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COSMOLOGIA
GORDON, P. L’image du monde dans l’Antiquité. Paris: Éd. Arma artis, 2005.
PASSAGEM À COSMOLOGIA
- A representação do universo moldada pela teocracia pré-histórica deu origem às cosmogonias e cosmologias da antiguidade.
- O capítulo analisa como as cosmogonias e cosmologias antigas derivam da influência da teocracia pré-histórica.
- A discussão abrange a transição de ritos neolíticos específicos para sistemas cosmológicos estruturados.
Sentido profundo dos ritos neolíticos de criação.
- O ponto essencial nos ritos comemorativos da criação era a violência exercida sobre o estado primordial de indivisão.
- Quando o estado de indivisão era figurado pelo acasalamento sexual de um homem e uma mulher, identificados como céu e terra, o homem intervinha para separá-los à força.
- Quando o estado de origem era simbolizado por um super-homem, o universo físico formava-se pelo esquartejamento dessa figura.
- Não se buscava saber a origem dos personagens ou quem havia criado o super-homem, sendo aceitos como eternos.
- A explicação era considerada suficiente por discernir como, a partir desses seres, o universo atual havia se desenvolvido.
- A justificativa não é necessária para o universo da pura razão, mas sim para o universo do conhecimento sensitivo.
- As representações rituais respondiam plenamente às exigências do pensamento ao situar o princípio de identidade na origem do cosmos fenomênico.
- Remontar ao princípio intelectual do universo dinâmico, o princípio da unidade e identidade absolutas do ser, traz satisfação total ao espírito.
- A não-separação e a fusão rigorosa de todos os seres no ser único, formado pelo amor sem reservas, atendia às exigências do pensamento.
- A ciência opera de modo semelhante quando deduz matematicamente um fenômeno de uma lei, reduzindo-o a uma cadeia de identidades.
- Graças à ascese do mundo subterrâneo, os homens sabiam que o renonce ao universo fenomênico leva a uma clareza sem sombras.
- A inteligência pode elevar-se ao dinamismo da sobrenatureza, fazendo cessar todas as dificuldades.
- As obscuridades e os problemas surgem apenas para os mecanismos espaço-temporais, sendo o cosmos físico fruto de uma violência.
- O sacerdócio opunha a resposta fundamental de que o cosmos físico não foi desejado por Deus.
- O cosmos físico não se reduz à luz do cosmos inicial e não procede dele por via normal, havendo um hiato e um pecado em sua base.
- Fora da matéria invisível que é sua substância e suporte, o mundo físico não é nada.
- A faculdade de conhecimento sensitivo deve ser anulada para que o espírito aceda à clareza da verdade plena.
- O mundo físico, como tal, não era suscetível de justificação lógica, explicando-se apenas por uma causa moral.
- Buscar deduzir o mundo físico do universo dinâmico seria vão.
- A compreensão do cosmos físico vinha da superação dos efeitos de sua causa moral, morrendo para ele para ressuscitar no cosmos de radiância.
- As crenças e práticas iniciáticas articulavam-se ao ritual de criação, fornecendo certezas sobre o ser e o conhecimento.
As cosmogonias criacionistas.
- Quando o paganismo iniciático declinou, o universo físico passou a ser visto como o único acessível, deslocando o centro de gravidade.
- O estado dinâmico de indivisão e identidade dos seres passou a ser visto como caos.
- O mundo espaço-temporal, surgido desse caos, ficou sem justificação, especialmente por ser visto como um progresso.
- Para resolver os problemas do universo fenomênico, recorreu-se a sistemas como cosmogonias criacionistas, demiúrgicas, emanacionistas e cosmologias filosóficas ou científicas.
- O primeiro capítulo da Gênese oferece o tipo mais perfeito de cosmogonia criacionista, ressaltando a onipotência do Ser absoluto.
- O cosmos físico encontra sua causa adequada em Deus, que ordenou a criação terrestre em relação ao homem.
- Com o aparecimento do ser humano, Deus cessa de criar e descansa, entregando o governo do planeta ao homem.
- O relato bíblico transcreve ritos diários de criação escalonados em sete dias.
