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ASSASSINATO DOS SIQUEMITAS
GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.
- A ideia fundamental que se depreende das páginas precedentes é que a jovem só deve se entregar a um homem santificado pelos ritos — a defloração é um ato sacrossanto que marca para sempre a mulher, e as primícias reservadas à divindade exigem que o homem que as colhe de uma virgem esteja habilitado a isso pela infusão nele de uma energia divina particular; se não detém esse mana especial, é incapaz de divinizar a jovem, isto é, de completar nela a iniciação feminina.
- O mais grave desonra para uma mulher é ser deflorada por um homem que não possua o caráter sagrado requerido — caráter que se obtém por cerimônias ou lutas iniciáticas
- Esse desonra é tão profundo que nada pode apagá-lo
- Tais são as noções que se deve ter presentes ao espírito para entender numerosos fatos e costumes antigos
- Certos passos da Bíblia confirmam essas indicações e lhes trazem um acréscimo de luz — em particular o relato do Gênesis (XXXIV) concernente ao massacre dos habitantes de Siquém por Simeão e Levi, filhos de Jacó, cujos irmãos de Dina se uniram a um siquemita que, infelizmente, ainda tinha seu prepúcio, isto é, não estava habilitado a deflorar ritualisticamente.
- Jacó consente no casamento com a condição de que os habitantes de Siquém se façam circuncidar — assim, as uniões matrimoniais seriam doravante legítimas entre os dois grupos
- Os habitantes de Siquém aceitam pelos motivos que fazem ressaltar as vantagens que apresentava nos tempos antigos a fusão entre uma comunidade agrícola e criadores nômades — Hémor, pai de Siquém, declara: esses homens são pacíficos no meio de nós; que se estabeleçam no país e que nele comerciem; o país, à direita e à esquerda, é bastante vasto para eles; tomaremos suas filhas por mulheres e lhes daremos nossas filhas; mas esses homens não consentirão em habitar conosco para se tornar um único povo a não ser com uma condição: que todo macho entre nós seja circuncidado, como eles o são; seus rebanhos, e seus bens, e todos os seus animais de carga, não serão nossos? Somente, é necessário que consentamos ao que pedem e que se estabeleçam entre nós
- Os Siquemitas não eram então — primeira parte do segundo milênio antes da era cristã — puros agricultores; combinações anteriores com outros grupos da criação nômade haviam longamente justaposto na região as ocupações pastorais e o trabalho do solo — trata-se de um reforço da influência pastorale
- Pela circuncisão, que consagrava a Deus as primícias da vida sexual masculina e efetuava a iniciação dos homens, estes se qualificavam como defloradores — ao aceitarem se submeter a ela, os Siquemitas se integravam entre os filhos de Deus e adquiriam os privilégios ao mesmo tempo que a virtude.
- A questão foi assim regulada e todos os machos da cidade sofreram o rito — em seguida recolheram-se para se recuperar
- Estavam, infelizmente, longe de ter cumprido sua missão — Simeão e Levi tinham uma ideia por trás da cabeça
- No terceiro dia, quando os habitantes estavam sofrendo, Simeão e Levi, irmãos de Dina, tomaram cada um sua espada, se lançaram sem medo sobre a cidade e mataram todos os machos; passaram ao fio da espada Hémor e seu filho Siquém; e tendo retirado Dina da casa de Siquém, saíram; os filhos de Jacó se lançaram sobre os mortos e saquearam a cidade porque haviam desonrado sua irmã; tomaram seus carneiros, seus bois e seus jumentos, o que estava na cidade e o que estava nos campos; levaram como espólio todos os seus bens, seus filhos e suas mulheres, e tudo o que se encontrava nas casas
- Então Jacó disse a Simeão e Levi: vós perturbaste minha vida me tornando odioso aos habitantes deste país, aos Cananeus e aos Ferezeus; só tenho poucos homens comigo; eles se reunirão e me matarão, e eu serei destruído, eu e minha casa; eles responderam: é preciso que nossa irmã seja tratada como uma prostituta?
- A conduta de Simeão e Levi é, à primeira vista, não menos inexplicável que odiosa — a situação de Dina não estava se tornando regular desde que todos os Siquemitas se transformavam em circuncidados? — mas sua cólera só se compreende ao se relembrar o caráter sagrado do ato que preludiava à união sexual.
- O que mais importava para eles não era o casamento, mas a liturgia inicial — era a defloração que marcava para sempre a mulher
- Como ela não havia sido realizada segundo os ritos, o mal era irreparável — sua irmã estava para sempre aviltada, e nada podia doravante lhe conferir as qualidades divinas das quais havia sido privada; ela nunca seria uma filha de Deus
- Somente o extermínio dos Siquemitas era de natureza a castigar tal sacrilégio — e é assim que, sem levar em conta os pontos de vista todos humanos que inclinavam o pai à conciliação, não hesitaram em fazer justiça, aproveitando a fraqueza momentânea que vale ao adversário sua submissão aos ritos
- Discerne-se bem por aí o caráter sacrossanto da defloração — foi um sacrilégio inexpiável que havia cometido o filho de Hémor
- A mentalidade das primeiras gerações israelitas é, a esse respeito, a mesma que a dos outros povos da alta antiguidade — o casamento deve se inaugurar por um ato divinizante, mais divino que o próprio casamento; o único ponto que distingue os Hebreus das nações estudadas até aqui é que, entre eles, é a circuncisão que habilita a deflorar.
- Abraão, fundando-se em considerações que se tentou desfazer alhures, havia adotado para si mesmo, para seus descendentes e para os que se raliariam a sua fé, a ablação do prepúcio como marca sensível da iniciação divina, iniciação concebida, segundo as concepções pastorais, como uma aliança com o Ser criador
- A circuncisão havia se tornado assim a condição sine qua non do casamento, pois administrava de forma visível e indubitável a prova de que um homem possuía as qualificações iniciáticas necessárias
- A estreiteza do vínculo que une a circuncisão e o casamento ressalta ainda do mais simples estudo filológico, sendo que o verbo árabe hatana, cujo sentido próprio é circuncidar, e o substantivo árabe hitan, circuncisão, derivavam da mesma raiz que o hebraico hôthên — sogro — e hâthân — genro.
- A sogra será a hôthénéth enquanto mãe da esposa; por uma associação de ideias inteiramente natural, o hâthân designa também o noivo ou o novo marido, pois é graças às esponsalidades, hathunnâh, que o jovem se torna genro; em acadiano a palavra hâtanu, hatnu, designa ao mesmo tempo o genro e o cunhado
- E. Dhorme escreve — a linguagem conservou nessas poucas palavras a lembrança de um estado social em que a circuncisão era como o preâmbulo da união dos sexos; a etimologia permite, com efeito, considerar o hôthên como aquele que circuncida ou impõe a circuncisão, o hâthân como aquele que a sofre; o primeiro se torna por isso um sogro, o segundo um genro, um cunhado, um esposo; o verbo derivado hithhattên terá portanto como sentido próprio se aliar por casamentos — referência: E. Dhorme, A Religião dos Hebreus Nômades, 1937, pp. 287-288
- Em outros termos, é a circuncisão que se tornou aqui o princípio e como o coração do parentesco reposando sobre a união dos sexos
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