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PSYCHE

ROHDE, Erwin. Psyche: the cult of souls and belief in immortality among the Greeks. London: K. Paul, Trench, Trubner, 1925.

Prefácio à Primeira Edição

  • A obra apresenta um exame das concepções gregas sobre a vida da alma humana após a morte, constituindo uma contribuição à história da religião grega, cujo caráter singular impõe dificuldades particulares a qualquer investigação.
    • A religião grega surgiu como um crescimento natural, não como uma fundação deliberada, e jamais recebeu formulação abstrata de suas ideias e sentimentos fundamentais.
    • Expressou-se exclusivamente por meio de práticas rituais, sem livros sagrados que permitissem determinar o significado interior e a interconexão das ideias com que os gregos se aproximavam dos deuses criados por sua fé.
    • A essência central da religião grega preservou seu caráter original em grau notável — talvez precisamente por carecer de formulação conceitual — e as especulações e fantasias dos poetas gregos continuamente remetem a esse núcleo central.
    • Poetas e filósofos, nos escritos que chegaram até nós, constituem as únicas autoridades para o pensamento religioso dos gregos; nesta investigação, foram guias necessários para a maior parte do percurso.
    • As concepções religiosas de poetas e filósofos representam um lado importante da religião grega, mas revelam também a posição independente e autodeterminada que o indivíduo mantinha em relação à religião ancestral.
    • O crente individual poderia sempre, se seu temperamento o permitisse, entregar-se às emoções simples e não sofisticadas que haviam moldado a fé popular e as práticas rituais da eusébeia popular — termo grego para piedade ou devoção religiosa.
    • Sem o testemunho de filósofos, poetas e alguns oradores áticos, pouco se saberia das ideias religiosas que preenchiam o espírito do grego crente, pois é nesses autores que a emoção muda e inarticulada encontra expressão.
  • Deduzir das ideias religiosas expressas na literatura grega uma Teologia completa do povo grego conduziria a conclusões notáveis e equivocadas, pois onde faltam afirmações e alusões literárias diretas, restam apenas suposições diante da religião grega e de suas forças orientadoras mais íntimas.
    • Há abundância de estudiosos de temperamento otimista e fantasia industriosa que produzem sem dificuldade as mais admiráveis soluções para o problema.
    • Outros, em graus variados de boa-fé, empregam as emoções da piedade cristã para explicar a fé antiga nos deuses — o que faz injustiça a ambas as formas de religião e torna impossível a compreensão dos essenciais da crença grega em sua realidade verdadeira e independente.
    • Os Mistérios Eleusinos constituem um bom exemplo disso, bem como o tema controverso da fusão entre o culto dos deuses e a crença nas almas — tema que recebeu mais atenção do que lhe era devida.
    • Nenhuma tentativa de usar as ideias e tendências mutáveis da civilização moderna para explicar as forças motoras subjacentes dessas práticas cultuais mostrou-se tão repetida e visivelmente infrutífera.
    • Diante disso, renunciou-se a qualquer tentativa de lançar uma luz vacilante e ambígua sobre a venerável obscuridade do tema mediante imaginações privadas.
    • Em tantos domínios da eusébeia antiga há algo maior e mais fino que escapa à compreensão — a palavra reveladora, nunca tendo sido escrita, se perdeu.
    • Em vez de buscar substituto em expressões modernas, preferiu-se descrever, da maneira mais simples e literal, os fenômenos reais da piedade grega tal como são conhecidos.
    • O objetivo da obra é tornar claros os fatos do Culto das Almas grego e da crença na imortalidade — cujos mecanismos internos são apenas parcialmente inteligíveis aos esforços mais simpáticos de compreensão.
    • Buscou-se ainda apresentar com maior clareza a origem e o desenvolvimento dessas práticas e crenças; distinguir as transformações pelas quais passaram e sua relação com outras tendências intelectuais afins; e desembaraçar as muitas linhas diferentes de pensamento e especulação da confusão inextricável em que se encontram em muitas mentes e em muitos livros.
  • A diversidade de métodos adotados ao longo da obra — ora um resumo esquemático dos pontos essenciais, ora o desenvolvimento de certos temas até suas ramificações mais distantes — justifica-se pela natureza do próprio objeto e é evidente para os que conhecem o assunto.
    • Para o exame mais cuidadoso da massa transbordante de detalhes, recorreu-se ao Apêndice, o que possibilitou um grau maior, ainda que relativo, de completude.
    • Isso foi viabilizado pelo longo período decorrido entre a publicação das duas partes da obra: a primeira metade, até o final do capítulo sétimo, apareceu na primavera de 1890; circunstâncias desfavoráveis retardaram a conclusão do restante.
    • As duas partes correspondem aos dois lados da questão indicada no título — Culto das Almas e Crença na Imortalidade — e, embora possam convergir em alguns pontos, têm origem distinta e percorrem caminhos separados na maior parte do trajeto.
    • A concepção de imortalidade surge especificamente de uma intuição espiritual que revela as almas dos homens como estando em relação estreita, e mesmo como sendo da mesma substância, com os deuses eternos.
    • Simultaneamente, os deuses passam a ser concebidos como semelhantes à alma humana — isto é, como espíritos livres que não necessitam de corpo material ou visível.
    • Sextus Empiricus, em Adversus Mathematicos III, 20 e seguintes, cita uma afirmação notável de Aristóteles segundo a qual é a visão espiritualizada dos deuses — e não a crença nos deuses em si — que surge da visão que a alma alcança de sua própria natureza divina quando aliviada do corpo, nos estados de entusiasmo e de profecia.
    • Essa concepção conduz para bem longe das ideias nas quais o Culto das Almas estava fundado.
  • A publicação da obra em duas partes acarretou uma circunstância lamentável: os dezesseis excursos prometidos no primeiro volume tiveram de ser suprimidos, pois a obra já havia crescido além do esperado e quase ultrapassado a medida que basta.
    • Os excursos que possuírem interesse independente encontrarão lugar em outra publicação.
    • Tratam-se de excursos genuínos e concebidos como tais, e a compreensão adequada da obra não será afetada por sua ausência.
    • Erwin Rohde — Heidelberg, 1 de novembro de 1893.
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