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ENEIAS

DAUGE, Yves-Albert. Virgile, maître de sagesse: essai d'ésotérisme comparé. Milano: Arche, 1984

  • O tema do “Homem Perfeito” como centro da visão virgiliana do mundo
    • A ordenação da visão virgiliana do mundo em função do Herói, do ser exemplar, do Homem Perfeito, sem desinteresse pelos humanos tal como são.
    • O objetivo da Eneida de retraçar a formação desse Homem Perfeito e ilustrar a sua ação mediadora, sem negligenciar os destinos de outros personagens.
    • A aplicação ao poema maior de Virgílio da fórmula que domina a obra de Rumi: o duplo tema do nascimento espiritual e do Homem Perfeito que é necessário “pôr no mundo”.
  • A universalidade do arquétipo do Homem Divino nas tradições espirituais
    • A inserção de Virgílio na vasta corrente espiritual que se apega a pôr em luz o caráter teândrico do homem e o verdadeiro sentido da sua vocação.

O desfile de figuras maravilhosas do ser superior nas diversas religiões e filosofias: o Sábio verídico do estoicismo ou do Vedanta, o Yogi integral segundo a Bhagavad Gita, o Homem divino da época helenística e romana, o Anthropos teleios da Gnose, o Homem de fogo da Cabala, o Homem “espiritual” do paulinismo, o “Vencedor” segundo o Apocalipse, o Verus Adam do esoterismo cristão, o verdadeiro Arya ou o Brâmane autêntico segundo o budismo, o Bodhisattva segundo o Mahayana e o Tantrismo, o “Antropocosmo realizado” do esoterismo egípcio, o Homem Universal ou o Homem de Luz do sufismo, o tchenn-jen e o cheun-jen* do taoísmo.

  • A redescoberta desse Homem divino em todas as tradições e espiritualidades como um tema fundamental, por ser, segundo Rumi, “o objetivo do universo”, “o coração do mundo”.
  • A natureza do Homem Perfeito segundo o sufismo
  • A definição da sua natureza como “o homem que se torna plenamente consciente da sua unidade essencial com o Ser divino à imagem do qual é feito”.
  • A concepção do Homem Perfeito como “a perfeita imagem de Deus e contém em si todas as coisas”, que “reúne em si a forma de Deus e a forma do universo”, sendo “o espelho pelo qual Deus é revelado a Si mesmo e, com isso, a causa final da criação”.
  • A descrição do Homem Perfeito como “a reunião de todos os mundos divinos e naturais, universais e parciais”, sendo “o livro no qual estão reunidos todos os livros divinos e naturais”.
  • O papel do Homem Perfeito segundo o sufismo
  • A sua função de ser “um espelho da soberania de Deus”, colocado “como um istmo entre a luz e a obscuridade”.

A ideia de que é “pelo homem deificado, khalifa* de Deus no mundo, conhecedor dos segredos e espelho dos atributos, que 'a Evolução toma consciência de si mesma'”, sendo por isso a sua razão e o seu fim: “a testemunha 'que Deus Escolheu para O representar visivelmente perante todo o resto da criação — criatura privilegiada que simboliza realmente, de dentro para fora, o Deus que ela irradia e do qual as outras criaturas não devolvem senão imagens, reflexos'”.

  • A caracterização do Homem Perfeito como “o lugar na terra da irradiação divina mais completa”, pois “atualiza as perfeições que nos homens ordinários só existem em estado virtual”.
  • A formação do Homem Perfeito segundo o sufismo
  • A concepção da sua formação como a do homem que despertou e que viaja, lutando contra os obstáculos interiores e exteriores para realizar a purificação alquímica do seu ser, tornar-se digno de Deus e libertar a Luz do domínio das trevas.
  • A citação de Mohammed Iqbal: “Esculpe de novo a tua forma antiga, examina-te a ti mesmo, cria um ser vivente. Só um ser assim vivente é digno de louvor, senão o fogo da existência não é senão fumo”.
  • A citação de Mestre Eckhart: “Levanta-te, pois, alma nobre! Calça os teus sapatos de salto que são o Intelecto e o Amor, e salta por cima do culto das tuas capacidades mentais, salta por cima do teu entendimento, e salta para dentro do coração de Deus”.
  • A arte do Homem Perfeito segundo o sufismo
  • A definição da sua arte como a de que “o homem em que o 'Eu' atingiu a sua perfeição relativa ocupa um lugar autêntico no coração da energia criadora divina, e possui assim um grau de realidade muito mais elevado que as coisas que o rodeiam”, sendo “o único capaz de participar conscientemente na vida criadora do seu Criador”.
  • A descrição dessa arte como a da onipotência benéfica: “Um homem que, renunciando a toda a sensualidade e obedecendo cegamente à vontade de Deus, conseguiu participar na ação que exercem as Inteligências celestes, possui por isso mesmo a Pedra filosofal; nunca lhe falta nada, todas as criaturas da terra e todas as forças do céu lhe estão submetidas”.

