ALMA ALADA
NOIREAU, Christiane. La lampe de Psyché. Paris: Flammarion, 1991.
L'AME AILÉE (A ALMA ALADA)
A necessidade humana de não abandonar o corpo à destruição pós-morte levou ao surgimento da sepultura no Paleolítico Médio.
- A humanidade sentiu que um lugar além do visível deveria acolher o invisível manifesto no movimento, olhar e afeto.
- No paleolítico médio, esqueletos de crianças eram protegidos por lajes com covinhas e cobertos por ocre e oferendas.
- O ocre, terra de fulgor solar, tornou-se a luminosidade da tumba, permitindo ver na noite, pois a invisibilidade não podia ser concebida.
- A noção de sobrevivência se ancora na necessidade de ver, e todas as religiões se articulam nesse combate.
IMAGES ANTÉRIEURES (IMAGENS ANTERIORES) — Lumières (Luzes)
O mito do duplo surge da necessidade de explicar a presença e a ausência do morto que retorna nos sonhos.
- O duplo, inicialmente ligado à sombra, permite colonizar a morte e arrancá-la do nada.
- A criança viva corria com sua sombra na luz; morta, caminha na sombra da tumba com a luz do ocre.
- No mito do duplo, o visível e o invisível se explicam mutuamente.
Souffles (Sopros)
A psyché homérica é concebida como o sopro vital que se torna imagem eidolon no momento da morte.
- Para o grego da época homérica, a psyché é a hipótese primitiva que explica o desmaio e o sonho.
- O último sopro exalado é um corpo invisível dotado de forma, uma imagem humana que constitui um segundo eu.
- O sopro, emperpétua mobilidade, está na origem da imagem do duplo animado que conserva o movimento da vida.
- Na tradição órfica, a alma é trazida ao corpo pelos ventos e a ele retorna na morte, o que funda a iconografia alada de Psiquê.
- Morrer para um grego não é deixar de respirar, mas deixar de ver.
- O sopro se torna eidolon (imagem) no Hades subterrâneo para não ser engolido pela perda do ser.
- A escuridão do sono e dos sonhos equivale à escuridão da terra, local onde a alma de Pátroclo aparece a Aquiles.
- “Eis que vem a alma do infeliz Pátroclo, em tudo igual ao herói pelo tamanho, belos olhos, voz e corpo vestido com as mesmas roupas.”
- “Aquiles estende os braços, mas nada agarra: a alma como uma fumaça se foi para debaixo da terra com um pequeno grito.”
- O texto homérico é fundador para a iconografia por fornecer imagens plásticas (olhos, cabelos, vestes) e o aspecto sonoro da alma.
- A audição se substitui à visão quando esta se torna impossível, sendo um grau para a visão, como nos místicos.
Passages (Passagens)
A iconografia cristã representa a alma como um pequeno ser alado (eidolon) que se desprende do corpo na morte, mantendo sua imagem e movimento.
- A frase “Tu desejas ver, ouve primeiro. A audição é grau para a visão” mostra a precedência da audição sobre a visão entre os místicos.
- O eidolon, imagem visível reduzida do corpo, escapa pela ferida ou boca do morto e tem asas para conservar o movimento.
- Os heróis homéricos no Hades têm a consistência de sombras inconscientes, com um filete de voz, fracas e indiferentes.
- “Se o amor à vida está enraizado em nossa alma, é porque sabemos o que é viver: a inexperiência da morte faz com que cada um tema deixar a luz do sol.”
- O grego teme a perda do sol e do conhecimento, como expressam Ajax e Antígona antes de morrer.
- Ajax: “Sol! Quando vires a terra de minha pátria, retém tuas rédeas de ouro […] A ti, claridade do meu dia supremo, ó sol sobre teu carro, dirijo-me uma vez mais, a última.”
- Antígona: “Avançando já para a câmara onde toda vida, um dia, adormece […] Vejo meu último sol: depois, nunca mais; Hades que tudo adormece às margens do Aqueronte me arrasta ainda viva.”
