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AMOR E PSIQUE
NEUMANN, Erich. Amor And Psyche: THE PSYCHIC DEVELOPMENT OF THE FEMININE. Hoboken: Taylor and Francis, 2013.
VIDE: Comentários Neumann
- Numa certa cidade vivia um rei e uma rainha com três filhas de grande beleza, sendo a mais jovem dotada de uma formosura tão estranha e maravilhosa que a linguagem humana era por demais pobre para descrevê-la, atraindo multidões de cidadãos e forasteiros que a adoravam com preces como se fosse a própria deusa Vênus.
- Psiquê — nome da filha mais jovem, personificação da alma humana
- Vênus — deusa romana do amor e da beleza, cujo culto foi progressivamente abandonado em favor da adoração à mortal
- A fama de Psiquê se espalhou pelas ilhas vizinhas e por grande parte da terra, fazendo com que ninguém mais navegasse até Pafos, Cnidos ou Citera para venerar Vênus, cujos templos foram abandonados, altares desolados e ritos negligenciados, enquanto homens faziam festas e sacrifícios em nome da jovem mortal.
- Pafos, Cnidos e Citera — cidades gregas antigas com santuários dedicados ao culto de Vênus
- A verdadeira Vênus ficou tomada de furor ao ver que as honras divinas lhe eram subtraídas em favor de uma mortal, exclamando que não suportaria ver sua majestade partilhada com uma jovem condenada a morrer, e que faria Psiquê arrepender-se de sua beleza.
- Vênus proclama-se primeira genitora das coisas criadas e fonte primordial de todos os elementos
- Vênus convocou então seu filho alado e caprichoso, armado de flechas e tocha, que percorre as casas alheias à noite e subverte os laços do matrimônio, ordenando-lhe que fizesse Psiquê se consumir de paixão pelo homem mais vil e miserável que a fortuna houvesse condenado.
- Cupido (Amor/Eros) — filho de Vênus, deus do amor, descrito como menino rebelde e sem lei, agente das paixões humanas
- Ao retornar ao mar, Vênus foi escoltada por toda uma corte de divindades marinhas que acorreram prontamente a seu serviço, como se há muito tivessem sido convocadas, embora o desejo de chamá-los houvesse surgido apenas naquele instante.
- Nereidas — filhas do deus marinho Nereu, que cantavam em harmonia ao redor de Vênus
- Netuno, também chamado Portuno — deus do mar de barba azulada
- Salacia — esposa de Netuno
- Palemão — filho de ambos, montado em golfinho
- Tritões — seres marinhos que formavam o cortejo de Vênus
- Psiquê, apesar de sua beleza manifesta, não colhia alegria alguma de sua formosura, pois nenhum rei, príncipe ou homem do povo se apresentava para desposá-la, enquanto suas irmãs de beleza comum já haviam sido prometidas a reis, e ela permanecia em casa, solitária e enferma de espírito, odiando no coração a beleza que encantara tantas nações.
- O pai de Psiquê, tomado de profunda angústia, consultou o mais antigo oráculo do deus milesiano para saber que esposo a divindade enviaria à filha que ninguém havia cortejado
- Apolo, embora jônio e grego, para não embaraçar o autor deste conto milesiano, pronunciou o oráculo em latim, ordenando ao rei que colocasse a filha num alto rochedo, ornada com vestes fúnebres, pois seu esposo não seria mortal, mas uma criatura feroz e selvagem da estirpe dos dragões, diante da qual tremia o próprio Júpiter e estremecia o sombrio rio dos mortos.
- O oráculo de Apolo dizia: “Num alto rochedo, ó rei, coloca a donzela, ornada com todo o esplendor das vestes fúnebres. Não esperes um noivo nascido de semente mortal, mas uma fera feroz e selvagem, da estirpe dos dragões. Ele avança conquistador, sustentado por asas aéreas, com fogo e espada faz sua colheita; diante dele treme Júpiter, a quem os deuses temem, e estremece o sombrio rio dos mortos.”