- A narrativa é considerada incompleta, pois não explica por que o universo espaço-temporal é imperfeito.
- O relato do primeiro capítulo precisa ser retificado pelo segundo, que transcreve ritos anuais da criação edênica.
- A cosmogonia criacionista, para ser adequada aos fatos, retorna à ideia da violência exercida sobre o estado primitivo.
- O universo, em sua realidade dinâmica, é obra de Deus, mas em sua aparência atual explica-se pelo pecado.
- O super-homem, filho de Deus e rei da terra, não respondeu às intenções criadoras, não sucedendo a Deus quando este descansou.
- Dessa falha originou-se o descompasso da criação e o governo do mundo por um monstro cósmico.
- O relato do estado edênico e da queda do homem poderia ter sido suficiente, mas não satisfazia mais os espíritos em tempos de declínio iniciático.
- A única maneira de ligar o mundo fenomênico ao mundo energético era designá-lo expressamente como obra de Deus.
- Deus é o ser pleno e infinito, centro do universo real e foco de luz.
- As concepções teocráticas, evidentes na época de fervor iniciático, precisaram ser precisadas em período de decadência religiosa.
- O primeiro relato da Gênese só se entende bem por referência a ritos celebrados numa caverna sagrada.
- O ponto capital do relato bíblico encontra-se nas palavras “Façamos os homens à nossa imagem, segundo a nossa semelhança”.
- O plural, inesperado numa obra tão monoteísta, designa o ser humano antes de tudo como um Eu.
- A semelhança com a pluralidade de Eus divinos é o caráter essencial do ser humano.
- As relações entre os Eus e o ser-pensamento constituem o fundo do dinamismo cósmico e explicam a humanidade.
- A tripla criadora, com três oficiantes representando Deus, aparece em diferentes povos, como Escandinávia e Havaí.
As cosmogonias demiúrgicas.
- As cosmogonias que admitem a intervenção de um demiurgo são, em parte, vinculáveis aos sistemas criacionistas, situando-se entre eles e as doutrinas emanacionistas.
- Essas cosmogonias são numerosas e encontram-se em muitos povos, onde o demiurgo é frequentemente um animal.
- Esse detalhe indica a origem dos criadores intermediários, relacionados a personalidades transcendentes sacralizadas por peles de animais.
- O demiurgo seria um oficiante que realizava os ritos de criação, como o que portava o título de Prometeu na Ática.
- Em tradições estonianas, o criador Wanna issa cria o harpista Wannemaine e o ferreiro Ilmarine, que forma a abóbada celeste e os astros.
- O canto triunfal de Wannemaine faz nascer árvores, flores e pássaros, todos cantando e dançando logo após a criação.
- A cena descrita evidencia uma tripla criadora antiga, muito evoluída, com um presidente, um criador do céu de metal e um que faz surgir os seres terrestres pela palavra.
- Frequentemente, o ritual diluviano se sobrepôs ao ritual edênico, fazendo com que o primeiro papel do demiurgo seja retirar a terra da água.
- Michabo, a Grande Lebre dos Algonquins, realiza uma proeza do gênero, correspondendo a uma liturgia periódica de criação.
- Na Polinésia, o deus Tonga ou Tongaloa, filho de Rangi e Papa, faz surgir as ilhas Tonga do oceano com uma linha de pesca.
- Maui, o demiurgo mais renomado da região, pesca a Nova Zelândia e outras ilhas.
- Na Índia, é um javali que mergulha para trazer a terra das profundezas marinhas.
- As cosmogonias demiúrgicas mostram claramente os ritos de onde procedem, acusando sua origem sacerdotal e o papel do homem-super-homem na criação física.
- Platon, no Timeu, refinou essas concepções, fazendo o Demiurgo como ser transcendente que opera entre o modelo inteligível e o mundo visível.
- O Demiurgo platônico não se identifica com Deus, conforme o plano divino, falseando as visões iniciáticas fundamentais que envolviam violência ou pecado do demiurgo.
- Para Platão, a divindade quis que todas as coisas fossem boas, excluindo a imperfeição e trazendo ordem ao caos.
