverna), seu ponto de partida iniciático.
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