JULIUS EVOLA
Em primeiro lugar, como limite inferior, deve-se considerar a forma telúrica e “poseidônica” da virilidade. Dioniso, nesse nível, foi associado a Posêidon, deus das Águas, ou a Osíris, concebido como a Corrente do Nilo que irriga e fecunda Ísis, a negra terra do Egito. A associação de Dioniso com Hefesto-Vulcano, deus do fogo subterrâneo, refere-se a um plano já mais elevado. No primeiro desses mitemas observa-se uma “deslocalização” do simbolismo das Águas, designando agora estas o princípio úmido da geração, em relação com a concepção puramente fálica da virilidade: o deus é masculino apenas enquanto fecundador da substância feminina enquanto tal; está, de certo modo, subordinado a ela. A passagem ao deus do fogo subterrâneo não representa grande progresso, pois trata-se de um fogo terreno ainda turvo, selvagem e elementar, cuja contrapartida continua sendo a feminilidade afrodítica em seu aspecto mutável (Afrodite enquanto esposa infiel de Vulcano).
Bachofen descobre uma epifania mais elevada do princípio masculino em Dioniso, quando esse deus se apresenta como natureza luminosa e celeste, em virtude de sua relação com Selene, em primeiro lugar, e depois com o Sol e com Apolo. Mas o mito mostra Dioniso, mesmo quando assume tais formas, sempre acompanhado de figuras femininas relacionadas com o arquétipo da Grande Deusa, o que indica a presença de um limite; limite bem visível, ademais, no fato de que, mesmo quando Dioniso se torna deus solar, o Sol não é então considerado em seu aspecto de pura luz imóvel, mas como o astro que morre e renasce. Sabe-se que se trata precisamente de um tema central do dionisismo órfico, que se encaixa assim no quadro da religião da Mãe, ao encontrar-se Dioniso na mesma situação de Átis e Tamuz, divindades masculinas e mortais que a deusa imortal faz renascer incessantemente (junto a Cíbele, com efeito, encontra-se também Sabázio, frequentemente identificado com Dioniso, em lugar de Átis). Também aqui o Sol declina e retorna, sua luz não é ainda a luz firme e abstrata do ser puro, do puro princípio olímpico.
O desenvolvimento posterior da série aqui estudada indica a passagem a outra estrutura mítica, além daquela centrada em Dioniso. O elo de conjunção é então representado por Dioniso como adversário das Amazonas, bem como pela traição de Afrodite, que se une a Ares, o deus da guerra. Embora Ares — o Marte grego — conserve ainda alguns traços da virilidade selvagem, há aí uma transição para figuras que encarnam uma virilidade já não fálica ou dionisíaca em sentido confuso e elementar, mas uma virilidade heroica. A encarnação mais típica dessa virilidade é o Héracles dório. Também Héracles é um vencedor das Amazonas e inimigo da Mãe (precisamente de Hera, assim como o Hércules romano é adversário da Bona Dea). Liberta-se do laço materno, embora possuindo o seu princípio, pois no Olimpo obtém por esposa Hebe, a eterna juventude, depois de haver sabido encontrar o caminho do Jardim das Hespérides e de ter colhido nele a maçã de ouro — símbolo que também remete à Mãe (as maçãs haviam sido dadas a Hera por Geia) e à força-vida.
