SOBREVIVÊNCIA
GORDON, P. L’image du monde dans l’Antiquité. Paris: Éd. Arma artis, 2005.
Origem da crença na sobrevivência
A imagem antiga do mundo apoia-se, sobretudo, nesta ideia subjacente de que o homem sobrevive após aquilo que se nomeia a morte. A origem dessa noção fundamental jamais foi claramente compreendida até aqui porque se raciocinou como se o ser humano, lançado desde o início no universo das sensações, tivesse devido imaginar de todas as formas um outro mundo e descobrir indícios que atestassem a existência real dele. Essa teoria é estranha aos fatos. A certeza absoluta da imortalidade preexistiu à experiência da morte. Em outros termos, o homem não partiu da morte para chegar — por uma série de hipóteses, intuições ou especulações que repousavam antes de tudo sobre os sonhos — à ideia incerta de uma sobrevivência. Instalou-se, de imediato, graças à iniciação, no oceano da vida eterna; e a morte lhe apareceu, por si mesma, como uma coisa acidental, pertencente à ilusão, mas não afetando em nada sua própria natureza. Dito de outro modo, a certeza da sobrevivência resultou, desde o início, do fato de que o homem, em sua realidade verdadeira, é um super-homem. Para o primeiro ancestral, em relação ao super-homem primeiro, era uma evidência experimental. Seus descendentes beneficiaram-se dessa evidência graças aos ritos e às disciplinas iniciáticas, que os restauravam em seu estado de super-homem e, por esse caminho, os tornavam senhores da morte. A noção da sobrevivência é, portanto, tão primitiva quanto a humanidade, e as gerações longínquas, por sua mentalidade ontológica, não tiveram de debater-se acerca desse ponto em nossas hesitações. Ninguém ignora, ademais, de que maneira essa certeza primitiva foi restaurada, a esse respeito, pelo fundador do cristianismo, que a apoiou, conforme os princípios da iniciação nova, sobre uma experiência não mais ontológica e transcendente, mas espaço-temporal.
