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DEFLORAÇÃO RITUAL
GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.
AS REAÇÕES CONTRA A DEFLORAÇÃO RITUAL
- As reações contra a defloração ritual e contra a oferenda posterior de jovens virgens aos sucessores do antigo deflorador sagrado deram nascimento a outros costumes religiosos que nunca foram claramente explicados até então.
- A primeira dessas reações é o casamento por rapto
- A segunda é a expulsão de um personagem emissário e a origem do animal emissário
- A terceira é a origem iniciática dos Jogos e o sentido primeiro dos Jogos funerários
- A quarta é a transformação das lutas iniciáticas em meios de guerra
- A quinta é a luta contra o deflorador sagrado como combate pela posse de uma pedra sacrossanta — origem da litobolia — que foi antes de tudo uma luta ritual
- O rapto matrimonial teve na origem o alcance de uma prova iniciática — ao arrancar a noiva ao personagem que tinha o direito de deflorá-la, o noivo demonstrava seu valor e se habilitava a praticar ele mesmo a defloração, qualificando-se como personagem sagrado por sua vitória.
- As vitórias de jovens heróis sobre um dragão ou outro homem-animal evocam a mesma ideia — os assassinatos de dragões constituíam por vezes verdadeiros ritos nupciais, assim como as vitórias sobre os centauros na Grécia
- O marido não podia praticar o rito sagrado da defloração antes de ter provado que era, como o antigo deflorador, um deus ou homem divino — tal foi o sentido inicial do rapto matrimonial
- Quando o casamento das jovens continuava a seguir imediatamente as cerimônias iniciáticas e os defloradores sagrados operavam simultaneamente sobre todas as adolescentes de um grupo social — representado na Grécia pelo número cinquenta — a luta assumia caráter coletivo, sendo o mito mais célebre a esse respeito o do grande combate travado contra os Centauros pelos Lápitas, quando estes insultaram as mulheres nas núpcias de Hipodâmia.
- Esse combate, repetido durante longo período a propósito de outras núpcias, era um rito que colocava anualmente em confronto a santa confraria dos Centauros com os jovens de uma tribo tessaliana — o objeto era a defloração litúrgica das virgens que iam ser iniciadas, e os jovens vencedores adquiriam a virtude centáurica que os habilitava à defloração
- As famosas lutas de tantos heróis contra as Amazonas possuem a mesma significação — elas desembocavam sempre em deflorações rituais e constituíam, segundo as ideias antigas, verdadeiras iniciações, com a diferença de que o combate se travava não contra homens, mas contra as guerreiras encarregadas de proteger a comunidade feminina
- Em muitos casos, em virtude das regras exogâmicas, os defloradores sagrados provinham de coletividades vizinhas, e quando se instaurou o rito novo de lutar contra eles para arrancar-lhes o direito de defloração, o combate tomou a aparência de uma batalha entre aldeias vizinhas — hostilidades súbitas e simuladas que se perpetuaram em datas fixas até a época atual.
- Na França, o domingo do Invocavit era chamado behourdis porque nesse dia homens a cavalo, provenientes de comunidades vizinhas, se atacavam em grupos — o behourd era uma forma de torneio
- Em geral se combatia a golpes de pedra — rito da litobolia — e esses combates rituais entre aldeões franceses tinham lugar nos dois primeiros domingos da Quaresma, época em que antigamente começava o ano e se praticavam as cerimônias iniciáticas seguidas do casamento dos iniciados
- Em numerosas aldeias alemãs se encontra o mesmo costume, assim como na Índia, onde dois grupos de homens se lançam flechas sem ponta
- Referência: W. Mannhardt, Wald-und Feldkulte, Berlim 1934, I, pp. 535, 549, 552
- Em Saint-Servais, cantão de Callac, nos confins do Côtes-du-Nord e do Finistère, tinha lugar cada 13 de maio uma procissão em honra de Saint-Servais — os homens de uma paróquia vizinha nunca deixavam de vir reivindicar a honra de carregar a estátua do santo, e mal terminava a procissão começava uma rude batalha, com as mulheres fornecendo projéteis dos dois lados; essa festa se chamava a assembleia dos golpes de bastão
- Referência: Jules Haize, História de Saint-Servan, Saint-Servan — Saint-Malo, 1900
- É equivocado considerar esses episódios como parte de uma liturgia agrária, pois não se explicaria por que homens teriam vindo travar batalha para tornar o solo fértil — o rito só adquiriu alcance agrário no curso de sua evolução, por um lado porque se praticava na mesma época que o ritual de fertilidade, e por outro porque mostrava em ação, detida por personagens sagrados, a energia transcendente que é o princípio das forças naturais de fecundidade.