- Apolo — deus grego e romano do sol, das artes e da profecia, cujos oráculos orientavam decisões humanas e divinas
- O rei voltou para casa tomado de tristeza e expôs à rainha os desígnios do funesto oráculo; juntos, choraram por muitos dias, mas chegou o momento em que os ritos do cruel decreto deveriam ser cumpridos — as tochas ardiam baixas e enegrecidas, os sons da flauta nupcial cederam ao modo lúgubre lídio, e o canto himenal transformou-se em lamento, enquanto a cidade inteira chorava o destino da família atingida.
- O modo lídio — escala musical da Antiguidade associada ao lamento e à tristeza
- Psiquê, no entanto, dirigiu-se aos pais e pediu-lhes que cessassem de chorar, dizendo que foi quando as nações lhe renderam honras divinas e a aclamaram como nova Vênus que deveriam ter lamentado sua morte, e que agora compreendia que era o nome de Vênus o que a conduzia ao fim — e partiu com passo firme, apressando-se a encontrar o esposo que a aguardava.
- No cume do rochedo, depois que todos se afastaram, uma brisa suave do Ocidente fez ondular suas vestes e a ergueu lentamente, transportando-a vale abaixo até depositá-la suavemente num prado florido onde adormeceu, e ao despertar avistou uma fonte cristalina e um palácio construído não por mãos humanas, mas pela habilidade de um deus, com teto de sândalo e marfim, colunas de ouro, paredes de prata lavrada e pavimento de pedras preciosas.
- Zéfiro (Vento do Oeste) — divindade do vento que serviu como agente de transporte entre o mundo humano e o palácio divino
- Vozes incorpóreas falaram a Psiquê no palácio, dizendo-lhe que tudo ali era seu, que dormisse, banhasse-se e se sentasse à mesa, pois elas eram suas servas — e assim ela foi servida com vinho como néctar e inúmeros pratos deliciosos, ouviu cantos e músicas de uma multidão invisível, e passou a viver naquela morada divina.
- Quando a noite avançou, o esposo desconhecido veio e partiu antes do amanhecer, e assim por longo tempo a vida de Psiquê transcorreu até que o estranho se tornou um deleite pelo hábito, e as vozes alegravam sua solidão — enquanto os pais envelheciam consumidos pela dor e as irmãs mais velhas souberam do ocorrido e partiram para rever os pais e buscar notícias.
- O esposo invisível advertiu Psiquê numa noite de que a fortuna ameaçava com perigo mortal, e pediu-lhe que não respondesse às lamentações das irmãs, que acreditavam que ela havia morrido e que se aproximariam do rochedo, pois isso o levaria ao mais profundo pesar e ela à própria destruição.
- Psiquê, incapaz de suportar a separação das irmãs, chorou o dia inteiro, e quando seu esposo voltou e a encontrou em lágrimas, ele cedeu às suas súplicas e lhe deu permissão para receber as irmãs e presenteá-las com ouro e joias, advertindo-a repetidamente de nunca lhes revelar como era o marido, pois se cedesse à curiosidade ímpia seria banida para sempre de seus braços e de toda a riqueza que possuía.
- Psiquê declarou ao esposo: “Sooner would I die a hundred deaths than be robbed of your sweet love” — em português: “preferiria morrer cem mortes a ser privada de teu doce amor”
- As irmãs foram trazidas pelo Vento do Oeste até o vale e ficaram deslumbradas com as riquezas do palácio dourado e com os serviços das vozes invisíveis, mas quando Psiquê lhes descreveu o marido como jovem belo que passava o tempo caçando, e as enviou de volta carregadas de presentes, a inveja ardeu ferozmente em seus corações.
- As irmãs, de volta a suas casas, começaram a se lamentar amargamente, comparando seu próprio destino ao de Psiquê — uma delas era casada com um homem mais velho que o pai, careca e mais fraco que uma criança, que mantinha a casa sob chave; a outra com um marido dobrado de reumatismo que nunca pensava no amor — e concluíram que deveriam tramar contra a inocente irmã para arrancá-la de sua fortuna.
- O esposo voltou a advertir Psiquê de que as falsas irmãs tramavam algo perverso com o propósito de persuadi-la a revelar sua aparência, e anunciou que ela estava grávida, acrescentando que se guardasse o segredo em silêncio o filho nasceria deus, e se o divulgasse, nasceria mortal.
