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EROS E PSYCHE
CARUS, Paul. EROS AND PSYCHE. A FAIRY-TALE OF ANCIENT GREECE, RETOLD AFTER APULEIUS. Chicago: Open Court, 1900.
- A narrativa de Eros e Psiquê reflete a vida religiosa da Antiguidade clássica com maior profundidade do que qualquer outro livro, poema ou epopeia, sendo o conto popular o único que revela o sentimento com que os deuses eram contemplados e descreve a atitude humana diante do mistério da morte e do destino da alma no além desconhecido.
- Hesíodo — poeta grego autor da Teogonia, obra que narra a origem dos deuses e lhes confere forma definida
- Homero — poeta épico grego que introduz os deuses como personagens ativos em suas grandes epopeias
- Eros — divindade grega do amor; Psiquê — personificação grega da alma humana
- A religião grega ortodoxa consistia na realização de certos ritos administrados pelos sacerdotes em nome do Estado para o benefício público, sem exigir fé ou moralidade dos participantes, sendo suficiente render aos deuses o que lhes era devido segundo a tradição estabelecida, a fim de cumprir os deveres que os homens devem às potências invisíveis das quais depende seu bem-estar.
- Os ritos e cerimônias deixavam o coração vazio, sendo conduzidos de modo superficial por pessoas escolhidas segundo a linhagem ou posição social, o que levou o povo a demandar a satisfação dos anseios religiosos mais profundos, dando origem a um novo movimento religioso fundado em pensamentos importados de diversas regiões do mundo antigo e que encontrou expressão definitiva nos mistérios e ensinamentos secretos de Orfeu, Dioniso e outras divindades.
- Orfeu — figura mítica grega associada aos cultos mistéricos e à doutrina da imortalidade da alma
- Dioniso — deus grego do vinho e do êxtase, central nos novos cultos mistéricos
- As regiões de origem das novas correntes religiosas foram Trácia, Egito, Caldeia, Fenícia e Síria
- Tais inovações não foram revolucionárias, pois novos deuses foram introduzidos sem que os antigos perdessem seu poder, tendo Dioniso estabelecido aliança com Deméter, Apolo e Zeus, enquanto os antigos festivais da colheita foram enriquecidos com procissões cerimoniais e ritos simbólicos de novo significado, de modo que a mudança não se deu no nome, mas na interpretação — transformação que, ainda assim, foi profundamente radical.
- Deméter — deusa grega da colheita e dos ciclos da terra, associada aos mistérios eleusinos
- Apolo — deus grego da luz, da razão e das artes
- Zeus — divindade suprema do panteão olímpico grego
- A própria natureza dos antigos deuses sofreu uma transformação profunda e sua significação religiosa foi consideravelmente aprofundada, não sendo difícil — apesar do mistério que os envolve e do silêncio preservado acerca de seus rituais — descrever ao menos em linhas gerais o caráter dessas inovações, pois elas se tornaram os fatores dominantes na formação do tipo grego em seu período clássico e deixaram uma marca inconfundível sobre filósofos, poetas e sobre a vida pública da Hélade antiga.
- O grande problema do pensamento grego era o enigma da esfinge, cuja solução foi encontrada na concepção grega da alma humana elaborada por Platão, sendo os próprios mistérios uma mistura de tradições antigas iluminadas pelo pensamento grego moderno dos dias de Pisístrato e de Péricles, onde traços de folclore arcaico foram exibidos à luz da mais elevada sabedoria da época, e as esperanças e sonhos dos mistérios, especialmente os eleusinos, constituem uma das fases mais importantes na transição para o cristianismo.
- Platão — filósofo grego cuja doutrina da alma influenciou decisivamente tanto os mistérios quanto o pensamento cristão posterior
- Pisístrato — tirano de Atenas que patrocinou reformas culturais e religiosas no século VI a.C.
- Péricles — estadista ateniense sob cujo governo floresceu a cultura clássica no século V a.C.
- Mistérios eleusinos — cultos secretos dedicados a Deméter e Perséfone, celebrados em Elêusis, considerados fase de transição para o cristianismo
- Todas essas visões encontraram expressão no único conto de fadas da Grécia antiga que chegou até os tempos modernos — a narrativa de Eros e Psiquê — e não é acidente que as duas figuras tenham aparecido tanto numa gema mithraica quanto num sarcófago cristão, lado a lado com o Bom Pastor.
- Mitra — divindade de origem persa cujo culto mistérico se difundiu pelo mundo greco-romano
- O Bom Pastor — símbolo cristão primitivo da salvação da alma, frequente na iconografia dos sarcófagos
- O conto de Eros e Psiquê carrega todas as marcas de um autêntico Märchen, e a estrutura principal da narrativa deve ser suposta como remontando a épocas pré-históricas, pois todos os contos de fadas genuínos são antigos e refletem uma civilização desaparecida, tendo sido parcialmente modificados pela influência do cristianismo entre os povos teutônicos, sem que seus traços mais característicos e originais fossem obliterados.
- Märchen — termo alemão para conto de fadas popular de origem antiga e caráter anônimo
- Entre os exemplos teutônicos citados figuram Branca de Neve, João Simplório, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Dona Holle
- O mundo dos contos de fadas é uma terra de florestas e de vida campestre onde o viajante encontra gigantes, ladrões e outros perigos, sendo esta a era do matriarcado em que a velha sábia é a maior potência da comunidade, o parentesco é reconhecido apenas pela linha materna, a herança do reino pertence sempre à filha e o herói torna-se rei ao casar-se com uma princesa — estrutura que ainda se preserva na Odisseia, onde se pressupõe que se tornará rei quem desposar Penélope, e cuja versão mais antiga de Cinderela é o conto nórdico do Rapaz das Cinzas.