- Toda vez que um relato antigo fala de homens que subitamente se põem a combater entre si, há tudo a apostar que se está diante do rito iniciático terminal aqui considerado — uma luta contra antigos personagens sagrados escolhidos originalmente numa coletividade vizinha
- Para entender os fatos é preciso remontar a outras circunstâncias sociológicas e encarar um longo desenrolar da história — o uso popular marca frequentemente a degradação e o afloramento no presente de instituições de um passado longínquo
- No caso de Saint-Servais se decifram dois detalhes característicos — a intervenção, nos ritos sagrados de um grupo social, de personagens pertencentes a outra comunidade, e a expulsão desses personagens
- Entre outros povos, a reação contra o antigo iniciador sagrado engendrou um rito diferente — o do personagem emissário — expulsando-se cada ano a antiga personalidade iniciática considerada como incorporando o mal, e esse rito se cumpria também a golpes de pedra, sendo a pedra encarada como divina e apagando os traços funestos que o emissário pudesse ter deixado.
- Esse costume parece ter se estabelecido sobretudo entre as tribos que não tinham, ou tinham cessado de ter, vizinhos próximos — expulsava-se o emissário no deserto em vez de repeli-lo para junto dos seus
- Os personagens emissários, que foram a princípio homens sacralizados revestidos de peles animais sacrificiais — homens-lobos, homens-cães, homens-bodes, etc. — cederam progressivamente lugar aos próprios animais, chegando-se assim à concepção mosaica do bode emissário
- Seria impossível compreender por que se teria expulsado o animal emissário se se o colocasse no início — o que não se explicaria se o animal fosse posto no começo
- A transição do iniciador divino a um ser demoníaco foi insensível — em virtude de seu próprio papel, o iniciador era de fato um torturador que submetia o neófito a duras provas e punha à prova impiedosamente sua coragem
- Os usos matrimoniais citados estão na origem, em grande parte, dos Jogos — cuja importância foi enorme nos últimos séculos da antiguidade e que se continuaram na Idade Média pelos torneios, batalhas de bastões, danças às espadas, etc. — e os Gregos não mentiam ao vincular os Jogos Olímpicos a uma prova matrimonial sofrida por Pélops.
- Os Jogos foram o prolongamento direto das iniciações antigas e se instituíram sempre na origem nos centros iniciativos — a liturgia matrimonial integrava-se no início às cerimônias de iniciação, contribuindo para o estabelecimento dos Jogos
- As Justas medievais foram a continuação muito direta das lutas nupciais mencionadas anteriormente
- Os Jogos funerários foram, em sua origem, cerimônias iniciáticas celebradas em proveito de um morto — o cumprimento desses ritos divinizava o morto e mostrava nele um ser imortal; a diferença é que ele não participava em carne e osso, embora às vezes sua múmia estivesse presente ou fosse representada por uma máscara
- A linha de evolução é portanto — provas iniciáticas, Jogos incluídos os funerários, divertimentos profanos — e inverter essa ordem seria querer fazer correr um rio a partir de sua foz, ignorando a grande lei segundo a qual o profano deriva espontaneamente do sagrado, ao passo que o profano, por imponente ou benéfico que seja seu caráter, nunca dá por si só nascimento ao sagrado.