- O Demiurgo platônico é um ser divino que busca harmonia, constituindo a alma do mundo e criando deuses, homens, animais e vegetais.
- Platon está longe da noção do Demiurgo como monstro cósmico, cuja ação resulta de ter-se despojado de sua qualidade e potência divinas.
As cosmogonias emanacionistas.
- As cosmogonias emanacionistas floresceram perto do final do último milênio antes da era cristã, buscando vincular o universo físico a seres dinâmicos.
- Elas não fazem intervir o querer de um Eu, aumentando as dificuldades.
- Não percebem o hiato intransponível entre o cosmos real (energético) e o cosmos fenomênico.
- Fecham a via ao corretivo, ao considerar o ser com exclusão dos Eus que se apropriam dele.
- Frequentemente, essas doutrinas se resumem a enumerações de deuses (teogonias), atestando sua origem antiga e caráter litúrgico.
- O sistema exposto por Damasco, segundo os babilônios, apresenta Tavthé e Apasôn como princípios, cuja união gera Moymis, o mundo inteligível, e depois Daché, Dachos, Kissaré, Assôros, Anos, Illinos, Aos e Bélos.
- As cosmogonias emanacionistas transcrevem dados do poema babilônico da criação, o Enuma elish, reduzindo antigos usos rituais neolíticos a nomes divinos.
- Tiamat, Apsu e Mummu do Enuma elish tornam-se Tavthé, Apasôn e Moymis em Damasco, com Lahmu-Lahamu e Kishar-Anshar transformados.
- Anos é o deus Anou, Illinos e Enlil, Aos é Ea, e Bélos é Mardouk.
- A descrição de ritos antigos condensou-se em nomes divinos que, com o tempo, se esvaziaram de sua seiva primeira.
- Essa forma de emanacionismo reduzia-se a uma sucessão de palavras tornadas respeitáveis pela tradição milenar.
- A cosmogonia de Sidon apresentava o Tempo como princípio, do qual nasciam o Desejo e a Escuridão, que por união davam origem a Aër e Aura.
- Aër representa o mundo inteligível puro, de sexo masculino, enquanto Aura (o Sopro), feminino, representa o primeiro ser animado.
- Desse casal saiu o ovo cósmico, matriz do cosmos.
- Há uma confusão corriqueira na época entre Kronos (personalidade iniciática) e Khronos (o Tempo).
- Os princípios primitivos são o mundo subterrâneo (escuridão) e o Amor (Desejo), referindo-se ao acasalamento sexual e às hierogamias da liturgia de criação.
- Aër designa o universo dinâmico acessível pelas práticas do mundo subterrâneo, e Aura designa os seres que vivem nesse universo inteligível, princípio dos seres daqui de baixo.
- A violência exercida sobre o homem ou o super-homem não aparece mais nas apresentações deformadas.
- A cosmogonia fenícia de Môchos situa o Éter e o Ar como princípios, que geram o Tempo (Oulômos), bissexuado, que copulando consigo mesmo produz Chousôr e o ovo cósmico.
- Chousôr, agindo como Demiurgo, abre o ovo e organiza o universo.
- As visões emanacionistas permanecem no mesmo círculo de ritos já encontrados, deixando discernir seu valor como documentos sociológicos e históricos.
- Uma cosmogonia atribuída a Hieronymus e Hellanicos principia com a água e a lama úmida, que constitui a terra, princípios masculino e feminino.
- Da união dos princípios nasce um terceiro princípio, um dragão com cabeças de touro, deus e leão, chamado Tempo (Udom) ou Héracles (Melkarth).
- O primeiro ser que surge representa o agente do rito de separação, figurado com elementos distintos correspondentes aos clãs da comunidade local.
- Na cosmogonia órfica, Phanes, o primeiro ser a emergir do ovo primordial, tem cabeças de carneiro, touro e leão.
- O personagem polimorfo chamado Ulom (o Tempo) é também chamado Héracles (Melkarth), sendo identificado com o proto-iniciado, frequentemente confundido com o proto-iniciador.
