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THOT

GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.

A influência egípcia e a noção do Hermes Logos

  • A influência egípcia ajudou incontestavelmente os gregos a colocar em luz a noção de Hermes Logos. O deus helênico foi assimilado a Anúbis (o iniciador com cabeça de cão ou de chacal, que lhe emprestou seu caduceu) e foi confundido com Thot (uma das mais nobres figuras do panteão egípcio). Após a fundação de Alexandria, os atributos de Thot e Hermes foram frequentemente fusionados.
  • Foi em grande parte por essa via que Hermes reconquistou sua grandeza mística do início, grandeza que se conservara muito mais fielmente no deus Thot (cf. Boylan, Thot, the Hermes of Egypt, 1922).
  • Segundo diversos autores, a palavra Thoth significaria “coluna”. Se essa etimologia é exata, tem-se aí, desde o princípio, um equivalente rigoroso da herma.

Thot como homem-íbis, homem-lua e iniciador

  • Thot é alcançado primeiramente como um homem-íbis (ou homem com cabeça de íbis), transformado mais tarde em divindade no Delta e passando dali para o Médio Egito, em Shmoun (a cidade Oito, ou cidade dos Oito), que depois tomaria o nome de Hermópolis quando Hermes se substituiu a Amon (animador primordial).
  • Thot era ao mesmo tempo um homem-lua: por seu poder transcendente, restituía cada mês ao planeta celeste o que lhe era progressivamente retirado a partir do décimo quinto dia – renovava sem fim o ser do astro noturno, reservatório da vida.
  • Como homem-pássaro e personagem lunar (herdeiro de uma Mãe neolítica mais longínqua), detinha em grau eminente o mana iniciático e era seu dispensador. Tinha como colaboradora íntima Maât (hipóstase da matéria radiante constitutiva do universo dinâmico).

As funções cósmicas e sociais de Thot

  • Como deus-lua, foi considerado o divisor do tempo e instaurador da partição em meses, tornando-se o ordenador do cosmos (regulou sua marcha).
  • Foi subordinado a Rá (o Mestre da radiância eterna), do qual foi o primeiro funcionário, o vizir, o arauto; julgou em seu nome, fez conhecer suas vontades por palavras divinas, e atribuiu aos deuses e aos homens suas funções.
  • Fundou as cidades e estabeleceu seus limites; ensinou aos escribas as palavras e a escrita sagradas, bem como a contabilidade.
  • Foi, para o Egito, a personificação da sabedoria a que conduz a iniciação. Os escribas (que tiveram às margens do Nilo a importância que se sabe) asseguraram até o fim sua glória: ele era seu fundador e patrono, e nunca cessaram de exaltá-lo.
  • Às vezes os escribas o veneravam como homem-babuíno – o que se refere seguramente à existência de homens-macacos formando confrarias ou clãs particularmente reverenciados (questão das cinocefalias estudada em outra obra).
  • Uma lenda bem conhecida relata como Thot se transformou em macaco para ir buscar na Núbia (a pedido de Rá) a temível deusa-leoa Tefnet, uma Grande Caçadora fora de série – Thot aparece aqui sob seu aspecto de libertador.

Thot e Hermes: paralelos iniciáticos

  • Essas indicações sucintas mostram que Thot foi incontestavelmente um Hermes, tendo a mesma fonte ritual que o deus grego, porém com um caráter lunar mais marcado.
  • Aos olhos dos egípcios, sua qualidade de homem-íbis atestava seu papel de mensageiro e vizir, pois “íbis” (egíp. hîb) é o mesmo vocábulo que hôb (enviado). Um livro célebre (A Destruição dos Homens, encontrado em tumbas reais do Novo Império) contém as palavras de Rá a Thot: “Farei que envies (hôb) mais maiores que tu; então nasceu o Íbis (hîb).”
  • Thot é aquele que manifesta Rá e o aproxima dos homens. Após a decapitação de Ísis por seu filho Hórus, Thot substitui a cabeça da deusa por uma cabeça de vaca – sentido iniciático dessa decolagem. Não surpreende ver Thot (o Hermes egípcio) divinizar uma mulher transformando-a em vaca transcendente.
  • Thot é o coração de Atum – a substância imortal da vida. Outro traço: Thot apoia Seth na grande conspiração contra Osíris. Quando Osíris morre, Seth e Thot são os únicos a não chorar – era indispensável que Osíris morresse para renascer, compreendendo-se isso pelo ritual osiriano (modalidade egípcia do ritual geral de morte e ressurreição).

A psicostasia: Hermes e Thot na pesagem das almas

  • Num léquito arcaico de Cápua (bem anterior à Psicostasia de Ésquilo – Roscher Lexik. s. v. Keren, p. 1142, fig. 1), vê-se Hermes (o Hermes helênico com pétaso) proceder à pesagem das almas sob a forma de duas pequenas figuras aladas.
  • Esse papel encontra-se no Thot egípcio, cuja função precisa é registrar o resultado da pesagem (emprego do escriba) depois que Anúbis e Hórus verificaram a posição dos dois pratos da balança. Num prato está a pluma divina (símbolo de Maât), no outro o coração do morto (a substância de seus pensamentos, a essência de sua vida, o órgão que indica o que ele fez do ser que lhe foi conferido).
  • É preciso que o equilíbrio se estabeleça entre a matéria dinâmica (Maât) do cosmos da imortalidade e aquela da qual o defunto se envolveu por seus atos. Para se integrar na energia radiante, essa matéria deve ter-se tornado tão leve quanto uma pluma. Thot (substituto de Rá como Grande Mestre da luz sem fim) constata o resultado.
  • Não é Thot quem justificou Osíris (protótipo dos iniciados humanos), mostrando-o como o iniciado perfeito integrado na energia pura? É ele, portanto, quem preside essa pesagem, graças à qual novos iniciados se incorporam para sempre a Osíris (osirificação). Eis a profundeza da psicostasia – os gregos, embora fizessem intervir Hermes corretamente, nunca definiram seu sentido iniciático com tamanha nitidez.

A oração a Thot e o silêncio iniciático

  • Entre as numerosas preces dirigidas a Thot por seus fiéis (a elite da sociedade egípcia), encontra-se a seguinte: “Ó grande árvore frutífera de sessenta côvados, tu que tens frutos com caroço e água nos caroços, ó tu, traze água dos lugares longínquos; vem, salva-me, que sou silencioso. Thot, ó doce fonte para um homem que morre de sede no deserto! Está fechada para aquele que fala, está aberta para aquele que se cala. Quando o silencioso vem, encontra a fonte. Quando o impetuoso vem, não lhe dás ajuda.”
  • Essa invocação estabelece que o mana transcendente de Thot se incorporava não apenas a homens-animais, mas a vegetais e à água – a água da vida imortal, bem conhecida da antiguidade proto-histórica, proveniente dos “lugares longínquos” mencionados em outro estudo.
  • O que é sobretudo relevante é a necessidade do silêncio para quem deseja receber em si a Sabedoria de Thot. Aí se reencontra o grande silêncio iniciático (silêncio absoluto que continua sendo de regra nas iniciações etnográficas: os reclusos só podem comunicar-se por gestos, se não estiverem encerrados nas trevas de uma caverna).
  • Ao fim do neolítico, para assinalar essa regra do silêncio, representava-se às vezes (por gravuras em pedra ou estatuetas) a Mãe iniciadora sem boca. Essa tradição do silêncio não foi esquecida na comunidade de Thot. No hino homérico, o episódio do ancião de Onchestos muito provavelmente também a ela se referia.
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