A identificação do Homem Perfeito como o Cosmocrator, o Cakravartin*, o Polo da manifestação e da criação: quer “aja” ou “não aja”, as Energias divinas por ele se espalham e se impõem.

  • O arquétipo do herói na Antiguidade clássica
    • A identificação do homem superior na Antiguidade clássica com o verdadeiro herói, cujo arquétipo é Heracles/Hércules.
    • A definição do herói como sendo de raça divina e de energia sobre-humana, que busca, para além do mundo carnal e material onde nasceu, reencontrar o Ser celeste de onde provém.
    • A sua luta contra as paixões e o superar de várias tentações para cooperar com as forças do alto, seguindo a via do Conhecimento, da libertação e da transfiguração.
    • A luta complementar contra todas as manifestações do mal exteriores a ele, pondo ao serviço dos homens o domínio do real, a invulnerabilidade e a sabedoria ardente que adquiriu.
    • A sua capacidade única de reinar justa e eficazmente sobre o mundo, transformando-o graças ao irradiar benéfico e à gloriosa imperialidade que emanam naturalmente do seu ser.
    • O objetivo de toda a sua energia: conquistar a plenitude da divindade, tornar-se deus para agir como Deus.
  • A aplicação do tema do Homem Perfeito a Eneias pela sua natureza
    • A sua natureza de raça jupiteriana, que busca passionadamente elevar-se ao nível do Grande Deus para apresentar aos homens a “perfeita imagem”.
    • O seu desejo, como filho de Vênus — que é o seu Anjo pessoal e o seu Eu divino —, de interiorizar a deusa para obter o poder do Andrógino espiritual, chave do acesso ao Deus supremo.
    • A sua união com as forças do alto, com as Inteligências celestes, sendo o cooperador ideal, conforme o verso “Eu sou aquele que o Olimpo reclama”.
    • A sua natureza verdadeiramente heróica, de um deus que se faz, de um espelho que se transforma em sol: “ele reúne em si todos os mundos divinos e naturais”.
  • A aplicação do tema do Homem Perfeito a Eneias pelo seu papel
    • A sua missão que vai muito além de fundar outra cidade, uma segunda pátria, devendo encontrar a sua Verdadeira Personalidade, penetrar na corrente das Energias divinas, perceber os Arquétipos celestes.
    • A necessidade de fazer passar para o tempo, para a história, o fluxo criador, incarnar o mais profundamente e duradouramente possível as Ideias-Forças emanadas da Alma do Mundo, exercer na terra uma missão de salvação e de transfiguração.
    • A experiência crucial no livro VI, no Elísio, onde vê o Romano em si — “majestade” jupiteriana e “beleza” apoliniana — e a Roma celeste, instaurando-a no seu coração como ideal permanente.

A compreensão das consequências dessa dupla visão: “atualizar as perfeições” contempladas, agir como “a testemunha que Deus Escolheu para O representar visivelmente”, tornar-se o seu khalifah* no mundo, mediador incessante entre Luz e trevas.

  • A aplicação do tema do Homem Perfeito a Eneias pela sua formação
    • A necessidade de ruptura com o mundo dos corpos e das psiques, de superação da consciência egocêntrica para haver um herói autêntico.
    • A citação de Joseph Campbell sobre o fanático que, em vez de purificar o próprio coração, quer purificar o mundo, ou seja, impor o seu ego ao mundo inteiro.
    • A passagem progressiva de Eneias, com o auxílio de Vênus, para além do corpo, da afetividade, do mental e da ação interessada.
    • A oposição entre a gravitação terrestre, que produz o “herói forte” encarnado, e a gravitação celeste, que gera o “justo” radiante como o sol.
    • A representação da sua evolução pelas fases de despertar do Coração e do Fogo sagrado, reconhecimento do Anjo e conquista da Alma essencial, conquista da Aliança divina e posse do Espírito, acesso ao Eu integral e “salto transpessoal” de assimilação ao Romano em si e identificação com o Homem divino primordial.
    • A representação da sua aventura heroica como uma sequência de vitórias sobre oito obstáculos: o materialismo, a feminidade vampirizante, a desmedida telúrica, a virilidade ávida e rebelde, a desmedida titânica, a desmedida faetónica, a feminidade despótica e a paragem do dinamismo criador.

