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GUERRA CONTRA OS BENJAMITAS
GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.
- A história do levita de Efraim e sua concubina exige uma interpretação literal iniciática.
- O levita e sua concubina tinham, no início, uma natureza específica.
- A concubina foi submetida a um rito análogo ao nasamonismo.
- O esquartejamento do cadáver possui um significado ritual.
- A luta representa a última etapa cerimonial, sendo um rito nupcial com degradação progressiva.
- O relato descreve uma pequena revolução nos usos iniciáticos dos hebreus, contendo um elemento especificamente histórico.
- O episódio final do Livro dos Juízes (XIX-XXI) parece referir-se a ritos nupciais e de desfloração ritual muito antigos.
- Um levita da montanha de Efraim tomou uma concubina de Belém.
- A mulher o deixou e, após quatro meses na casa do pai, ele foi buscá-la.
- Hóspede do sogro, partiu no quinto dia e, ao anoitecer, parou em Gabaa, terra de benjamitas.
- Um ancião de Efraim deu-lhe hospedagem, mas os benjamitas cercaram a casa, exigindo conhecer o homem.
- Após resistência do ancião, os benjamitas contentaram-se com a concubina, ultrajando-a a noite toda.
- Pela manhã, a mulher extenuada caiu morta à porta da casa onde o levita dormia.
- O levita a colocou no jumento, levou-a para casa e a esquartejou em doze pedaços, enviando-os por todo o território de Israel.
- Os israelitas reuniram-se em Mispá e, ouvido o relato, decidiram castigar os benjamitas.
- Os benjamitas recusaram entregar os culpados e prepararam-se para a guerra.
- Reuniram-se em Gabaa 26.000 soldados, mais um corpo de elite de 700 homens canhotos, exímios atiradores de pedras com funda.
- Os israelitas, 400.000 homens sob a liderança de Judá, acamparam perto de Gabaa.
- Na primeira batalha, os benjamitas mataram 22.000 israelitas.
- Yahweh foi consultado e ordenou novo ataque; na segunda batalha, morreram 18.000 israelitas.
- Yahweh novamente ordenou o ataque; no terceiro dia, com uma emboscada, os israelitas venceram, matando 25.500 benjamitas.
- Todos os não combatentes (mulheres, crianças e gado) foram massacrados e as cidades incendiadas.
- Apenas 600 homens fugiram para o deserto, refugiando-se na rocha de Rimmon por quatro meses.
- Após a vitória, os israelitas sentiram remorso por eliminar uma tribo e procuraram esposas para os 600 sobreviventes.
- O problema era o juramento de não dar filhas aos benjamitas.
- Descobriu-se que Jabes em Gileade não se juntara à coalizão, merecendo a morte.
- Enviaram-se 12.000 soldados para executar a sentença, matando todos, exceto as virgens.
- Trouxeram 400 jovens de Jabes para Siló, entregando-as aos benjamitas chamados de Rimmon.
- Ainda faltavam 200 mulheres.
- A solução para as 200 mulheres restantes envolveu um rapto ritual durante uma festa.
- Durante a festa anual de Yahweh em Siló, os benjamitas foram instruídos a emboscar nas vinhas.
- Deveriam raptar as jovens que saíssem para dançar e voltar com elas para Benjamim.
- A desculpa para os pais e irmãos seria de que não os deram, sendo, portanto, inocentes do juramento.
- As coisas assim se passaram, restaurando a ordem.
- A interpretação evemerista simples encontra dificuldade, principalmente no esquartejamento.
- O envio de fragmentos de uma vítima para partes da coletividade é um rito bem conhecido.
- O rapto das jovens em Siló, durante a grande festa anual, lembra o rapto das Sabinas.
- O retiro dos 600 benjamitas em Rimmon assemelha-se a um período de isolamento iniciático.
- Os 700 guerreiros canhotos lembram deuses e heróis iniciáticos que se tornaram mancos.
- Exemplos citados são o deus irlandês da guerra Nuada, o deus germânico Tyr (cuja mão foi comida pelo lobo iniciador Fenrir) e o herói romano Múcio Cévola.
- Virgens dançando saindo de um santuário é um final comum em cerimônias iniciáticas.
