MITOLOGIA
Considerada por muitos como fruto dos primórdios do pensar humano, ainda pleno de ingenuidade e imaginação, a Mitologia, enquanto discurso dos mitos, não deve ser resumida a esta visão do homem moderno pretensamente evoluído lançando seu olhar “superior” para uma passado que desconhece em grande parte a história, quanto mais o “pensar” daqueles que viveram nestas priscas eras. Seja como migalhas de uma “era dourada”, ou, na pior hipótese, como “superstição” de um passado primitivo, a mitologia ainda fascina justamente pelo poder de sua complexidade imagética capaz de tocar profundamente alguma faculdade nossa, ainda aberta para o poder das imagens e do manancial de sentidos que fustigam.
A seguir destacam-se alguns excertos significativos do imenso acervo mitológico da humanidade. É sempre bom recomendar a leitura de alguns autores notáveis neste domínio, especialmente em termos de criar um sedimento intelectual capaz de verdadeiramente usufruir da leitura dos mitos e lendas da humanidade: Mircea Eliade, Jean-Pierre Vernant, Georges Dumézil, Marcel Detienne, entre outros.
Ramon Arola: LA MITOLOGÍA COMO FILOSOFÍA SECRETA
O tratado de mitologia que teve maior repercussão durante o Século de Ouro espanhol, e sem dúvida o mais importante, é La Filosofía Secreta, escrito pelo bacharel Juan Pérez de Moya, astrólogo e matemático, publicado em Madri em agosto de 1584, que segue de perto a obra de Natali Conti, Mitologia. Seu título, La Filosofía Secreta, indica claramente a intenção do autor, que propõe cinco sentidos para compreender as fábulas antigas, que vão desde o mais externo e superficial, ou seja, a história, até o sentido central, a filosofia secreta; Pérez de Moya explica da seguinte maneira:
“De cinco maneiras se pode declarar uma fábula, a saber: Literal, Alegórica, Anagógica, Tropológica e Física ou natural. O sentido literal, que por outro nome se diz Histórico ou Parabólico, é o mesmo que soa a letra da tal fábula ou escritura. O sentido alegórico é uma compreensão diferente do que a fábula ou escrita literalmente diz. Deriva de alseon, que significa diferente, porque ao dizer uma coisa, entende-se outra coisa diferente. Anagógico deriva de anagoe, e anagoe deriva de ana, que significa para cima, e goge, guia, que significa guiar para cima, para as coisas elevadas de Deus. Tropológico vem de tropos, que é reversão ou conversão, e logos, que é palavra, razão ou oração; como quem diz, palavra ou oração convertível para informar a alma sobre bons costumes. Físico ou natural é o sentido que declara alguma obra da natureza. Exemplo: Hércules, filho de Júpiter (segundo a ficção poética), concluídos seus trabalhos, foi colocado no Céu. Tomando isso no sentido literal, não se entende outra coisa além do que a letra diz. E, segundo a alegoria ou moralidade, por Hércules entende-se a vitória sobre os vícios. E, segundo o sentido anagógico, significa a elevação da alma que despreza as coisas mundanas em favor das celestiais. E, segundo o sentido tropológico, por Hércules entende-se um homem forte, habituado à virtude e aos bons costumes. E, segundo o sentido físico ou natural, por Hércules entende-se o Sol, e por seus doze trabalhos ou feitos, os doze signos do Zodíaco, superados por ele ao passar por eles em um ano.” (Utilizamos a edição da Filosofía secreta da Ed. Glosa, Barcelona, 1977)
Pérez de Moya, em sua explicação, segue de perto o judeu espanhol exilado na Itália, León Hebreo, que, reunindo a tradição clássica e a tradição cabalística, propõe em seus Diálogos de Amor quatro interpretações possíveis da mitologia: a primeira, literal, como uma casca exterior, que conta histórias dignas de serem lembradas; a segunda, mais interna, mais próxima da medula, a moral, exemplo para a vida humana, que elogia as boas ações e condena as más; a terceira, mais escondida, oculta sob as próprias palavras, que nos dá a conhecer as coisas da terra e do céu, astrológicas ou teológicas; finalmente, como no próprio coração da fruta, sob tanta casca, restam outros significados científicos, sentidos medulares que chamamos alegorias. (Diálogos de amor, Promoción publicaciones universitarias, Barcelona, 1986)