- Psiquê, com o coração em chamas, preparou-se para a vinda das irmãs no dia seguinte, e quando estas chegaram, disseram-lhe que seu esposo era na verdade uma enorme serpente de mil anéis entrelaçados, com sangue e veneno escorrendo da garganta, que a devoraria junto com o fruto maduro de seu ventre, citando o oráculo de Apolo como confirmação.
- Psiquê, simples e gentil de alma, foi tomada de terror e esqueceu todas as advertências do esposo, e as irmãs lhe instruíram a esconder uma navalha afiada e uma lanterna acesa sob a borda do leito, para que pudesse decapitar a serpente enquanto ela dormia.
- As irmãs disseram a Psiquê: “Toma a navalha mais afiada e afina-a ainda mais esfregando-a suavemente na palma da mão, esconde-a do lado do leito onde costumas deitar. Toma também uma lanterna portátil cheia de azeite e acesa com chama clara, e coloca-a sob a cobertura de algum recipiente.”
- Psiquê permaneceu sozinha, dilacerada entre o ódio à fera e o amor ao esposo, mas quando a noite chegou e o esposo adormeceu, ela convocou toda sua força, acendeu a lanterna e empunhou a navalha — e à luz da chama não viu uma serpente, mas Amor, o mais belo dos deuses, adormecido, com cabelos dourados perfumados de ambrosia, asas de plumas brancas e ao lado do leito o arco, a aljava e as flechas.
- Amor (Eros/Cupido) — deus do amor revelado como o esposo misterioso de Psiquê
- Psiquê, arrebatada pela visão, pegou uma flecha da aljava para examinar a ponta, mas sua mão tremeu e a pressionou com força demais, fazendo brotar gotinhas de sangue em sua pele — e assim, sem o querer, mas por sua própria ação, Psiquê apaixonou-se pelo próprio Amor.
- A lanterna, como por traição ou inveja, deixou cair uma gota de óleo ardente sobre o ombro direito do deus, que acordou e, ao ver o segredo revelado, arrancou-se dos braços de Psiquê e voou, parando num cipreste próximo para dizer-lhe que havia ferido a si mesmo com suas próprias flechas ao fazer dela sua esposa, mas que sua curiosidade pusera tudo a perder, e que puniria as irmãs conselheiras — a Psiquê, apenas com o castigo de partir.
- Amor disse a Psiquê: “Eu, o arqueiro famoso, feri-me com minhas próprias setas e fiz de ti minha esposa para ganhar esta recompensa — que me tomasses por uma fera selvagem e tramasses cortar minha cabeça com a lâmina de aço.”
- Psiquê, ao ver o esposo partir, atirou-se ao rio próximo, mas a corrente a poupou e a depositou suavemente numa margem florida, onde Pã, o deus campestre, a encontrou e a aconselhou a não se matar mas a suplicar a Amor com fervorosas preces e a conquistá-lo pela terna submissão, pois era um jovem amoroso e de coração suave.
- Pã — deus grego dos campos, florestas e pastores, representado com pernas de bode
- Eco — divindade das montanhas que repetia os sons, companheira de Pã no episódio
- Psiquê chegou então à cidade onde residia o marido de uma de suas irmãs e, fingindo que o esposo a rejeitara para desposá-la, fez a irmã acorrer ao rochedo e atirar-se no abismo esperando ser recolhida pelo Vento do Oeste — e a irmã morreu despedaçada entre as rochas, servindo de alimento às feras.
- O mesmo destino aguardou a segunda irmã, que caiu na mesma armadilha e pereceu da mesma maneira — sendo assim que Amor se vingou das duas conselheiras perversas.
- Enquanto isso, Amor jazia no quarto de Vênus, gemendo com a dor do ferimento causado pela lanterna, quando uma gaivota mergulhou até Vênus no oceano e lhe contou que seu filho estava ferido e em perigo, e que toda a casa de Vênus havia caído em descrédito porque nem ela nem ele cumpriam suas funções, e que o amor, a amizade e os laços familiares haviam desaparecido da terra.
- A gaivota descreveu a situação assim: “Não há prazer, alegria nem regozijo em lugar algum, mas todas as coisas jazem em rude e descuidada negligência; o matrimônio, a verdadeira amizade e o amor dos pais pelos filhos desapareceram da terra; há uma vasta desordem, um ódio repugnante e um foul disregard de todos os laços de amor.”