- A guerra com três investidas e a vitória no terceiro dia da terceira investida sugere um cenário ritual.
- É extraordinário que os vencedores, imediatamente após o triunfo, façam outra guerra para prover esposas aos que queriam exterminar.
- Os mesmos que juraram solenemente não se aliar aos benjamitas tomam a iniciativa do perjúrio.
- Os números exagerados indicam uma tradição que se deformou, ajustando-se mal no novo contexto narrativo.
- Os ultrajes sofridos pela jovem não devem ser vistos primariamente como devassidão, mas como um rito análogo ao nasamonismo.
- Segundo Heródoto, entre os nasamônios da Cirenaica, todos os convidados masculinos possuíam a nova esposa na festa de casamento.
- Diodoro da Sicília atribui o mesmo rito aos habitantes das Baleares.
- O rito encontra-se em todos os continentes: América do Sul, Central, ilhas do Pacífico, Austrália, África Oriental, com traços na China, Índia, França e Irlanda.
- Foi uma das grandes fontes da licença em solenidades anuais que prolongaram as iniciações neolíticas.
- O objetivo primitivo não era o libertinagem, mas o reforço do mana vital.
- Os gestos foram por muito tempo simbólicos antes de se materializarem em união sexual.
- Os benjamitas de Gabaa realizavam um rito com a jovem esposa, não sendo seus sentimentos que devem ser julgados, mas as instituições.
- O objetivo inicial era nobre, respondendo a altas concepções religiosas, quando a sexualidade não tinha a importância e o aspecto que adquiriu depois.
- O nasamonismo foi interpretado como um resgate pago pelo marido aos irmãos do clã, mas essa explicação é inválida, pois os parentes da esposa também possuíam o direito.
- A explicação religiosa resolve o problema.
- O rito estabeleceu-se em um regime matriarcal, onde a relação entre pai e filha não era a mesma de hoje.
- O pai, a quem as regras matriarcais não reconheciam parentesco legal com a filha, podia ser o desflorador sagrado.
- Os usos incestuosos dos sabás derivam daí, sendo os sabás a perpetuação russa das antigas festas agrárias de ano novo.
- É possível que as práticas nasamônias remontem apenas à Idade do Bronze, ampliando costumes religiosos anteriores em meios culturais matriarcais.
- Foram originalmente realizadas por confrarias iniciáticas, cujos membros intensificavam as bênçãos sobre a esposa.
- A presença dos Centauros em casamentos de mitos gregos explicita esse aspecto.
- Gradualmente, essas personalidades piedosas cederam lugar a outros, mas sempre foram os convidados masculinos do casamento que realizaram o rito.
- As indicações do relato bíblico não deformam os fatos, embora os apresentem sob um aspecto pejorativo.
- Os benjamitas de Gabaa foram outrora poderosos e venerados iniciados que procediam às iniciações de meninos e meninas.
- Muitas tribos israelitas, especialmente Judá, confiavam-lhes seus filhos para o aperfeiçoamento dos ritos, incluindo a desfloração litúrgica das virgens.
- A elite de 700 mancos, antes de se tornar uma confraria guerreira, formava uma associação de iniciados.
- A iniciação, com suas provas eliminatórias e usos ascéticos, é que os tornou homens fortes e hábeis.
- Na Antiguidade remota, a guerra dependia tanto da potência psíquica quanto da força física.
- O esquartejamento do cadáver e o envio dos pedaços relacionam-se às cerimônias iniciáticas.
- Quando a morte iniciática se tornou efetiva, a carne da vítima, tornada divina, podia divinizar e conferir mana sobrenatural para a existência.
- Originaram-se ritos comuniais (canibalismo litúrgico) e ritos de deposição de restos mortais em locais específicos.
- Desenvolveu-se o hábito de levar um pedaço do cadáver para cada centro secundário da comunidade, santificando todo o território.
- O rito, com o tempo, tornou-se um rito agrário de fertilidade.
- Um exemplo de tais práticas é fornecido pelos Khonds ou Kandhs, tribos dravidianas de Bengala.
- Homens vendiam-se como vítimas voluntárias ou famílias pobres vendiam seus filhos.
- A vítima era tratada admiravelmente e devia aceitar seu destino sem coerção.