- O Tempo (Khronos) ocupa o lugar de Kronos (raiz KRN), o grande divinizador teocrático.
- A Cabala oferece o espécime mais interessante das cosmogonias emanacionistas, fazendo sair de Deus os seres por uma escala descendente de dez degraus, as Sephiroth.
- Segundo o Sepher Yezira, as dez Sephiroth são: o Espírito (Sabedoria de Deus); o ar (manifesta a palavra); a água (gera a terra, trevas e partes densas); o fogo (elemento sutil encerrado na água); os quatro pontos cardinais; e os dois pólos.
- As seis últimas Sephiroth constituem os fatores de organização usados pelas quatro primeiras para construir o templo de Deus (o universo).
- As Sephiroth provêm diretamente das noções teocráticas fundamentais, como a ideia do pólo e das quatro regiões do espaço com seus elementos.
- O número dez baseia-se provavelmente no signo cruciforme, como os dez Dáctilos da Ida (cinco pares).
- O Zohar fornece outra lista para as dez Sephiroth, visando mais a formação do homem, com Deus (En-Sof) manifestando-se por uma série de dez intermediários.
- Os dez canais são chamados: Coroa, Sabedoria, Inteligência, Graça, Justiça, Beleza, Triunfo, Glória, Base e Realeza.
- A décima Sephira (Rainha) e a sexta (Rei) unem-se em hierogamia; a alma humana é o fruto dessa união.
- A primeira Sephira é a Shekinah (Presença Real de Deus) e também é Metatron (guardião, senhor, mediador, anjo da face, pólo do universo).
- A primeira Sephira resume as outras, aparece como sua fonte e desempenha o papel de Demiurgo.
- As Sephiroth da direita são masculinas e brancas, as da esquerda femininas e vermelhas, as do meio amarelas (às vezes azuis ou verdes).
- A origem iniciática das Sephiroth repousa na experiência religiosa, com cinco pares de proto-iniciados que intervinham periodicamente nos ritos de criação.
- A Cabala admite a transmigração, provando que meios hebraicos deformaram as antigas noções sacerdotais, como muitos outros povos.
- Há uma concepção rara de que uma alma pode co-habitar com outra no mesmo corpo.
- A fonte iniciática dessa ideia é a energia dinâmica que se concretiza saindo de um objeto ou ser sacrossanto.
- Os cabalistas recorrem à transmigração com sobriedade, como meio para avançar no aperfeiçoamento.
- Nenhum sistema emanacionista, incluindo a Cabala, explica a passagem do universo dinâmico ao físico.
- Não se aprende por que via os quatro mundos criados pelas Sephiroth passaram a se misturar com o nada.
- A Cabala considera o mal uma simples casca, mas não explica por que a matéria radiante floculou em mecanismos na superfície.
- O cosmos fenomênico não pode e nunca poderá ser considerado como emanando progressiva e logicamente do cosmos da pura razão.
As cosmologias filosóficas e científicas.
- As cosmogonias científicas e filosóficas se caracterizam por ligar o universo físico a elementos da mesma ordem que ele e buscar mostrar que derivam racionalmente dele.
- As cosmogonias científicas negligenciam voluntariamente a explicação dos elementos de base como excedendo o domínio da ciência.
- As cosmogonias filosóficas buscam explicar os elementos de base recorrendo ao criacionismo, emanacionismo ou identificação com a radiância eterna.
- A evolução das crenças religiosas anteriores para visões cosmológicas é vista em exemplos como o de Zaratas, que ensinava dois princípios: pai (luz) e mãe (trevas).
- A combinação dos princípios masculino e feminino compõe o mundo como uma harmonia musical, com o sol seguindo uma marcha harmônica.
- As cosmologias dualistas, como a teoria chinesa do yang e do yin, têm origem na liturgia matriarcal de acasalamento e separação.
- A cosmogonia de Sanchuniathon apresenta no princípio um ar turvo e ventoso, com um caos confuso e negro como o Érebo, sendo essas coisas infinitas e sem termo.
- O Sopro (Rûa’h) torna-se amante de si mesmo, e essa união foi chamada Desejo, início da criação.