- Vênus foi até o quarto onde Amor convalescía e o repreendeu violentamente, acusando-o de desobedecer suas ordens, de tomar a rival como amante, de bater nos mais velhos, de roubar a própria mãe e de ameaçar adotá-la como nora, prometendo castigá-lo pela frivolidade e encontrar uma serva mais severa — a Sobriedade — para cortar seus cabelos dourados e aparar suas asas.
- Ceres e Juno encontraram Vênus em seu furor e tentaram apaziguá-la, argumentando que o filho havia simplesmente se apaixonado por uma jovem encantadora e que não seria razoável proibir a própria casa dos prazeres do amor enquanto os disseminava pelo mundo — mas Vênus, indignada por ver seus agravos tratados como ridículos, passou por elas e seguiu em direção ao mar.
- Ceres — deusa romana da colheita e da fertilidade
- Juno — esposa de Júpiter e rainha dos deuses, a quem Psiquê também recorreria em busca de proteção
- Psiquê errava de um lado para o outro em busca de Amor, e ao avistar um templo numa montanha entrou e ordenou as espigas de trigo, cevada e foices que ali jaziam em desordem, pois não queria negligenciar nenhum deus — e Ceres apareceu e lhe disse que Vênus a procurava furiosa pelo mundo inteiro, mas que não podia protegê-la por ser parente e antiga amiga de Vênus, e que deveria partir.
- Psiquê suplicou a Ceres: “Por tua mão direita que traz fruto à terra, pelos alegres ritos da colheita, pelos silenciosos mistérios de teus sagrados arcas, pelos carros alados puxados pelos dragões que te servem, pelos sulcos dos campos da Sicília, pelo carro do raptor e pela terra aprisionadora, pelo profundo abismo onde foram celebradas as bodas sem luz de Prosérpina, pelo alegre regresso à luz quando reencontraste tua filha, e por tudo o mais que o santuário de Elêusis ateniense envolve em silêncio, imploro-te, socorre a alma da desamparada Psiquê.”
- Prosérpina (Perséfone) — deusa do submundo, filha de Ceres, cujo rapto pelo deus Plutão é evocado na prece de Psiquê
- Os mistérios de Elêusis — cultos secretos celebrados em Atenas em honra a Ceres e Prosérpina
- Psiquê encontrou então um templo de Juno e lhe suplicou invocando seus santuários em Samos, Cartago e Argos, pedindo-lhe que a libertasse do perigo iminente, mas Juno respondeu que por honra e por lei não podia abrigar a escrava fugitiva de outra senhora contra a vontade de Vênus, que era sua nora e a quem amava como filha.
- Juno era invocada sob diferentes nomes: Zigia no Oriente e Lucina no Ocidente — divindade protetora do casamento e dos partos
- Psiquê, desesperada, decidiu render-se à própria Vênus, pensando que talvez ali pudesse encontrar o esposo tão procurado, e no caminho foi interceptada por Hábito, uma das servas de Vênus, que a arrastou pela cabeleira até a presença da deusa.
- Hábito — serva de Vênus, personificação do costume e da rotina
- Vênus recebeu Psiquê com uma risada selvagem, ordenou que suas criadas Aflição e Tristeza a açoitassem e atormentassem, e depois lhe apresentou uma enorme pilha misturada de grãos de trigo, cevada, painço, papoula, grão-de-bico, lentilha e feijão, mandando-a separar cada espécie em seu lugar antes do anoitecer.
- Aflição e Tristeza — criadas personificadas de Vênus, agentes de seus castigos
- Psiquê sentou-se em estupefação diante da tarefa impossível, mas uma formiga, compreendendo a dificuldade e sentindo pena da esposa do grande deus, convocou todo o exército de formigas que habitava os arredores — e elas separaram grão a grão toda a pilha, cada espécie em seu lugar, desaparecendo rapidamente antes que Vênus retornasse do banquete de bodas.