- Dez ou doze dias antes da imolação, consagrava-se a vítima cortando-lhe os cabelos.
- O sacrifício era anunciado como sendo para toda a humanidade, com vários dias de regozijo e devassidão.
- Na véspera, a vítima, vestida de novo, era conduzida ao bosque sagrado (Mériah) e amarrada a um poste, ungida com óleo, manteiga derretida e cúrcuma, e ornada com flores.
- Uma grande luta ocorria por qualquer resto da pessoa da vítima, um átomo da pasta de cúrcuma ou uma gota de saliva.
- A multidão dançava em volta do poste, suplicando à terra boas colheitas, estações e saúde, e afirmando à vítima tê-la comprado, não agarrado pela força.
- No último dia, as orgias cessavam ao meio-dia, e a assembleia consumava o sacrifício.
- Os ossos dos braços e pernas da vítima eram quebrados para que não resistisse, ou era dopada com ópio.
- A morte era por estrangulamento ou sufocamento.
- O corpo era esquartejado vivo, e a multidão disputava cada pedaço para levar aos campos.
- Em outros lugares (Chinna Kimedy), o cadáver da vítima humana era dividido em doze partes.
- Os pedaços não eram disputados, mas entregues pelos oficiantes aos capangas de cada casa.
- Um jejum era observado ao trazer os pedaços para o campo; as cabeças e os ossos da vítima eram queimados com um carneiro inteiro na manhã seguinte.
- As cinzas eram espalhadas nos campos ou misturadas ao trigo novo.
- Com a supressão dos sacrifícios humanos, substituiu-se a vítima humana por um bode ou um búfalo.
- O animal era despedaçado vivo, e os homens disputavam os pedaços para enterrá-los em seus campos, correndo muito rápido.
- O exemplo citado mostra o momento final das cerimônias iniciáticas, onde outrora se realizavam as desflorações sagradas e iniciações sexuais.
- A devassidão atual é sobrevivência das antigas liturgias neolíticas.
- A vítima vai a um bosque sagrado e, como os antigos iniciados, deve difundir a força ultra-física pelo território.
- O transporte dos pedaços de carne é seguido de luta, lembrando as antigas batalhas pós-iniciáticas ligadas aos casamentos.
- O respeito religioso com que são aguardadas as relíquias sangrentas (jejum, silêncio absoluto) impressiona.
- Os últimos ritos, concernentes às iniciações dos benjamitas mostram os israelitas como aliados daqueles que combatiam.
- Arrancam dos de Siló e dos de Jabes em Gileade os privilégios que a costumem conferia em relação aos filhos de Benjamim.
- Os novos iniciados, vindos de Rimmon após 4 meses de reclusão iniciática, raptam mulheres que antes pertenciam a outros personagens sagrados.
- Há uma distinção entre as jovens de Jabés (raptadas pelos israelitas para os benjamitas) e o restante das jovens necessárias: estas, os benjamitas raptam-nas por si mesmos, arrancando-as aos de Siló.
- Trata-se, portanto, da história de uma revolução nos usos iniciáticos, corrigindo ritos antigos por ritos novos.
- A perturbação não deve ter parecido fútil ou superficial aos hebreus da época, pois o sagrado agitava a alma antiga em suas profundezas.
- Os jovens de Gabaa se casam no final de sua reclusão iniciática, ao retornarem de Rimmon.
- As jovens dançarinas de Siló são novas iniciadas, dando-se mais um exemplo da união matrimonial como término das iniciações de classes de idade.
- A exegese proposta adere à letra do texto, diferindo por considerar os fatos como ritos repetidos inúmeras vezes, não como ocorrências únicas.
- Nenhum historiador, no entanto, pode ignorar os desenvolvimentos humanos.
- Em data antiga, a união da concubina era uma hierogamia, um casamento sagrado com um deus humanizado, sendo o levita o representante do deus.
- Os helenos, na época clássica, tinham um equivalente no hieros gamos.
- O deus nu, representando a justiça, aparece no fundo de uma cena de casamento ático.
- O casamento por rapto e o casamento por compra derivam do casamento iniciático.
- Em muitos lugares, o rapto da noiva é simulado, e quando um homem raptava uma mulher, o direito de possuí-la era-lhe concedido se não fosse resgatada.