- A união inicial produziu Môt, a podridão de uma mistura aquosa, da qual saiu toda semente e geração.
- Os seres vivos sem sentimento em Môt deram origem a seres inteligentes chamados Zophésamin (contempladores do céu).
- Môt, em forma de ovo, iluminou-se, e apareceram o Sol, a lua, as estrelas e os grandes astros.
- A terra e o mar também se inflamaram, produzindo ventos, nuvens e enormes quedas de água.
- O choque de coisas separadas pelo calor do sol produziu trovões e relâmpagos, despertando os animais inteligentes.
- Os “físicos” gregos da Jônia foram os primeiros a escapar parcialmente do encantamento das antigas concepções, buscando o elemento constitutivo que subsiste através das modificações.
- Sexto Empírico lista os princípios postulados por vários filósofos: a terra (Ferécides de Siros), a água (Tales), o infinito (Anaximandro), o ar (Anaxímenes e Diógenes de Apolônia), o fogo e a água (Hípaso de Metaponto), a terra e a água (Xenófanes de Cólofon), o fogo e o ar (Enópides de Quios), e outros.
- Os primeiros físicos da Jônia designaram a água como elemento constitutivo porque o oceano detinha a primazia no espírito humano por milênios.
- O sistema de Ferécides de Siros provém de especulações teogônicas, com Zeus (Zês) e Chthonia (Terra) correspondendo ao casal ritual primordial que gera todos os seres no tempo (Khronos).
- O infinito ou ilimitado de Anaximandro tem grande chance de ser idêntico ao caos das doutrinas anteriores, ou ao espaço ou vazio introduzido pelo rito de separação.
- Anaxímenes especifica o ilimitado como ar, no qual a criação se forma e se desenvolve.
- Heráclito afirma que o mundo não foi feito por deus ou homem, sempre foi, é e será o fogo sempre vivo, aceso e apagado regularmente.
- Heráclito tem em vista o fogo transcendente, o fogo-ouro, a energia radiante, substância dinâmica das coisas.
- O universo fenomênico, para Heráclito, é apenas a realidade eterna subjacente, que é unidade e identidade integral.
- Heráclito admite que os cosmos físicos, manifestações do fogo, se formam e aniquilam sem fim.
- As visões de Heráclito são de fonte teocrática, deformadas com o tempo; seu aparentamento sacerdotal explica sua escolha do fogo como substância eterna.
- Xenófanes restabelece as exigências fundamentais do espírito: o cosmos deve ser único, idêntico e eterno, sem geração ou corrupção.
- Parmênides nega a mudança e suprime a realidade do tempo, afirmando que o ser verdadeiro é “indevindo e imperecível”, não desdobrando formas variadas para absorvê-las depois.
- Melissos, seguindo Parmênides, faz do cosmos uma substância divina, afirmando como único real um mundo dinâmico subjacente ao universo dos sentidos.
- O filósofo taoísta Lietse menciona Ki de Hia, cujas teses sobre o tempo e o espaço antecipam argumentações sobre limites e partes simples.
- Ki responde que se existe um espaço vazio, não há limites; se existe apenas um espaço cheio, ele possui partes simples.
- Além dos limites do vazio, pode-se sempre imaginar outro vazio ilimitado; na parte infinitamente pequena, pode-se sempre encontrar partes menores.
- Sobre o tempo, Ki declara que o mundo não tem antes nem depois; começo e fim transformam-se um no outro, valendo apenas para este mundo.
- As doutrinas iniciáticas fundamentais da teocracia primitiva implicavam a negação do espaço e do tempo humanos como realidades subsistentes e objetivas.
- A primeira conciliação entre o devir espaço-temporal e a eterna identidade do ser foi tentada pelos atomistas, cujos átomos invisíveis e imperecíveis eram matéria extradimensional.
- A doutrina atomista repousou sobre uma equívoca desde o início: os átomos eram tidos como materiais e extensos (para explicar mecanismos visíveis), mas também como inacessíveis às sensações (permitindo-lhes atribuir propriedades da matéria aspatial energética).