- Um outro aspecto da questão é a transformação das lutas iniciáticas em meios de guerra, em ruses ofensivas ou defensivas, em armas militares — o que é, em suma, sob outra especificação, a mesma evolução do sagrado em profano
- O rito da litobolia permite precisar o aspecto que tomou ao longo dos séculos a luta contra os personagens sagrados defloradores — foi um combate em torno de uma pedra sagrada, na qual repousava o fluido divino, e J. G. von Hahn observou que combates a propósito de pedras precedem imediatamente, na mitologia grega, as célebres núpcias de Cadmos com Harmonia, assim como as de Jasão com Medeia e, na mitologia nórdica, a união de Odin com Gynnlod.
- Referência: J. G. von Hahn, Mythologische Parallelen, 1859, p. 19
- A litobolia remonta ao neolítico — o mito de Deucalião, que joga pedras atrás de si para criar homens, é fundado sobre um rito litobólico; entre muitos povos, cada neófito traz ao campo da iniciação uma pedra que coloca perto da pedra sacrossanta em que se encarna o mana transcendente, e essa pedra representa sua essência, sua alma superior, sendo idêntica a ele — tal foi o ponto de partida, inteiramente iniciático, do rito
- Henri Lhote, em Os Tuaregues do Hoggar, p. 307, indica com clareza uma das formas degradadas subsequentes — os cultos petrográficos ainda muito vivos entre os Tuaregues, que creem em certas pedras assombradas e, para se conciliar os espíritos, colocam nas proximidades ex-votos em forma de seixos
- A pedra divina do início tornou-se, pela pressão animista, uma simples pedra assombrada, e as pedras que se identificavam aos iniciados e que lhes permitiam permanecer sob a proteção da energia divina se transformaram em simples ex-votos
- Ao jogar uma pedra num lugar sacrossanto se ficava ipso facto sob a guarda das forças sobrenaturais, pois a pedra, em virtude das antigas concepções iniciáticas, era idêntica àquele que a lançava
- O uso de depositar um seixo sobre túmulos — sobretudo os daqueles que se quer honrar — não é senão o prolongamento funerário do uso iniciático primitivo, tal como se encontra ainda na etnografia
- Os túmulos sagrados, os cairns, os mounds, etc., que nunca foram inicialmente lugares de sepultura, foram captados pelos mortos mais tarde
- Henri Lhote observa ainda que na passagem de certos desfiladeiros e caminhos inevitáveis se encontram enormes montões de pedras imitando tumuli, ou múltiplos pequenos seixos colocados ao longo de certas pistas de camelos
- A luta contra os personagens sagrados defloradores não foi, na origem — e talvez nunca tenha sido — uma simples questão de violência, pois foi antes de tudo um combate iniciático, o que provavelmente não o impedia de ser violento, tratando-se de uma conquista mística e de uma qualificação espiritual em jogo, ao mesmo tempo que, por via de consequência, a posse jurídica de um direito e o exercício físico desse direito.
- Mesmo a extirpação dos dragões sanguinários, amadores de sacrifícios humanos — extirpação que foi obra de longa alento — deve ser encarada sob esse ângulo: não se matava o dragão senão substituindo um rito por outro
- Os Santos cristãos exterminadores de monstros procederam da mesma maneira — o que foi demonstrado em O Culto Neolítico e a Bíblia, ao estudar o relato que concerne a São Romão de Ruão
- A litobolia, num estágio muito mais avançado, transforma-se em meio de luta contra as influências nefastas e os Espíritos maléficos — o lançamento de uma pedra, ao colocar um homem sob a proteção da energia sacrossanta, revelava-se uma salvaguarda eficaz e uma defesa contra o mal, sendo a segunda ideia, no início, um simples corolário da primeira antes de evoluir em costume independente
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