- O exemplo dos Litianos da Lituânia mostra parentes da jovem tentando resgatá-la; se falham, ela é vendida.
- Na Alemanha primitiva, o rapto da noiva pelos convidados do casamento era tolerado por três dias, após os quais era considerado adultério.
- No País de Gales medieval, se um homem raptasse uma mulher, seus irmãos tentavam libertá-la; se conseguissem, o raptor era obrigado a readquiri-la por um preço mais alto.
- O casamento por compra tirava seu valor primitivo por suceder o casamento por captura, que tinha sua força por ser uma vitória iniciática sobre o desflorador sagrado.
- Houve uma degradação insensível dos conceitos iniciáticos, um esmaecimento do sagrado em profano.
- Nunca houve na humanidade senão um tipo de verdadeiro casamento: aquele que faz dele uma união sacrossanta, uma hierogamia.
- O casamento real foi o primeiro a ser calcado no casamento divino, propagando-se dele progressivamente.
- A. M. Hocart escreveu que o casamento é de origem real, originalmente uma cerimônia para o rei e a rainha, estendendo-se depois às classes mais humildes.
- Hocart não discerniu a origem do casamento real, que provém das cerimônias iniciáticas antigas por intermédio das hierogamias.
- A substância do casamento real era o mana especial proveniente de certos ritos que faziam do rei e da rainha iniciados superiores.
- O capítulo final dos Juízes pode ser mais bem compreendido conhecendo a estrutura provável da confederação israelita arcaica, na época dos patriarcas.
- As doze tribos então existentes descendiam dos doze filhos de Jacó (Gênesis, capítulos 29-30, 32, 35-36, 46), faltando José.
- A tribo de Levi, dispersa, era sacerdotal, sagrada aos ritos, sendo o levita um auxiliar do sacerdote (mas nem sempre).
- A circuncisão, grande rito iniciático, praticava-se na idade da puberdade (Ismael foi circuncidado aos 13 anos), como coroamento de um período probatório.
- Os israelitas, ainda pouco numerosos, viviam em estreito contato, possuindo um lugar santo comum onde os sacrifícios e ritos ocorriam.
- Da solenidade iniciática, pedaços de carne arrancados da vítima eram levados para cada tribo a fim de santificar seu território.
- A tribo de Benjamim, como indica a etimologia de seu nome, habitava ao sul (à direita, quando se olha para o leste).
- Do foco central, a energia divina irradiava para as outras nove tribos (três a leste, três ao norte, três a oeste).
- Os benjamitas, detentores de uma iniciação especial, provavelmente formavam uma confraria que presidia às cerimônias e desempenhava o papel de personagens sagrados.
- A organização duodécada deve ter existido entre os hebreus em sua forma completa em uma época alta, após sua constituição por Jacó, nos confins do primeiro e segundo quarto do segundo milênio.
- Só ela explica os ritos mais antigos sugeridos no final dos Juízes, ritos que nunca poderiam ter se estabelecido em Israel após as reformas de Moisés.
- Os dados recentes do texto referem-se ao período pós-mosaico, anterior à realeza.
- Os hebreus estão instalados em Canaã; as tribos, revivificadas por Moisés após a estada no Egito, já não apresentam os mesmos caracteres, agrupamento ou coesão.
- A legislação mosaica modificou os ritos: a circuncisão passa a ser feita na primeira infância, não mais na puberdade.
- As cerimônias iniciáticas subsistem como preparação para o casamento, e os iniciados de Benjamim continuam como personagens sagrados nesse domínio.
- Os privilégios e renome dos benjamitas não desapareceram com o cativeiro.
- Os direitos dos benjamitas tendem a se tornar esquemáticos, como tantos direitos antigos, devido às distâncias maiores entre as tribos, dificultando seu exercício.
- Judá, por estar mais próximo, parece ainda submeter-se aos privilégios benjamitas.
- Um incidente faz eclodir os descontentamentos e dá coragem para romper os privilégios ultrapassados.
- Rompem-se os privilégios, no entanto, conformando-se ao seu princípio: inauguram-se ritos novos, mostrando que a força especial detida por Benjamim se transferiu para outros, como prova a vitória sobre ele.
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