A caracterização do seu comportamento por três verbos: fugere (fugir aos elementos de alienação), ferre (suportar as provas necessárias) e superare* (vencer e passar a um plano superior).

  • O tema essencial do processo de despertar, da luta contra o esquecimento, da vigilância permanente, do “olhar divino”, do acesso à condição de “Vigia”.
  • O paralelo entre o cenário do “Hino do Pérola” e o do livro IV da Eneida, e a importância decisiva da lembrança das visões para o seu futuro.

A comparação da ascese eneana com a arte japonesa do aikido*, como a via da energia primordial e da harmonia pelo amor, que une santidade e eficácia para chegar à harmonia cósmica e à Paz essencial. A descoberta da vocação do Romano de se religar à Fonte intemporal e se inserir no Circuito Energético Divino, fundamentada no desejo ardente, na pietas* e no SIM ao chamamento dos Olímpicos.

  • A aplicação do tema do Homem Perfeito a Eneias pela sua arte
    • A distinção entre o “primeiro heroísmo” da subida e das provas e o “segundo heroísmo” da descida e do regresso entre os homens para dar, dirigir e salvar.
    • A missão do Homem Perfeito de adquirir o ser e o conhecimento “na montanha” e de espalhar os seus benefícios através dos planos da mudança, da ignorância e da obscuridade.
    • A citação de Ramakrishna sobre os “Salvadores da humanidade” que, tendo visto Deus, se reencarnam voluntariamente para instruir a humanidade.
    • A citação de Nisargadatta sobre a força que nos afasta do mundo no esforço ascético ser inevitavelmente seguida pela que nos traz de volta para o servir no desinteresse.
    • A arte do herói de agir aqui em baixo sem deixar de estar, espiritualmente, no alto, vivificando a terra com os influxos da Fonte eterna.
    • A tradução, por Eneias, da onipotência benéfica numa dialética constante entre metahistória e história, entre Energias divinas e matéria, entre “Salvador salvo” e humanidade.

A sua condição de secundus Deus, de verdadeiro Artifex*, de olhar e mão da Alma do Mundo, mestre do tempo e transfigurador da matéria.

  • A identificação do escudo solar como o correspondente à “Pedra filosofal”, objeto mágico que é receptáculo e difusor das forças do alto, ressonador-transformador da Energia universal.
  • A múltipla eficácia do escudo: poder de acelerar processos evolutivos, de manter a comunicação com o Céu, de revelar e recordar os Arquétipos, de dotar o herói de um corpo celestial e radiante, de ser um astro santo indicando a presença do Rei do Mundo.

A identificação do Cosmocrator* com o Romano apolílnico no centro do escudo, rodeado pela sua “Luz da glória”, sendo ao mesmo tempo Augusto, Eneias e o ícone do grande Romano “anônimo” que é o Homem Perfeito.

  • O tema da heliomorfose do herói
    • A concepção neoplatônica dos três “aspectos” do sol: o sol físico, o sol místico e o sol essencial, prefigurada na Eneida.

A interpretação do plural Titania astra* como os diversos aspectos do sol, sendo o sol do Elísio o sol “místico”.

  • A assunção progressiva por Eneias desses diferentes aspectos solares: primeiro como “mensageiro” do sol, participando do astro místico; depois, transfigurando-se com o escudo flamejante, tornando-se hipóstase do sol triplo, manifestando o seu aspecto demiúrgico e mediador.
  • A oposição entre Eneias, figura solar, e Turno, personagem lunar, e Latinus, imagem de um sol involuído.
  • A concepção do Sol como o “Décimo terceiro deus” que resume o poder dos outros, com o número 12 a encontrar o seu centro e a sua chave no 13.
  • A presença deste simbolismo na Eneida: Latinus com doze raios é superado por Eneias, luz do Um; o raio de doze elementos é sucedido pelo escudo, concentração do fogo artista; os Gregos descritores dos signos zodiacais são superados pelo Romano, representante do Sol.

A hipótese do livro XIII não escrito como o mais importante, síntese e polo da obra, relatando os três anos de reinado de Eneias como Cakravartin* e a sua apoteose como passagem para outra ordem de atividade.

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