INICIAÇÃO SEXUAL E A EVOLUÇÃO RELIGIOSA
GORDON, Pierre. L'Initiation sexuelle et l'évolution religieuse. Paris: PUF, 1946.
Segundo o autor esta obra propõe reunir e coordenar algumas ideias esparsas em outros estudos, visando esclarecer alguns problemas ainda insolúveis, entre os quais destaca-se o incesto.
Um fato capital parece dominar a história religiosa da alta antiguidade, como domina os grupos humanos etnográficos: a existência de cerimônias iniciáticas. Em datas fixadas pelo costume se praticava nos antigos povos, como ainda se pratica ainda em nossos dias em algumas tribos que chamamos selvagens, uma liturgia de regeneração ou de recriação, que integrava novos seres no grupo social. O principal segredo que então aprendiam os neófitos era a presença de um mundo de energia sobrenatural envelopando o universo físico: se punha em contato com o mundo superior, por intermédio de um ancestral — herói ou deus — ao qual os ritos os uniam, até os identificavam. Quando as cerimônias se acabavam, os noviços eram sacralizados, divinizados, e aptos a difundir ao redor deles o mana que debordavam. A estas iniciações de adolescência, idênticas às atuais iniciações de classes de idades, eram superpostas em continuidade iniciações de confrarias, reservadas a certas pessoas, que se santificavam com eminência em revestindo o despojo de animais oferecidos em sacrifício (homens-animais): encontrava-se assim homens-lobos, homens-bodes, homens-serpentes, homens-leões, -homens-cavalos, homens-touros, etc. etc.
Como a vida do homem, aquela da mulher se centrava no sagrado. As jovens, assim como os jovens, beneficiavam de ritos iniciáticos, que condensavam neles a energia transcendente. As primeiras comunhões do cristianismo, com seus cortejos masculinos e femininos, fazem pressentir o que se passava há mais de quatro ou cinco mil anos. Uma das grandes diferenças é que então intervinha uma sacralização dos sexos, cerimônia ausente da iniciação cristã de classes de idade.
O livro é composto de quatro partes:
- A iniciação sexual do Neolítico e suas consequências sociais
- A iniciação sexual e a Bíblia
- A iniciação sexual e a noção de paternidade
- A iniciação sexual e a proibição do incesto
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
PRIMEIRA PARTE
A INICIAÇÃO SEXUAL DO NEOLÍTICO E SUAS CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS
- CAPÍTULO PRIMEIRO. — Visão geral
- CAPÍTULO II. — O amazonismo
- CAPÍTULO III. — A prostituição ritual antes do casamento
- CAPÍTULO IV. — Mitos gregos relativos à união sexual praticada nos templos
- CAPÍTULO V. — O sacrifício humano de origem iniciática e o coito bestial
- CAPÍTULO VI. — As reações contra a defloração ritual
- CAPÍTULO VII. — A prostituição sagrada ou hierodulia
- CAPÍTULO VIII. — A degradação da hierodulia
- CAPÍTULO IX. — A prostituição dos machos
- CAPÍTULO X. — O monaquismo pagão
- CAPÍTULO XI. — O papel da exogamia
SEGUNDA PARTE
A INICIAÇÃO SEXUAL E A BÍBLIA
- CAPÍTULO PRIMEIRO. — O assassinato dos Siquemitas
- CAPÍTULO II. — A circuncisão de Moisés
- CAPÍTULO III. — A guerra contra os benjaminitas
- CAPÍTULO IV. — A filha de Jefté
- CAPÍTULO V. — Sansão, herói solar
- CAPÍTULO VI. — Sansão e Amaterasu
- CAPÍTULO VII. — A saga de Sansão (I)
- CAPÍTULO VIII. — A saga de Sansão (II)
TERCEIRA PARTE
A INICIAÇÃO SEXUAL E A NOÇÃO DE PATERNIDADE
- CAPÍTULO PRIMEIRO. — Visão geral das iniciações neolíticas
- CAPÍTULO II. — O que era a paternidade
- CAPÍTULO III. — A tecnonímia
- CAPÍTULO IV. — A evolução econômica no final do neolítico
QUARTA PARTE
A INICIAÇÃO SEXUAL E A PROIBIÇÃO DO INCESTO
- CAPÍTULO PRIMEIRO. — Teorias diversas sobre a origem da proibição do incesto
- CAPÍTULO II. — O incesto ritual primitivo
- CAPÍTULO III. — Consequências sociológicas do incesto ritual primordial
- CAPÍTULO IV. — A exogamia e a endogamia têm a mesma origem
- CAPÍTULO V. — A exogamia dualista
- CAPÍTULO VI. — Corolários da exogamia
- CAPÍTULO VII. — Dedução das regras matrimoniais
- CAPÍTULO VIII. — Privilégios de familiaridades e “avoir-dances”
- CAPÍTULO IX. — Narrativas antigas referentes à exogamia
- CAPÍTULO X. — Como explicar o amazonismo, isto é, a formação de comunidades exclusivamente femininas?
- CAPÍTULO XI. — O sistema dualista na antiguidade (I)
- CAPÍTULO XII. — O sistema dualista na antiguidade (II)
- CAPÍTULO XIII. — O sistema dualista na antiguidade (III)
- CAPÍTULO XIV. — A dualidade nas personagens divinas
- CAPÍTULO XV. — O sistema dualista em suas relações com a água
- CAPÍTULO XVI. — A etnografia e a pré-história
- CAPÍTULO XVII. — Resumo
- CAPÍTULO XVIII. — Conclusão