- A filosofia platônica, no entanto, ensina a aprender a morrer e questiona se a morte não seria o maior dos bens.
- Sócrates: “Ninguém sabe o que é a morte e se ela não é justamente para o homem o maior dos bens, e temem-na como se tivessem certeza de que é o maior dos males.”
- Hades pode ser uma transmigração para outro lugar, onde as almas existem e são retidas pelo desejo da virtude.
- A etimologia de Hades (“que conhece tudo o que é belo”) indica uma outra luz para outra noite, a da purificação e transfiguração.
- Hades representa a vitória da luz sobre a escuridão e da alma sobre a morte, purificando-a e tornando-a melhor.
Corps (Corpos)
No mito de Perseu, a decapitação de Medusa permite a manifestação do duplo como a alma alada do herói iniciado.
- Perseu mata Medusa no mundo das trevas sem olhar para ela, usando sua cabeça como máscara que petrifica o outro.
- Do corpo de Medusa jorra a imagem de um corpo humano, a alma da Rainha e também a de Perseu.
- O cavalo alado da Gorgone sustenta Perseu, que faz corpo com ele, realizando sua alma, virtus e ser essencial.
- Tendo descoberto sua alma no mundo obscuro, Perseu conquista o poder de desviar o perigo do masque para seu benefício.
- A alma (eidolon) de Perseu é aptère (sem asas), pois seu corpo humano vivo ainda basta para o movimento.
- Na filosofia de Platão, a alma é naturalmente alada e, quando perfeita, percorre o empíreo.
- “Quando a alma perdeu suas asas, é levada pelos ares até que se agarre a algo sólido, onde estabelece sua morada, num corpo terrestre.”
- O desejo de beleza é objeto de reminiscência, pois a alma já viu o belo e, por isso, é alada.
- A asa tem o poder de elevar o que é pesado às alturas onde habita a raça dos deuses, participando do divino.
REPRÉSENTATIONS PALÉOCHRÉTIENNES (REPRESENTAÇÕES PALEOCRISTÃS) — Catacombes (Catacumbas)
Nas catacumbas, a representação de Psiquê e Cupido era inicialmente decorativa, mas pôde adquirir um sentido simbólico mais elevado relacionado à esperança cristã.
- A arte das catacumbas (até 313 d.C.) desenvolve uma fórmula clássica: reproduz o sistema ornamental romano, adapta figuras ou inspira-se em tipos usuais.
- Em Nápoles, uma Vitória voa com a palma da santidade, rodeada por oito figurinhas de Amores e Psiquês, sem função simbólica clara.
- No cemitério de Domitila, um afresco mostra Amor e Psiquê em um campo florido, que pode ser a pastagem da verdade de Platão que alimenta as asas da alma.
- Os doutores da Igreja, seguindo Filon, viam alegorias morais e imagens antecipadas da nova lei nos relatos bíblicos.
- Psiquê, com sua homonímia (alma), pode receber uma interpretação cristã: Cupido seria o escanção da eternidade.
- Embora o tema de Psiquê seja logo destronado do panteão cristão, ele representa a esperança de sobrevivência.
Eaux (Águas)
Em um sarcófago infantil, a travessia de barco de Psiquê simboliza a migração da alma para a vida eterna, combinando os elementos água e fogo.
- O pai mandou esculpir um sarcófago com a imagem de um barco se afastando de Alexandria, levando um Amor canoeiro e Psiquê alada.
- Enquanto a alma (Psiquê) deixa o mundo sensível entre chamas, dois Amores dirigem a embarcação para uma chegada triunfal.
- Um anjo criança na frente da torre brinca com um golfinho, símbolo da migração e salvação das almas nas catacumbas.
- O rosto do falecido fica na direita do sarcófago, lado da imortalidade, mostrando que o corpo permanece ligado à alma.