- Telêmaco — filho de Odisseu e Penélope na Odisseia de Homero, não considerado herdeiro do trono de Ítaca
- Penélope — rainha de Ítaca cujo casamento conferiria o trono ao pretendente vencedor
- O Rapaz das Cinzas — versão nórdica masculina de Cinderela, análoga à figura de João Simplório, que encontra sua fortuna pelo casamento com uma princesa
- Karl Pearson — estudioso citado por sua análise do tema em As Chances da Morte e Outros Estudos sobre a Evolução, publicado por Edward Arnold, Londres
- Por serem espelhos de uma era pré-histórica, os contos de fadas refletem também a religião dos antepassados remotos da humanidade — e isso é particularmente evidente na história de Eros e Psiquê — reconhecendo-se em todas as narrativas folclóricas uma crença na imortalidade obscurecida apenas pela ausência de uma linha divisória entre a terra dos mortos e a dos vivos, de modo que os mortos retornam à vida como se a ela pertencessem e nenhum detalhe adicional sendo oferecido, poder-se-ia supor que continuam existindo como antes.
- O conto de Dona Holle é particularmente instrutivo: a boa menina perde seu fuso no poço e, temendo punição, pula após ele, encontrando-se no país de Dona Holle, onde serve fielmente à deusa e é recompensada com ouro, enquanto a menina má deixa o pão queimar e as maçãs apodrecer, sendo punida com piche e um sapo saltando de sua boca cada vez que fala.
- Dona Holle — figura da mitologia germânica identificada à deusa mãe que governa as estações, a fertilidade, o pão, as maçãs e o reino dos mortos situado nas profundezas da terra
- O mundo dos falecidos é frequentemente representado como a terra além do rio, e uma pequena cantiga de ninar sugere que esse rio não tem outra margem, tornando-se ininteligível com o tempo, mas sugerindo que a força da natureza que une o macho e a fêmea é indispensável para atravessá-lo, sendo a filha do rei uma Psiquê nórdica cruzando o Estige.
- A cantiga citada diz: “Ganso e gansa cinzentos, agitai vossas asas juntos, e levai a boa filha do rei pelo rio de uma só margem”
- Estige — rio do submundo na mitologia grega que separa o mundo dos vivos do reino dos mortos
- Uma versão inglesa da história de Eros e Psiquê é preservada no conto de A Bela e a Fera, onde o elemento religioso é igualmente evidente, e a relação entre a Morte e o Amor nessas narrativas de eras remotas sugere que a Morte — que aparece como monstro, fera e terror — é afinal uma potência amiga e uma bênção, sendo a inter-relação entre o nascimento e a morte sentida pelo homem primitivo talvez mais intensamente do que pelas gerações posteriores, pois enquanto o amor prevalece a humanidade não se extingue e a alma humana reaparece em renovada beleza e vigor.
- A observação da íntima inter-relação entre a morte e o amor é a ideia central da história de Eros e Psiquê — muito popular na Grécia antiga segundo os monumentos — que chegou até os tempos modernos apenas na versão de Apuleio, narrada em seu romance O Asno de Ouro.
- Apuleio — escritor latino do século II d.C., autor de O Asno de Ouro, única versão literária completa do mito de Eros e Psiquê que sobreviveu à Antiguidade
- Nos melhores dias da arte grega Eros era sempre representado como um jovem de cerca de vinte anos, mas quando o amor degenerou em frivolidades pueris os artistas passaram a representá-lo como uma criança, e famílias inteiras de Eroses — chamados em latim de Cupidos ou Amores — foram introduzidas na arte, sendo a mais bela representação humorística desse estilo um friso de Thorwaldsen inspirado em modelos clássicos, intitulado A Venda dos Cupidos, onde essas figuras aladas são concebidas no espírito da poesia anacreontica.
- Thorwaldsen — escultor dinamarquês do século XIX, autor do friso A Venda dos Cupidos baseado em modelos da Antiguidade clássica
- Anacreonte — poeta lírico grego cujo estilo celebrava o amor e o prazer de modo levemente jocoso, dando origem ao adjetivo anacreontico
- O redator da história de Eros e Psiquê, tal como aqui recontada, destacou o leitmotiv religioso e filosófico com maior ênfase do que ele possui no conto de Apuleio, suprimindo o tom leviano em que o autor satírico frequentemente se compraz e acrescentando alguns toques onde reside a real significação da narrativa, permanecendo fiel ao espírito do antigo Märchen e evidenciando a natureza séria da história e o consolo religioso que subjaz a essa mais requintada produção da ficção humana.
- Leitmotiv — termo alemão que designa o motivo condutor ou tema recorrente de uma obra
- As melhores ilustrações da história de Eros e Psiquê, gregas na concepção e puramente clássicas na execução, foram realizadas por Paul Thumann e publicadas pela primeira vez por Adolf Titze, editor de Leipsic justamente famoso por suas ilustrações de alta qualidade da poesia clássica, tendo sido adquirido o direito de uso dessa série de imagens tanto do artista quanto do editor.
- Paul Thumann — artista alemão responsável pelas ilustrações da edição, concebidas em espírito grego clássico
- Adolf Titze — editor de Leipzig que publicou originalmente as ilustrações de Thumann
- Paul Carus — autor do prefácio e responsável pela edição comentada da narrativa de Eros e Psiquê
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