- Vênus voltou perfumada de bálsamo e cingida de rosas, e ao ver a tarefa concluída exclamou que aquilo não era obra das mãos de Psiquê, mas de Amor, e lançou-lhe um naco de pão comum antes de se retirar para o leito — enquanto Amor era mantido em clausura no interior da casa para que não agravasse seu ferimento nem se encontrasse com a amada.
- Na manhã seguinte, Vênus ordenou a Psiquê que fosse ao bosque onde vagavam ovelhas de velo dourado e trouxesse um punhado de sua lã preciosa — e Psiquê partiu não para cumprir a tarefa, mas para se lançar do rochedo que pendia sobre o rio.
- Um junco verde à beira do rio sussurrou a Psiquê em profecia melodiosa que não profanasse as águas sagradas com sua morte, e que não se aproximasse das terríveis ovelhas durante o calor do dia, pois elas ficavam furiosas com a ardência do sol, mas que se escondesse sob o plátano até que a brisa da tarde as adormecesse, e então fosse sacudir os galhos do bosque para encontrar a lã dourada presa nos galhos retorcidos.
- O junco disse a Psiquê: “Psiquê, atormentada por tantas desgraças, não profanes minhas águas sagradas matando-te miseravelmente, nem te aproximes dessas terríveis ovelhas a esta hora. Pois elas tomam emprestado o calor feroz do sol ardente e a frenética loucura as domina, de modo que com chifres afiados e testas duras como pedra, e às vezes até com mordidas venenosas, descarregam sua fúria na destruição dos homens.”
- Psiquê obedeceu ao junco, roubou facilmente o ouro macio e retornou a Vênus com o seio cheio — mas a deusa franziu o cenho e disse saber quem havia sido o autor secreto daquele feito, anunciando uma terceira prova para saber se Psiquê tinha coração resistente e prudência além do comum das mulheres.
- Vênus ordenou a Psiquê que subisse ao pico mais alto de uma montanha onde nascia uma fonte cujas águas alimentavam os pântanos do Estige e os roucos riachos de Cocito, e trouxesse num pequeno frasco de cristal a água gelada que brotava do cume.
- Estige — rio sagrado do submundo, pelas cujas águas juravam os próprios deuses
- Cocito — outro rio do mundo inferior na mitologia greco-romana
- Psiquê subiu e viu um rochedo de altura incomensurável, escorregadio e inacessível, de cujas entranhas jorrava um riacho feroz guardado por dragões de pescoço comprido e olhos sem descanso, enquanto as próprias águas gritavam “Afasta-te!”, “Tem cuidado!”, “Foge!” e “Estás condenada a morrer!” — e Psiquê ficou petrificada, incapaz sequer de chorar.
- A Providência não ficou indiferente à angústia da alma inocente, e a águia real de Júpiter, lembrando-se do serviço antigo quando raptara o jovem frígio que se tornara copeiro dos deuses, desceu veloz, apanhou o frasco de Psiquê, encheu-o com a água do Estige — fingindo às águas que o fazia a mando de Vênus — e o devolveu cheio a Psiquê.
- A águia de Júpiter aludiu ao mito do rapto de Ganimedes, jovem príncipe troiano raptado para servir de copeiro aos deuses no Olimpo
- Júpiter (Zeus) — rei dos deuses, cujo símbolo era a águia
- Vênus, não satisfeita, ameaçou Psiquê com tormentos ainda piores e lhe entregou uma caixa de cristal, ordenando-lhe que descesse ao reino dos mortos, ao palácio de Orcus, e pedisse a Prosérpina uma pequena porção de sua beleza suficiente para um único dia, pois a beleza de Vênus havia sido consumida pelo desvelo junto ao filho enfermo.
- Orcus — nome latino do deus dos mortos (equivalente a Hades/Plutão)
- Prosérpina — rainha do submundo
- Psiquê, convencida de que havia chegado ao fim de sua sorte, dirigiu-se a uma torre alta de onde pretendia se lançar — mas a própria torre falou e lhe revelou o caminho até o submundo: devia ir a Tênaro, nos confins de Lacedemônia, levar dois bolos de cevada com mel em ambas as mãos e duas moedas na boca, passar em silêncio pelo carregador coxo com seu burro, dar uma moeda ao barqueiro Caronte, ignorar o morto flutuante que pediria socorro, não tocar na teia que velhas tecelãs lhe ofereceriam para ajudar, dar um bolo ao enorme cão de três cabeças que guardava o limiar do palácio de Prosérpina e, ao retornar, repetir o procedimento em ordem inversa.
