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HELENISMO
ROHDE, Erwin. Psyche: the cult of souls and belief in immortality among the Greeks. London: K. Paul, Trench, Trubner, 1925.
- A conclusão platônica sobre a natureza, origem e destino da alma encerra um período teológico e espiritualista grego.
- Esse movimento espiritualista desaparece da superfície da vida grega após Platão.
- A própria escola de Platão, logo após sua morte, voltou sua atenção para uma direção muito diferente.
- A Grécia entrou em uma nova fase de desenvolvimento com o colapso da política antiga e a conquista macedônia.
- A antiga pólis não pôde ser restaurada, e as ligas políticas fracassaram devido à corrupção interna e violência externa.
- O espírito nacional grego original foi danificado pela expansão ilimitada da vida grega.
- Ser grego passou a significar ter participação na cultura grega, que não era mais confinada a uma única nação.
- Incontáveis indivíduos de todos os países entraram no círculo deste helenismo estendido.
- A ciência, que agora unia todos os gregos, baseava-se em um conhecimento que ignora fronteiras nacionais.
- A ciência do período helenístico alcançou uma condição de estabilidade, marcada por um racionalismo sereno.
- Observa-se um afrouxamento do zelo e da ousadia dos pensadores individuais em formular novas questões.
- Alguns grandes sistemas filosóficos ofereceram refúgio por séculos, mas acabaram se desfazendo.
- As ciências especiais se desenvolveram livremente, libertas das amarras da filosofia.
- A arte ainda mantinha originalidade, mas deixou de ser a mestra da sabedoria, sendo a ciência a determinar o caráter da cultura.
- A cultura do período é marcada por um racionalismo frio e uma aderência calma ao inteligível, sem inclinações ao misticismo sombrio.
- O racionalismo prevalecente resulta em uma razoabilidade árida e um senso comum prosaico, como visto em Políbio.
- O colapso da vida política tornou mais possível para o indivíduo viver sua própria vida, desfrutando de uma herança civilizacional refinada.
- A esperança ou o medo da imortalidade tem pouco efeito sobre as pessoas educadas da época.
- A teologia permanece em segundo plano, enquanto a ciência natural domina o dia.
- A figura de Aristóteles se destaca no início do período, com duas vozes distintas sobre a natureza e o destino da alma.
- Como físico, Aristóteles ensina que a alma é a forma do corpo, inseparável dele como a visão o é do olho.
- Com a morte do ser vivo, sua alma não tem mais existência independente.
- Como metafísico, Aristóteles introduz o “Intelecto” (Nous), um ser espiritual de origem divina que entra no homem “de fora”.
- O Intelecto não se mistura com o corpo e vive uma vida separada, sendo afim a Deus e o “divino” no homem.
- O Intelecto é totalmente ocupado em pensar e apreende os primeiros princípios do conhecimento.
- O Intelecto não possui um caráter pessoal distintivo e é idêntico em cada caso em que aparece.
- Quando ocorre a morte, o Intelecto não é destruído, mas retorna à sua existência separada, desprovido de atividade mental, memória ou consciência.
- Essa doutrina do Intelecto preserva um elemento mitológico platônico, mas sem as conclusões teológicas sobre purificação ou exortação para o outro mundo.
- Chega-se à distinção entre Intelecto e Alma por meio de uma teoria do conhecimento, não de uma doutrina teológica.
- A atividade pura de contemplação pertence ao divino no homem e é realizada nesta vida, não havendo conteúdo para a existência separada após a morte.
- O pensamento da imortalidade, nessa forma, não possui mais valor ético real para o homem, carecendo de inspiração e poder de direção para a vida terrena.
- Alguns dos sucessores de Aristóteles negaram completamente, em todas as formas, a doutrina da imortalidade.
- O ensinamento dogmático dos estoicos sobre a alma humana está ligado ao seu panteísmo materialista.
- Deus é o Universo, sendo tanto a matéria quanto a forma, a vida e o poder do mundo.
- A alma racional do homem é um fragmento do divino, mais pura do que o fogo terrestre e a matéria inferior.
- A alma individual surge com o corpo, mas permanece sujeita à lei universal do mundo e ao destino.
- A alma tem o poder de autodeterminação e é responsável por suas decisões, podendo escolher o mal.
- O sábio estoico, que harmoniza sua vontade com a direção divina do mundo, é uma imagem de perfeição imaginária, nunca plenamente realizada.
- Os interesses éticos pela liberdade da personalidade moral entravam em conflito com os princípios da metafísica estoica.
- O puro panteísmo não pode imaginar um conflito real entre a humanidade e a divindade, nem postular um princípio do mal.
- A ética cínica apontava para um individualismo autossuficiente, enquanto a física herakleítica exigia a submissão ao Logos universal.
- O cinismo teve a influência mais profunda nas questões éticas, pois a lei universal era muito ampla para as necessidades individuais.