- A representação de água e fogo no sarcófago nega sua incompatibilidade no mundo suprassensível.
- “Numério considerava as viagens de Ulisses como a passagem da alma através da geração; o mar é o símbolo da matéria.”
- A epopeia homérica, cara aos neoplatônicos, explica os elementos do sarcófago, como o barco de Ulisses que representa a alma do falecido retornando à pátria celeste.
- “Ulisses sobre os sarcófagos romanos representa a alma do defunto que reganha sua pátria celeste.”
Sables (Areias)
Na África cristã, Psiquê atravessa o deserto montada em um camelo, adaptando-se à crença local na transmigração das almas.
- O camelo, “navio do deserto”, era considerado uma oferenda agradável à divindade e acreditava-se que acompanhava o morto na outra vida.
- Escavações em Sidon (Saïda) revelaram uma necrópole com pinturas e sarcófagos de Psiquê.
- A mais bela gruta funerária, Hallalié, possui três medalhões de Psiquê com a inscrição PSÛKE ao lado do personagem principal.
- Psiquê aparece sempre sentada, com o queixo apoiado na mão (attitude da Melancolia), demonstrando a dor e a meditação sobre a morte.
- “Pesantez da alma. Um fardo pesa sobre o homem e o abate a ponto de ele fraquejar, a tensão de seus membros e órgãos se relaxar.”
- Diferente da Melancolia, Psiquê, com o auxílio de suas asas leves, continua sendo a imagem do movimento em direção a um futuro.
Palimpsestes (Palimpsestos)
A imagem de Psiquê evolui de uma alegoria amorosa grega para uma figura da alma cristã em busca de purificação, conforme interpretações medievais.
- A representação de Psiquê e Eros no grupo de mármore do Capitólio mostra uma ternura íntima e elegante, sem angústia.
- A ausência de um texto grego sobre o mito de Psiquê se deve ao fato de ele ser muito conhecido pela tradição oral.
- O texto As Metamorfoses de Apuleio, de origem africana, não influenciou as representações plásticas paleocristãs.
- O bispo Fulgencio Planciades, no século IV, em suas Mitologias, interpreta Psiquê como uma heroína da purificação, ligando-a ao cristianismo.
- O tema do “cônjuge invisível” (um dos esposos não vê o rosto do outro) é essencial na fábula de Psiquê.
- Dante, na Divina Comédia, imortaliza a ideia da alma como “verme nascido para formar a borboleta angélica”.
- “Ó cristãos orgulhosos, miseráveis e fracos, que, enfermos dos olhos do espírito, pareceis todos orgulhosos de andar para trás, não vedes que somos vermes nascidos para formar a borboleta angélica?”
Clartés (Claridades)
Na Idade Média, a alma perde suas asas para os anjos e é representada como uma criança ou um bebê, mantendo a função de duplo corporal.
- A alma na Idade Média retoma a forma primitiva do eidolon (duplo corporal), com a fragilidade de uma criança que deve ser protegida.
- Na capa de marfim do Saltério de Carlos Magno (século IX), a alma do Salmo 57 é uma criança no colo de um anjo.
- “Minha alma está deitada entre os leões, que devoram os filhos dos homens; seus dentes, uma lança e flechas, sua língua, uma espada afiada.”
- Na morte de São Luís, a alma é acolhida por dois anjos brancos, lembrando as divindades do lécito ático.
- Nas Dormições da Virgem, a alma aparece como um recém-nascido enfaixado, acolhido por Cristo.
- Nas Crucifixões, a cor da alma (clara para o bom ladrão, escura para o mau) revela sua qualidade moral, ecoando a alma alada de Platão.
- “O que é divino é o que é belo, sábio, bom e tudo o que se assemelha a essas qualidades; é o que melhor nutre e fortalece as asas da alma.”
- Em uma Dormição bizantina, a alma da Virgem, invisível, é acolhida por anjos em um voo azul, perdendo o corpo, mas permanecendo alada.
