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CIRCUNCISÃO DE MOISÉS

GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.

  • Poder-se-ia crer que se tratava simplesmente, no início, de uma operação material — a ablação do prepúcio, sem concomitância de iniciação — mas esse sentimento deve ser repelido a priori, pois não há exemplo, entre as numerosas tribos onde reina a circuncisão e onde ela não foi reportada aos primeiros anos de vida, de que ela não forme o coroamento de um longo período iniciático preparatório.
    • Uma prova positiva de interesse maior é fornecida pelo livro do Êxodo, onde se vê Moisés retornar ao Egito após sua longa estada entre os Madianitas — ele havia desposado Séfora, filha de Jetro, e tivera um filho
    • No curso da viagem intervém subitamente o misterioso episódio que desconcerta há séculos os comentadores — Êxodo IV, 24-26: durante uma parada noturna, Yahvé atacou Moisés e procurava matá-lo; Séfora tomou então uma pedra cortante, cortou o prepúcio de seu filho e tocou as partes de Moisés, dizendo: tu és bem para mim um esposo de sangue; e Yahvé o deixou; ela havia dito então esposo de sangue, falando da circuncisão
    • Segundo esse texto, o sangue da circuncisão — isto é, o sangue do prepúcio oferecido a Deus, o sangue que opera a aliança de um indivíduo humano com o Ser Supremo — é igualmente o que habilita esse indivíduo a se unir com uma virgem; o homem se torna por isso um esposo de sangue — hâthân dâmîm
    • Moisés não havia cumprido esse rito antes de desposar Séfora — eis por que Yahvé o ataca; então Séfora o circuncida por substituição, cortando o prepúcio de seu filho e tocando as partes virís do marido
  • É evidente que a circuncisão não devia ser um uso muito difundido entre os Madianitas, pois Moisés havia podido, sem ela, obter em casamento a filha de Jetro — mas desde que retornava junto a seu povo, entre quem o ancestral Abraão havia estabelecido essa prática, era necessário que a ela se submetesse para tornar válida junto aos seus a sua união.
    • Uma circuncisão posterior à consumação do casamento se revelaria ineficaz — o sangue da defloração não podia ser oferecido a Deus senão por um homem que se houvesse aliado a Deus graças ao sangue da circuncisão; somente esse rito era divinizante e fazia da mulher um ser superior
    • O único remédio era circuncidar a criança, em quem os dois sangues se uniam, e depois identificar, por um rito simbólico graças ao poder criador das palavras sagradas, o sangue do filho ao do pai — a falta anterior estava assim, tanto quanto possível, reparada; um sangue novo corria nas veias de Moisés, e Séfora encontrava-se igualmente, doravante, graças a seu filho, provida de um sangue novo e santificada por seu marido
    • Se Levi e Simeão houvessem se valido desse desvio litúrgico, não teriam tido necessidade de matar os Siquemitas — talvez, é verdade, Dina não tivesse filho
  • O ponto difícil não é esse — o que é inexplicável é a atitude emprestada a Yahvé: ele elegeu Moisés, revelou-se a ele no Horeb, encarregou-o de libertar Israel cativo, e eis que procura matá-lo.
    • O sentido profundo da cena aparece quando se reporta à luta de Jacó contra Yahvé no vau do Jaboc — Gênesis XXXII, 24 e seguintes; nos dois casos, trata-se de uma prova iniciática que faz sofrer um personagem sagrado portando um título divino; nos dois casos o combate tem lugar durante a noite e é severo — é portanto uma qualificação iniciática que está em jogo
    • Moisés, antes de realizar — graças à substituição de seu filho, cujo sangue é idêntico ao seu — o rito que o habilita à união sexual e santifica seu casamento, deve provar que é um iniciado e possui a virtude sobrenatural requerida; administra essa prova no curso de uma luta contra um iniciador possuindo em grau eminente essa virtude
    • Reencontram-se assim os ritos nupciais precedentemente enumerados — as batalhas contra os Centauros, os raptos matrimoniais — que permitem entender mais plenamente o texto bíblico
    • Quando Moisés triunfou e atestou sua potência, somente então se cumpre o rito material que registra no corpo a realidade espiritual da iniciação
  • Vê-se claramente por aí que não se tratava somente de retirar um pedaço de carne — trata-se de uma comunhão com o universo divino que está em causa, e a incoerência da narração bíblica não é senão aparente.
    • No Horeb, é Yahvé — ser transcendente — que se comunica a Moisés; na estrada do Egito, é um homem sacrossanto que opera, um homem investido do título de Yahvé, e que colabora com Deus para encaminhar o profeta rumo à sua missão, a fim de melhor prepará-lo para cumpri-la
    • Esses detalhes são extremamente significativos — mostram que os heróis do hebraísmo não foram individualidades isoladas; como os heróis de todos os países, foram iniciados; seres humanos contribuíram de fora para sua formação e precisaram ou completaram para eles as comunicações interiores de Deus
    • Esses guias foram os mesmos que os das outras personalidades heroicas, e as provas iniciáticas foram, elas também, as mesmas — foram aquelas que haviam propagado, no neolítico, os santos da Grande Montanha
    • O papel daqueles que se chama os deuses foi muito mais profundo e mais extenso do que se crê — graças a eles, existe mais unidade do que se pensa na evolução religiosa subterrânea da humanidade
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