- O individualismo, característico da era, começou a ganhar espaço mesmo neste sistema panteísta.
- O “Sábio”, que é uma lei para si mesmo, é a flor mais bela desse individualismo.
- A doutrina estoica sobrevive à morte, que é vista como uma separação da alma em relação ao corpo.
- As almas sobrevivem à destruição de seus corpos até a conflagração final, especialmente as dos sábios, como ensinou Crisipo.
- Do ponto de vista da ciência física, não havia razão para que a alma, composta de sopro de fogo puro, desaparecesse imediatamente com a desintegração do corpo.
- A leveza da alma a leva para cima, para o ar puro sob a lua, onde nada pode acabar com ela.
- Um “mundo subterrâneo” foi expressamente negado pelos estoicos.
- A vida das almas após a morte permaneceu indistinta e sem conteúdo na imaginação dos vivos.
- A doutrina da continuação da alma não tinha significado sério para a ética estoica, que é dirigida para o estudo da vida, não da morte.
- Nada na doutrina do estoicismo aponta o homem para outro mundo para o cumprimento de sua tarefa.
- A limitada doutrina da imortalidade estoica foi questionada por críticas de outras escolas.
- Panécio ensinou a dissolução da alma, sua morte e destruição simultânea com a morte do corpo.
- Seu aluno, Posidônio, retornou à antiga ideia teológica da preexistência da alma e afirmou sua continuação após a morte até a próxima destruição do mundo.
- As dúvidas e críticas externas, especialmente dos céticos, exigiram essa transformação do ensinamento antigo.
- Cícero, na “Visão de Cipião”, fornece um relato da crença em uma vida contínua da alma no éter.
- O estoicismo teve uma vida longa e vigorosa como guia prático para a conduta, atraindo a nobreza romana.
- Não era a certeza de uma vida contínua em uma existência superior que tornava os mártires estoicos prontos para desistir da vida.
- Sêneca, Marco Aurélio, Musônio e Epicteto buscaram educar-se para a liberdade e a paz, confiando no poder de seu próprio espírito.
- A crença antiga na vida contínua da alma é considerada, na melhor das hipóteses, uma possibilidade entre muitas ou um “belo sonho”.
- Para o sábio, a morte é igualmente bem-vinda, seja uma transição ou um término, pois ele mede a vida pela riqueza de seu conteúdo.
- Sêneca está inclinado a ver a morte como o fim de todas as coisas, após o qual a “paz eterna” aguarda o espírito inquieto.
- O imperador estoico está incerto se a morte é uma dissipação ou uma sobrevivência, mas não tem medo, e a morte aniquiladora lhe parece amiga.
- O espírito mais resistente do escravo frígio, Epicteto, não precisava de convicção de sobrevivência pessoal para enfrentar a batalha da vida.
- A paixão abandono do eu pessoal ao Todo e Um eterno tornou-se um hábito mental fixo.
- Cornuto, professor de Pérsio, afirmou expressamente que, com a morte do corpo, há também o fim da alma individual.
- A doutrina atomista renovada por Epicuro exigia o abandono da crença na sobrevivência pessoal.
- Para o atomista, a alma é corpórea, composta dos átomos mais móveis, e ocupa todas as partes do corpo.
- Epicuro fala da “alma” como uma substância especial e duradoura dentro do corpo, com partes irracional e racional.
- Quando a morte ocorre, os átomos da alma são separados e dissipados “como fumaça” no ar.
- A alma que animou o indivíduo não existe mais; embora os átomos sejam indestrutíveis, o homem original é aniquilado.
- A morte não diz respeito ao indivíduo, pois onde a morte está, ele não está mais presente.
- Os princípios epicuristas insistem que a morte nada é para nós.
- A sabedoria de Epicuro serve a esta vida finita, pondo fim ao medo da morte e ao anseio por vida incessante.
- Se alguém perceber que deixará de ser no momento da morte, não será oprimido pelo terror ou pelos monstros fabulosos do mundo espiritual.
- O sábio ideal da fé epicurista viverá como o verdadeiro artista de sua própria vida, sem desperdiçar tempo em preparações vãs para o futuro.
- Uma vida longa, mesmo sem fim, não o tornaria mais feliz, pois tudo o que a vida tem a oferecer já ofereceu.
- O sábio não tem razão para buscar uma eternidade de vida, possuindo todas as condições para a felicidade em sua própria personalidade presente.
- Não existe uma comunidade essencial dos seres humanos na natureza, apenas indivíduos.
- O Estado e a sociedade existem para a proteção do indivíduo, não o contrário, e o sábio é o centro do mundo ao seu redor.
- A civilização, tendo atingido o mais alto grau de desenvolvimento, é tomada por uma lassidão e não se importa mais em estender sua existência além da vida terrena.
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