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FILHA DE JEFTÉ
GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.
- A história de Jefté possui um significado iniciático, e sua filha é identificada a Coré.
- No relato, há uma interpenetração de um elemento sociológico e um elemento especificamente histórico.
- Há uma tendência a postdar os ritos, pois as tradições religiosas são sempre mais antigas do que parecem.
- Essas indicações mostram que os israelitas praticaram, anteriormente a Moisés, o venerável ritual iniciático de morte e ressurreição, e guardaram sobrevivências dele no período pós-mosaico.
- Quando Ezequiel se indigna ao ver as mulheres de Jerusalém chorarem Tamuz, não se considera que, antes de gemer sobre o deus caldeu, elas lamentaram alguma personalidade hebraica.
- A divindade estrangeira foi adotada simplesmente porque exprimia com mais esplendor concepções nacionais.
- Abaixo de Tamuz, Adônis ou Átis, estão os ritos aos quais sua noção se adaptava, ritos que, em alta época, eram quase os mesmos em toda parte.
- A história de Jefté mantém o mesmo ambiente iniciático.
- O herói de Gileade era filho de uma cortesã, muito provavelmente uma prostituta sagrada.
- Esse detalhe explica toda sua carreira, centrada no santuário de Mispá.
- Tornou-se uma espécie de condottiere: gente de nada se reuniu ao seu redor e faziam excursões com ele.
- Os habitantes de Gileade, hostilizados pelos amonitas, pediram que ele os defendesse.
- Jefté assumiu o poder regularmente, agindo em ligação com Iahweh.
- Diante da intransigência dos amonitas, decidiu marchar contra eles e fez o voto de oferecer em holocausto a primeira pessoa que saísse de sua casa ao seu encontro.
- A primeira pessoa a sair foi sua filha, sua única filha.
- Informada do voto, ela se submeteu ao destino, pedindo apenas a graça de ser deixada livre por dois meses para descer às montanhas e chorar sua virgindade com suas companheiras.
- Jefté respondeu: Vai, e a deixou ir por dois meses.
- O texto acrescenta que ela se foi com suas companheiras e chorou sua virgindade sobre as montanhas.
- Passados os dois meses, voltou para seu pai, e ele cumpriu nela o voto que tinha feito; e ela não tinha conhecido homem.
- Dali veio o costume em Israel: cada ano, as filhas de Israel vão celebrar a filha de Jefté, o gileadita, quatro dias por ano.
- Dois pontos devem ser imediatamente esclarecidos.
- Os dois meses passados sobre as montanhas pelas jovens adolescentes israelitas de Gileade foram um período de reclusão e prova iniciáticas.
- As festas cuja celebração se estendia por quatro dias correspondem às cerimônias iniciáticas terminais.
- Tem-se aí uma outra sobrevivência do velho ritual neolítico entre os hebreus.
- A filha de Jefté, ou melhor, a personalidade cujo lugar ela ocupou, tornou-se para os hebreus de Gileade o que Coré, filha de Deméter, foi para os gregos.
- Ela sofreu uma catábase (desaparecimento, descida aos infernos) e depois uma anábase (subida, ressurreição), ou seja, uma morte iniciática seguida de um nascimento para a imortalidade.
- Não é surpreendente saber, por Epifânio, que ela era honrada na Palestina, em Siquém, sob o nome de Coré, o equivalente de Perséfone.
- Adolphe Lods cita esse trecho e acrescenta que uma estátua dessa deusa, segurando uma tocha funerária e espigas, foi encontrada em Samaria, junto a um altar erguido em sua honra.
- Lamentava-se anualmente pela filha de Jefté como em outros lugares pela filha de Deméter.
- Provavelmente era ela que as mulheres de Judá haviam chorado em tempos antigos, antes de suas descendentes gemerem sobre a sorte de Tamuz.
- Essa jovem virgem não sofreu influência de Coré, com quem só foi assimilada na época helenística: nasceu de forma independente, mas teve por matriz ritos idênticos.