- Os atomistas, sem perceber, faziam a matéria espacial beneficiar da luz da matéria radiante, mascarando o vício radical de sua doutrina.
- Empédocles recorre ao dualismo, substituindo o Ser de Parmênides pelo Sphoerus (semelhante ao ovo do mundo), confundindo todas as coisas em quatro elementos.
- A separação e organização no sistema de Empédocles operam sob influência do Amor e do Ódio.
- Anaxágoras substitui o Sphoerus pelas homeomerias e introduz o Nous (Inteligência) como princípio do movimento.
- As homeomerias (partes semelhantes), inicialmente confundidas, são extremamente tênues, invisíveis e insaisíveis, estando todas em todas as coisas em proporções variadas.
- O Nous de Anaxágoras é “a mais fina e pura de todas as coisas”, agindo de fora sobre os elementos, distinguindo a matéria própria e o espírito.
As posições contemporâneas.
- A ciência contemporânea permanece engajada no mesmo caminho aberto pelos gregos, girando no mesmo círculo ao postular nuvens de prótons e elétrons ou átomos únicos e extraordinariamente pesados.
- Eddington postula uma nuvem de prótons e elétrons preenchendo o espaço, que teria começado a se condensar devido à instabilidade essencial.
- A instabilidade essencial substitui, nas teorias atuais, o Amor e o Ódio, o Nous e a gravidade.
- A doutrina de Lemaitre propõe que as estrelas têm origem na explosão de um átomo único, extraordinariamente pesado, ocupando espaço insignificante.
- O átomo inicial leva irresistivelmente ao ovo cósmico, fazendo suspeitar de uma adaptação à ciência contemporânea.
- Essas imagens do mundo, que se tornam caducas em poucos anos, sintetizam as últimas grandes descobertas, mas crer que explicam o cosmos é um engodo e uma duperia.
- Essas concepções recorrem a elementos não pertencentes ao mundo das sensações, matéria não percebida mas pensada, pressuposta análoga à matéria espaço-temporal, quando lhe é heterogênea.
- A única representação verdadeira para essa matéria dinâmica são fórmulas matemáticas, sem qualquer imagem do universo físico.
- Sempre restará por que o homem apreende a matéria energética sob a forma de matéria espaço-temporal; há um hiato primordial e heterogeneidade qualitativa.
- A impossibilidade de ligar adequadamente o cosmos dos sentidos ao da razão condena qualquer cosmogonia ao fracasso.
- Qualquer sistema que trate o domínio fenomênico por via unicamente lógica é instável e caduco, pois na raiz do universo apreendido como físico há um fator moral.
Valor perene do ritual antigo e da imagem antiga do mundo.
- O velho ritual da teocracia antiga fornece a única explicação satisfatória do universo, penetrando no cerne das coisas.
- O ritual permite entender que o homem afirme tempo e espaço como subsistentes e objetivos, embora lute contra eles e os ignore quando quer conhecer e governar as coisas com potência.
- As modalidades do saber e da ação empíricas são a simples transposição espaço-temporal dos princípios da esfera da pura razão.
- A causalidade e a finalidade são apenas a adaptação e aproximação fenomênicas da unidade e identidade.
- A necessidade e o determinismo são o espraiamento externo da coesão e liberdade inerentes à identidade e unidade.
- O cosmos físico aparece como uma inversão do cosmos dinâmico, embora repouse nos mesmos princípios.
- Ao mudar de nível e potencial, a razão humana conservou as leis eternas de sua natureza, mas as deformou para fazê-las funcionar num mundo de aparências superficiais.
- Ao pensar na Grande Montanha, pólo radioso no meio das ondas do mar, pergunta-se se a humanidade encontrará melhor imagem e explicação do mundo.
- Essa representação permanece plenamente válida para o cristianismo e é uma das que mais profundamente comovem a imaginação e o coração dos crentes em todos os países.
- A antiga Montanha das Origens significou algo profundo para centenas de milhões de homens.
- A concepção da Grande Montanha, com o conjunto de noções litúrgicas e filosóficas que lhe são soldadas, foi tudo menos um símbolo efêmero.
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