- Tênaro — cabo no sul do Peloponeso onde se acreditava existir uma entrada para o submundo
- Caronte — barqueiro do submundo que transportava as almas dos mortos mediante pagamento
- Cérbero — cão de três cabeças que guardava as portas do reino dos mortos
- Psiquê executou à risca todas as instruções da torre, desceu ao submundo, recebeu a caixa selada de Prosérpina, silenciou Cérbero com o segundo bolo, pagou Caronte com a segunda moeda e retornou ao mundo dos vivos com mais agilidade do que havia descido, adorando a luz do dia.
- Mas a curiosidade irracional tomou conta de Psiquê, que pensou consigo mesma que era insensata carregar o presente da beleza divina sem sequer tomar uma gota dele para assim conquistar a graça do amado — e ao abrir a caixa não encontrou beleza alguma, mas um sono infernal e verdadeiramente estigiano que a envolveu num espesso nevoeiro e a fez cair no próprio caminho como um cadáver adormecido.
- Amor, recuperado do ferimento e incapaz de suportar a longa ausência de Psiquê, escapou pela janela do quarto onde estava confinado, voou até ela, limpou o sono de seu rosto, recolocou-o na caixa e a despertou com uma picada inofensiva de sua flecha, dizendo-lhe que sua curiosidade quase a havia destruído pela segunda vez, e que fizesse a entrega a Vênus enquanto ele cuidaria do resto.
- Amor disse a Psiquê: “Minha pobre criança, tua curiosidade quase te trouxe a destruição pela segunda vez. Mas enquanto isso, apressa-te a cumprir a tarefa que minha mãe te incumbiu; eu cuidarei do resto.”
- Amor então voou até o Olimpo, suplicou a Júpiter que o auxiliasse, e o deus rei, depois de beliscar-lhe a face com afeto, respondeu que apesar de todas as vezes que o filho havia ferido seu coração, perturbado sua serena majestade e o conduzido a adultérios vergonhosos e metamorfoses indecorosas, concederia o pedido com a condição de que Amor estivesse de vigia para lhe oferecer em troca uma jovem de beleza incomparável.
- Júpiter referiu-se à lei juliana — legislação romana sobre o casamento e o adultério — que Amor teria feito o deus transgredir
- Júpiter convocou todos os deuses a uma assembleia sob pena de multa de dez mil sestércios, e diante da plateia reunida declarou que era tempo de encadear a paixão juvenil de Amor nos laços do matrimônio, que ele havia escolhido uma donzela e a havia desonrado, e que deveria mantê-la, gozar de seu amor e possuir Psiquê em seus braços para toda a eternidade — e voltando-se para Vênus, assegurou que o casamento seria legítimo e de acordo com a lei civil.
- Mercúrio — mensageiro dos deuses, enviado para buscar Psiquê e trazê-la ao Olimpo
- Júpiter ofereceu a Psiquê um cálice de ambrosia e disse-lhe que bebesse e se tornasse imortal, para que Amor nunca mais deixasse seus braços e o casamento durasse eternamente — e assim foi celebrado um suntuoso banquete nupcial no Olimpo, com todos os deuses presentes em seus lugares, música das Musas, dança de Vênus, canto de Apolo e melodias de sátiros e do deus Pã.
- Ambrosia — alimento ou bebida dos deuses que conferia imortalidade
- As Horas — divindades das estações que adornaram o banquete com rosas e flores
- As Graças — companheiras de Vênus que aspergiam bálsamo
- Vulcano — deus do fogo e da forja, que cozinhou o banquete
- Líber (Baco/Dioniso) — deus do vinho, que serviu os demais deuses
- Juno — esposa de Júpiter, presente ao lado do esposo no banquete nupcial
- Assim Psiquê tornou-se com toda solenidade a esposa de Amor, e logo lhes nasceu uma filha que na linguagem dos mortais é chamada Prazer.
- Prazer (Voluptas) — filha de Amor e Psiquê, personificação divina do gozo e da fruição sensível
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