- Embora aparentemente um decalque de Adônis, Átis e Osíris, não lhes devia nada; assemelhava-se a eles por ter a mesma proveniência iniciática.
- As festas terminais em que era honrada estendiam-se por três dias (mais um quarto, em que se ia em cortejo ao recinto sagrado).
- O número três era universalmente admitido para exprimir a duração da estada iniciática nos Infernos.
- Jesus Cristo, que veio não para destruir, mas para completar e precisar o ritual iniciático primordial, dando-lhe seu sentido autêntico e fazendo dele uma plenitude de realidade, não rompeu com essa regra.
- Com o passar dos séculos, a lembrança das iniciações antigas perdeu-se, de modo que, segundo o Livro dos Juízes, a heroína vai às montanhas chorar sua virgindade, lamentando morrer virgem.
- Essa interpretação não falseia o sentido primitivo do rito, pois era de fato uma virgem que desaparecia no mundo subterrâneo.
- Ao ressurgir, dotada de uma vida nova, completava-se, mediante a desfloração sagrada, sua transformação em deusa-mãe.
- Em Creta, Britomártis cumpria o salto marinho (catábase) e, retornando à terra como divindade marinha (anábase), identificava-se, ao tornar-se mulher completa, à santíssima Ariadne.
- Morrendo virgem, a filha de Jefté tinha o sentimento de não cumprir seu destino, isto é, de não percorrer todos os ritos.
- Para uma análise detalhada dos dois capítulos dos Juízes relativos a Jefté, seria preciso considerar o outro aspecto do relato: não mais o ritual e sociológico, mas o individualizado e histórico.
- A primeira hipótese é que a filha de Jefté é uma figura puramente mítica, sem existência fora das jovens que sofriam os ritos iniciáticos dos quais se tornou a hipóstase.
- Essa suposição esbarra no fato de não haver ressurreição no texto; a anábase é suprimida, e se um mito fosse calcado nos ritos, esse ponto fundamental não teria sido negligenciado.
- A heroína, como Coré ou Adônis, reapareceria.
- Em lendas desse tipo, sempre relacionadas à reclusão iniciática ou à desfloração ritual, a jovem é sempre, no final, salva, com a anábase intervindo após a catábase.
- Nada disso ocorre no relato bíblico, portanto a filha de Jefté deve ter existido authenticamente, e sua existência fez com que a lembrança dos ritos iniciáticos antigos fosse truncada.
- A segunda hipótese é que ela foi sacrificada iniciaticamente, não realmente.
- Essa suposição contradiz o texto, que visa indiscutivelmente uma imolação consequente a um voto.
- A terceira hipótese é que o sacrifício da filha de Jefté esquematiza um sacrifício que se renovava anualmente.
- Essa hipótese seria admitida se as circunstâncias que levam ao assassinato não fossem tão precisas e nitidamente limitativas.
- O texto, como se apresenta, dificilmente permite pensar em um sacrifício humano renovado em datas fixas.
- A quarta hipótese, considerada a mais sábia para as velhas tradições, é aceitar o relato como está e ver nele o encontro entre um evento individualizado e histórico (o voto de Jefté, que não se repete, e obriga a fazer morrer autenticamente uma jovem) e um venerável ritual iniciático, ao qual a vítima se submete antes de morrer.
- Posteriormente, esse ritual pareceu centrado nela e, por isso, sofreu uma alteração.
- Seu sacrifício tornou-se, para a imaginação religiosa, um foco de atração que determinou uma nova exegese de cerimônias antigas e levou a postdatá-las.
- Os ritos iniciáticos certamente se cumpriam bem antes de Jefté, mas seu gesto ofuscou os fatos anteriores, e a imolação de sua filha foi designada como ponto de partida da liturgia.
- Com isso, mutilaram-se os dados antigos, mas, na parte que se conservou, não os denaturaram.
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